A igreja de Esmirna é a mais pobre das sete de Apocalipse, e é a ela que Cristo diz, no meio da mesma frase, que ela é rica. A palavra sobre a pobreza e a palavra sobre a riqueza estão no mesmo versículo, separadas por um parêntese.
Esmirna é também uma das duas igrejas, entre as sete, que não ouve nenhuma acusação. A outra é a igreja de Filadélfia. E as duas são justamente as que aparecem sob pressão vinda de fora, não sob problema nascido dentro.
Este estudo percorre a carta inteira: a cidade onde ela foi lida, o que o nome Esmirna significa, quem é o Cristo que se apresenta ali, o que estava por trás daquela pobreza, o que eram os dez dias de tribulação e o que a coroa da vida prometia a uma cidade que sediava jogos.
1. A cidade de Esmirna: o porto que foi aliado de Roma antes de Roma mandar
Esmirna é a segunda das sete cidades listadas em Apocalipse 1:11, na ordem em que o portador da carta percorreria a província da Ásia: “a Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia” (Ap 1:11 ACF). Saindo de Éfeso, quem levasse a carta subiria pela costa até Esmirna antes de virar para o interior.
A cidade sobreviveu a tudo o que veio depois e hoje se chama Izmir.2 Era um porto de peso na região, e o comércio lhe dava uma prosperidade que a igreja de lá jamais viu de perto.
Aliada de Roma por escolha, não por conquista
O detalhe que mais pesa para entender a carta é político. Esmirna havia erguido o primeiro templo à deusa Roma em todo o Oriente, no ano 195 a.C., muito antes de a região ser província romana. E em 26 d.C., quando a Ásia ganhou seu segundo templo provincial do culto ao imperador, a cidade encarregada de guardá-lo, por decisão de Tibério, foi Esmirna.3
Ou seja: a lealdade a Roma era ali motivo de orgulho cívico, disputado com outras cidades e conquistado em concorrência pública. Uma comunidade que se recusasse a participar disso não estava apenas discordando de uma religião; estava recusando aquilo de que a cidade mais se gabava.
O culto ao imperador e o preço da recusa
O culto imperial era uma instituição ao mesmo tempo política e religiosa, difundida por todo o império nos três primeiros séculos e especialmente forte na Ásia Menor.3 Reconhecer o imperador como senhor era um gesto público, verificável, e barato para quem o fazia.
Quem não o fazia perdia lugar nas associações profissionais e, com elas, o meio de ganhar a vida.2 Guarde isto para a seção sobre a pobreza: o problema econômico da igreja de Esmirna nasce da confissão dela, e não do acaso.

2. O significado de Esmirna: a cidade que se chama mirra
O nome da cidade, em grego, é Smyrna, e ele coincide com o substantivo comum que designa a mirra, a resina aromática usada como perfume e no preparo dos corpos para o sepultamento. O sentido que se costuma dar ao nome é amargo, ligado justamente a essa resina.2
Vale notar que os léxicos registram os dois termos como entradas distintas: o topônimo e o nome da resina. O topônimo aparece duas vezes no Novo Testamento, ambas em Apocalipse, em 1:11 e 2:8.
Onde o Novo Testamento fala de mirra
O substantivo comum também aparece duas vezes, e os dois lugares são notáveis. O primeiro é Mateus 2:11, quando os magos abrem seus tesouros diante do menino: “ouro, incenso e mirra” (Mt 2:11 ACF). O segundo é João 19:39, quando Nicodemos leva ao sepulcro “um composto de mirra e aloés” (Jo 19:39 ACF).
Nascimento e sepultamento. A mesma substância nas duas pontas da vida de Jesus. E a carta endereçada à cidade que leva esse nome é aberta por aquele “que foi morto, e reviveu” (Ap 2:8 ACF).
