Quem Foi Davi na Bíblia: O Homem Segundo o Coração de Deus

↑ Este artigo faz parte da coleção Personagens Bíblicos — quem foram e o que ainda ensinam à igreja de hoje.

Davi foi o segundo rei de Israel: o filho mais novo de Jessé, pastor de ovelhas em Belém, que venceu um gigante, fugiu por quinze anos de quem queria matá-lo e reinou quarenta anos sobre um povo unido.

É também o homem que a Bíblia menos poupa. O mesmo livro que registra a coragem diante de Golias registra o adultério, a carta que mandou matar um soldado leal e a família que desmoronou depois disso.

E é dele a expressão que quase toda pregação repete: um homem segundo o coração de Deus. Hoje, vamos percorrer a vida inteira dele — a unção que ninguém viu, os anos de caverna, o trono, a queda e o fim — para responder a pergunta que essa frase deixa no ar: se ele fez tudo isso, por que continua sendo chamado assim?

Sobre a tradução: as citações bíblicas deste artigo usam a Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo indicação em contrário.

Quem Foi Davi na Bíblia

Davi foi o segundo rei de Israel, filho mais novo de Jessé, de Belém de Judá. Pastor de ovelhas, músico, guerreiro, fugitivo, rei por quarenta anos e autor de boa parte dos salmos.

É um dos personagens mais extensamente narrados do Antigo Testamento — a história dele ocupa de 1 Samuel 16 a 1 Reis 2, e é recontada em 1 Crônicas 11 a 29 —, e é o nome que o Novo Testamento repete ao apresentar Jesus: “Filho de Davi”.

Antes da narrativa, um resumo sobre Davi:

Dado Detalhe
Nome Davi (do hebraico dawid, “amado”)
Pai Jessé, o belemita (1Sm 16:1)
Mãe Não nomeada nas Escrituras
Tribo Judá
Cidade Belém de Judá
Ofício antes do trono Pastor de ovelhas (1Sm 16:11)
Idade ao começar a reinar 30 anos (2Sm 5:4)
Anos de reinado 40 — sete e meio em Hebrom, trinta e três em Jerusalém
Esposas nomeadas Oito
Filhos nomeados Dezenove, mais Tamar e os filhos das concubinas (1Cr 3:9)
Morte De velhice, cerca de 70 anos (1Cr 29:28)
Onde ler 1Samuel 16 a 1Reis 2; 1Crônicas 11 a 29

Voltar ao topo

A Expressão que Todo Mundo Cita — e o que ela Diz de Verdade

Comece pela frase que aparece em toda pregação sobre Davi: “um homem segundo o coração de Deus”.

O conceito é bíblico, e vem de três textos que se completam. Deus diz a Samuel que “o Senhor olha para o coração” (1Sm 16:7). Samuel anuncia a Saul que o Senhor “tem buscado para si um homem segundo o seu coração” (1Sm 13:14).

E Paulo, séculos depois, junta as duas pontas ao pregar em Antioquia: Deus levantou Davi, “ao qual também deu testemunho, e disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem conforme o meu coração” (At 13:22 ACF).

Vale reparar, então, que a frase famosa é um resumo desses versículos, e não a citação literal de um deles — nenhuma tradução traz exatamente aquelas palavras nessa ordem.

Isso não a torna errada. Torna importante saber de onde ela vem, porque a forma resumida apaga dois detalhes que mudam a leitura da vida inteira de Davi.

O primeiro: a frase não foi dita sobre Davi. Foi dita a Saul, como sentença. Samuel acaba de confrontá-lo por não ter guardado o mandamento, e anuncia: “agora não subsistirá o teu reino; já tem buscado o Senhor para si um homem segundo o seu coração” (1Sm 13:14). Davi ainda não tinha sido ungido, e nem é nomeado ali. O elogio nasce como contraste com outro homem.

O segundo: a frase é anterior a tudo o que Davi fez. Anterior às vitórias e anterior ao adultério. Ela não é um diploma entregue no fim da vida a quem passou no teste — é uma escolha declarada antes de haver currículo.

Quem usa a expressão como prova de que Davi era um homem sem falhas está lendo o contrário do que o próprio livro registra três capítulos depois do auge. O que a expressão mede, o artigo responde no fim, depois de percorrer a vida que ela descreve.

