As Parábolas de Jesus – Estudo Completo (O Rico e Lázaro)

Você já parou para pensar em como Jesus ensinava as multidões? De maneira bem semelhante aos mestres da antiguidade, especialmente os orientais, Ele usava um recurso didático muito interessante: as parábolas.

Não vale arriscar um número aqui — as contagens variam conforme o que cada autor considera parábola. Mas o próprio evangelho diz algo mais forte que qualquer estatística sobre os ensinamentos de Jesus: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” (Mt 13:34 ACF). Marcos repete a informação e acrescenta o contraponto: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:34 ACF).

O Foco nos Evangelhos Sinóticos

Claro, você pode lembrar de alguns textos do Evangelho de João, como o bom pastor (Jo 10:1-5) ou a videira verdadeira (Jo 15:1-10).

Mas, na prática, a ideia central é que as parábolas de Jesus estão registradas apenas nos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Isso ocorre porque os textos de João funcionam muito mais como alegorias do que como parábolas.

Mantendo essa premissa de que as parábolas se concentram nos Sinóticos, chegamos a um número que gira em torno de quarenta histórias, variando conforme a interpretação dos diversos eruditos da Bíblia Sagrada.

A Parábola do Rico e Lázaro

Entre todas elas, a parábola do rico e Lázaro, narrada unicamente no Evangelho de Lucas (Lc 16:19-31), é uma das mais discutidas.

Primeiramente, o debate começa logo na dúvida se o texto é ou não uma parábola. Além disso, a narrativa traz elementos curiosos como o Hades, o seio de Abraão, a comunicação entre pessoas que já morreram, o estado de consciência plena e um abismo entre os dois ambientes.

Enfim, não dá para negar que esse texto de Lucas apresenta algumas dificuldades reais em sua interpretação.

O que é uma Parábola?

Antes de entrarmos no texto do Evangelho de Lucas, é fundamental entendermos o que vem a ser uma parábola.

Elas estão presentes no Antigo Testamento, como a parábola de Jotão (Jz 9:7-15), a ovelhinha do pobre dita por Natã ao Rei Davi (2Sm 12:1-5), e a do espinheiro e do cedro (2Rs 14:9).

No Novo Testamento, lembramos do joio e do trigo (Mt 13:24-30), do tesouro escondido (Mt 13:44) e da grande parábola das coisas perdidas: a ovelha (Lc 15:4-7), a moeda (Lc 15:8-10) e o filho (Lc 15:11-32).

Assim, inicialmente, uma parábola é um dos diversos gêneros literários contidos na Bíblia Sagrada. Ela caminha lado a lado com a prosa, a poesia, a narrativa, o mandamento, a profecia, a epístola e a novela, por exemplo.

Definição e Propósito das Parábolas

De maneira bem simples, uma parábola é uma narrativa que faz uso de elementos reais e cotidianos, como um lavrador, um pai de família, um empregado, um rei ou um pastor de ovelhas. Contudo, não é uma história verdadeira em si.

O mais fascinante é que a parábola não é apenas uma história contada ao vento. Ela traz ao ouvinte a oportunidade de se identificar com o que está ouvindo e chegar a uma conclusão.

Nesse sentido, a parábola apresenta uma ideia a ser refletida, um ensino moral e ético a ser comparado com a realidade que se está vivendo.

E é exatamente isso que a expressão grega παραβολη (parabole) significa: “ato de colocar algo ao lado” ou “comparação de uma coisa com outra”.

Essa ideia tem raízes no termo hebraico mashal, que também carrega o sentido de provérbio, ditado ou narrativa de sabedoria.

Ao comparar o que está ouvindo com a própria vida, consequentemente, o ouvinte capta o ensino a ser transmitido. Desse modo, ela propõe uma forte ligação entre o narrador, a mensagem e o ouvinte.

Estrutura e Personagens

E não pense que ela é complexa! Pelo contrário, fazendo uso de poucos personagens, a estrutura de uma parábola é simples e descomplicada, tornando possível a compreensão de quem a ouve.

Ainda que tenha uma ideia central, a parábola apresenta pontos secundários importantes. Um exemplo é a parábola do filho pródigo (Lc 15:25-32), em que o filho mais velho ganha destaque na narrativa em um dado momento.

Uma particularidade nas parábolas de Jesus é que em nenhuma delas Ele cita o nome de alguém. A única exceção é a parábola do rico e Lázaro.

Nas demais histórias, Jesus sempre fez uso de expressões genéricas, como “um rei”, “um semeador”, “um homem” ou “uma mulher”. Porém, nessa parábola de Lucas, Jesus afirmou:

“Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro”
Lc 16.20 ARC

Essa exceção é justamente o que promove a discussão sobre se o texto é ou não uma parábola.

O Texto Bíblico

O Contraste entre os Personagens

O texto do Evangelho de Lucas (16.19-31) traz uma história que se inicia de maneira muito semelhante às demais parábolas de Jesus:

“19 Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente.
20 Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele.
21 E desejava comer as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas”
Lc 16.19-21 ARC

No primeiro século, vestir-se de “púrpura e linho finíssimo” indicava um nível altíssimo de luxo e ostentação, acessível a pouquíssimos.