Não convém forçar a coincidência mais do que ela dá. O texto não diz que Cristo escolheu o título por causa do nome da cidade. Mas o leitor de Esmirna ouvia o próprio nome da sua cidade toda vez que alguém falava do perfume de um sepultamento — e a carta que chegou até ele falava exatamente de morte e de vida depois dela.
3. Apocalipse 2:8-11: o texto da carta
A carta inteira tem quatro versículos. É a mais curta das sete: nenhuma outra tem menos de seis versículos. E é uma das duas, junto com a de Filadélfia, em que Cristo nada tem a repreender.
E ao anjo da igreja em Esmirna, escreve: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu:
Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás.
Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O que vencer não receberá o dano da segunda morte.
(Ap 2:8-11 ACF)
4. Quem fala: o primeiro e o último, que foi morto e reviveu
Cada uma das sete cartas começa com um título de Cristo tirado da visão do capítulo 1, e o título escolhido conversa com a situação da igreja que vai ouvi-lo.1 Em Esmirna, o título é o da morte vencida.
De onde vem o título
As duas metades vêm de Apocalipse 1. “Eu sou o primeiro e o último” está em Ap 1:17 ACF, dito a João quando ele cai como morto diante da visão — e dito logo depois de “Não temas”. Em seguida vem a outra metade: “E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre” (Ap 1:18 ACF).
Repare que o “não temas” de Ap 1:17 reaparece em Ap 2:10, endereçado agora a uma igreja inteira. A ordem é a mesma nos dois lugares: primeiro se apresenta quem morreu e vive, depois se manda não temer.
Por que este título para esta igreja
A uma igreja ameaçada de prisão e de morte, Cristo não se apresenta como o que resolve pendências nem como o que dá segurança de circunstância. Ele se apresenta como alguém que já esteve do outro lado daquilo que eles temem.
É a mesma lógica que aparece adiante em Pérgamo, onde o título é o da espada de dois gumes e a cidade era sede do procônsul: o Cristo que fala é sempre o que responde ao medo específico daquela gente. Aqui, o medo era morrer. E quem fala já morreu.
5. Conheço a tua tribulação e a tua pobreza: o que custava ser cristão ali
O elogio começa por um verbo: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza” (Ap 2:9 ACF). Antes de qualquer promessa, a carta afirma conhecimento. Aquela congregação pequena e sem peso na cidade estava sendo vista em detalhe por quem andava entre os candeeiros.
A palavra que a carta usa para pobreza
O termo grego é ptōcheia, e ele aparece três vezes no Novo Testamento: em 2 Coríntios 8:2, em 2 Coríntios 8:9 e aqui. Os léxicos o glosam por indigência, a condição de quem depende de esmola. Wiersbe descreve o sentido como “pobreza abjeta, que não possui absolutamente coisa alguma”.2
Trata-se da condição de quem foi deixado sem nada — e, no caso de Esmirna, deixado assim por consequência direta da recusa em dizer que César é senhor.
O parêntese que muda a contabilidade
Então vem o parêntese, e ele diz que aquela igreja é rica. Vale medir o peso da frase: trata-se de uma segunda avaliação da mesma congregação, feita com outro critério, e é a avaliação de quem tem autoridade para dizer qual das duas vale.
Paulo escreve a mesma coisa em duas frases que vale ler ao lado desta: “como pobres, mas enriquecendo a muitos” (2Co 6:10 ACF) e “sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” (2Co 8:9 ACF). A riqueza de Esmirna é derivada: ela vem de alguém que ficou pobre primeiro.
O espelho invertido: Laodiceia
Há uma igreja, nas mesmas sete cartas, que recebe o julgamento exatamente contrário. Laodiceia diz de si mesma: “Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta” — e ouve de volta “e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Ap 3:17 ACF).
As duas igrejas estão erradas sobre a própria situação financeira diante de Deus, e erradas em direções opostas. Esmirna se sabe pobre e é rica. Laodiceia se diz rica e está sem nada.
