Como Interpretar a Bíblia – Texto e Contexto Bíblicos

A Bíblia é um livro repleto de histórias, ensinamentos e profecias. Ela tem moldado a vida de milhões de pessoas ao longo dos séculos.

Mas, para extrair todo o seu potencial e significado, precisamos ir além de uma leitura superficial.

Estudar o texto bíblico a fundo, considerando seu contexto histórico, cultural, teológico, religioso e literário, é fundamental para uma compreensão precisa e relevante dos seus ensinamentos.

Nas ciências teológicas, chamamos a arte de interpretar de hermenêutica. Já o trabalho prático de extrair o significado original do texto, chamamos de exegese.

Mas, afinal, por que fazer essa exegese e estudar o contexto é tão importante?

Existe uma máxima muito conhecida entre os estudiosos da Bíblia que diz: “Um texto fora do seu contexto é apenas um pretexto”. Ou seja, primeiramente, o contexto serve para evitarmos interpretações errôneas.

Ao desconsiderá-lo, podemos chegar a conclusões muito equivocadas sobre o significado de um versículo ou passagem.

As palavras e expressões usadas na Bíblia tinham sentidos bem específicos em sua época e cultura. E, muitas vezes, eles diferem dos nossos.

Além disso, compreender a intenção original — ou seja, o contexto — nos ajuda a entender a real intenção do autor bíblico ao escrever aquele determinado texto.

  • Qual era o público-alvo?
  • Qual era a situação histórica da época?
  • Quais eram os desafios enfrentados por aquelas pessoas?

As respostas para essas perguntas nos permitem compreender muito melhor o propósito da mensagem.

Quando compreendemos o contexto bíblico, podemos aplicar os ensinamentos de forma relevante. Afinal, a Bíblia Sagrada é um guia para vivermos uma vida plena e significativa, em qualquer época e cultura.

Tudo isso nos proporciona o desenvolvimento de uma fé mais profunda.

Ao compreendermos a riqueza e a complexidade das Escrituras, a nossa fé se torna mais robusta e resistente às dúvidas e aos desafios do dia a dia.

Neste sentido, é muito importante lembrar que todo texto bíblico está inserido em um contexto. E este contexto pode ser histórico, social, político, religioso, teológico e assim por diante.

Por trás de cada palavra escrita por um autor da Bíblia Sagrada, mesmo sendo um texto inspirado pelo próprio Deus, há um motivo para que tenha sido escrita. É exatamente nesse motivo que encontramos o contexto.

Para conduzirmos este estudo de forma prática, organizei este artigo em quatro partes.

Na Parte 1, vamos aprofundar os conceitos de texto bíblico e contexto bíblico. Mostrarei, por meio de exemplos práticos, como um texto se ilumina quando o compreendemos em seu contexto.

Na Parte 2, apresentaremos os principais tipos de contextos bíblicos — histórico, literário, teológico, cultural, político e religioso. Eles servem como ferramentas indispensáveis para o leitor das Escrituras.

Em seguida, faremos dois estudos de caso. Na Parte 3, vamos analisar o contexto histórico do Livro de Neemias (Antigo Testamento).

Já na Parte 4, mergulharemos no contexto de João 7.37-39 (Novo Testamento), aquele momento lindo onde Jesus declarou: “Se alguém tem sede, que venha a mim e beba.”

Parte 1 — O Texto e o Contexto

O texto bíblico está sempre dentro de um contexto

Um fato determinante é que todo texto bíblico está inserido em um contexto. Mesmo os textos poéticos, proféticos e as parábolas estão inseridos em um cenário específico.

Enfim, o texto bíblico não está simplesmente solto no tempo e no espaço. Cada palavra tem uma razão de estar ali naquele texto.

E mesmo que sejam palavras do próprio Deus ditas a um profeta, existe uma intenção divina para que estas palavras sejam ditas.

Então, temos dois elementos muito importantes: o texto bíblico e o contexto bíblico no qual este texto está inserido.

O texto bíblico é qualquer passagem escrita encontrada na Bíblia. São as narrativas, poemas, cartas, leis, profecias e outros tipos de textos que, juntos, compõem os maravilhosos livros da Bíblia Sagrada.

Já o contexto bíblico é o cenário histórico, cultural, social e literário em que aquele determinado texto bíblico foi escrito.

É como um grande quebra-cabeça, no qual cada peça (o contexto) se encaixa perfeitamente para formar a imagem completa (o significado do texto).

Outro fato importante é que, muitas vezes, o contexto bíblico não está tão nítido no texto. Por isso, precisamos recorrer a algumas ferramentas de apoio.

