Em meio aos debates teológicos de hoje, poucos assuntos despertam tanto fascínio e tanta controvérsia quanto a atuação do Espírito Santo na Igreja.
O Novo Testamento, especificamente na Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (1Co 12.1-11), apresenta uma lista de dons espirituais. Paulo aponta que eles são dados pelo Espírito Santo.
Deus concede esses dons aos crentes em Jesus Cristo com um propósito claro. Eles servem para tratar, curar, edificar, consolar, exortar e amadurecer a Igreja do Senhor Jesus.
Além disso, o Espírito Santo capacita a Igreja a anunciar o Evangelho com autoridade e poder, de forma semelhante ao que vimos no dia de Pentecostes, no livro de Atos dos Apóstolos.
Nessa lista, o apóstolo Paulo aponta os seguintes dons (1Co 12.8-10):
- A palavra da sabedoria;
- A palavra do conhecimento;
- A fé;
- Os dons de curar;
- A operação de milagres (sinais e maravilhas);
- A profecia;
- O discernimento de espíritos;
- A variedade de línguas;
- A interpretação de línguas.
Dentre eles, o dom de variedade de línguas é, sem dúvida, o que levanta mais discussões, interpretações e até doutrinas diferentes.
Desde o dia de Pentecostes, quando os crentes foram batizados com o Espírito Santo, até hoje, o dom de línguas tem sido frequentemente criticado. No próprio livro de Atos dos Apóstolos, muitos criticaram o que ouviram dizendo:
“Eles beberam vinho demais”
At 2.13 NVI
Por isso, o dom de línguas arrasta críticas de quem o despreza ou não o compreende. Muitas vezes, ele é tratado como infantilidade, heresia ou simples motivo de zombaria. No entanto, à luz das Escrituras, trata-se de um dom genuíno do Espírito Santo para a Igreja.
A Realidade do Dom de Línguas
Como observamos, o dom de línguas costuma enfrentar muita resistência. Ele sofre ataques desde a sua primeira manifestação no dia de Pentecostes.
Atos dos Apóstolos conta que, através das línguas concedidas pelo Espírito, pessoas de várias nações ouviram em seus próprios idiomas (um fenômeno chamado xenolalia) “as grandezas de Deus” (At 2.11 ARC).
No grego, a expressão para “grandeza” é μεγαλειος (megaleios). Ou seja, eles ouviram coisas “excelentes”, “maravilhosas” e “esplêndidas” sobre Deus. Eles ouviram louvores!
Aquelas pessoas não ouviram o Evangelho diretamente por meio das línguas, mas sim as “grandezas de Deus”. A mensagem de salvação foi anunciada logo em seguida, com muita clareza, na pregação do apóstolo Pedro (At 2.14-41).
Ainda assim, alguns começaram a zombar e escarnecer, dizendo:
“Eles beberam vinho demais”
At 2.13 NVI
Apesar das críticas iniciais e até do mau uso que ocorreu na igreja de Corinto, o dom de línguas é uma realidade no Novo Testamento. Mesmo enfrentando a zombaria dos ímpios e precisando ser ajustado por Paulo no culto público, o dom se consolidou após o batismo com o Espírito Santo.
A Ceia do Senhor era comum aos crentes. Quando houve problemas, Paulo a ajustou em sua Primeira Epístola aos Coríntios (1Co 11.17-34). Da mesma forma, o dom de línguas era comum às igrejas primitivas. Quando surgiram os problemas, Paulo também o ajustou (1Co 12, 13 e 14).
O dom de línguas é mencionado cerca de 26 vezes no Novo Testamento. Ele aparece no final do Evangelho de Marcos, quatro vezes em Atos dos Apóstolos e 21 vezes na Primeira Epístola aos Coríntios.
Existe a perspectiva teológica do Cessacionismo, que defende que os dons extraordinários cessaram com o fim do cânon bíblico e a morte dos apóstolos.
Porém, os textos de Atos e 1 Coríntios não impõem um “prazo de validade” para a ação do Espírito Santo. Assim, o dom de línguas foi e continua sendo real e genuinamente dado às congregações.
O Dom de Línguas
Agora que entendemos a realidade bíblica desse dom, vamos nos aprofundar no que ele realmente é (frequentemente chamado de glossolalia). O dom de línguas é a capacidade dada pelo Espírito Santo a um crente para se comunicar com Deus (1Co 14.2) e com os homens (crentes ou não).
Conforme Luciano Subirá explica (1998), trata-se de uma linguagem espiritual de oração. Ela transcende o nosso intelecto e opera diretamente por meio do espírito do cristão.
Além da comunicação, as línguas servem como um sinal (1Co 14.22) para os descrentes. Foi exatamente o que ocorreu no dia de Pentecostes, quando todos ouviram as “grandezas de Deus” (At 2.11 ARC).
Portanto, trata-se de uma comunicação sobrenatural. Paulo diz aos coríntios que “o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios”. Ele também reforça que “o que fala língua estranha edifica-se a si mesmo” (1Co 14.4 ARC).
Por esse texto, compreendemos que o dom capacita o crente a se comunicar com Deus de uma forma misteriosa entre o espírito humano e o Criador. Essa comunicação sobrenatural com Deus proporciona a edificação do crente. Ela constrói algo divino em seu interior.
Quem fala com Deus está orando. Logo, quem fala em línguas está orando em línguas! E enquanto ora dessa forma, segundo Paulo, o crente é edificado.