Como as versões traduzem Apocalipse 2:9
| Versão | Trecho |
|---|---|
| ACF | Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico) |
| ARA | Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) |
| ARC | Eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico) |
| BKJ | Eu conheço as tuas obras, e a tribulação, e a pobreza (mas tu és rico) |
| NAA | Conheço a tribulação pela qual você está passando, a sua pobreza — embora você seja rico |
| NVI | Conheço as suas aflições e a sua pobreza; mas você é rico! |
| NVT | Conheço suas aflições e sua pobreza, mas você é rico |
A diferença visível está em duas coisas. A ACF, a ARC e a BKJ trazem “as tuas obras” no começo, que a ARA, a NAA, a NVI e a NVT não trazem — divergência de base textual, não de interpretação. E o parêntese, mantido por quatro versões, vira travessão na NAA e ponto de exclamação na NVI.
6. A blasfêmia dos que se dizem judeus
A terceira coisa que a carta diz conhecer é “a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” (Ap 2:9 ACF). É a frase que mais exige cuidado de quem lê a carta hoje.
O que estava acontecendo em Esmirna
Havia na cidade uma comunidade judaica grande e estabelecida, cuja religião era reconhecida por Roma e por isso dispensada do culto ao imperador. Essa comunidade não fazia causa comum com os cristãos, e a igreja acabava difamada dos dois lados, entre judeus e gentios.2
A palavra traduzida por blasfêmia cobre também a calúnia dirigida a pessoas. Ou seja, a carta descreve mais do que ofensa a Deus: descreve acusação pública contra um grupo que, denunciado como desleal ao império, ficava exposto à prisão.
O critério que Paulo já havia estabelecido
A frase da carta não inventa um critério novo. Paulo já escrevera: “não é judeu o que o é exteriormente” e “é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra” (Rm 2:28-29 ACF). A definição está no coração, e quem a verifica é Deus.
Vale reparar em quem Paulo estava incluindo nessa avaliação: ele mesmo e os de sua nação. É um critério aplicado de dentro, por um judeu, e não uma arma entregue a gentios para usar contra judeus.
A expressão na Bíblia inteira
Na ACF, “sinagoga de Satanás” ocorre duas vezes, ambas nestas cartas: Ap 2:9 e Ap 3:9. E o segundo lugar é decisivo para entender o primeiro, porque ali a promessa é que aqueles mesmos venham e se prostrem, e saibam que Cristo ama a igreja perseguida (Ap 3:9 ACF).
O desfecho previsto para os adversários, portanto, é reconhecimento. Quem lê a frase dura de Ap 2:9 sem ler o que Cristo se compromete a fazer em Ap 3:9 fica com metade do quadro.
Uma advertência necessária
A frase está na boca daquele que, nestas mesmas cartas, se apresenta como “aquele que sonda os rins e os corações” (Ap 2:23 ACF), e é ele quem a diz sobre um grupo determinado, numa cidade determinada, que estava entregando cristãos à prisão. Ela descreve uma função — quem faz o trabalho do acusador — e não uma etnia.
Usar esse versículo como rótulo contra o povo judeu é fazer com ele o oposto do que o próprio Novo Testamento faz. Quem escreve o Apocalipse é judeu, e quem escreveu Romanos 2 se diz disposto a ser anátema pelos seus irmãos segundo a carne.
7. Nada temas: a prisão, o diabo e os dez dias
Depois do elogio vem o único mandamento da carta. Às cinco igrejas repreendidas, Cristo manda arrepender-se; a Esmirna, ele manda outra coisa: “Nada temas das coisas que hás de padecer” (Ap 2:10 ACF). Repare no que a igreja ouve: que o sofrimento vem, e que deve ser encarado sem medo.
Quem lança na prisão
“Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão” (Ap 2:10 ACF). Quem executaria a prisão seriam autoridades romanas, movidas por denúncias locais. A carta olha por trás disso e nomeia o agente real.
