Você já parou para pensar em como Jesus ensinava as multidões? De maneira bem semelhante aos mestres da antiguidade, especialmente os orientais, Ele usava um recurso didático muito interessante: as parábolas.
Afirma-se que cerca de um terço de todos os ensinamentos de Jesus foram transmitidos através delas.
O Foco nos Evangelhos Sinóticos
Claro, você pode lembrar de alguns textos do Evangelho de João, como o bom pastor (Jo 10.1-5) ou a videira verdadeira (Jo 15.1-10).
Mas, na prática, a ideia central é que as parábolas de Jesus estão registradas apenas nos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Isso ocorre porque os textos de João funcionam muito mais como alegorias do que como parábolas.
Mantendo essa premissa de que as parábolas se concentram nos Sinóticos, chegamos a um número que gira em torno de quarenta histórias, variando conforme a interpretação dos diversos eruditos da Bíblia Sagrada.
A Parábola do Rico e Lázaro
Entre todas elas, a parábola do rico e Lázaro, narrada unicamente no Evangelho de Lucas (Lc 16.19-31), é uma das mais discutidas.
Primeiramente, o debate começa logo na dúvida se o texto é ou não uma parábola. Além disso, a narrativa traz elementos curiosos como o Hades, o seio de Abraão, a comunicação entre pessoas que já morreram, o estado de consciência plena e um abismo entre os dois ambientes.
Enfim, não dá para negar que esse texto de Lucas apresenta algumas dificuldades reais em sua interpretação.
O que é uma Parábola?
Antes de entrarmos no texto do Evangelho de Lucas, é fundamental entendermos o que vem a ser uma parábola.
Elas estão presentes no Antigo Testamento, como a parábola de Jotão (Jz 9.7-15), a ovelhinha do pobre dita por Natã ao Rei Davi (2Sm 12.1-5), e a do espinheiro e do cedro (2Rs 14.9).
No Novo Testamento, lembramos do joio e do trigo (Mt 13.24-30), do tesouro escondido (Mt 13.44) e da grande parábola das coisas perdidas: a ovelha (Lc 15.4-7), a moeda (Lc 15.8-10) e o filho (Lc 15.11-32).
Assim, inicialmente, uma parábola é um dos diversos gêneros literários contidos na Bíblia Sagrada. Ela caminha lado a lado com a prosa, a poesia, a narrativa, o mandamento, a profecia, a epístola e a novela, por exemplo.
Definição e Propósito das Parábolas
De maneira bem simples, uma parábola é uma narrativa que faz uso de elementos reais e cotidianos, como um lavrador, um pai de família, um empregado, um rei ou um pastor de ovelhas. Contudo, não é uma história verdadeira em si.
O mais fascinante é que a parábola não é apenas uma história contada ao vento. Ela traz ao ouvinte a oportunidade de se identificar com o que está ouvindo e chegar a uma conclusão.
Nesse sentido, a parábola apresenta uma ideia a ser refletida, um ensino moral e ético a ser comparado com a realidade que se está vivendo.
E é exatamente isso que a expressão grega παραβολη (parabole) significa: “ato de colocar algo ao lado” ou “comparação de uma coisa com outra”.
Essa ideia tem raízes no termo hebraico mashal, que também carrega o sentido de provérbio, ditado ou narrativa de sabedoria.
Ao comparar o que está ouvindo com a própria vida, consequentemente, o ouvinte capta o ensino a ser transmitido. Desse modo, ela propõe uma forte ligação entre o narrador, a mensagem e o ouvinte.
Estrutura e Personagens
E não pense que ela é complexa! Pelo contrário, fazendo uso de poucos personagens, a estrutura de uma parábola é simples e descomplicada, tornando possível a compreensão de quem a ouve.
Ainda que tenha uma ideia central, a parábola apresenta pontos secundários importantes. Um exemplo é a parábola do filho pródigo (Lc 15.25-32), em que o filho mais velho ganha destaque na narrativa em um dado momento.
Uma particularidade nas parábolas de Jesus é que em nenhuma delas Ele cita o nome de alguém. A única exceção é a parábola do rico e Lázaro.
Nas demais histórias, Jesus sempre fez uso de expressões genéricas, como “um rei”, “um semeador”, “um homem” ou “uma mulher”. Porém, nessa parábola de Lucas, Jesus afirmou:
“Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro”
Lc 16.20 ARC
Essa exceção é justamente o que promove a discussão sobre se o texto é ou não uma parábola.
O Texto Bíblico
O Contraste entre os Personagens
O texto do Evangelho de Lucas (16.19-31) traz uma história que se inicia de maneira muito semelhante às demais parábolas de Jesus:
“19 Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente.
20 Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele.
21 E desejava comer as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas”
Lc 16.19-21 ARC
No primeiro século, vestir-se de “púrpura e linho finíssimo” indicava um nível altíssimo de luxo e ostentação, acessível a pouquíssimos.
Em contraste direto, Lázaro não apenas vivia na extrema miséria, mas experimentava o cúmulo da impureza ritual para um judeu da época: ter suas feridas lambidas por cães de rua.
Para a cultura judaica daqueles dias, que associava riqueza de forma direta ao favor divino, a inversão de papéis apresentada a seguir seria culturalmente chocante.
A Realidade Após a Morte
Após isso, Jesus afirma que esses dois homens morreram. Lázaro foi levado ao “seio de Abraão”, enquanto o rico simplesmente “foi sepultado”.
No Hades, o homem rico viu Lázaro no seio de Abraão. Clamando, pediu-lhe que mandasse Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar sua língua (Lc 16.24 ARC), pois estava num lugar de grande tormento.