Dicionários bíblicos (como o Dicionário Bíblico Wycliffe), comentários bíblicos (como o Novo Comentário Bíblico Vida Nova) e Bíblias de estudo (como a Bíblia de Estudo de Genebra, NVI ou NAA) são obras fundamentais para nos fornecer esse cenário.

Outra prática muito útil é a comparação de diferentes traduções da Bíblia.

Ao longo deste artigo, utilizaremos a Almeida Revista e Corrigida (ARC), que possui um estilo mais literal, e a Nova Versão Internacional (NVI), que foca na clareza do sentido.

Comparar versões já é, por si só, um excelente primeiro passo para clarear o nosso contexto.

O estudo cronológico dos fatos do Antigo e do Novo Testamento também fornece muito do contexto bíblico. A história e a cultura dos povos destes dois grupos de escritos nos ajudam muito!

Ou seja, conhecer os hebreus, egípcios, persas, babilônicos, filisteus, assírios, sírios, moabitas, amonitas, gregos, romanos e outros povos, bem como seus reis e suas divindades, nos auxilia demais no entendimento do contexto bíblico.

A seguir, vamos examinar seis exemplos concretos — três do Antigo Testamento e três do Novo Testamento. O objetivo é mostrar como o contexto realmente ilumina o texto.

Exemplo 1 — Salmo 126: O Regresso do Cativeiro

Por exemplo, o Salmo 126 nos diz:

“¹ Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham.

² Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de cânticos; então, se dizia entre as nações: Grandes coisas fez o Senhor a estes.

³Grandes coisas fez o Senhor por nós, e, por isso, estamos alegres”
Sl 126.1-3 ARC

Este maravilhoso Salmo tem como seu contexto o momento exato em que os judeus regressavam para suas terras em Judá, o Reino do Sul. Isso ocorreu após setenta anos de cativeiro, que foi iniciado pelos babilônicos e encerrado pelos persas.

Então, ao lermos este salmo, precisamos compreender que a sua letra poética é, na verdade, um grande louvor por Deus ter trazido o seu povo novamente para a terra prometida.

Assim, temos o texto do Salmo 126 totalmente inserido em um contexto histórico.

Neste contexto, há um evento histórico que levou o autor a compor este salmo. Como o contexto histórico nem sempre está nítido no texto, precisamos recorrer a dicionários bíblicos, comentários e Bíblias de estudo.

Exemplo 2 — Salmo 3: A Fuga de Davi de Absalão

Um segundo texto bíblico que precisa ser estudado em seu contexto é o Salmo 3, que nos diz o seguinte:

“¹ Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários! São muitos os que se levantam contra mim.

² Muitos dizem da minha alma: Não há salvação para ele em Deus”
Sl 3.1,2 ARC

Neste Salmo, o rei Davi clama desesperadamente ao Senhor para que o livre de seus inimigos. No entanto, estes inimigos não são externos. Eles vêm de dentro da sua própria casa!

O texto deste Salmo torna-se muito mais claro quando consideramos o seu contexto.

O contexto desse Salmo é a fuga de Davi de seu próprio filho Absalão. O Segundo Livro de Samuel relata em detalhes a rebelião de Absalão. Ele se antecipava ao rei Davi e dizia às pessoas que queriam uma audiência com o rei:

“Ah! Quem me dera ser juiz na terra! Para que viesse a mim todo o homem que tivesse demanda ou questão, para que lhe fizesse justiça”
2Sm 15.4 ARC

Estas atitudes levaram Absalão a se rebelar contra o seu próprio pai. O nível da rebelião foi tanto que muitos homens de Jerusalém o seguiram numa revolta contra Davi (2Sm 15.11).

O rei Davi, então, sai em fuga com toda a sua casa devido às ameaças de Absalão (2Sm 15.15). E é exatamente nesta fuga, que acaba resultando numa batalha, que o texto do Salmo 3 é escrito.

Exemplo 3 — Salmo 51: Davi confrontado pelo profeta Natã

Um terceiro texto bíblico também está no livro dos Salmos — o Salmo 51. Ele nos diz:

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito reto”
Sl 51.10 ARC

Neste Salmo, o rei Davi pede para que Deus crie em seu interior “um coração puro” e renove dentro dele um “espírito reto”.

Mas você já parou para pensar em qual momento da vida de Davi o seu coração se tornou impuro e seu espírito adormeceu?

Foi quando ele se envolveu com Bate-Seba. Ela era mulher de Urias, um de seus guerreiros e general de seu exército.