O efeito dessa nomeação é dobrado. De um lado, a igreja para de enxergar vizinhos e magistrados como o inimigo de fato. De outro, o inimigo de fato é justamente aquele que Cristo já venceu na cruz e na ressurreição — e é essa vitória que o título do versículo 8 acaba de anunciar.
Para que sejais tentados
O verbo indica prova, teste. A prisão tinha um propósito da parte do diabo, que é fazer cair, e um propósito permitido por Deus, que é provar. O mesmo evento tem dois sentidos, e a carta atribui a Cristo o conhecimento antecipado dele.
Pedro escreve na mesma direção aos cristãos da mesma região: “não estranheis a ardente prova que vem sobre vós para vos tentar, como se coisa estranha vos acontecesse” (1Pe 4:12 ACF). Sofrer por Cristo era, no cristianismo da Ásia Menor, o esperado.
O que significam os dez dias
A expressão pertence ao vocabulário do tempo curto. Na Escritura, “dez dias” funciona como medida de um tempo curto e delimitado: em Gênesis 24:55 a família de Rebeca pede que ela fique “alguns dias, ou pelo menos dez dias” (Gn 24:55 ACF), e em Daniel 1:12 o pedido é “Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias” (Dn 1:12 ACF). Wiersbe lê o versículo assim, como pouco tempo.2
Portanto, o que a carta garante é um limite. O sofrimento tem prazo, e o prazo é estabelecido por quem escreve a carta.
Como as versões traduzem Apocalipse 2:10
| Versão | Trecho final do versículo |
|---|---|
| ACF | e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida |
| ARA | e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida |
| ARC | e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida |
| BKJ | e tereis tribulação por dez dias. Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida |
| NAA | e passem por uma tribulação de dez dias. Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida |
| NVI | e vocês sofrerão perseguição durante dez dias. Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida |
| NVT | e terão aflições por dez dias. Mas, se você permanecer fiel mesmo diante da morte, eu lhe darei a coroa da vida |
As sete versões mantêm os dez dias, e nenhuma delas transforma a expressão em outra medida de tempo. A NVT é a que mais explicita o sentido de “até à morte”, parafraseando por permanecer fiel mesmo diante dela.
8. Sê fiel até à morte: a coroa da vida
O mandamento e a promessa vêm juntos: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2:10 ACF). São duas coisas que precisam ser lidas separadas antes de serem lidas juntas.
Fiel até à morte
A expressão comporta dois sentidos ao mesmo tempo: fiel até o ponto de morrer, e fiel até o fim da vida. Para parte daquela igreja, os dois coincidiriam. E o que se pede é a continuidade de algo que já estava sendo feito.
Repare que a carta não manda vencer, nem crescer, nem reverter a situação. Manda não largar. É a única exigência feita a Esmirna, e ela é a exigência mais barata de enunciar e a mais cara de cumprir.
Que coroa é essa
O grego usa stephanos, a coroa de louros dada ao vencedor nos jogos, e não diadēma, a faixa da realeza. É prêmio de competição, não insígnia de nascimento — e Esmirna era cidade de jogos, o que dava à imagem um peso local imediato.2
Na ACF, a expressão “coroa da vida” ocorre em dois lugares. Um é aqui. O outro é Tiago 1:12: “Bem-aventurado o homem que sofre a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” (Tg 1:12 ACF).
Os dois textos ligam a coroa à mesma coisa: prova suportada. E Tiago acrescenta o destinatário — os que amam a Deus. Ou seja, a coroa é o que se promete a quem, amando, permaneceu sob pressão.

A palavra que a igreja primitiva ainda não tinha
Vale registrar um dado de vocabulário. O termo grego por trás de nosso “mártir” significava testemunha, e só no fim do século II ou em meados do século III passou a designar tecnicamente quem morre pela fé.4 Quando esta carta foi lida em Esmirna, portanto, o que se pedia era testemunho — e a morte era um desfecho possível dele, não o seu nome.