Reinhard Bonnke, em Os dons do Espírito Santo em ação (2013), observa que os outros dons (como sabedoria, conhecimento, profecia e fé) trazem certo decoro. Contudo, as línguas parecem exigir um quebrantamento e uma humilhação do nosso comportamento.
Talvez Deus tenha nos dado esse dom justamente para esvaziar o orgulho humano. Isso mostra que o Espírito Santo é quem realmente governa o crente.
Teólogos como Sam Storms (2014) ressaltam que orar em línguas é uma forma de louvor e intercessão que vai muito além do nosso vocabulário.
Para Bonnke e muitos cristãos, o dom de línguas serve, com frequência, como uma evidência visível de que alguém foi batizado no Espírito Santo.
As Línguas em um Culto Público
Uma coisa é orar em línguas sozinho em casa. Outra bem diferente é fazer isso em um culto público, cercado de crentes e descrentes. Segundo Paulo, o crente não deve ser impedido de orar em línguas. O próprio texto orienta:
“não proibais falar línguas”
1Co 14.39 ARC
No entanto, em público, deve haver interpretação para que todos sejam edificados. Com a interpretação, todos no ambiente recebem a edificação. Caso não haja intérprete, o crente deve ficar “calado na igreja e fale consigo mesmo e com Deus” (1Co 14.28 ARC).
Na prática pastoral de muitas igrejas saudáveis hoje, o crente pode expressar sua devoção em línguas de forma sussurrada ou íntima durante a adoração. Ele apenas não deve chamar atenção para si ou interromper o culto se não houver interpretação.
É por isso que Paulo afirma:
“E, agora, irmãos, se eu for ter convosco falando línguas estranhas, que vos aproveitaria…?”
1Co 14.6 ARC
Sem a interpretação, a mensagem não é inteligível. Não há fruto para a congregação, e o proveito fica apenas para a própria pessoa. Mas, se alguém fala em alta voz e há interpretação, todos são edificados, quase como se fosse uma profecia!
Paulo explica:
“13 Pelo que, o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar.
14 Porque, se eu orar em língua estranha, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto.
15 Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento”
1Co 14.13-15 ARC
O Texto de Paulo aos Coríntios
Os capítulos 11 a 14 da Primeira Carta aos Coríntios lidam com problemas específicos daquela igreja. Paulo precisava ajustar a postura dos crentes em reuniões públicas e na Ceia do Senhor.
O apóstolo não queria criar um tratado teológico complexo sobre dons ou sobre a Ceia. Ele estava apenas resolvendo questões que a igreja de Corinto enfrentava.
Mesmo assim, encontramos ali princípios espirituais valiosos que norteiam a Igreja até os dias de hoje. Eles nos ensinam como o crente deve se portar tanto na Ceia quanto no uso dos dons durante o culto.
Esses temas não aparecem em cartas a outras igrejas simplesmente porque essas outras comunidades não apresentavam esses problemas. A celebração e o uso dos dons já edificavam o povo sem conflitos. Sem problema, sem epístola!
Por outro lado, a igreja de Corinto lidava com imoralidade, idolatria, divisões e muita falta de controle no uso dos dons. Diante disso, Paulo escreve:
“Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação”
1Co 14.26 ARC
Fica claro que Paulo não descarta o que acontecia ali. Ele apenas organiza o que a igreja havia recebido de Deus. Os coríntios tinham salmo, ensino, revelação, línguas e interpretação. O que lhes faltava era ordem para que todos pudessem crescer juntos.
Eles desejavam muito os dons espirituais. Paulo orienta que esse desejo deveria focar, acima de tudo, na edificação da própria igreja (1Co 14.12 ARC). Em resumo, Paulo nunca descarta o dom de línguas. Ele apenas o organiza.
O problema em Corinto não eram as línguas em si. O problema era que alguns crentes se sentiam superiores aos outros por falarem em línguas estranhas.
Paulo reafirma que ninguém deve ser proibido de falar em línguas (1Co 14.39). Porém, assim como a profecia, isso deve ser feito “decentemente e com ordem” (1Co 14.40 ARC). Nessa organização, as línguas são bem-vindas no culto, desde que interpretadas.
Sem interpretação, o crente deve se acalmar e sussurrar sua oração a Deus, afinal, “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1Co 14.32 ARC). Paulo apenas nos lembra que, num culto público, uma língua não interpretada tem um valor coletivo menor do que uma profecia.
Conclusão
Pode parecer, para alguns, que os dons existiam somente na igreja de Corinto. Se fosse assim, só eles deveriam celebrar a Ceia do Senhor, já que o assunto também foi tratado apenas para eles.
No entanto, sabemos que os dons do Espírito Santo, incluindo as línguas, eram uma realidade em todas as igrejas do Novo Testamento. Esse dom maravilhoso capacita o crente a orar em espírito diretamente a Deus, trazendo edificação pessoal.
Quando exercido em público, esse mesmo dom precisa de ordem. A interpretação deve acompanhar a manifestação para que toda a igreja seja edificada. Exatamente como o apóstolo Paulo orientou:
“Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação”
1Co 14.26 ARC
E você?
Como tem buscado os dons espirituais para a edificação da sua vida e da igreja?
Fique na Paz!
Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.
Referências Bibliográficas
- BONNKE, Reinhard. Os dons do Espírito Santo em ação. Belo Horizonte: Bello Publicações, 2013.
- STORMS, Sam. Dons espirituais: uma introdução bíblica, teológica e pastoral. São Paulo: Vida Nova, 2014.
- SUBIRÁ, Luciano Pereira. O falar em línguas: a linguagem sobrenatural de oração. Curitiba: Orvalho, 1998.