O contexto deste Salmo, que é um tanto conhecido por nós, é o momento em que Davi é confrontado pelo profeta Natã (2Sm 12.1-15). Ele, então, confessa o seu pecado (Sl 51.3,4) e pede a Deus que restaure a comunhão com ele (Sl 51.11).

Exemplo 4 — Lucas 15: as parábolas das coisas perdidas

Outro exemplo maravilhoso a ser observado é o texto do capítulo 15 do Evangelho de Lucas.

Neste texto, relatado somente por Lucas, encontramos uma grande parábola das coisas perdidas e reencontradas — ou melhor, um texto que contém três parábolas sobre o mesmo tema:

Parábola Referência O que foi perdido
A ovelha perdida Lc 15.4-7 Uma ovelha dentre cem
A moeda perdida Lc 15.8-10 Uma dracma dentre dez
O filho perdido (pródigo) Lc 15.11-32 Um filho dentre dois

O contexto deste texto está no próprio texto. Ou seja, não é necessário recorrer a dicionários e comentários bíblicos para compreendê-lo. O motivo que levou Jesus a pronunciar estas parábolas está logo ali:

“¹ E chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvir.

² E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores e come com ele.

³ E ele lhe propôs esta parábola dizendo:”
Lc 15.1-3 ARC

Aqui está a razão! Foi a murmuração dos membros da classe religiosa dos judeus (os fariseus e escribas) pelo simples fato de Jesus estar recebendo pecadores e se alimentando com eles.

Isto é, Jesus, ao ouvir essa murmuração de fariseus e escribas, inicia as parábolas que falam exatamente sobre coisas que foram perdidas. Neste caso, os pecadores que ele mesmo recebia e com os quais se alimentava.

No final da parábola do filho pródigo, o filho mais velho se revolta contra a atitude do pai por ter recebido o filho mais novo.

Isso demonstra claramente o sentimento da classe religiosa de Israel daquela época, ao afirmar:

“Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento”
Lc 15.29 ARC

Exemplo 5 — Gálatas: A Indignação de Paulo

Para finalizar este estudo sobre texto e contexto no âmbito do Antigo e Novo Testamentos, vejamos mais um exemplo encontrado na Epístola de Paulo aos Gálatas.

Ao estudarmos esta rica epístola paulina, precisamos ter em mente o motivo que levou Paulo a escrever aos irmãos daquela região. Tratando-se de epístolas, todas elas têm situações específicas a serem tratadas.

Mesmo que haja nelas uma saudação inicial e uma final, o propósito central de uma epístola é tratar de uma situação que estava acontecendo em determinada comunidade de crentes.

Na Epístola aos Gálatas, logo no início da carta, encontramos o apóstolo Paulo manifestando a sua grande indignação com os crentes gálatas.

Uma pergunta precisa ser feita: por que o apóstolo Paulo estava tão indignado a ponto de chamar os gálatas de inconstantes?

A resposta para essa pergunta é exatamente o contexto da epístola. Isto é, o motivo principal que o levou a escrever.

O contexto deste escrito é que os crentes gálatas — em sua maioria gentios convertidos ao Evangelho — estavam sendo fortemente influenciados pelos judeus convertidos.

Eles estavam sendo pressionados a adotar em sua maneira de viver e nos cultos elementos do Antigo Testamento, que já haviam se cumprido em Jesus Cristo através de sua morte na cruz.

Ou seja, para esses crentes judeus, a obra de Cristo parecia não ter sido suficiente. Para eles, os gálatas deveriam manter certos ritos do culto judaico e práticas de acordo com as leis e tradições.

Ao saber de tudo isso, o apóstolo Paulo, logo após a sua saudação, já começa a apresentar o problema:

“⁶ Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que vos chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho

⁷ que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo.

⁸ Mas ainda que nós ou um anjo dos céus preguem um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!

⁹ Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam, que seja amaldiçoado”
Gl 1.6-9 NVI

Neste caso, o contexto não está tão nítido na epístola. Ela apenas nos informa que pessoas dentre os crentes gálatas queriam perverter o Evangelho do Senhor Jesus.

Por isso, diante dessa situação, o uso de um dicionário bíblico, de um comentário ou de uma Bíblia de estudo auxilia muito na compreensão de toda a profundidade desta epístola.

Exemplo 6 — Filemom: Um Escravo Fugitivo Convertido

Finalmente, o nosso sexto texto é a Epístola de Paulo a Filemom. Este pequeno escrito do apóstolo, classificado como uma epístola pessoal, tem um motivo por trás de cada palavra.

