Um elemento fundamental na teologia protestante (ou evangélica) é a regeneração1. Ela é o novo nascimento, assunto que Jesus abordou em seu diálogo com Nicodemos (Jo 3:1-21).
Embora a palavra regeneração não apareça nessa conversa, Jesus foi claro: sem nascer de novo, ninguém poderá ver o Reino de Deus (Jo 3:3). E mais, sem nascer da água e do Espírito, ninguém poderá entrar no Reino de Deus (Jo 3:5).
Assim, para a teologia protestante, a ação da regeneração é indispensável para ver e entrar no Reino. Esse pré-requisito já é unanimidade.
No entanto, ainda existem diversas interpretações sobre o que Jesus realmente quis dizer com o “nascer da água e do Espírito” (Jo 3:5, ARC).
Significado do Novo Nascimento e da Regeneração
A palavra regeneração vem do latim regenerationis e do grego paliggenesia. Ela traz o sentido de novo nascimento, reprodução, renovação e recriação (ANDRADE, Dicionário Teológico, p. 317).
Na Bíblia, encontramos essa expressão grega na Epístola a Tito, que nos diz:
“nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”
Tt 3.5 ARC
O Texto Bíblico
Somente o Evangelho de João nos apresenta, em seu terceiro capítulo, o diálogo de Jesus com um fariseu e príncipe dos judeus chamado Nicodemos (Jo 3:1).
João destaca que essa conversa aconteceu à noite (Jo 3:2). Talvez isso tenha ocorrido por causa da posição de Nicodemos na classe religiosa judaica.
Afinal, àquela altura do ministério de Jesus, os líderes religiosos já buscavam uma forma de eliminá-lo sem causar tumulto nas multidões.
Vale lembrar que, segundo o Evangelho de João, Jesus já havia entrado no templo em Jerusalém e expulsado os vendedores e cambistas.
Além disso, os evangelhos sinóticos relatam que Ele já tinha denunciado que o templo perdera seu objetivo, virando um “covil de ladrões” (Lc 19:45, NVI).
Essa atitude de Jesus no templo, que era o centro religioso dos judeus, inflamou ainda mais o ódio dos líderes contra Ele. É exatamente nesse cenário tenso que ocorre o diálogo noturno com Nicodemos.
O Diálogo Noturno com Nicodemos
Durante a conversa, Nicodemos começa dizendo que a classe religiosa reconhecia Jesus como um mestre enviado por Deus. Afinal, os sinais que Ele realizava provavam a sua origem divina (Jo 3:2).
Contudo, Jesus não tenta reafirmar a divindade de suas obras. Ele vai direto ao ponto e declara a Nicodemos:
“aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”
Jo 3.3 ACF
A reação de Nicodemos foi de puro espanto. Ele perguntou:
“Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!”
Jo 3.4 NVI
Então, de forma ainda mais profunda e enfática, Jesus responde:
“Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”
Jo 3.5 ARC
Ele completa dizendo que “o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3:6, ARC).
O diálogo segue até o versículo 21. É nesse trecho final que encontramos o versículo mais conhecido de todo o Novo Testamento:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”
Jo 3.16 ARC
Nascer da Água e do Espírito
Como vimos, Jesus disse primeiro que “aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3:3, ACF). Esse texto é um dos grandes fundamentos da regeneração operada pelo Espírito Santo.
Em outras palavras, quem crê em Jesus Cristo passa por uma transformação espiritual (ação pneumatológica). Ele se torna uma nova criatura e começa a ter o entendimento necessário para “ver o Reino de Deus”.
Nicodemos e os judeus sabiam que Jesus era um mestre enviado por Deus, mas apenas saber disso não era suficiente. Nascer de novo é indispensável à salvação, e foi por isso que Jesus afirmou:
“É necessário que vocês nasçam de novo”
Jo 3.7 NVI
Como Nicodemos (mesmo sendo mestre em Israel) não entendeu o que significava o nascer de novo, Jesus acrescentou:
“aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”
Jo 3.5 ARC
Observe: antes, o nascer de novo permitia ver o Reino. Agora, nascer da água e do Espírito é a condição para entrar nele. Mas o que isso realmente significa?
Diferentes Interpretações Teológicas
Existem interpretações mais liberais, como a do teólogo Rudolf Bultmann, sugerindo que a palavra “água” nem fazia parte dos textos originais do Evangelho de João.
