Quem Foi José de Arimatéia na Bíblia?

Durante o processo de prisão, julgamento, sentença, execução e sepultamento de Jesus, poucas pessoas expuseram suas vidas a favor Dele.

Dos seus doze discípulos, apenas João acompanhou todo esse processo. Ele esteve presente desde a última ceia, na noite de quinta-feira, até a crucificação.

A condenação de Jesus foi tratada como a de um criminoso perigoso. Para o Império Romano, Ele parecia agir com violência. Para a classe religiosa, era um pervertedor da ordem estabelecida pelos judeus.

Afinal, Ele chegou a chamar o templo sagrado de covil de salteadores (Lc 19.46), ou seja, um lugar que servia de abrigo para ladrões.

Tudo isso contribuiu para o tipo de morte terrível que Ele enfrentou. Por essa razão, poucos tiveram coragem de expor suas próprias vidas para acompanhar o seu processo criminal.

O medo de também sofrerem prisão e condenação fez com que a multidão da entrada triunfal (Lc 19.28-44) desaparecesse. Até mesmo aqueles que já o seguiam o deixaram em profunda solidão.

Mas, no meio desse pequeno grupo que arriscou a vida, encontramos um membro do Sinédrio. Esse homem não concordou com a decisão dos outros líderes de prender Jesus.

Ele se chamava José, era natural da cidade de Arimateia e, por isso, ficou mundialmente conhecido como José de Arimateia.

José de Arimatéia

A Bíblia Sagrada traz poucas citações sobre ele: encontramos apenas uma em cada Evangelho (Mt 27.57; Mc 15.43; Lc 23.51; Jo 19.38). Todas elas estão diretamente ligadas à execução e ao sepultamento de Jesus.

Ainda assim, por meio dessas citações, conseguimos construir uma boa compreensão sobre sua história. Primeiramente, sabemos que ele era de Arimateia.

Esse local talvez seja Ramá (também conhecida como Ramataim-Zofim), cidade a uns 30 quilômetros a noroeste de Jerusalém, onde nasceu o profeta Samuel (1Sm 1.1,19).

Além disso, a Palavra diz que ele era rico e discípulo de Jesus (Mt 27.57), embora fosse um discípulo oculto devido ao medo que tinha dos judeus (Jo 19.38).

Em segundo lugar, o texto bíblico nos conta que ele era um “senador honrado” e que esperava o Reino de Deus (Mc 15.43). No original grego, a palavra traduzida como senador é bouleutēs, que significa membro de um conselho – nesse caso, o próprio Sinédrio.

Isso não era um cargo político romano. Pelo contrário, era uma posição de altíssima honra na estrutura religiosa e judicial do judaísmo do primeiro século.

Em terceiro lugar, José era um homem de bem e justo. O evangelista Lucas destaca que ele “não tinha consentido no conselho e nos atos dos outros” (Lc 23.51, ARC), referindo-se aos demais membros do Sinédrio.

Vale a pena lembrar que o Sinédrio era o conselho supremo do judaísmo naquela época. Ele era composto por 71 membros (entre sumos sacerdotes, anciãos e escribas) e funcionava sob a presidência do sumo sacerdote.

Eles decidiam as questões religiosas, civis e até criminais mais graves do povo. Discordar deles em um julgamento dessa magnitude não era algo simples. Quem ousasse fazer isso se expunha a sérias represálias da sociedade judaica.

Com essas informações em mãos, concluímos que José de Arimateia possuía muitas virtudes. Ele aguardava o Reino de Deus e seguia a Cristo de modo discreto.

Sua atitude lembra muito a de seu amigo Nicodemos. Por medo das retaliações dos líderes judeus, ambos preferiam não manifestar publicamente a fé em Jesus.

Demonstrando a Fé Publicamente

Apesar de o texto bíblico nos apresentar esse perfil discreto inicialmente, houve um momento em que a fé de José falou mais alto que a sua reputação no Sinédrio.

Sem se importar com as consequências ou com o que fariam contra ele, José se expôs diante de todos. E isso ocorreu justamente no momento mais tenso e violento do Novo Testamento: a prisão, o julgamento, a execução e o sepultamento de Jesus.

Antes de falarmos mais sobre a atitude dele, é importante lembrarmos um detalhe. A crucificação era uma punição aplicada unicamente pelos romanos contra os piores crimes do Império. Era uma execução legal, irreversível, extremamente sofrida, vergonhosa e lenta.

Por ser uma sentença voltada aos crimes mais severos, os romanos raramente removiam o corpo da cruz.

Retirar um condenado dali soava como associação ao crime ou rejeição à pena aplicada. Geralmente, os corpos ficavam expostos até serem devorados por corvos e cães de rua, que espalhavam os restos pela cidade.