Em contraste direto, Lázaro não apenas vivia na extrema miséria, mas experimentava o cúmulo da impureza ritual para um judeu da época: ter suas feridas lambidas por cães de rua.

Para a cultura judaica daqueles dias, que associava riqueza de forma direta ao favor divino, a inversão de papéis apresentada a seguir seria culturalmente chocante.

A Realidade Após a Morte

Após isso, Jesus afirma que esses dois homens morreram. Lázaro foi levado ao “seio de Abraão”, enquanto o rico simplesmente “foi sepultado”.

No Hades, o homem rico viu Lázaro no seio de Abraão. Clamando, pediu-lhe que mandasse Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar sua língua (Lc 16:24, ARC), pois estava num lugar de grande tormento.

Em resposta, Abraão lembra que, por toda a sua vida, o rico recebeu o que havia de bom e melhor, enquanto Lázaro recebeu somente os males. Abraão também ressalta que agora há um imenso e intransponível abismo entre eles (Lc 16:26).

O Diálogo e as Súplicas do Rico

Não se contentando com a resposta, o rico pede que alguém vá à casa de seu pai para avisar seus irmãos sobre a realidade daquele lugar de tormento.

Abraão, então, lhe responde prontamente:

“Eles têm Moisés e os Profetas”
Lc 16.29 ARC

Assim, deveriam ouvi-los para não terem o mesmo destino. Ainda insatisfeito, o rico implora que alguém dentre os mortos ressuscite para avisar seus parentes, a fim de que se arrependam.

Contudo, Abraão dá a palavra final:

“Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite”
Lc 16.31 ARC

Uma Pequena Interpretação

É Realmente uma Parábola?

Como já foi apontado, esse texto, muitas vezes intitulado de A Parábola do Rico e Lázaro, levanta discussões sobre ser ou não uma parábola.

Essa dúvida ocorre porque Jesus cita o nome próprio de Lázaro. Afinal, se o texto não for uma parábola, trata-se de uma narrativa de um fato real, o que abre portas para a formulação de doutrinas bíblicas.

Entretanto, apesar dessa exceção, a maioria dos eruditos e intérpretes do Novo Testamento — como Joachim Jeremias, C. H. Dodd e Kenneth Bailey — afirma que o texto é, sim, uma parábola magistralmente estruturada por Jesus.

O Contexto e a Mensagem de Jesus

Para analisarmos melhor, precisamos entender o contexto. Esse texto vem logo após a parábola do mordomo infiel (Lc 16:1-13) e a repreensão aos fariseus, a quem Jesus chamou de “avarentos” (Lc 16:14-18).

Assim, a parábola é a resposta de Jesus aos avarentos fariseus, que se portavam de maneira infiel com o que o Senhor lhes havia confiado.

Nessa narrativa, o rico representa a classe religiosa de Israel, enquanto Lázaro representa aqueles que dependem unicamente de Deus.

Vale notar que as maldades do rico não são sequer listadas. O grande erro dele foi simplesmente evitar fazer o bem àquele que se alimentava das migalhas de sua mesa.

Nesse sentido, Jesus nos ensina que não apenas praticar o mal, mas deixar de fazer o bem, já é algo condenatório.

Embora não fale sobre o sepultamento de Lázaro, Jesus apresenta um contraste claro. Lázaro foi do sofrimento terreno ao prazeroso descanso eterno, enquanto o rico foi do momentâneo prazer terreno ao eterno sofrimento.

O Estado Intermediário e o Abismo

Jesus também adentra na crença judaica de que quem estivesse no seio de Abraão (paraíso) ou no Hades (inferno, lugar de tormento) poderia ter a visão uns dos outros.

Acreditava-se em um estado intermediário antes da condenação, onde já era possível ter a noção do paraíso ou do sofrimento eterno.

Mas, mesmo nesse estado intermediário, já existia um grande e intransponível abismo entre os dois lugares. Diante do desespero, o rico suplica para avisar seus irmãos.

Contudo, Abraão informa que, na vida terrena, eles já têm Moisés e os Profetas. Ou seja, enquanto vivemos aqui, possuímos a Palavra de Deus para nos advertir sobre a vida e o sofrimento eterno.

Fica nítido que Jesus está, de forma indireta, apontando para si mesmo. Afinal, Ele é o cumprimento de Moisés (a Lei) e dos Profetas. Em outras palavras, Jesus é o caminho para a vida eterna.

A Dureza do Coração

Como pedido final, o rico pede a ressurreição de alguém para advertir sua família. A resposta de Abraão mostra que, se eles não acreditam em Moisés e nos profetas — isto é, se não acreditam em Jesus —, também não acreditariam caso alguém ressuscitasse.