Segundo essa visão, a palavra pode ter sido um acréscimo posterior feito pelo próprio João ou por quem lhe contou a história.2
Outra interpretação enxerga dois nascimentos diferentes na expressão. O nascer da água seria o nascimento humano (o rompimento do líquido amniótico ou uma metáfora para o sêmen), enquanto o nascer do Espírito seria a obra de Deus através do Espírito Santo.2
Porém, a grande maioria dos intérpretes bíblicos descarta essas duas ideias.
Por outro lado, existem visões muito mais coerentes com a realidade do Evangelho de João e com a mensagem de Cristo. F. F. Bruce, por exemplo, entende que a declaração de Jesus funciona como um “amém duplo”, trazendo ainda mais ênfase à necessidade do novo nascimento.3
Lembrando que o Evangelho de João era voltado aos judeus, falar de nascer da água e do Espírito era usar a “linguagem do Antigo Testamento”. Isso indicava um evento sobrenatural, e não um simples retorno físico ao ventre materno.3
A Conexão com as Profecias do Antigo Testamento
Nessa perspectiva, o nascer da água e do Espírito está ligado às promessas proféticas de Ezequiel:
“Então espalharei água pura sobre vós, e ficareis purificados”
Ez 36.25 ARC
E também:
“E porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos” (Ez 36:27, ARC).3
Sendo fariseu e mestre, Nicodemos conhecia muito bem os banhos rituais judaicos (mikveh) e o batismo aplicado a prosélitos que abraçavam o judaísmo.
Se o “nascer da água” fosse apenas uma referência a esses ritos comuns, ele não teria ficado tão atônito.
A incompreensão de Nicodemos mostra que Jesus estava falando de uma purificação celestial e superior, algo que os rituais terrenos apenas prenunciavam.
O Novo Nascimento como “Nascer do Alto”
Para D. A. Carson, ao falar sobre nascer de novo, Jesus afirma que é preciso “nascer do alto”. No grego original, a palavra anothen carrega justamente o sentido de nascer de um lugar mais alto.4
Como Nicodemos teve dificuldade em entender esse conceito, Jesus foi mais didático. Ao falar da água e do Espírito, Ele mostrou que existe “uma fonte” de água no Espírito.5
Ou seja, o novo nascimento (o nascer do alto) é um verdadeiro “derramar do Espírito” sobre a vida do cristão, apontando mais uma vez para os textos de Ezequiel 36 e 37.6
Nesse momento, Nicodemos falhou em perceber o que o próprio Antigo Testamento já ensinava sobre o derramar do Espírito.
A Água como Símbolo de Purificação e Batismo
O autor alemão Werner de Boor sugere que Jesus estava usando um conceito de água que Nicodemos pudesse compreender.
No Evangelho de João, a água aparece fortemente como símbolo de purificação (como no batismo de João Batista, no milagre em Caná e com a mulher samaritana).7
Isso aponta para o batismo nas águas como um sinal público de arrependimento. Assim, o nascer da água e do Espírito engloba o batismo nas águas seguido pela “nova vida” gerada pelo Espírito Santo de Deus.8
Boor também concorda que os textos de Ezequiel formavam o cenário do Antigo Testamento ideal para que Nicodemos entendesse a dinâmica do Reino de Deus.8
Já o autor J. Ramsey Michaels destaca que “nascer de novo ou nascido do Espírito refere-se a ter uma vida radicalmente transformada pelo poder de Deus”.9
Além de apresentar outras visões, ele afirma ser “mais provável que nascer da água e do Espírito Santo seja uma metáfora do batismo com água e com o Espírito Santo”.10
Michaels lembra que a água e o Espírito estavam muito presentes na mensagem de João Batista, que dizia:
“Eu vos batizo com água” e, apontando para Jesus, declarou que “esse é que batiza com o Espírito Santo”
Jo 1.26, 33 ARC10
Para ele, o batismo de João Batista ficava incompleto sem o Espírito. A união entre o batismo nas águas e o Espírito Santo tornou-se a norma prática no livro de Atos.11
Isso fica evidente nas palavras de Pedro:
“Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”
At 2.38 ARC12
Considerações Finais
As análises de estudiosos como Bruce, Carson, Boor e Michaels nos mostram que essas interpretações não são isoladas ou excludentes. Na verdade, elas se complementam.
O “nascer da água” aponta para a promessa profética de Ezequiel sobre purificação espiritual e moral.
E, ao mesmo tempo, encontra no batismo nas águas a sua expressão pública de fé e arrependimento, um símbolo visível de uma obra interior infinitamente mais profunda.
A Prática na Igreja Contemporânea
Para a Igreja de hoje, entender o alcance dessa doutrina vai muito além de debates acadêmicos. Essa é a verdadeira base do nosso ministério prático e do discipulado contínuo de novos irmãos em Cristo.