Apesar de tudo isso, os Evangelhos nos mostram que José foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana, para pedir o corpo. Ele solicitou autorização para retirar Jesus da cruz e dar-Lhe um sepultamento honroso (Lc 23.50-52).

O local que José havia preparado nunca tinha sido usado. Era uma gruta escavada na rocha, muito comum entre os ricos para o sepultamento de seus familiares.

Essa câmara tinha bancos de pedra onde o corpo era depositado e recebia especiarias até a decomposição – uma prática de alto custo no primeiro século.

Não podemos subestimar a coragem desse pedido!

Pela lei romana, condenados por crime de lesa-majestade (categoria na qual Jesus foi enquadrado) não eram entregues a parentes. A humilhação servia de advertência pública.

O evangelista Marcos chega a usar o verbo grego tolmēsas para dizer que José “ousou” entrar na presença de Pilatos (Mc 15.43). A palavra carrega a ideia de uma verdadeira “coragem temerária”. Ele poderia ter atraído a fúria de Roma sobre si.

Pilatos, por sua vez, ficou tão surpreso ao saber que Jesus estava morto que só liberou o corpo após a confirmação do centurião responsável (Mc 15.44-45).

Com esse ato de coragem, a predição de Isaías se cumpriu:

“E puseram a sua sepultura com os ímpios e com os ricos”
Is 53.9, ARC

José se tornou, de fato, o responsável legal por aquele sepultamento (Mc 15.45).

E essa não foi a única profecia alcançada. O sepultamento digno e na rocha intocada evitou a vala comum e os animais de rua, cumprindo o que disse o salmista:

“Não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”
Sl 16.10, ARC

Aquilo que parecia apenas um gesto piedoso de um homem rico foi, na verdade, um instrumento divino. Isso garantiu que, na manhã da ressurreição, o corpo de Jesus fosse encontrado íntegro e perfeitamente preparado.

O homem que guardava sua fé em segredo agora a gritava publicamente diante de todo o Israel.

Suas virtudes, riqueza e influência política foram, no início, motivos para seu ocultamento. No entanto, após a morte de Jesus, a fé transbordou, e a sua vida entrou para a história do cristianismo.

Existe um contraste muito tocante aqui. Pedro, um dos discípulos mais próximos de Jesus, negou-o três vezes no mesmo dia (Lc 22.54-62). José, o discípulo oculto, assumiu o corpo do Mestre diante de Roma e Israel.

A morte de Jesus inverteu os papéis! Aquele que parecia firme caiu, e o que parecia tímido se levantou.

Perceba que não foram milagres nem pães multiplicados que tiraram José do anonimato. Foi o fracasso aparente do Mestre. A sua fé brilhou diante da cruz, e não da glória.

Foi a partir dessa demonstração pública que José ganhou espaço nos Evangelhos. O madeiro foi o divisor de águas entre a sua fé escondida e o seu testemunho aberto.

Na Bíblia, a história dele se encerra no sepultamento, realizado ao lado do amigo Nicodemos e das mulheres que acompanhavam Cristo, como Maria Madalena (Mt 27.61).

Vale lembrar que Nicodemos chegou trazendo quase cem libras de mirra e aloés (Jo 19.39) – cerca de 33 quilos!

Essa era uma quantidade extraordinária, digna do funeral de um rei. Os dois amigos, antes ocultos, arcaram juntos com os custos do sepultamento.

Como Lucas registra muito bem:

“E, havendo-o tirado, envolveu-o num lençol e pô-lo num sepulcro escavado numa penha, onde ninguém ainda havia sido posto”
Lc 23.53, ARC

Fora das Escrituras, a tradição cristã também guardou memórias sobre ele. Precisamos analisá-las com cautela, pois não têm o mesmo peso da Palavra. Eusébio de Cesareia (século IV) relata o envio de discípulos para regiões distantes.

Mais tarde, no século XII, o monge Guilherme de Malmesbury afirmou que o apóstolo Filipe teria enviado José até Glastonbury, na atual Inglaterra, para evangelizar.

A literatura medieval ainda uniu a isso a famosa lenda do Santo Graal. Nela, José teria guardado o cálice usado por Jesus na última ceia. Mas isso pertence à imaginação e não à história.

Outro texto muito conhecido é o apócrifo Evangelho de Nicodemos (ou Atos de Pilatos), que conta sobre uma prisão e uma libertação milagrosa de José como represália ao sepultamento.

Mesmo que esses relatos não sejam Escritura Sagrada, eles apontam para uma verdade: o impacto duradouro de uma atitude pública de fé sobre a Igreja.

O ato de tomar e preparar o corpo de Cristo ficou marcado na história. E a Bíblia guardou o nome desse homem rico e justo que, enquanto os apóstolos estavam escondidos, se apresentou para servir ao Mestre.

E você?

O que a coragem de José de Arimateia revela sobre a forma como você manifesta a sua fé?

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Fique na Paz!

Deixe um comentário