Nicodemos foi um fariseu e membro do Sinédrio que procurou Jesus de noite, ouviu que precisava nascer de novo e não entendeu.
Ele aparece três vezes na Bíblia, todas no Evangelho de João, e as três formam uma linha: na primeira vem às escondidas, na segunda fala em voz alta diante dos colegas, e na terceira carrega o corpo de Jesus à vista de todos.
Hoje, vamos percorrer as três aparições, o que a conversa da primeira noite realmente disse e a pergunta que quase todo leitor faz no fim: afinal, Nicodemos se converteu?
Sobre a tradução: as citações bíblicas deste artigo usam a Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo indicação em contrário.
Quem Foi Nicodemos e o que a Bíblia Diz Dele
O texto apresenta Nicodemos numa frase que já diz quase tudo: “E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus” (Jo 3:1 ACF).
Fariseu, portanto — o grupo mais rigoroso no cumprimento da Lei. E “príncipe dos judeus”, expressão que indica assento no Sinédrio, o conselho que julgava as questões religiosas e boa parte das civis do povo judeu1.
Ele aparece três vezes, e só no Evangelho de João:
- João 3.1-21 — a conversa noturna, de longe a mais conhecida;
- João 7.50-52 — a defesa no conselho, quando os líderes queriam prender Jesus sem ouvi-lo;
- João 19.39-42 — o sepultamento, ao lado de José de Arimateia.
Nenhum dos outros evangelhos o menciona. E João, que o menciona três vezes, faz questão de lembrar em cada uma delas que esse é o homem que veio de noite.
O que Significa o Nome Nicodemos
O nome é grego, composto de duas palavras: níkē, vitória, e dêmos, povo. “Vencedor do povo”, ou “vitória do povo”.
Vale reparar que é um nome grego, e não hebraico: ele já pertencia ao mundo de fora, o mesmo mundo que a instituição a que ele servia procurava manter à distância. Quanto ao significado, porém, João nunca o explora — não há trocadilho com “vitória” em nenhuma das três aparições, e as leituras que transformam o nome em resumo da trajetória dele são invenção posterior, não do texto.
Fariseu e Membro do Sinédrio: Qual Era a Função Dele
Duas informações se somam no versículo de apresentação, e cada uma pesa.
Fariseu significa que ele havia escolhido o padrão mais exigente de observância da Lei que existia no judaísmo da época2. É um dado sobre disciplina pessoal, e não sobre hipocrisia — nem todo fariseu era hipócrita, e o retrato que João faz de Nicodemos é o de um homem sincero na busca pela verdade2.
Príncipe dos judeus o coloca no Sinédrio, o conselho que reunia os principais líderes religiosos, com autoridade para julgar e condenar. É o mesmo corpo que, mais tarde, conduziria o julgamento de Jesus.
E há um detalhe da composição desse conselho que muda a leitura da cena. O Sinédrio de Jerusalém era formado por aristocratas de origem sacerdotal ligados ao grupo dos saduceus, e presidido pelo sumo sacerdote, e representantes dos fariseus já eram admitidos como membros no período do Novo Testamento5.
Ou seja, Nicodemos era fariseu dentro de um conselho onde os fariseus eram a parte menor. Quando ele abre a boca em João 7, está falando de uma posição que já era minoritária ali dentro.
Quando Nicodemos procura Jesus, portanto, não é um curioso da multidão que se aproxima. É alguém de dentro da instituição que estava começando a se opor a Ele.
Outro fariseu do Novo Testamento seguiu caminho parecido, e vale conhecer a história de Paulo para ver como a mesma formação produziu dois desfechos bem diferentes.
Por Que Nicodemos Procurou Jesus de Noite
“Este foi ter de noite com Jesus” (Jo 3:2 ACF). João repete esse detalhe nas três aparições, o que mostra que ele conta.
A explicação mais comum é o medo: um líder religioso não podia ser visto conversando com o rabino incômodo da Galileia.
É uma leitura possível, e o próprio João dá base para ela mais adiante: “até muitos dos principais creram nele; mas não o confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da sinagoga” (Jo 12:42 ACF).