Voltar ao topo

A Casa de Jessé: Origem e Família

Davi era “filho de um homem efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era Jessé, que tinha oito filhos” (1Sm 17:12). Ele era o mais novo dos oito, e essa posição explica a cena da unção: quando Samuel chega, Davi nem é chamado. Está com as ovelhas.

A mãe dele não é nomeada em lugar nenhum. O texto que mais se aproxima é uma oração do próprio Davi — “salva ao filho da tua serva” (Sl 86:16 ACF). Os nomes que se leem por aí vêm de tradição judaica posterior, e não das Escrituras. É pouco, e é honesto dizer que é pouco.

Repare de onde vem essa casa: Jessé era neto de Boaz e de Rute, a moabita que escolheu o Deus de Israel. A bisavó de Davi era estrangeira.

A família dele aparece de novo em momentos decisivos: os irmãos mais velhos no exército de Saul, o sobrinho Joabe como comandante do exército, a irmã Zeruia como mãe de Abisai, Joabe e Asael (1Cr 2:16). Davi viveu cercado de parentes, para o bem e para o mal.

Voltar ao topo

A Unção em Belém: “O Senhor Olha Para o Coração”

Samuel é enviado à casa de Jessé para ungir um dos filhos. Vê o mais velho, Eliabe, e conclui o óbvio: é esse. A resposta que recebe é o versículo que governa toda a história:

“Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1Sm 16:7).

Repare no verbo. Deus olha para o coração — e é exatamente a palavra que reaparece em “um homem segundo o seu coração”. A história de Davi é costurada por esse fio, e ele vai reaparecer no pior momento da vida dele.

Sete filhos passam diante de Samuel, e nenhum é o escolhido. O oitavo tem de ser buscado no campo. Quando chega, a descrição é de aparência: “era ruivo e formoso de semblante e de boa presença” (1Sm 16:12) — logo depois de o texto dizer que Deus julga por outro critério. É um dado, não a razão.

Samuel o unge no meio dos irmãos, e “desde aquele dia em diante o Espírito do Senhor se apoderou de Davi” (1Sm 16:13). O gesto tem um significado próprio nas Escrituras, que vale conhecer à parte: a unção com óleo marca separação para uma função dada por Deus. E então Davi volta para as ovelhas. Entre essa unção e o trono passariam cerca de quinze anos.

Voltar ao topo

Davi e Golias: o Que o Texto Registra

A cena mais conhecida da vida dele começa com uma entrega de mantimentos. Davi vai ao acampamento levar pão e queijos aos irmãos, e encontra um exército paralisado há quarenta dias por um campeão filisteu.

O tamanho de Golias, no texto, é de seis côvados e um palmo — cerca de dois metros e noventa1. As bravatas que ele dispara antes do combate não são improviso: insultos e imprecações rituais antes da batalha eram prática comum em todo o Oriente Próximo, com a função de desmoralizar o adversário antes do primeiro golpe2.

A resposta de Davi devolve o desafio no mesmo terreno, o da guerra de palavras, mas trocando o sujeito: “Tu vens a mim com espada, e com lança, e com escudo; porém eu venho a ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado” (1Sm 17:45).

Há uma coisa que a narrativa se recusa a fazer: transformar Davi em prodígio militar. A recusa da armadura de Saul não é bravata, é ajuste prático — ele não sabia andar com aquilo. A arma é a que ele usava no trabalho. O menino que enfrenta o gigante é, antes disso, um profissional fazendo o que sabe.

Voltar ao topo

Quem Matou Golias e Com Que Arma

Foi Davi, e o texto é direto: 1 Samuel 17 registra o combate, a queda do filisteu e a cabeça cortada com a espada do próprio Golias.

O golpe que derrubou o gigante veio antes da espada: foi uma funda — a atiradeira de pastor, uma bolsa de couro presa a duas tiras, girada sobre a cabeça até soltar uma das pontas.

Não era brinquedo de criança: os benjamitas eram famosos pela pontaria com ela (Jz 20:16), e estima-se que um atirador experiente arremessasse a pedra a mais de 160 quilômetros por hora3. Davi escolheu cinco pedras lisas do ribeiro e precisou de uma.

Ou seja, o que parece improviso de menino era o instrumento de trabalho de quem passava o dia protegendo ovelhas de predadores — usado, naquele dia, contra um alvo bem maior.

