O texto da Epístola de Paulo aos Efésios fala que Jesus deu à sua amada Igreja pessoas capacitadas por ele como “apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres” (Ef 4.11 ARC).
É importante lembrar que o apóstolo Paulo escreveu esta carta por volta de 60 a 62 d.C., enquanto estava preso em Roma. Naquele momento, seu grande objetivo era tratar da unidade do Corpo de Cristo.
A igreja em Éfeso estava inserida em uma cidade idólatra, profundamente marcada pelo paganismo e pelo sincretismo religioso.
Portanto, a Igreja precisava desesperadamente de maturidade e unidade. E os ministérios foram a exata provisão divina para isso.
E como todo dom espiritual tem um propósito, estes dons dados por Jesus também possuem o propósito de aperfeiçoar os santos para o exercício ministerial.
Tudo isso visa à edificação do corpo de Cristo, até que os crentes cheguem à unidade da fé, a um profundo conhecimento e à maturidade em Cristo.
Além disso, estas pessoas capacitadas sobrenaturalmente por Jesus auxiliam a Igreja contra as doutrinas contrárias à fé e contra o engano disseminado por homens fraudulentos.
Neste sentido, os dons de Jesus dados aos homens, segundo o texto de Paulo, são de extrema necessidade à Igreja de Cristo. No entanto, por toda a história cristã, sempre houve exageros e extremos quanto a estes chamados Cinco Ministérios.
Ou seja, há pessoas que se afirmam apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, enquanto outras negam a existência desses ministérios fora do contexto do Novo Testamento.
Estas últimas afirmam que tais ministérios eram exclusivos para os tempos apostólicos. Diante disso, surge a questão: estes cinco ministérios são para os dias atuais?
Os Cinco Ministérios
O texto base para os cinco ministérios é o capítulo 4 da Epístola de Paulo aos crentes de Éfeso. Lá, ele afirma:
“Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres”
Ef 4.11
Estes cinco ministérios (apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre) foram dados por Jesus como dons à sua Igreja.
Seu propósito é trazer aperfeiçoamento, maturidade, unidade e conhecimento, fazendo com que os crentes se tornem cada vez mais semelhantes a Jesus.
Além disso, estes ministérios trabalham para que a Igreja deixe as meninices e não seja mais levada de um lado para o outro por diversas doutrinas e enganos.
Descartando todo exagero que há em nossos dias em torno destes ministérios — como a autoproclamação (dizer-se apóstolo, profeta etc.), todo distanciamento bíblico e teológico fantasioso, bem como a manipulação e o abuso espiritual —, é importante afirmar que eles são essenciais à saúde espiritual da Igreja.
Isto é, quando as pessoas chamadas exercem estes ministérios de maneira íntegra, transparente, santa e irrepreensível, sem procurarem os títulos de apóstolo, profeta, evangelista, pastor ou mestre, isso inevitavelmente traz amadurecimento à Igreja.
É importante observarmos também que Jesus foi o apóstolo do Pai. Ele foi enviado pelo Pai para uma missão única: a salvação do homem.
Por sua vez, Jesus, o Filho de Deus, chamou e enviou seus apóstolos. Ou seja, os doze foram os apóstolos do Filho, e estes homens ocuparam um lugar singular e único na história cristã.
Finalmente, outros apóstolos, como Barnabé (At 14.14), foram apóstolos do Espírito Santo. Afinal, foi por direção do Espírito que Barnabé foi enviado à sua primeira viagem missionária (At 13.1-3).
Por toda a história cristã, encontramos não somente pessoas com um chamado apostólico, mas também pessoas com chamado profético, evangelístico, pastoral e de ensino (mestre).
Nisso notamos de maneira muito clara Deus, em sua forma trinitária, escolhendo e enviando seus filhos para que seus propósitos se cumpram ao longo da história.
De maneira bem resumida, a palavra apóstolo no grego (apostolos) significa “um enviado”, um mensageiro oficial. Longe de ser um título de “super-liderança” ou hierarquia, é um chamado de serviço.
Um apóstolo é alguém chamado por Deus e enviado por uma comunidade cristã com uma graça para estabelecer igrejas e trabalhar para que estas comunidades se mantenham dentro das doutrinas bíblicas.
Eles têm um papel fundamental no início e no desenvolvimento de uma nova comunidade cristã.