Alguns estudiosos interpretam que a citação do nome Lázaro seja uma referência àquele que Jesus, de fato, ressuscitou, já que a classe religiosa intentava matá-lo:

“10 E os principais dos sacerdotes tomaram deliberação para matar também a Lázaro,
11 porque muitos judeus, por causa dele, iam e criam em Jesus”
Jo 12.10,11 ARC

Lázaro, irmão de Marta e Maria, certamente testemunhou esse estado intermediário. Ele regressou como uma testemunha viva de quem é Jesus; contudo, a classe religiosa ainda assim pretendia matá-lo.

A conclusão é: mesmo que alguém ressuscitasse e pregasse sobre o que há depois da morte, o coração endurecido não acreditaria.

Conclusão e Aplicação Prática

Quem são os Nossos Lázaros?

Quem são os nossos “Lázaros”? Quem são aqueles que jazem invisíveis às nossas portas?

Jesus nos ensina que a omissão diante da necessidade do próximo é tão condenatória quanto a prática deliberada do mal. A riqueza, quando nos cega para o amor ao próximo, torna-se um laço.

Hoje, somos desafiados a construir pontes sobre os abismos sociais, tendo sempre a Palavra de Deus (Moisés e os Profetas) como nossa bússola moral e espiritual.

Recomendações de Leitura

Se você deseja conhecer mais sobre as parábolas, elementos literários e interpretação bíblica, recomendo que conheça estas obras:

São duas obras muito profundas que apresentam diversos aspectos da interpretação e hermenêutica bíblica.

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

E você?

O que essa história de Jesus revela sobre a forma como você tem tratado o próximo?

Perguntas Frequentes

O que é uma parábola na Bíblia?

É uma narrativa curta, montada com figuras do cotidiano — um lavrador, um pai de família, um pastor de ovelhas —, que não relata um episódio ocorrido, mas põe uma cena ao lado da vida de quem escuta para que o próprio ouvinte chegue à conclusão. É o que diz o termo grego parabole, ligado à ideia de comparar; a raiz está no mashal hebraico, palavra que cobre também provérbio e ditado de sabedoria. O recurso não começou com Jesus: Jotão (Jz 9:7-15) e Natã diante de Davi (2Sm 12:1-5) já o haviam usado.

Quantas parábolas Jesus contou?

Não há um número fechado: a conta muda conforme o que cada estudioso aceita como parábola. Levando em conta apenas os Sinóticos, o total costuma girar em torno de quarenta. O que a Escritura afirma sem margem é a frequência, não a soma — Mateus registra que Jesus falava à multidão por parábolas, e Marcos acrescenta que Ele explicava tudo em particular aos discípulos (Mt 13:34; Mc 4:34).

Por que as parábolas de Jesus não aparecem no Evangelho de João?

João traz imagens que se parecem com parábolas, como o bom pastor (Jo 10:1-5) e a videira verdadeira (Jo 15:1-10). Elas funcionam, porém, mais como alegorias, e é por isso que o conjunto das parábolas é estudado a partir de Mateus, Marcos e Lucas.

O rico e Lázaro é uma parábola ou um relato de fato real?

A dúvida nasce de um detalhe único: é a única história de Jesus em que um personagem recebe nome próprio — nas demais Ele fica em figuras genéricas, um rei, um semeador, uma mulher. A pergunta tem consequência prática: se fosse relato de um acontecimento, elementos como o Hades e o seio de Abraão passariam a servir de base para formular doutrina. Ainda assim, a maioria dos intérpretes do Novo Testamento, entre eles Joachim Jeremias, C. H. Dodd e Kenneth Bailey, entende que se trata de parábola.

A quem Jesus dirigiu a parábola do rico e Lázaro?

Aos fariseus. A história vem logo depois da parábola do mordomo infiel (Lc 16:1-13) e de uma repreensão dirigida a eles, que ouviam a Jesus e zombavam (Lc 16:14-18). O contexto muda o alvo da leitura: em vez de um aviso genérico sobre dinheiro, o que está em jogo é a liderança religiosa de Israel, representada no rico que administrava mal o que Deus lhe confiara — e, do outro lado, Lázaro, a figura de quem nada tem além de Deus.

O que é o seio de Abraão e por que há um abismo entre ele e o Hades?

São os dois lados do estado intermediário, conforme a crença judaica que a parábola pressupõe: o seio de Abraão como lugar de consolo e o Hades como lugar de tormento, ambos antes do juízo definitivo. Na narrativa os dois se enxergam, mas estão separados por um abismo que ninguém atravessa (Lc 16:26). A situação de cada um já estava decidida ali, e nenhum pedido do rico altera o desfecho.

O que Abraão quis dizer ao responder que eles têm Moisés e os Profetas?

Que os irmãos do rico já tinham em vida tudo o que precisavam para ser advertidos: a Lei e os Profetas, isto é, a Palavra de Deus (Lc 16:29). A palavra final de Abraão vai além — quem fecha o coração à Escritura não se convence nem diante de alguém que ressuscite (Lc 16:31). Como Jesus é o cumprimento da Lei e dos Profetas, recusar o que está escrito termina em recusá-lo.

Fique na Paz!

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