Há outra leitura, e ela também tem peso. À noite não havia multidão, não havia interrupção e não havia plateia; um mestre que quisesse conversar de verdade, e não debater em público, escolheria exatamente esse horário2.
Há ainda uma terceira, ligada ao cargo. Examinar quem surgia ensinando era assunto da liderança de Jerusalém — foi o que ela fez com João Batista, quando “os judeus mandaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu?” (Jo 1:19 ACF). Nicodemos podia estar fazendo, por conta própria, o que o conselho fazia por comissão.
As três explicações convivem, e o texto não fecha a questão. O que ele registra é o horário — e o fato de que, três capítulos depois, o mesmo homem falaria em plena sessão do conselho.
“Rabi, Bem Sabemos”: O que Ele Já Tinha Reconhecido
A fala de abertura de Nicodemos é mais ousada do que costuma parecer: “Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele” (Jo 3:2 ACF).
Um membro do Sinédrio chamando Jesus de “Mestre vindo de Deus” é uma concessão enorme, e ele a faz antes de qualquer pergunta.
Repare também no plural: “bem sabemos”. Ele não fala apenas por si. É possível que estivesse representando um grupo dentro da liderança — pessoas que tinham chegado à mesma conclusão e não diziam em voz alta2.
Nascer de Novo: a Resposta que Ele Não Esperava
Nicodemos não chegou a formular uma pergunta. Jesus responde ao que ele ainda ia dizer:
“Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3 ACF).
O termo traduzido por “de novo” carrega outro sentido no grego: “do alto”2. Os dois significados servem à mesma verdade — o nascimento em questão vem de cima, e é um segundo nascimento.
E há a força do que a frase nega. Não se trata de melhorar, de aprender mais nem de cumprir melhor. Para o homem mais bem preparado religiosamente daquela sala, a exigência foi começar de novo.
O ensino completo dessa conversa, incluindo o que significa “nascer da água e do Espírito”, está no artigo sobre o novo nascimento.
“Como Pode Ser Isso?” — a Cegueira do Mestre
A reação de Nicodemos é literal, quase infantil: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?” (Jo 3:4 ACF).
Jesus continua, ele insiste — “Como pode ser isso?” (Jo 3:9 ACF) —, e então vem a única frase dura da conversa: “Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?” (Jo 3:10 ACF).
O peso está no título. Ele era professor do povo, especialista nas Escrituras, e não reconheceu aquilo que os profetas já haviam anunciado — o coração novo, o espírito novo, a água que purifica.
Vale reparar em quem é o cego aqui. Homem de alto caráter moral, de disciplina religiosa exemplar e de anseio espiritual sincero — e, ainda assim, incapaz de enxergar o que estava sendo dito2. Preparo religioso não produz, por si, entendimento espiritual.
João 3.16 Foi Dito Nessa Conversa
O versículo que abre quase todo folheto evangelístico tem endereço, e o endereço é esta conversa. Foi respondendo a Nicodemos que Jesus disse:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16 ACF).
João 3.16 não foi dito a uma multidão, nem numa sinagoga, nem do alto de um monte. Foi dito de madrugada, para um só ouvinte, e esse ouvinte era um fariseu confuso.
A Segunda Aparição: Nicodemos Enfrenta o Sinédrio
Passam-se capítulos. Os líderes decidem prender Jesus, e é aí que Nicodemos reaparece — desta vez falando, e diante dos colegas:
“Porventura condena a nossa lei um homem sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz?” (Jo 7:51 ACF).
Ele não defende a doutrina de Jesus. Defende o devido processo: ninguém é condenado sem ser ouvido, que é o que a própria Lei deles determinava.
A resposta que recebe é reveladora: “És tu também da Galiléia? Examina, e verás que da Galiléia nenhum profeta surgiu” (Jo 7:52 ACF). Não responderam ao argumento — ridicularizaram quem o fez. É a manobra de sempre: na falta de resposta, ataca-se o autor da pergunta3.
E João faz questão de identificá-lo justamente ali como “o que de noite fora ter com Jesus” (Jo 7:50 ACF). O homem que veio às escondidas agora fala em sessão aberta.