E mesmo que haja nela um princípio espiritual que aponta de forma linda para a obra intercessória e reconciliadora de Cristo, quando entendemos o seu contexto, o entendimento dessa obra se torna ainda mais profundo.

Paulo escreve estes 25 versículos ao saber que o seu companheiro de ministério, Onésimo — que havia crido em Jesus durante um aprisionamento de Paulo (Fm 10) —, era, na verdade, um escravo fugitivo.

Ele havia fugido de outra pessoa que Paulo também havia evangelizado (Fm 19), o seu amigo Filemom. Então, Paulo escreve esta pequena carta (Fm 19) e a envia juntamente com Onésimo de volta para Filemom.

Assim, o contexto desta epístola envolve um escravo fugitivo que se converteu a Cristo. Ele estava sendo muito útil como obreiro junto a Paulo, mas precisava acertar aquela dívida com o seu senhor.

Paulo respeita a posse de Filemom sobre Onésimo, afinal, ele era um escravo na cultura da época.

Contudo, Paulo pede na carta que Filemom o receba não mais como escravo, mas sim como um “irmão amado” (Fm 16), e que o trate como se fosse o próprio Paulo (Fm 12).

Para sintetizar a importância da relação entre texto e contexto que abordamos até aqui, podemos resumir os seis exemplos nesta tabela:

Exemplo Texto Bíblico Contexto Histórico/Situacional Resumido
1 Salmo 126 O regresso festivo dos judeus do cativeiro babilônico/persa para Sião.
2 Salmo 3 A fuga do rei Davi de Jerusalém devido à rebelião armada de seu filho Absalão.
3 Salmo 51 O arrependimento profundo de Davi após ser confrontado pelo profeta Natã.
4 Lucas 15 A murmuração dos fariseus por Jesus receber e alimentar-se com pecadores.
5 Gálatas Cristãos gentios sendo pressionados por judaizantes a adotarem ritos da Lei de Moisés.
6 Filemom O apelo de Paulo a Filemom para receber o escravo fugitivo Onésimo como um irmão.

Estes seis exemplos mostram que, mesmo com o texto bíblico intocado, é o conhecimento do contexto que realmente revela o significado original e a aplicação relevante para as nossas vidas.

Vejamos agora, de forma sistemática, quais são os principais tipos de contexto que nós devemos pesquisar.

Parte 2 — Os Tipos de Contextos Bíblicos

Dentro do universo do estudo bíblico, existem diversos tipos de contextos que devemos analisar. A partir de um único texto, nós podemos identificar vários contextos relacionados.

Quanto mais nós conhecemos esses contextos, mais nos aprofundamos no verdadeiro significado da Palavra de Deus. E este é o grande objetivo: encontrar o real significado de um texto bíblico.

Contexto Histórico

O primeiro tipo que vamos explorar é o contexto histórico. O contexto histórico de um texto bíblico funciona como um mapa que nos guia através do tempo. Ele revela as circunstâncias exatas em que as palavras foram escritas.

Ao compreender esse contexto histórico, podemos conhecer o significado original das Escrituras. E, com isso, aplicar os seus ensinamentos de forma muito mais relevante à nossa vida.

Em termos gerais, o contexto histórico envolve a época em que o livro foi escrito, os eventos que o influenciararam e as condições sociais e políticas daquele período.

Um exemplo muito bom de contexto histórico é entender que o ministério dos profetas do Antigo Testamento aconteceu durante o período do reino dividido, durante os dolorosos cativeiros e, posteriormente, durante o regresso dos judeus à terra.

Saber como os povos bíblicos se vestiam, comiam, se casavam e lidavam com o estrangeiro, com a viúva e com o órfão, ilumina expressões que muitas vezes soam estranhas para nós hoje.

O contexto cultural, por sua vez, caminha de mãos dadas com o contexto histórico, afinal, cultura e história estão sempre entrelaçadas na vida daqueles povos.

Contexto Literário

Um segundo contexto muito importante é o contexto literário. A Bíblia é repleta de estilos literários maravilhosos!

Nela encontramos poesias, narrativas, novelas, epístolas, profecias, parábolas, mandamentos, textos apocalípticos e muito mais.

Assim, quando estudamos um texto bíblico, é essencial sabermos com qual gênero literário estamos lidando.

Se é uma epístola, então temos ali uma carta de alguém destinada a uma pessoa ou grupo, com o objetivo de tratar de um assunto específico.

Se é uma poesia (como um salmo), então temos uma música de louvor, um lamento ou uma súplica, entoada em meio a uma situação vivida por alguém.