Fica de pé, ainda, uma pergunta que aparece de vez em quando: 2 Samuel 21.19 diz que “El-Hanã… feriu Golias, o giteu”. O mesmo episódio, em 1 Crônicas 20.5, diz que El-Hanã feriu “Lami, irmão de Golias” — e a explicação mais aceita é que Crônicas preserva a leitura original, num trecho em que se listam quatro combates com descendentes de gigantes, um deles justamente com o irmão de Golias4. Não muda o que 1 Samuel 17 narra, e é o quanto se pode dizer com segurança.

Voltar ao topo

Na Corte de Saul: da Harpa à Fuga

Davi entra no palácio como músico — chamado para tocar quando o espírito maligno perturbava Saul — e sai dele como fugitivo.

Entre uma coisa e outra está o cântico que as mulheres puxaram na volta da batalha: “Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares”. Foi a conta dessa aritmética que azedou o resto.

Vieram a lança atirada duas vezes, as missões militares desenhadas para que ele não voltasse, e o casamento com Mical mediante um dote de cem prepúcios de filisteus — que Davi paga em dobro, com duzentos (1Sm 18:27).

Repare no que o texto faz e no que ele deixa de fora. Ele descreve o comportamento de Saul em detalhe — o ciúme, a lança, a perseguição, as ordens contraditórias — e dá para isso uma explicação teológica: “o Espírito do Senhor se retirou de Saul, e atormentava-o um espírito mau da parte do Senhor” (1Sm 16:14). O que não existe ali é explicação médica, e é por isso que a leitura que transforma o episódio em diagnóstico psiquiátrico diz mais sobre o nosso vocabulário do que sobre o de Samuel.

Voltar ao topo

Jônatas: a Amizade Que Custou um Trono

No meio dessa perseguição está uma das relações mais improváveis das Escrituras.

Jônatas era o filho mais velho de Saul — o herdeiro. Se alguém tinha motivo para ver Davi como ameaça, era ele: cada passo do rapaz de Belém era um passo em cima da coroa que lhe pertencia. E o texto diz o oposto:

“a alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma” (1Sm 18:1).

O gesto que sela isso é de uma clareza que dispensa comentário: “Jônatas se despojou da capa que trazia sobre si, e a deu a Davi, como também as suas vestes, até a sua espada, e o seu arco, e o seu cinto” (1Sm 18:4). O manto do príncipe, a espada do príncipe. Ele entrega os símbolos daquilo que estava abrindo mão.

A despedida dos dois, quando fica claro que Davi precisa fugir de vez, é um juramento que atravessa gerações: “O Senhor seja entre mim e ti, e entre a minha descendência e a tua descendência, seja perpetuamente” (1Sm 20:42). Davi cumpriria essa palavra anos depois, já rei, ao procurar um neto de Saul para sentar à sua mesa.

Jônatas morre em Gilboa, ao lado do pai. E o lamento de Davi por ele não tem paralelo: é um rei chorando o filho do homem que passou anos tentando matá-lo. “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo me eras!” (2Sm 1:26).

Voltar ao topo

Os Anos de Caverna

Mapa dos deslocamentos de Davi durante a fuga de Saul, de Belém a Ziclague, até Hebrom e Jerusalém
A fuga de Davi: de Belém a Ziclague, entre Saul e os filisteus, até a subida a Hebrom e a tomada de Jerusalém.

O período mais longo e menos lembrado da vida de Davi é o da fuga. São anos escapando, e o texto acompanha o roteiro sem pressa: a caverna de Adulão, o deserto de Zife, En-Gedi, a fronteira, a própria Filístia.

A fuga tem episódios pouco heroicos. Em Gate, cercado de inimigos e sem saída, ele finge loucura para salvar a pele — “fez-se como doido entre as suas mãos, e esgravatava nas portas de entrada, e deixava correr a saliva pela barba” (1Sm 21:13).

O futuro rei de Israel babando na barba de propósito. A Bíblia registra isso, e nenhuma pregação conta. É nesse período que se forma o grupo que depois seria o exército dele:

“E ajuntou-se a ele todo o homem que se achava em aperto, e todo o homem endividado, e todo o homem de espírito desgostoso, e ele se fez capitão deles; e eram com ele uns quatrocentos homens” (1Sm 22:1-2).

Endividados, angustiados e descontentes. Ou seja: é com o refugo social do reino que o futuro rei começa.