A Terceira: Trinta Quilos de Especiarias
A última aparição é no dia mais escuro, e é a mais pública das três:
“E foi também Nicodemos (aquele que anteriormente se dirigira de noite a Jesus), levando quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés” (Jo 19:39 ACF).
Cem arráteis passam de trinta quilos4 — quantidade de sepultamento real, e não de amigo discreto. Dois detalhes mudam a leitura dessa cena.
O primeiro é o custo pessoal. Ao tocar num corpo morto, os dois se tornaram cerimonialmente impuros e ficaram impedidos de participar da Páscoa4. Escolheram o corpo de Jesus em vez da festa.
O segundo é o preparo. Não se compra trinta quilos de especiarias caras e não se arranja um túmulo novo de última hora, em plena Páscoa, com o comércio parado4. Aquilo foi combinado antes — o que significa que Nicodemos já tinha tomado a decisão enquanto Jesus ainda estava vivo.
Nicodemos se Converteu?
É a pergunta que mais se faz sobre ele, e a resposta honesta começa pelo que o texto não diz: a Bíblia não registra uma profissão de fé de Nicodemos, nem o descreve como discípulo.
O que ela registra é uma trajetória, e ela anda sempre na mesma direção:
| Momento | O que ele fez | Exposição |
|---|---|---|
| João 3 | Procurou Jesus de noite | Nenhuma |
| João 7 | Defendeu Jesus no conselho | Diante dos pares |
| João 19 | Sepultou Jesus com José de Arimateia | Pública, e com custo |
Três cenas, e em cada uma ele aparece mais exposto do que na anterior. No fim, o homem que evitava ser visto está carregando o corpo de um condenado, na frente de quem quiser ver.
Há, porém, um detalhe que pesa para o outro lado, e ele está no mesmo capítulo do sepultamento.
Ao apresentar o companheiro de Nicodemos naquela tarde, João escreve: “José de Arimatéia (o que era discípulo de Jesus, mas oculto, por medo dos judeus)” (Jo 19:38 ACF).
Marcos o chama de “senador honrado, que também esperava o reino de Deus” (Mc 15:43 ACF), e Lucas registra que ele “não tinha consentido no conselho e nos atos dos outros” (Lc 23:51 ACF).
Os evangelistas dizem de José exatamente aquilo que não dizem de Nicodemos: discípulo, ainda que oculto; homem que esperava o reino; membro do conselho que se recusou a acompanhar a decisão dos colegas.
Repare no peso disso. João tinha a palavra “discípulo” à mão, usou-a três linhas antes, para o homem que estava ao lado — e não a usou para Nicodemos. Os dois carregaram o mesmo corpo, e só um recebeu o rótulo.
Isso não decide a questão em nenhuma das duas direções. É o limite honesto do que o texto entrega: uma trajetória inteira apontando para um lado, e um silêncio bem no ponto em que o leitor gostaria de uma palavra.
A Escritura não fecha a questão, e este artigo também não vai fechar. Mas vale notar que João escolheu contar as três cenas, nessa ordem — e escolheu também o que deixar de dizer.
O Que Aconteceu com Nicodemos Depois
Depois do sepultamento, a Bíblia se cala. Nicodemos não reaparece em Atos, não é citado nas cartas e não há registro de como morreu.
O que existe são tradições posteriores, e nenhuma delas tem apoio no texto bíblico. Há também um escrito antigo que leva o nome dele — o Evangelho de Nicodemos, também chamado de Atos de Pilatos —, mas ele é apócrifo, não faz parte do cânon e é bem posterior aos evangelhos: os estudiosos o situam por volta do século IV.
Ou seja, sobre o fim da vida dele, o mais honesto é dizer que não sabemos.
Lições da Vida de Nicodemos para Hoje
Saber muito e não entender são coisas diferentes. Ele era mestre em Israel e não reconheceu o que os profetas já tinham dito. Conhecimento religioso não substitui o nascimento de que Jesus falou.
Começar às escondidas é começar. A primeira visita foi de noite, e ninguém no texto o repreende por isso. O que importa é que houve uma segunda e uma terceira.