Na história da Igreja, podemos ver essa veia apostólica e missionária em homens como Patrick da Irlanda ou Hudson Taylor, que desbravaram nações para plantar o Evangelho.
Os profetas são pessoas capacitadas sobrenaturalmente para discernir e ouvir a voz do Senhor e transmiti-la aos filhos de Deus. Estas palavras proporcionam edificação, exortação e consolo aos crentes.
É importante afirmar que nem todo aquele que profetiza, ou que tenha o dom do Espírito de profetizar, é necessariamente um profeta. Porém, o ministério profético sempre traz consigo o dom de profecia.
Grandes homens de Deus na história, como A.W. Tozer, exerceram um claro ministério profético ao confrontar a mornidão da Igreja e chamá-la de volta ao fervor espiritual.
Os evangelistas são pregadores do Evangelho que têm a capacidade sobrenatural de conduzir pessoas a Cristo. Não somente pregam em uma cruzada evangelística, mas motivam toda uma congregação para o trabalho evangelístico.
Um evangelista tem uma paixão avassaladora em anunciar Cristo às pessoas. Um dos exemplos mais reconhecidos mundialmente em nossos dias foi Billy Graham, que dedicou sua vida a atrair multidões à cruz de Cristo.
Os pastores (poimen, no grego, remetendo à figura do pastor de ovelhas) são responsáveis por cuidar do rebanho de Cristo, alimentando-o com a Palavra de Deus e protegendo-o de falsos ensinamentos.
Eles têm um papel de liderança e discipulado na igreja local. Neste ministério encontramos o aconselhamento, a visitação, a administração e a manutenção da congregação, bem como o treinamento de novos obreiros, a exortação e a disciplina.
Charles Spurgeon é um grande exemplo histórico de alguém que uniu o cuidado pastoral a uma pregação fervorosa.
Embora muitos afirmem que pastores e mestres sejam um mesmo ministério — baseando-se em uma regra gramatical do grego conhecida como “Regra de Granville Sharp”, que agrupa “pastores e mestres” sob o mesmo artigo na frase —, teólogos ainda debatem esse ponto.
Alguns, como John Stott, veem as duas funções atreladas na mesma pessoa; outros distinguem as vocações.
Mas mesmo que pastores ensinem o rebanho do Senhor, existem pessoas com um chamado específico apenas para o ensino, com a missão de tornar nítida a Palavra de Deus em uma comunidade de crentes em Jesus.
Por fim, os mestres têm o dom de ensinar a Palavra de Deus de forma clara e precisa. Eles se dedicam a explicar as Escrituras, a sistematizar a teologia e a transmitir o conhecimento de Deus ao povo.
Na história, reformadores como Martinho Lutero e João Calvino brilharam intensamente neste ministério. É importante ressaltar também que estes cinco ministérios não são hierárquicos.
Ou seja, um não é mais importante que o outro. Todos são necessários e complementares para o bom funcionamento da Igreja. Cada um exerce um papel específico e contribui para o crescimento do Corpo de Cristo.
Além disso, é fundamental entender que estes ministérios não são exclusivos de um grupo seleto, mas sim dons que Deus concede a homens e mulheres que se dedicam a servi-lo.
Ao longo das Escrituras e da história, vemos Deus usando mulheres poderosamente: Priscila atuou no ensino (mestra) ao lado de seu marido (At 18.26), Febe serviu com dedicação à igreja (Rm 16.1), e Paulo chega a mencionar Júnia de forma notável entre os apóstolos (Rm 16.7).
Todos os cristãos são chamados a servir a Deus de alguma forma, e alguns são capacitados por Ele para exercer estes ministérios específicos.
Os Cinco Ministérios da Igreja são para os Nossos Dias?
No meio teológico, existe um debate antigo sobre este tema. De um lado estão os Cessacionistas (que acreditam que os dons miraculosos e os ofícios de apóstolo e profeta cessaram no primeiro século, com a morte dos apóstolos originais e o fechamento do cânon bíblico).
Do outro lado estão os Continuístas (que defendem que todos os dons e ministérios continuam ativos até a volta de Cristo). O texto de Efésios 4 não estabelece uma “data de validade” para estes ministérios.
Pelo contrário, afirma que eles são necessários “até que todos cheguemos à unidade da fé” (Ef 4.13), o que evidencia a postura continuísta de que a Igreja ainda precisa deles hoje.