E é aqui que aparece a decisão que mais diz sobre ele. Duas vezes Davi tem Saul ao alcance da mão — uma delas dentro de uma caverna, no escuro, com os homens sussurrando que aquilo era obra de Deus.

Duas vezes recusa: “O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do Senhor” (1Sm 24:6).

Ele já tinha sido ungido. Tinha o direito reconhecido, os homens armados e a oportunidade servida. Não usou nada disso — porque quem tinha posto Saul no trono não tinha mandado tirá-lo.

Voltar ao topo

Abigail: a Mulher Que Impediu uma Tragédia

Há um episódio, no meio da fuga, que costuma ficar de fora dos resumos e que merece ficar.

Davi protege os rebanhos de um homem rico chamado Nabal e, na época da tosquia, manda pedir mantimentos. Nabal responde com insulto.

E Davi, o mesmo homem que duas vezes poupou o rei que queria matá-lo, cinge a espada e sai com quatrocentos homens — não para dar um susto, e sim com um juramento na boca: “Assim faça Deus aos inimigos de Davi, e outro tanto, se eu deixar até amanhã de tudo o que tem, até mesmo um menino” (1Sm 25:22).

Ou seja: o ungido de Deus estava a caminho de exterminar uma casa inteira, homem por homem, por causa de uma grosseria.

Quem o detém é Abigail, mulher de Nabal, que sai ao encontro dele com comida e com um argumento. A resposta de Davi é uma confissão em tempo real:

“Bendito o teu conselho, e bendita tu, que hoje me impediste de derramar sangue, e de vingar-me pela minha própria mão” (1Sm 25:32-33).

E ele mesmo diz o tamanho do que não aconteceu: “se tu não te apressaras, e não me vieras ao encontro, não ficaria a Nabal até a luz da manhã nem mesmo um menino” (1Sm 25:34).

Duas coisas ficam de pé nessa cena. A primeira é que o autocontrole diante de Saul não era temperamento — era decisão, e decisão pode falhar no dia seguinte, por um motivo bem menor.

A segunda é que Deus usou uma mulher que ninguém consultava para impedir uma chacina do próprio ungido. Abigail depois se tornaria esposa de Davi (1Sm 25:42).

Voltar ao topo

Davi e os Salmos

Nenhum retrato de Davi fica completo sem a parte dele que mais se lê. As últimas palavras registradas o descrevem assim: “o ungido do Deus de Jacó, e o suave em salmos de Israel” (2Sm 23:1).

Davi é um dos autores humanos das Escrituras — assunto que tratamos em quem escreveu a Bíblia. Cerca de metade dos cento e cinquenta salmos traz o nome dele no título, e vários vêm com a situação colada: a fuga de Absalão, o episódio de Gate, a visita de Natã.

Isso muda a leitura. O Salmo 23 — “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará” — é a imagem de um pastor de ovelhas de verdade, escrita por quem sabia exatamente quanto trabalho dá cuidar de um rebanho.

E o Salmo 51, que é o mais duro deles, tem endereço: foi escrito depois que Natã bateu à porta.

Afinal, é isso que dá a Davi um lugar que nenhum outro rei de Israel tem no livro de orações do povo: dele não sobrou só o que fez, sobrou o que sentiu enquanto fazia.

Voltar ao topo

Rei em Hebrom: Sete Anos e Meio Antes do Resto

Saul morre em Gilboa, e Davi não comemora: compõe uma elegia por ele e por Jônatas. Depois sobe a Hebrom, e é ali ungido rei de Judá — só de Judá. As outras tribos seguem com Isbosete, filho de Saul, e o país passa por uma guerra civil de anos.

São sete anos e seis meses em Hebrom (2Sm 5:5), e nesse período nascem os seis primeiros filhos, cada um de uma mulher diferente (2Sm 3:2-5).

O reino unido, que se costuma imaginar como consequência automática da unção de Belém, levou quase uma década de guerra entre irmãos para existir.

Voltar ao topo

Jerusalém, a Arca e a Casa Que Deus Prometeu

Com as tribos unidas, Davi toma a fortaleza jebuseia de Sião e faz dela a capital — uma escolha política precisa, porque a cidade não pertencia a nenhuma tribo e não favorecia ninguém.

Em seguida traz a arca. A primeira tentativa termina com a morte de Uzá, que estende a mão para firmá-la no carro. O texto registra o gesto e a reação de Deus; não registra a intenção de Uzá, e é prudente não inventá-la.