Quando ministramos o batismo nas águas em nossa congregação, não estamos realizando apenas um rito de passagem comunitário.
Estamos, na verdade, testemunhando o resultado de uma obra sobrenatural iniciada e consumada pelo Espírito Santo.
É essa regeneração que capacita o pecador não apenas a enxergar, mas a adentrar o Reino de Deus como uma nova criatura.
E você?
O que o nascer da água e do Espírito tem transformado na sua caminhada com Deus?
Fique na Paz!
Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.
Referências Bibliográficas e Notas
- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico: nova edição revista e ampliada. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
- BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada, Almeida revista e corrigida. 4ª ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
- BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.
- BOOR, Werner de. Evangelho de João I: comentário esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2002.
- BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1987.
- CARSON, D. A. O comentário de João. 1ª ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.
- MICHAELS, J. Ramsey. Novo comentário bíblico contemporâneo: João. São Paulo: Editora Vida, 1994.
- 1 Na teologia protestante a regeneração é o “ato de nascer de novo”, um “milagre” operado pelo Espírito Santo que se dá na vida de quem creu no Senhor Jesus Cristo.
- 2 CARSON, O comentário de João, 192.
- 3 BRUCE, João: introdução e comentário, p.81.
- 4 CARSON, O comentário de João, 189.
- 5 CARSON, O comentário de João, 195.
- 6 CARSON, O comentário de João, 196.
- 7 BOOR, Evangelho de João I: Comentário esperança, p.86.
- 8 BOOR, Evangelho de João I: Comentário esperança, p.87.
- 9 MICHAELS, Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: João, p.66.
- 10 MICHAELS, Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: João, p.67.
- 11 MICHAELS, Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: João, p.67-68.
- 12 MICHAELS, Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: João, p.68.
Perguntas Frequentes
Nascer de novo e regeneração são a mesma coisa?
Sim, vistas de ângulos diferentes. “Nascer de novo” é a imagem que Jesus usou diante de Nicodemos; regeneração é o nome que a teologia deu a ela depois. O grego paliggenesia, que aparece em Tito 3.5, carrega o sentido de recomeço produzido por Deus. A palavra não ocorre em João 3, mas a realidade que ela descreve ocupa o diálogo inteiro.
Por que Nicodemos procurou Jesus de noite?
João registra o horário e não dá o motivo (Jo 3:2). O cenário sugere cautela: Nicodemos pertencia à liderança religiosa, e essa liderança já procurava um modo de eliminar Jesus depois do que Ele fizera no templo. Uma conversa noturna permitia ouvi-lo sem se expor aos seus pares.
Qual a diferença entre ver o Reino e entrar no Reino?
Jesus faz duas afirmações em degraus. A primeira trata de percepção: sem o novo nascimento a pessoa sequer reconhece o Reino quando ele está à sua frente. A segunda trata de acesso. Nicodemos ilustra o primeiro degrau melhor que qualquer explicação — era mestre em Israel e mesmo assim ficou preso à ideia de voltar ao ventre materno.
A “água” de João 3.5 é o nascimento físico?
É uma das propostas: água como parto humano, Espírito como a obra divina acrescentada a ele. A maioria dos intérpretes a descarta, assim como descarta a tese de Bultmann de que “água” seria um acréscimo posterior ao texto de João. Nos dois casos a objeção é a mesma — Jesus falava a um judeu, com vocabulário profético que esse judeu tinha obrigação de reconhecer.
Nascer da água significa batismo nas águas?
Boor e Michaels defendem que sim. Em João a água aparece repetidamente ligada à purificação, e a pregação de João Batista já emparelhava o batismo em água com o batismo no Espírito. O rito não fabrica o novo nascimento; torna visível uma obra que o Espírito já realizou por dentro. Em Atos as duas coisas caminham juntas na vida da igreja.
O que Ezequiel tem a ver com o diálogo de João 3?
Tudo, e é aí que a resposta de Jesus ganha peso. Ezequiel 36 promete água que purifica e Espírito que muda a conduta — as duas metades da frase de João 3.5, na mesma ordem. Nicodemos ensinava a Lei e deveria ter reconhecido de onde vinha aquela linguagem. O espanto dele denuncia uma leitura rasa das próprias Escrituras.
Anothen quer dizer “de novo” ou “do alto”?
O grego comporta os dois sentidos. Carson entende que aqui pesa o de origem: nascer de cima, da parte de Deus. Nicodemos ouviu só “outra vez”, e por isso respondeu com a impossibilidade biológica. O desencontro é o recurso com que João mostra a distância entre o cálculo humano e a obra do Espírito.