O contexto literário abrange também toda a estrutura do texto e as convenções literárias daquela época.

Contexto Teológico

Um outro contexto que não podemos esquecer é o contexto teológico. Ele diz respeito à intenção do autor ao escrever aquele determinado texto — os seus objetivos e a mensagem central que ele busca nos transmitir.

Por exemplo, o Evangelho de Mateus e o Evangelho de Lucas procuram apresentar a pessoa de Jesus Cristo sob perspectivas teológicas diferentes.

Se tomarmos as narrativas da genealogia de Jesus, Mateus a inicia com a “genealogia de Jesus, filho de Davi” (Mt 1.1 NVI).

Ele faz isso porque tenta apresentar Jesus aos judeus como sendo um descendente direto de Davi, ou seja, o Messias esperado.

Por outro lado, Lucas constrói a narrativa da genealogia de Jesus apresentando-o desde “filho de José” (Lc 3.23 NVI) até chegar a “filho de Adão, filho de Deus” (Lc 3.38 NVI).

Ele busca apresentar Jesus como um membro de toda a humanidade, o homem perfeito e, logo, descendente de Adão.

Por esse motivo, é tão comum encontrarmos no Evangelho de Lucas a expressão “filho do homem” (Lc 5.24; 6.5; 6.22; 7.34 etc.) sendo utilizada pelo próprio Jesus.

Contexto Político

O contexto político é mais um contexto que não deve ser deixado de lado nas nossas pesquisas. Conhecer a maneira como a forma de governar era organizada naqueles tempos é determinante para entendermos diversas passagens.

Por exemplo, compreender a dinastia dos Herodes e as áreas específicas de Israel que eles governavam esclarece demais o texto bíblico.

Ou ainda, conhecer a forma como o poderoso império romano exercia a sua autoridade. Eles usavam procuradores, como o famoso Pôncio Pilatos, e cobravam altos impostos por meio dos publicanos.

Todo este mundo político é um universo fascinante à parte. Ele precisa ser conhecido por qualquer pessoa que se propõe a estudar textos do Novo Testamento.

Contexto Religioso

O último contexto que vou apresentar hoje é o contexto religioso. Neste contexto, nós procuramos conhecer como era exercida a religião dos hebreus e dos demais povos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

No caso específico dos judeus do Novo Testamento, o contexto religioso nos apresenta os partidos dos fariseus e saduceus. Além disso, temos escribas, mestres, sacerdotes, sumos sacerdotes, o templo, as sinagogas, os ritos e as tradições religiosas.

Muitas das sábias palavras de Jesus foram, na verdade, respostas diretas aos questionamentos dessa rígida classe religiosa.

Até mesmo as epístolas de Paulo foram muitas vezes escritas como defesa dos gentios convertidos diante do assédio dos judaizantes.

É claro que podemos apresentar outros contextos, como o contexto social ou o religioso das primeiras comunidades cristãs. Cada novo contexto que nós adicionamos ao nosso estudo nos aproxima ainda mais do real significado do texto.

A tabela a seguir resume os tipos de contextos que vimos e o seu foco de estudo:

Tipo de Contexto Descrição Principal Exemplo de Foco de Estudo
Histórico A época, eventos e condições políticas de quando o texto foi escrito. Impérios (Babilônia, Roma), cativeiros, guerras e sucessões reais.
Cultural Costumes, crenças e o estilo de vida dos povos bíblicos. Vestimentas, culinária, casamentos, luto, hospitalidade.
Literário Gênero da literatura, estrutura e estilo de escrita. Poesias, narrativas, epístolas, parábolas, textos apocalípticos.
Teológico Intenção do autor, objetivos e a mensagem central que ele transmite. A forma como Mateus e Lucas apresentam suas genealogias de Jesus.
Político A organização e a forma de governar das nações na época. Dinastia de Herodes, procuradores romanos e cobrança de impostos.
Religioso A prática da religião e as diferentes classes e seitas religiosas. Fariseus, saduceus, sacerdotes, rituais no templo e nas sinagogas.

Com este excelente ferramental em mãos, vejamos como ele se aplica a dois casos bem concretos — um do Antigo Testamento e outro do Novo Testamento.

Parte 3 — Estudo de Caso (Antigo Testamento): O Contexto Histórico de Neemias

O Antigo Testamento nos apresenta um conjunto maravilhoso de livros que conhecemos como Livros Históricos. Essa categoria engloba os livros de Josué, Juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Neemias e Ester.