O que a narrativa deixa claro, pela correção seguinte, é que o problema estava no método: a arca voltou carregada por levitas, como a Lei determinava. Entre uma tentativa e outra, ela ficou três meses na casa de Obede-Edom, que foi abençoado por hospedá-la.

Na segunda tentativa, o rei entra na cidade dançando: “E Davi saltava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava Davi cingido de um éfode de linho” (2Sm 6:14). A mulher dele o despreza pela janela por causa disso.

E aí está o contraste: o mesmo homem que uma hora antes tinha medo da arca agora dança na frente dela sem se importar com o que a corte vai achar.

E é em Jerusalém que Davi propõe construir um templo — e recebe a resposta que inverte a oferta. Ele queria fazer uma casa para Deus; Deus promete fazer uma casa para ele: “a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre” (2Sm 7:16). É dessa promessa que o Novo Testamento se lembra ao chamar Jesus de Filho de Davi.

Voltar ao topo

A Queda: Bate-Seba, Urias e o Dedo de Natã

O capítulo 11 de 2 Samuel abre com uma observação que já é diagnóstico: era a época em que os reis saíam à guerra, e Davi ficou em Jerusalém.

O que se segue é conhecido e o texto não suaviza nada: o adultério, a gravidez, a tentativa de encobrir chamando Urias de volta do campo, e — diante da lealdade do soldado, que se recusa a dormir em casa enquanto o exército acampa — a carta que manda colocá-lo na linha de frente e recuar. Assassinato por ordem escrita, com o próprio morto levando a carta.

O veredito da narrativa cabe numa linha: “Porém esta coisa que Davi fez pareceu mal aos olhos do Senhor” (2Sm 11:27).

Então vem Natã, com uma parábola sobre um rico que rouba a única ovelha de um pobre. Davi se indigna, condena o homem à morte — e ouve: “Tu és este homem” (2Sm 12:7).

A resposta dele é o que a expressão do início deste artigo realmente descreve. Não há advogado, não há justificativa, não há contra-ataque a quem o acusou.

Há cinco palavras: “Pequei contra o Senhor” (2Sm 12:13). E o Salmo 51, que é essa mesma confissão em forma de oração: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade” (Sl 51:1 ACF).

O perdão vem, e as consequências também. As duas coisas, no mesmo capítulo.

Voltar ao topo

O Que Veio Depois: a Casa em Ruínas e o Censo

A segunda metade do reinado é o desmoronamento da família, e o texto conta isso sem pular etapa.

Amnom, o primogênito, viola a própria meia-irmã Tamar. Davi fica furioso e não faz nada — o silêncio do pai é o que abre a porta para o resto. Dois anos depois, Absalão manda matar Amnom num banquete, e foge.

Volta anos mais tarde, passa quatro anos cortejando o povo à porta da cidade, conspira, toma Jerusalém e expulsa o pai, que sai descalço e chorando pelo monte das Oliveiras.

O fim de Absalão é uma cena que o texto não poupa: preso pela cabeça nos galhos de um carvalho, morto por Joabe contra a ordem expressa do rei. E o que sai da boca dele não é a fala de um rei, é a de um pai:

“Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!” (2Sm 18:33).

Cinco vezes “meu filho”, num homem que acabava de vencer uma guerra contra esse mesmo filho. Depois ainda viriam a revolta de Seba e a disputa de sucessão entre Adonias e Salomão.

E há o censo, no fim da vida — um recenseamento militar que o próprio comandante tentou impedir. A reação de Davi, quando percebe o que fez, traz de volta a palavra que atravessa a história inteira:

“E pesou o coração de Davi, depois de haver numerado o povo” (2Sm 24:10).

O mesmo coração que Deus olhou em Belém, e que agora pesa. É a terceira vez que a palavra aparece num momento decisivo, e é o assunto do livro, não um acaso de vocabulário.

Voltar ao topo

Os Últimos Dias e a Sucessão

Davi morre velho, ainda no trono, depois de garantir a sucessão de Salomão contra a tentativa de Adonias. O balanço é registrado em duas linhas:

“E morreu numa boa velhice, cheio de dias, riquezas e glória; e Salomão, seu filho, reinou em seu lugar” (1Cr 29:28). Dali em diante começa a linha que a Escritura acompanha até o exílio, e que reunimos na lista dos reis de Israel e de Judá.

