O que é Batalha Espiritual? Origens, Práticas e o que a Bíblia Ensina

Frases como “estamos em guerra”, “em Cristo somos mais que vencedores” e “está amarrado” se tornaram muito comuns.

O mesmo acontece com expressões como “vamos tomar esta cidade para o Reino de Deus”, “o Brasil é do Senhor Jesus”, “vamos guerrear contra os principados”, “estratégias de Satanás”, “cercar a cidade” e “espíritos territoriais”.

Isso também é visto em antigas canções, como O nosso general é Cristo, Leão de Judá, Levanta-te, Caiam por terra agora e O Senhor está levantando um exército.

Além disso, temos práticas como ato profético, palavra de vitória, unção com óleo sobre a cidade e mapeamento espiritual. E não podemos esquecer de livros como Ele veio para libertar os cativos, Filho do fogo, A igreja e a batalha espiritual, entre outros.

Enfim, todas essas frases, cânticos, práticas e obras literárias representam uma teologia que ganhou muita força no Brasil a partir dos anos 1980: a Batalha Espiritual.

Diante disso, e como acontece em qualquer movimento que surge no meio protestante, as reações são variadas. Sempre haverá quem critique apenas por ser algo diferente.

Por outro lado, existem críticas fundamentadas com forte argumentação bíblica e teológica. E, claro, há aqueles que passam a adotar as práticas desse novo movimento.

Assim, é muito importante observarmos as origens e as práticas da batalha espiritual. Também precisamos entender o que afirmam os protestantes históricos e os pentecostais (incluindo deuteropentecostais e neopentecostais) sobre o assunto.

A Origem da Batalha Espiritual

Hoje, conhecemos o movimento de batalha espiritual (ou teologia da batalha espiritual). No entanto, não existe um momento histórico exato que defina o seu surgimento.

O que percebemos é uma ênfase crescente a partir do surgimento do neopentecostalismo, entre os anos 1970 e 1980. Esse período foi marcado por intensas transformações socioculturais.

Havia uma grande busca por respostas mais místicas e imediatas para as crises cotidianas. Nesse cenário, a literatura focada no combate direto contra as forças malignas encontrou um solo muito fértil.

Mas, além desse contexto, podemos destacar algumas obras e pessoas que influenciaram decisivamente a construção da teologia da batalha espiritual que temos hoje.

Uma das obras mais antigas que estabelece um fundamento para a batalha espiritual é War on the Saints (Guerra contra os santos). Esse livro foi escrito por Jessie Penn-Lewis (1861-1927) e publicado em 1903.

Mais tarde, no ano de 1973, Kurt E. Koch (1913-1987) publicou Occult ABC (ABC do ocultismo). Além disso, podemos citar a conhecidíssima obra Curai enfermos e expulsai demônios, de Thomas Lee Osborn (1923-2013), lançada em 1951.

Todas essas e diversas outras obras tratavam do mesmo assunto: a guerra do crente em Jesus Cristo contra o reino das trevas. Ou seja, elas ensinam que, desde o momento em que alguém crê em Jesus Cristo, já está inserido em um contexto de guerra espiritual.

Mais tarde, a autora Rebecca Brown Yoder (1948-2020) lançou as obras Ele veio para libertar os cativos, Prepare-se para a guerra e Tribunal de guerra.

Ao mesmo tempo, Charles Peter Wagner contribuiu com os livros Escudo de oração e A luta contra os anjos do mal. Ele também realizou diversos seminários pelo mundo sobre o tema da batalha espiritual.

No Brasil, a autora Neuza Itioka (1942-2024) foi uma das precursoras do movimento. Ela conduziu seminários e publicou obras como Libertando-se das prisões espirituais, restauração sexual, encarnando a palavra libertadora, deuses da umbanda, a cruz e a batalha espiritual e outras mais.

Temos também as obras de Daniel Mastral, como a trilogia Filho do fogo e livros como Rastros do oculto, Guerreiros da luz e outras mais, que reafirmaram de maneira prática a batalha espiritual.

Até mesmo livros de ficção se tornaram manuais práticos desse movimento. É o caso do best-seller Este mundo tenebroso, de Frank E. Peretti.

Práticas da Batalha Espiritual

Toda essa junção de obras, seminários, músicas e pregações, alinhada ao surgimento do neopentecostalismo nos anos 1970 e 1980, trouxe diversas práticas ao meio protestante.