Cronologicamente, esses livros narram um longo período da história hebraica. Eles vão desde a entrada em Canaã, liderada por Josué, até a grandiosa reconstrução das muralhas de Jerusalém por Neemias.

Durante todo esse longo período, nós assistimos à sucessão de juízes, à instauração da monarquia, à divisão do reino e aos exílios. Vemos também o retorno emocionante dos judeus à sua terra natal e a reconstrução do Templo.

É importante destacar que esses livros focam em eventos políticos e sociais. No entanto, as histórias e profecias dos profetas maiores e menores estão profundamente entrelaçadas a esses relatos.

Eles oferecem uma perspectiva teológica e espiritual incrível dos acontecimentos. O contexto do Livro de Neemias merece nossa atenção especial. Ele narra a árdua tarefa de reconstruir as muralhas de Jerusalém, que estavam destruídas.

A história de Neemias e do povo judeu enfrentando desafios para restaurar sua cidade é um testemunho vivo de fé, perseverança e esperança!

Desta maneira, entender o contexto histórico em que Neemias vivia é fundamental para compreendermos este rico escrito do Antigo Testamento.

O Contexto Histórico do Livro

Logo no início, o Livro de Neemias nos informa:

“As palavras de Neemias, filho de Hacalias. E sucedeu no mês de quisleu, no ano vigésimo, estando eu em Susã, a fortaleza”
Ne 1.1 ARC

Outro versículo super relevante é o primeiro do capítulo 2:

“Sucedeu, pois, no ano vigésimo do rei Artaxerxes, no mês de nisã, que estava posto vinho diante dele, e eu tomei vinho e o dei. Porém nunca, antes, estivera triste diante dele”
Ne 2.1 ARC

Nestes dois versículos nós já encontramos duas informações cruciais para trabalharmos historicamente o contexto de Neemias.

A primeira nos indica que ele estava em Susã. A segunda, que ele estava diante do rei Artaxerxes.

Mas, afinal, onde ficava Susã? E quem era esse rei Artaxerxes? Responder a essas duas perguntas é a chave para compreendermos o cenário histórico desse livro.

Elemento Descrição no Império Persa
Susã Cidade real e fortaleza.
Artaxerxes Imperador persa (filho de Xerxes).
Neemias Judeu cativo servindo diretamente ao rei.

Susã era simplesmente a cidade real do Império Persa, na qual ficava a grande residência do imperador. E Artaxerxes era o terceiro filho de Xerxes, que assumiu o lugar de seu pai no Império.

Assim, Neemias era o homem de confiança que experimentava as comidas que o rei iria comer, evitando a possibilidade de um envenenamento.

Agora, é muito importante construirmos uma linha do tempo para conhecer o contexto em que a vida de Neemias se desenrolou.

A Linha do Tempo: Divisão, Cativeiros e Regresso

Neste sentido, é determinante compreender a história de Israel até o tempo de Neemias. O reino de Israel sofreu uma profunda divisão e se tornou dois reinos independentes.

Dez tribos formaram o Reino do Norte (Israel) e as outras duas tribos, Judá e Benjamim, formaram o Reino do Sul (Judá).

Mais tarde, cada um desses reinos sofreu uma triste invasão estrangeira que os levou ao cativeiro. O Reino do Norte foi levado cativo pelos assírios, o que culminou com o fim daquele reino.

Por outro lado, o Reino do Sul (Judá) foi invadido pelos babilônicos, iniciando um doloroso período de 70 anos de cativeiro.

Foi nesta invasão babilônica que as muralhas e o templo em Jerusalém foram completamente destruídos. Homens de Deus como Daniel, seus três amigos, Jeremias e Ezequiel foram levados cativos.

Mais tarde, os babilônicos foram conquistados pelos persas. Com isso, parte do povo de Judá foi levada cativa para a Pérsia. E é exatamente neste momento que entra a bela história de Neemias!

Ele estava cativo na grande fortaleza em Susã, servindo diretamente ao imperador Artaxerxes.

Regressos durante o reinado de Artaxerxes I (465-424 a.C.) Ano (a.C.)
Primeiro regresso (sob a liderança de Esdras) 458
Segundo regresso (sob a liderança de Neemias) 445
Terceiro regresso (também sob Neemias) 430

Sob a autoridade de Artaxerxes, Neemias é finalmente enviado a Jerusalém para reconstruir as muralhas da cidade. E este é o nosso contexto histórico do Livro de Neemias!

O restante do livro gira em torno das muitas dificuldades enfrentadas por ele na reconstrução das muralhas. Foram inúmeras ameaças, conflitos e grandes obstáculos para impedir que a obra fosse concluída.