Foi sepultado na cidade de Davi (1Rs 2:10). Reinou quarenta anos, começando aos trinta (2Sm 5:4) — o que dá setenta anos de vida. Ninguém o matou: a pergunta aparece com frequência, e a resposta é que a morte dele é das poucas coisas simples nessa biografia.

Voltar ao topo

O que “Segundo o Seu Coração” Realmente Mede

Volte à frase do começo, agora com a vida inteira atrás dela.

Se a expressão medisse desempenho moral, ela teria sido retirada em 2 Samuel 11 — e não foi. Se medisse sucesso, teria sido retirada no censo. Se medisse uma família exemplar, nunca teria sido dada.

O que a diferencia é a reação ao ser confrontado, e é aqui que a comparação com Saul, que a frase originalmente estabelece, faz sentido.

Confrontado por Samuel, Saul explicou-se: o povo estava se dispersando, o profeta não chegava, foi por necessidade (1Sm 13:11-12). Confrontado por Natã, Davi disse “pequei”. Um argumentou; o outro se rendeu.

Não é que Davi errasse menos. É que ele não disputava com Deus a definição do que era erro.

E vale dizer o que a expressão não promete. Ela não impediu a morte do filho, não impediu Absalão, não impediu o preço do censo. O texto que registra o elogio é o mesmo que registra as consequências, lado a lado, sem tentar equilibrá-las.

Voltar ao topo

Lições da Vida de Davi para Hoje

A escolha de Deus não segue o critério visível. Um pai reuniu sete filhos e não chamou o oitavo, e o oitavo era o escolhido. A frase de 1Sm 16:7 é dita antes de Davi entrar em cena, e continua valendo depois.

Entre a promessa e o cumprimento pode haver uma caverna. É o mesmo intervalo que separa o sonho da realização na história de José do Egito, outro escolhido que passou anos longe do que lhe fora prometido.

Quinze anos separam a unção de Belém do trono de Hebrom, e a maior parte deles foi fuga. Unção é começo, não chegada.

Autoridade recebida não autoriza tomar o resto pela força. Duas vezes Davi teve Saul ao alcance e não estendeu a mão.

Ócio em tempo de guerra cobra caro. O capítulo da queda começa com o rei em casa, na estação em que os reis saíam.

Confissão é rendição, não discurso. Diante de “tu és este homem”, a resposta foi de quatro palavras e um salmo, não uma defesa.

Perdão e consequência convivem. Natã anuncia o perdão e as consequências no mesmo diálogo. A Bíblia não trata isso como contradição.

Voltar ao topo

Perguntas Frequentes

Quem era o pai de Davi?

Jessé, de Belém de Judá. Foi à casa dele que Samuel foi enviado para ungir um rei: “enviar-te-ei a Jessé o belemita; porque dentre os seus filhos me tenho provido de um rei” (1Sm 16:1). O texto registra que Jessé tinha oito filhos e já era velho no tempo de Saul (1Sm 17:12), e Davi era o mais novo deles.

Quem era a mãe de Davi?

A Bíblia não diz o nome dela. Jessé é nomeado várias vezes, mas a mãe de Davi aparece apenas de forma indireta — o próprio Davi se refere a ela ao orar: “salva ao filho da tua serva” (Sl 86:16 ACF). Os nomes que circulam para ela vêm de tradições judaicas posteriores, e não do texto bíblico.

Quantas esposas Davi teve?

A Bíblia nomeia oito: Mical, filha de Saul (1Sm 18:27), Ainoã e Abigail (1Sm 25:42-43), e Maaca, Hagite, Abital e Eglá, mães dos filhos nascidos em Hebrom (2Sm 3:2-5), além de Bate-Seba.

O número total é maior e não é informado: “tomou Davi mais concubinas e mulheres de Jerusalém, depois que viera de Hebrom” (2Sm 5:13).

Quantos filhos Davi teve?

A lista de 1 Crônicas 3 nomeia dezenove filhos: seis nascidos em Hebrom e treze em Jerusalém.

E o próprio texto avisa que a conta não fecha ali: “Todos estes foram filhos de Davi, afora os filhos das concubinas e Tamar, irmã deles” (1Cr 3:9). Os mais conhecidos são Amnom, Absalão, Adonias e Salomão.