Defender o justo custa, mesmo quando você tem razão. Nicodemos pediu apenas que ouvissem o acusado, e foi ridicularizado por isso pelos próprios colegas.
A fé aparece no que se combina de antemão. Os trinta quilos de especiarias não foram um gesto de impulso: foram comprados antes, por alguém que já tinha decidido de que lado ficaria.
Nem toda história bíblica termina com um desfecho declarado. A de Nicodemos termina num sepultamento e num silêncio — e ainda assim a direção dela é inconfundível.
Perguntas Frequentes
Quem foi Nicodemos na Bíblia?
Nicodemos foi um fariseu e membro do Sinédrio, o conselho religioso judaico, que procurou Jesus de noite para conversar (João 3).
Aparece três vezes, todas no Evangelho de João: na conversa noturna, na defesa de Jesus diante do conselho (João 7.50-52) e no sepultamento, ao lado de José de Arimateia (João 19.39-42).
Por que Nicodemos procurou Jesus à noite?
O texto informa o horário, mas não o motivo. Há duas leituras comuns: o receio de ser visto conversando com Jesus, já que era membro do conselho, e o desejo de ter uma conversa longa e sem interrupção, o que de dia seria impossível por causa das multidões. As duas explicações são compatíveis com o relato.
Nicodemos era fariseu? Qual era a função dele?
Sim. João 3.1 o chama de fariseu e de “príncipe dos judeus”, expressão que indica assento no Sinédrio. Os fariseus formavam o grupo mais rigoroso no cumprimento da Lei, e o Sinédrio era o conselho com autoridade para julgar questões religiosas do povo judeu.
Nicodemos se converteu?
A Bíblia não registra uma profissão de fé dele nem o chama de discípulo. O que ela mostra é uma trajetória em três passos, cada um mais exposto que o anterior: a visita noturna, a defesa pública no conselho e o sepultamento de Jesus, feito às claras e com custo pessoal — os trinta quilos de especiarias e a impureza cerimonial que o impediu de participar da Páscoa.
O que significa o nome Nicodemos?
Nicodemos é um nome grego formado por níkē (“vitória”) e dêmos (“povo”), com o sentido de “vencedor do povo”. A Bíblia não comenta o significado do nome dele em passagem nenhuma.
O Evangelho de Nicodemos está na Bíblia?
Não. O chamado Evangelho de Nicodemos, também conhecido como Atos de Pilatos, é um escrito apócrifo, fora do cânon das Escrituras e bem posterior aos evangelhos — os estudiosos o situam por volta do século IV. Ele não é fonte para a vida de Nicodemos.
Como Nicodemos morreu?
A Bíblia não registra a morte de Nicodemos. Depois do sepultamento de Jesus, em João 19, ele não é mencionado outra vez nas Escrituras. Existem tradições posteriores sobre o fim da vida dele, mas nenhuma tem apoio no texto bíblico.
Conclusão
A história de Nicodemos cabe em três cenas e num movimento só.
Na primeira, ele vem de noite, cheio de perguntas e sem entender a resposta. Na segunda, fala em voz alta e é ridicularizado. Na terceira, carrega trinta quilos de especiarias até uma cruz, à vista de todos, e perde a Páscoa para sepultar um condenado.
Não há registro do que ele disse ao fim, nem do que aconteceu com ele depois. Mas foi para esse homem, e não para uma multidão, que Jesus disse a frase que o mundo inteiro repete: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16 ACF).
E você?
Em que ponto dessa caminhada você está: ainda vindo de noite, já falando em voz alta, ou disposto a pagar o preço à luz do dia?
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Fique na Paz!
Fontes
- HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Vida, 2015, comentário de João, seção “A conversa de Jesus com Nicodemos (3.1-21)”.
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. I. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 379.
- WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, Novo Testamento, vol. I, p. 410.
- WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, Novo Testamento, vol. I, p. 499.
- HELYER, Larry R. “O Sinédrio”. In: HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Vida, 2015, verbete “O Sinédrio”.
- Bíblia Almeida Corrigida Fiel (ACF). Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.