A história de Neemias está inserida em um contexto histórico mais amplo, marcado por conflitos, exílios e reconstruções.

Ao compreender esse cenário, podemos apreciar muito melhor a riqueza da narrativa bíblica. Reconhecemos também a importância de preservarmos a memória de um povo que confia no Senhor.

Deslocando-nos agora para o Novo Testamento, vamos examinar um caso muito emblemático nos Evangelhos. Veremos como uma única declaração de Jesus ganha uma profundidade incomparável quando lida em seu contexto religioso.

Parte 4 — Estudo de Caso (Novo Testamento): O Contexto de João 7.37-39

Um texto bíblico fará muito mais sentido quando você entender o seu contexto. Ou seja, quando nós entendemos a razão pela qual o texto bíblico foi escrito, as suas palavras se tornam muito mais vivas e compreensíveis.

Quando entendemos o ambiente ao redor deste texto (os aspectos históricos, religiosos, sociais, políticos e teológicos), passamos a entender a razão daquele texto estar exatamente como está.

Nós não tocamos no texto original, deixamos ele lá. No entanto, buscamos no seu contexto o motivo que originou a sua escrita.

De forma prática, tomemos o lindo texto do Evangelho de João que nos diz:

37 E, no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou dizendo: Se alguém tem sede, que venha a mim e beba.

38 Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de águas vivas correrão do seu ventre.

39 E isto disse ele do Espírito, que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado
Jo 7.37-39 ARC

Se nós mergulharmos de cabeça no contexto deste maravilhoso texto, suas palavras farão um sentido ainda mais amplo. E logo perceberemos a grandiosa profundidade das palavras de Jesus!

O Contexto de João 7.37-39

Primeiramente, devemos fazer uma pergunta ao texto: que festa é essa onde Jesus estava? E que grande dia é este?

Logo no início do capítulo 7, nós já encontramos a festa onde Jesus estava:

“E estava próxima a festa dos judeus chamada de Festa dos Tabernáculos”
Jo 7.2 ARC

Assim, já temos no próprio texto o nosso contexto religioso de que Jesus estava na Festa dos Tabernáculos.

Agora, precisamos sair um pouquinho do texto e buscar mais informações sobre ela. O texto não nos fornece mais nada, além de que Jesus estava lá e que a festa tinha um “grande dia” (Jo 7.37 ARC).

Para isso, nós devemos consultar em dicionários e comentários bíblicos alguns verbetes como “Festa dos Tabernáculos”, “festas religiosas dos judeus”, etc.

A Festa dos Tabernáculos e “O Grande Dia”

Através das informações obtidas, descobrimos que a Festa dos Tabernáculos era uma das festas de peregrinação dos judeus. Ou seja, foi uma festa estabelecida por Deus durante os 40 anos no deserto, a caminho de Canaã.

Esta festa muito alegre era celebrada durante sete dias. Acontecia entre os dias 15 e 21 do mês de Tisri, o sétimo mês judeu (equivalente ao nosso outubro).

Descobrimos também que, nesse último dia da festa, que era chamado de “o grande dia” (Jo 7.37 ARC), os sacerdotes oravam pedindo chuva sobre as plantações.

Como um símbolo das chuvas que Deus ainda iria mandar, eles retiravam água do famoso tanque de Siloé e a derramavam sobre o altar e sobre o povo! Isso era como uma promessa de que receberiam as prometidas chuvas.

Aquelas pequenas gotas de água que caíam sobre o povo simbolizavam as futuras bênçãos que ainda haveriam de vir.

Para visualizarmos melhor os elementos desse cenário, montei este quadro a seguir:

Elemento da Festa O que representava ou como acontecia
A Festa dos Tabernáculos Uma festa de peregrinação que celebrava a proteção divina durante os 40 anos no deserto.
Duração e Época Sete dias, durante o mês de Tisri (equivalente a outubro no nosso calendário).
“O grande dia” O último dia festivo, marcado por clamores e orações a Deus pedindo chuvas para as colheitas.
O Rito das Águas Sacerdotes aspergiam sobre o altar e sobre o povo águas retiradas do tanque de Siloé.
As Gotas de Água Simbolizavam a esperança de chuvas físicas e a futura bênção da provisão divina.

É exatamente nesse ambiente que Jesus “pôs-se em pé e clamou: se alguém tem sede, que venha a mim e beba” (Jo 7.37 ARC).

Jesus estava declarando que Ele tinha algo muito melhor para oferecer do que receber algumas poucas gotinhas de água dos sacerdotes.