Algumas dessas práticas incluem a oração pelas cidades, atos proféticos e o mapeamento de cidades.

Também houve uma grande ênfase na demonologia (especialmente na hierarquia e nomenclatura de demônios) e na identificação dos chamados espíritos territoriais e espíritos hereditários.

A lista de práticas é extensa: oração de guerra, louvor de guerra, espíritos aprisionados, maldições hereditárias e o uso da armadura de Deus.

Além disso, vemos a unção com óleo, vinho e sal, o entendimento claro da guerra entre o reino das trevas e o Reino de Deus, e a prática de exorcismos (libertação).

Há também uma forte ênfase na oração, no jejum, no temor a Deus, na vida de santidade e na prática da Palavra de Deus.

Hoje, essas e outras práticas fazem parte da vida diária de muitos crentes, principalmente durante os cultos e seminários.

Protestantes Históricos, Pentecostais e Neopentecostais

Assim como outros movimentos que surgiram no meio protestante, a batalha espiritual causou e ainda causa inúmeras discussões no mundo evangélico. Consequentemente, o Brasil também enfrentou – e ainda enfrenta – fortes discórdias sobre o assunto.

De um lado, temos os protestantes históricos. Esse grupo inclui luteranos, anglicanos, calvinistas (reformados) e até mesmo batistas. Eles não desprezam o entendimento de que existe uma guerra entre o reino das trevas e o Reino de Deus.

No entanto, eles afirmam que a ação do reino das trevas (a ação de Satanás e dos demônios) está sempre dentro de limites estabelecidos por Deus.

Ou seja, eles não negam a realidade de Satanás e dos demônios, nem a sua capacidade de fazer o mal e dominar pessoas. Contudo, acreditam que suas forças nunca ultrapassam os limites divinos em virtude de serem criaturas.

Baseados em documentos confessionais (como a Confissão de Fé de Westminster) e em escritos de teólogos como João Calvino, eles também entendem que o crente em Jesus Cristo está guardado por Deus.

Para eles, Satanás não pode tocá-lo, exceto quando há um propósito soberano e permissivo de Deus.

Embora a teologia reformada clássica ensine a soberania exaustiva de Deus sobre todas as coisas (incluindo a ação dos demônios, que operam sob limites divinos), alguns grupos mais extremados e isolados acabam distorcendo esse conceito de decreto divino.

Esses grupos chegam quase a atribuir a Deus a autoria do mal, algo que a própria tradição reformada rejeita.

De todo modo, as práticas modernas da batalha espiritual, inclusive o exorcismo (libertação de pessoas) nos moldes neopentecostais, são raras ou quase inexistentes entre os protestantes históricos.

Antes de observarmos o neopentecostalismo (que aderiu à batalha espiritual), encontramos alguns movimentos pentecostais e deuteropentecostais. Esses grupos não rejeitam totalmente a batalha espiritual, mas não praticam toda a teologia da batalha espiritual.

Ou seja, afirmam a realidade da guerra contra o reino das trevas e reconhecem a hierarquia demoníaca dominando desde pessoas e cidades até nações.

Também fazem uso de exorcismos (libertação de pessoas), acentuam a prática da oração e do jejum, e usam a expressão “em nome de Jesus” e a armadura de Deus para lidar com o reino das trevas.

Além disso, entendem claramente que o pecado abre portas para a ação demoníaca na vida do crente, etc.

Ainda que isso possa variar de uma denominação para outra, algumas denominações pentecostais (como as independentes) e, principalmente, as neopentecostais aderem de forma mais profunda e, por vezes, integral às práticas da batalha espiritual.

Enquanto denominações pentecostais clássicas (como a Assembleia de Deus em sua Declaração de Fé) mantêm o foco no exorcismo bíblico sem necessariamente adotar quebras de maldição hereditária ou mapeamento espiritual, os movimentos neopentecostais abraçaram essas estratégias mais contemporâneas.

Nesse sentido, eles incentivam ativamente a leitura de obras e a participação em seminários sobre batalha espiritual. Isso tudo é fundamentado nas ideias de autores que defendem uma oposição estratégica e territorial contra o reino das trevas.

Nessas denominações, boa parte das pregações enfatiza algum elemento da batalha espiritual, principalmente o exorcismo (libertação de pessoas) e a luta contra o reino das trevas, etc.