Em resposta, Abraão lembra que, por toda a sua vida, o rico recebeu o que havia de bom e melhor, enquanto Lázaro recebeu somente os males. Abraão também ressalta que agora há um imenso e intransponível abismo entre eles (Lc 16.26).
O Diálogo e as Súplicas do Rico
Não se contentando com a resposta, o rico pede que alguém vá à casa de seu pai para avisar seus irmãos sobre a realidade daquele lugar de tormento.
Abraão, então, lhe responde prontamente:
“Eles têm Moisés e os Profetas”
Lc 16.29 ARC
Assim, deveriam ouvi-los para não terem o mesmo destino. Ainda insatisfeito, o rico implora que alguém dentre os mortos ressuscite para avisar seus parentes, a fim de que se arrependam.
Contudo, Abraão dá a palavra final:
“Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite”
Lc 16.31 ARC
Uma Pequena Interpretação
É Realmente uma Parábola?
Como já foi apontado, esse texto, muitas vezes intitulado de A Parábola do Rico e Lázaro, levanta discussões sobre ser ou não uma parábola.
Essa dúvida ocorre porque Jesus cita o nome próprio de Lázaro. Afinal, se o texto não for uma parábola, trata-se de uma narrativa de um fato real, o que abre portas para a formulação de doutrinas bíblicas.
Entretanto, apesar dessa exceção, a maioria dos eruditos e intérpretes do Novo Testamento — como Joachim Jeremias, C. H. Dodd e Kenneth Bailey — afirma que o texto é, sim, uma parábola magistralmente estruturada por Jesus.
O Contexto e a Mensagem de Jesus
Para analisarmos melhor, precisamos entender o contexto. Esse texto vem logo após a parábola do mordomo infiel (Lc 16.1-13) e a repreensão aos fariseus, a quem Jesus chamou de “avarentos” (Lc 16.14-18).
Assim, a parábola é a resposta de Jesus aos avarentos fariseus, que se portavam de maneira infiel com o que o Senhor lhes havia confiado.
Nessa narrativa, o rico representa a classe religiosa de Israel, enquanto Lázaro representa aqueles que dependem unicamente de Deus.
Vale notar que as maldades do rico não são sequer listadas. O grande erro dele foi simplesmente evitar fazer o bem àquele que se alimentava das migalhas de sua mesa.
Nesse sentido, Jesus nos ensina que não apenas praticar o mal, mas deixar de fazer o bem, já é algo condenatório.
Embora não fale sobre o sepultamento de Lázaro, Jesus apresenta um contraste claro. Lázaro foi do sofrimento terreno ao prazeroso descanso eterno, enquanto o rico foi do momentâneo prazer terreno ao eterno sofrimento.
O Estado Intermediário e o Abismo
Jesus também adentra na crença judaica de que quem estivesse no seio de Abraão (paraíso) ou no Hades (inferno, lugar de tormento) poderia ter a visão uns dos outros.
Acreditava-se em um estado intermediário antes da condenação, onde já era possível ter a noção do paraíso ou do sofrimento eterno.
Mas, mesmo nesse estado intermediário, já existia um grande e intransponível abismo entre os dois lugares. Diante do desespero, o rico suplica para avisar seus irmãos.
Contudo, Abraão informa que, na vida terrena, eles já têm Moisés e os Profetas. Ou seja, enquanto vivemos aqui, possuímos a Palavra de Deus para nos advertir sobre a vida e o sofrimento eterno.
Fica nítido que Jesus está, de forma indireta, apontando para si mesmo. Afinal, Ele é o cumprimento de Moisés (a Lei) e dos Profetas. Em outras palavras, Jesus é o caminho para a vida eterna.
A Dureza do Coração
Como pedido final, o rico pede a ressurreição de alguém para advertir sua família. A resposta de Abraão mostra que, se eles não acreditam em Moisés e nos profetas — isto é, se não acreditam em Jesus —, também não acreditariam caso alguém ressuscitasse.
Alguns estudiosos interpretam que a citação do nome Lázaro seja uma referência àquele que Jesus, de fato, ressuscitou, já que a classe religiosa intentava matá-lo:
“10 E os principais dos sacerdotes tomaram deliberação para matar também a Lázaro,
11 porque muitos judeus, por causa dele, iam e criam em Jesus”
Jo 12.10,11 ARC
Lázaro, irmão de Marta e Maria, certamente testemunhou esse estado intermediário. Ele regressou como uma testemunha viva de quem é Jesus; contudo, a classe religiosa ainda assim pretendia matá-lo.
A conclusão é: mesmo que alguém ressuscitasse e pregasse sobre o que há depois da morte, o coração endurecido não acreditaria.
Conclusão e Aplicação Prática
Quem são os Nossos Lázaros?
Quem são os nossos “Lázaros”? Quem são aqueles que jazem invisíveis às nossas portas?
Jesus nos ensina que a omissão diante da necessidade do próximo é tão condenatória quanto a prática deliberada do mal. A riqueza, quando nos cega para o amor ao próximo, torna-se um laço.
Hoje, somos desafiados a construir pontes sobre os abismos sociais, tendo sempre a Palavra de Deus (Moisés e os Profetas) como nossa bússola moral e espiritual.
Recomendações de Leitura
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São duas obras muito profundas que apresentam diversos aspectos da interpretação e hermenêutica bíblica.
Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.
E você?
O que essa história de Jesus revela sobre a forma como você tem tratado o próximo?
Fique na Paz!