Contudo, é inegável que exista muita gente crendo que, para ser um apóstolo, basta colocar um anel no dedo.
Ou que, para ser um profeta, basta falar em uma língua bem estranha, deixar a barba crescer, usar um talit (o véu usado pelos judeus nas orações) ou tocar um shofar.
Como então reconhecer um verdadeiro ministério?
Jesus disse que “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.16). Um ministério genuíno não se baseia em autoproclamação.
Ele é primeiramente chamado por Deus e, em seguida, reconhecido pela comunidade e por outros líderes. As qualificações morais e espirituais exigidas em textos como 1 Timóteo 3 e Tito 1 são inegociáveis.
Se alguém se diz apóstolo, profeta, evangelista, pastor ou mestre e não age de acordo com os propósitos mencionados no texto do capítulo 4 da Epístola de Paulo aos Efésios, então esta pessoa não foi escolhida nem enviada por Deus.
Se não luta pela unidade do corpo de Cristo, pela maturidade e pelo desenvolvimento espiritual dos crentes, se não reage aos falsos ensinos e aos enganos proporcionados pelos mercadores da fé, logo, esta pessoa não foi chamada pelo Senhor.
Agora, abandonando os exageros do mundo gospel e tendo em vista ministérios saudáveis biblicamente, é evidente que o texto de Paulo, embora inicialmente endereçado aos crentes da região de Éfeso, pode ser aplicado a toda a Igreja do Senhor Jesus Cristo.
Pense comigo: se este texto não é para os nossos dias, logo, a conhecida passagem do capítulo 6 da mesma epístola, que aborda a armadura de Deus (Ef 6.10-20), também não seria.
Da mesma forma, o texto em que Paulo afirma:
“Sede, pois, imitadores de Deus como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou…”
Ef 5.1,2 ARC
Isso seria apenas para a igreja de Éfeso, ou ainda se aplica às nossas vidas hoje?
Até podemos entender que, devido às bizarrices e imaturidades de muitos crentes quanto a este assunto, algumas denominações prefiram afirmar que estes ministérios não são para os nossos dias.
No entanto, não devemos deixar de ser o que somos em virtude das distorções e das cópias malfeitas da ação de Deus. Muito pelo contrário, devemos continuar exercendo aquilo para o qual fomos chamados.
Ainda existem muitos filhos de Deus que se entregam a fazer aquilo para o qual Deus os chamou, simplesmente para que Cristo seja conhecido e os crentes se tornem cada vez mais semelhantes a Ele.
E você?
Como tem enxergado o papel desses ministérios na sua congregação local?
Fique na Paz!
Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Qual a diferença entre apóstolo e pastor?
O apóstolo tem um chamado para expandir, plantar novas igrejas, lançar fundamentos doutrinários e atuar em novas fronteiras.
O pastor tem o chamado para cuidar, nutrir e proteger uma congregação local já estabelecida, pastoreando as ovelhas no dia a dia.
2. Ainda existem apóstolos hoje?
Sim. Embora não existam mais apóstolos com a mesma autoridade canônica dos Doze Apóstolos do Cordeiro (que andaram com Jesus e escreveram as Escrituras), o dom e o ministério apostólico continuam ativos na Igreja para a expansão missionária e o estabelecimento de novas comunidades.
3. Como saber se uma pessoa tem chamado de profeta?
O profeta é reconhecido por sua capacidade de edificar, exortar e consolar a Igreja (1Co 14.3), trazendo uma palavra oportuna da parte de Deus.
O verdadeiro profeta tem seu caráter provado, submete-se à liderança da igreja, e suas palavras jamais contradizem as Escrituras Sagradas.
4. O que é o movimento apostólico e profético?
É um termo frequentemente usado em nossos dias para descrever denominações e grupos que enfatizam a restauração dos ofícios de apóstolo e profeta.
No entanto, muitas vezes o termo tem sido associado a excessos, abusos de autoridade e heresias, sendo necessário profundo discernimento bíblico, como alertado neste artigo.
Referências Bibliográficas
- A Bíblia Sagrada, Tradução Almeida Revista e Corrigida (ARC).
- STOTT, John R. W. A Mensagem de Efésios: A nova sociedade de Deus. São Paulo: ABU Editora.
- GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova.
- HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Efésios. São Paulo: Cultura Cristã.