Há também, nos cultos, manifestações públicas de pessoas dominadas por demônios, confirmando as obras produzidas por esses espíritos na vida das pessoas.

O que a Bíblia Afirma?

É evidente que a batalha espiritual respalda suas práticas nos mais diversos textos bíblicos.

E, por mais que muitas vezes se despreze o fato de que textos do Antigo Testamento apontam para o Senhor Jesus Cristo (fazendo uso de uma hermenêutica frequentemente tendenciosa), a teologia da batalha espiritual ainda estabelece a Bíblia Sagrada como fundamento.

Outro ponto fundamental é que uma direção de Deus para algo muito específico não pode se tornar uma prática comum para toda uma comunidade de crentes em Jesus.

Ou seja, não é porque em determinada situação houve uma direção de Deus para fazer algo que todas as outras situações devam ser conduzidas da mesma maneira.

Nesse sentido, ao estudarmos os avivamentos na história da Igreja, notamos que eles nunca foram iguais. Sempre houve uma distinção muito clara na maneira de o Espírito Santo agir em cada um desses avivamentos.

Há um perigo quando normatizamos a maneira de Deus agir. Isto é, existe um risco real quando fazemos de uma ação específica de Deus para um determinado momento uma doutrina dentro do Reino de Deus.

Agora, sem entrar em cada detalhe das práticas da batalha espiritual, biblicamente não há como negar que há um imenso e intenso conflito com o reino das trevas, com Satanás e com os demônios.

Afinal, além de termos a nossa carne como nossa inimiga, temos ainda o mundo e o diabo. Assim, há uma batalha contra o reino das trevas. É nesse sentido que o apóstolo Paulo afirma:

“porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais”
Ef 6.12 ARC

Nesse texto, os termos gregos originais utilizados por Paulo, como archas (principados, referindo-se a primazias e seres angelicais caídos de alta patente) e exousias (potestades, denotando autoridades que exercem domínio e jurisdição), revelam que há uma guerra contra um reino estrategicamente organizado e estruturado por Satanás.

Essa é uma realidade indiscutível em todo o Novo Testamento. A grande questão é incluirmos mais do que a Bíblia afirma como estratégia de guerra contra o reino das trevas.

Nesse sentido, o mesmo texto de Paulo apresenta como um crente em Jesus Cristo deve se portar diante de um combate com o reino das trevas: com a armadura de Deus.

Essa armadura envolve a prática de uma vida na verdade, na justiça, no Evangelho da paz, na fé e na salvação. Também exige o firme alicerce na Palavra de Deus, na oração e súplica no Espírito, na vigilância com perseverança e na súplica por todos os crentes (Ef 6.13-18).

O mesmo texto que é a base para a nossa batalha espiritual é o texto que resume nossas práticas diante dessa batalha. Além disso, as palavras de Jesus afirmam que “estes sinais seguirão os que crerem” (Mc 16.17 ARC). Mas que sinais?

“em meu nome, expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”
Mc 16.17,18 ARC

Usar a autoridade no nome de Jesus Cristo é superior a qualquer outra prática na batalha do crente contra o reino das trevas. Nesse sentido, a armadura de Deus e a autoridade no nome de Jesus são o fundamento para a prática bíblica diante de uma batalha espiritual.

As demais coisas são secundárias. Elas até mesmo soam como um acréscimo ao que Deus já estabeleceu em sua Palavra.

E você?

O que pensa sobre a batalha espiritual na sua caminhada de fé?

Fique na Paz!

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Referências Bibliográficas

  • BROWN, Rebecca. Ele veio para libertar os cativos. Editora Dinâmica.
  • BROWN, Rebecca. Prepare-se para a guerra. Editora Dinâmica.
  • ITIOKA, Neuza. Libertando-se das prisões espirituais. Editora Ágape.
  • ITIOKA, Neuza. A cruz e a batalha espiritual. Ministério Ágape Reconciliação.
  • KOCH, Kurt E. Occult ABC (ABC do ocultismo). Kregel Publications.
  • MASTRAL, Daniel. Filho do fogo. Editora Naós.
  • OSBORN, T. L. Curai enfermos e expulsai demônios. Graça Editorial.
  • PENN-LEWIS, Jessie. Guerra contra os santos. Editora dos Clássicos.
  • PERETTI, Frank E. Este mundo tenebroso. Editora Vida.
  • WAGNER, C. Peter. A luta contra os anjos do mal. Editora Unilit.

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