Aliás, foi nessa mesma cidade que Policarpo, seu bispo, morreu em 156, depois de negar-se a queimar incenso diante do imperador.3 Décadas depois desta carta, exatamente o gesto que ela previu.
9. A segunda morte e a promessa ao vencedor
O fecho é o de todas as sete cartas, com a promessa própria de cada uma: “O que vencer não receberá o dano da segunda morte” (Ap 2:11 ACF).
O que Apocalipse chama de segunda morte
A expressão ocorre quatro vezes na ACF, todas em Apocalipse, e três delas explicam a primeira. Em Ap 20:6 se diz que sobre os que têm parte na primeira ressurreição a segunda morte não tem poder. Em Ap 20:14 o livro a define, depois de a morte e o inferno serem lançados no lago de fogo: “Esta é a segunda morte” (Ap 20:14 ACF). E Ap 21:8 repete a definição ao listar quem tem parte nela.
Portanto, a promessa feita a Esmirna diz respeito ao alcance da morte, e não à sua ocorrência. Alguns morreriam, e a carta acaba de dizer isso. A garantia é que a morte que eles sofressem seria a única que sofreriam.
A promessa dita em negativo
Das sete promessas ao vencedor, esta é a única formulada como ausência de dano. Em Éfeso, promete-se comer da árvore da vida (Ap 2:7 ACF); em Pérgamo, o maná e a pedra branca; a Esmirna se promete que algo não acontecerá.
Afinal, para uma igreja diante do carrasco, a boa notícia formulada em positivo soaria distante; formulada assim, ela toca no ponto exato do medo. Jesus dissera a mesma coisa aos discípulos: “não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” (Mt 10:28 ACF).
Quem é o vencedor
Nas sete cartas, vencer descreve o cristão verdadeiro, cuja fé é a vitória, e não uma elite espiritual dentro da congregação.1 Em Esmirna isso fica visível, porque lá o vencedor é, por definição, o que não venceu nada aos olhos da cidade — perdeu o emprego, perdeu a reputação e alguns perderiam a vida.
10. Esmirna entre as sete cartas
As sete igrejas existiram de fato, em cidades reais da Ásia Menor, e as palavras dirigidas a cada uma delas seguem valendo em qualquer tempo.5 Colocar Esmirna ao lado das outras seis ajuda a ver o que é próprio dela.
| Igreja | Recebe elogio | Recebe repreensão |
|---|---|---|
| Éfeso (2:1-7) | sim | sim — deixou o primeiro amor |
| Esmirna (2:8-11) | sim | nenhuma |
| Pérgamo (2:12-17) | sim | sim — tolera doutrina falsa |
| Tiatira (2:18-29) | sim | sim — tolera a falsa profetisa |
| Sardes (3:1-6) | parcial | sim — tem nome de viva e está morta |
| Filadélfia (3:7-13) | sim | nenhuma |
| Laodiceia (3:14-22) | nenhum | sim — morna e cega quanto a si |
Duas observações saem da tabela. A primeira: as duas igrejas sem repreensão são as duas descritas sob ataque de fora, e as cinco repreendidas têm problemas nascidos dentro da própria congregação. A segunda: Esmirna e Laodiceia ocupam extremos opostos, e o critério que as separa é o mesmo — o que cada uma pensa possuir.
Há ainda o contraste com Pérgamo, a cidade vizinha na sequência. Lá também houve perseguição e houve um morto, Antipas, chamado de fiel testemunha (Ap 2:13 ACF). A diferença é que parte da igreja de Pérgamo encontrou um arranjo para não sofrer, e Esmirna não encontrou nenhum.
11. O que esta carta pede de quem a lê hoje
A carta foi escrita a uma congregação empobrecida por causa da fé, sob denúncia pública, numa cidade cujo orgulho era a lealdade ao imperador. É de dentro dessa situação que ela fala — e é por aí que ela alcança quem a lê agora.