Com quantos anos Davi morreu?

Setenta. A conta é do próprio texto: “Da idade de trinta anos era Davi quando começou a reinar; quarenta anos reinou” (2Sm 5:4) — sete anos e meio em Hebrom e trinta e três em Jerusalém.

Quem matou o rei Davi?

Ninguém. Davi morreu de velhice, ainda no trono, e a sucessão passou para Salomão: “E morreu numa boa velhice, cheio de dias, riquezas e glória” (1Cr 29:28).

Ele foi sepultado na cidade de Davi (1Rs 2:10). A pergunta costuma nascer da confusão com a morte violenta de vários dos filhos dele.

Davi era ruivo?

É o que o texto diz, na descrição do dia da unção: “e era ruivo e formoso de semblante e de boa presença” (1Sm 16:12). O termo hebraico indica tom avermelhado, e a mesma palavra reaparece quando Golias o despreza por ser jovem demais para a luta (1Sm 17:42).

Por que Davi é chamado de homem segundo o coração de Deus?

A expressão resume três textos: “o Senhor olha para o coração” (1Sm 16:7), o anúncio de que Deus buscou “um homem segundo o seu coração” (1Sm 13:14) e a retomada de Paulo, “homem conforme o meu coração” (At 13:22 ACF).

Ela é anterior ao reinado e ao pecado de Davi — aparece quando Samuel anuncia a Saul que o reino seria dado a outro. Não descreve um homem sem falhas, e sim um homem que, confrontado, se voltava para Deus em vez de se defender.

Davi matou mesmo Golias?

Sim, é o que 1 Samuel 17 registra. A dúvida nasce de 2 Samuel 21.19, que credita a morte de “Golias, o giteu” a El-Hanã — enquanto 1 Crônicas 20.5, narrando o mesmo combate, diz que El-Hanã feriu “Lami, irmão de Golias”. A explicação mais aceita é que 1 Crônicas preserva a leitura original e 2 Samuel sofreu um erro de cópia.

Voltar ao topo

Conclusão

A vida de Davi cabe em três palavras que o próprio livro repete: Deus olha para o coração, busca um homem segundo o seu coração, e no fim o coração de Davi pesa.

Entre a primeira e a última há um pastor que ninguém chamou, quinze anos de fuga com quatrocentos homens endividados, sete anos e meio de guerra civil, uma capital conquistada, uma promessa de trono eterno, uma carta que matou um soldado leal, um filho morto pendurado num carvalho e um velho garantindo a sucessão.

O que a Bíblia faz com esse material chama a atenção: ela não retoca. Registra o elogio e o crime no mesmo livro, sem apagar nenhum dos dois e sem tentar equilibrar a conta. E também não finge neutralidade — sobre o caso de Urias, o narrador escreve que aquilo “pareceu mal aos olhos do Senhor”.

E você?

Hoje, ninguém chega apontando o dedo e dizendo “tu és este homem”. O que chega é elogio: você é uma bênção na minha vida, você entende muito da Bíblia, quando você ora é diferente. Vem de gente sincera, e vem com frequência.

E é aí que está o teste, porque foi um elogio que separou os dois homens desta história. As mulheres cantaram “Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares” — e Saul ouviu aquilo como medida de si mesmo: “que lhe falta, senão só o reino?” (1Sm 18:8). O louvor virou ameaça, e a partir daquele dia ele passou a vigiar Davi.

Davi ouviu o mesmo cântico e não fez conta com ele. Anos depois, criticado por dançar diante da arca como se não fosse rei, respondeu que se rebaixaria ainda mais: “ainda mais do que isto me envilecerei, e me humilharei aos meus olhos” (2Sm 6:22).

Então a pergunta é essa. Da próxima vez que alguém te disser que você é uma bênção, para onde vai o elogio — para o seu currículo, ou para Aquele que te deu o que você tem?

Se este artigo te ajudou, o nosso guia de personagens bíblicos reúne a história dos homens e mulheres que marcaram a Escritura, e a coleção de versículos explicados traz as passagens mais buscadas explicadas uma a uma.

Fique na Paz!

Voltar ao topo

Fontes

  1. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 317.
  2. Ibid., p. 319.
  3. Ibid., p. 319.
  4. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. II — Histórico. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 366.
  5. Bíblia Almeida Corrigida Fiel (ACF). Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

Voltar ao topo

Deixe um comentário