As palavras de Jesus “como diz a Escritura” (Jo 7.38 ARC) apontam para textos belíssimos de Isaías (Is 58.11), Zacarias (Zc 14.8), Salmos (Sl 78.16), Êxodo (Êx 17.1-7) e tantos outros que enfatizam as águas que vêm direto do Senhor.

A Profundidade do Ensino de Jesus

Além de tudo isso, as palavras de João nos apresentam a razão real pela qual Jesus falou:

“isto disse ele do Espírito, que haviam de receber”
Jo 7.39 ARC

Estas palavras revelam uma profundidade maravilhosa no ensino de Jesus!

Ao afirmar que ele “disse isto do Espírito”, o evangelista João nos direciona diretamente para a nossa experiência transformadora do Espírito Santo.

A promessa do Espírito Santo não se limita a simples e pequenas gotas de água. Ela se compara a poderosos “rios de água viva” fluindo de dentro de nós (Jo 7.38 ARC)!

Essa imagem vívida nos traz a ideia de uma renovação espiritual completa e abundante.

O Espírito Santo, ao habitar em nós, não apenas nos transforma por dentro, mas também nos capacita grandemente para uma vida de serviço e testemunho.

Essa experiência de sermos cheios do Espírito Santo é essencial para a nossa vida cristã. Ela nos conecta ainda mais a Deus e nos equipa para cumprirmos a Sua missão aqui no mundo.

Conclusão

Em resumo, compreender o contexto bíblico é fundamental para interpretarmos as Escrituras de maneira correta.

Ao fazermos isso com zelo, somos capazes de desvendar o significado original de Suas palavras e aplicar esses ensinamentos de forma muito relevante no nosso dia a dia.

O método é simples, ainda que exija a nossa paciência e dedicação: identificamos o texto, buscamos o contexto e, então, deixamos que o contexto ilumine o significado da Palavra.

Vimos ao longo destas quatro partes que esse método não é algo frio. Muito pelo contrário!

O Salmo 126 ganha todo o calor da alegria do regresso; o Salmo 3 nos mostra a dor crua de um pai traído; o Salmo 51 nos revela o peso do pecado e a doce esperança da restauração de Deus.

Lucas 15 mostra a indignação amorosa do nosso Jesus diante da religiosidade fria; e as epístolas revelam as situações bem concretas que arrancaram palavras tão firmes do apóstolo Paulo.

Vimos também como os diferentes tipos de contexto — histórico, cultural, literário, teológico, político e religioso — são instrumentos valiosos que se combinam para nos abençoar.

O Livro de Neemias se abre diante dos nossos olhos quando conhecemos Susã e Artaxerxes. João 7.37-39 ganha uma profundidade tremenda quando conhecemos a maravilhosa Festa dos Tabernáculos.

E é aqui que o estudo do contexto se transforma em vida abundante!

A promessa do Espírito Santo, anunciada por Jesus naquele “grande dia”, não se limita a gotinhas, mas a poderosos “rios de água viva”!

Essa renovação do Espírito nos transforma e nos capacita para servirmos e glorificarmos a Deus no mundo.

Um Desafio Prático

Antes de concluirmos, quero deixar aqui um pequeno desafio prático para você.

Escolha um versículo muito conhecido, como Filipenses 4.13 (“Tudo posso naquele que me fortalece”). Antes de aplicar o seu significado na sua vida hoje, leia todo o capítulo 4 com calma.

Depois, use uma Bíblia de Estudo ou um dicionário e tente descobrir: onde o apóstolo Paulo estava quando escreveu isso? Sobre o que ele estava falando nos versículos um pouco antes?

Você verá como o texto ganhará um contorno totalmente novo e ainda mais belo!

Portanto, que o nosso estudo não seja apenas algo acadêmico, mas que ele nos conduza a uma fé cada vez mais robusta, a uma aplicação relevante e, acima de tudo, a uma comunhão mais profunda com o nosso Senhor.

Aquele mesmo que clamou em pé: “Se alguém tem sede, que venha a mim e beba.”

Bibliografia Recomendada para Aprofundamento

Para você que deseja mergulhar ainda mais fundo na arte da interpretação bíblica e no estudo dos contextos, recomendo muito estas obras fundamentais:

  • FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e da hermenêutica. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2011.
  • ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994.
  • PFEIFFER, Charles F. et al. Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
  • WALTON, John H. O contexto histórico do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2011.

E você?

O que pensa sobre a importância de ler a Bíblia observando o seu contexto?

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Fique na Paz (e na Fé)!

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