A pobreza de Esmirna era conta a pagar, não infortúnio
O texto não descreve uma igreja que empobreceu por má gestão ou por azar. Ela empobreceu porque não disse uma frase de quatro palavras que teria devolvido a seus membros o lugar nas associações e a clientela.
Quando a obediência custa dinheiro, este texto não promete recuperação do prejuízo. Ele faz outra coisa: reclassifica a perda. Cristo não manda a igreja de Esmirna suportar a pobreza esperando reversão — ele informa a ela que a contabilidade do céu já foi fechada em outro sentido, e que ela é rica no exato momento em que não tem nada.
O consolo oferecido é limite, não retirada
Vale reparar no que a carta promete: prazo, presença e desfecho. Livramento da provação fica de fora da lista. O que muda de mãos é o controle do tempo, atribuído aqui a Cristo, e não ao diabo que prende nem a Roma que julga.
Quem ora hoje pedindo que a provação seja retirada está pedindo o que Esmirna não recebeu. O que ela recebeu foi um teto — dez dias — e a garantia de que a pior coisa que poderiam fazer com ela já tinha acontecido antes com quem lhe escrevia.
A ordem de conhecer vem antes da ordem de ouvir
Antes de mandar não temer, a carta diz “conheço”. Afinal, uma igreja pequena, sem influência e caluniada tende a supor que o esquecimento é parte da punição — e a primeira palavra da carta desfaz exatamente essa suposição.
A frase mais dura é dita por quem podia dizê-la
Sobre a acusação de Ap 2:9, a aplicação prática talvez seja de contenção. Quem pronuncia a sentença no texto é o mesmo que acaba de dizer que conhece as obras daquela igreja — e ele a pronuncia sobre gente cujo comportamento ele estava vendo.
O leitor de hoje herda desse texto a promessa e não a sentença. A vindicação prometida em Ap 3:9 é obra de Cristo, e nada nas duas cartas a delega à igreja perseguida — que, aliás, não recebe nenhuma instrução sobre o que fazer com seus acusadores.
Fidelidade é o verbo, e ele é conjugado no presente contínuo
A ordem dada a Esmirna cabe em duas palavras: não largue. Não há aqui meta de crescimento, plano de reversão ou estratégia de sobrevivência. Há uma coroa prometida a quem chega ao fim ainda segurando o que já segurava.
Numa igreja de porta aberta e vida tranquila, a tradução disso é menos dramática e mais difícil de perceber: continuar quando o entusiasmo passou, servir sem retorno visível, permanecer onde já não há novidade. Foi a isso que a única igreja sem repreensão de Apocalipse foi chamada.
12. Esboço de pregação sobre a igreja de Esmirna
Texto: Apocalipse 2:8-11 · Tema: a igreja que nada tem e a quem nada falta
Introdução: Esmirna, porto próspero, primeira do Oriente a erguer um templo à deusa Roma, guardiã do culto imperial. Nela, uma igreja sem dinheiro e sem defesa — e a única, com Filadélfia, que não é repreendida.
I. Quem fala já esteve onde eles temem chegar (v. 8) — o primeiro e o último, que foi morto e reviveu; o título vem de Ap 1:17-18, onde ele acompanha um “não temas”. Aplicação: o consolo desta carta não é uma ideia sobre a morte, é uma pessoa que voltou dela.
II. Cristo conhece a conta e a refaz (v. 9a) — tribulação, indigência e o parêntese que declara a igreja rica; o espelho invertido de Laodiceia em Ap 3:17. Aplicação: o que a obediência custou está lançado, com outro sinal, num livro que a cidade não audita.
III. A calúnia tem autor e tem prazo (v. 9b, 10a) — a acusação pública, o diabo por trás da prisão, os dez dias. Aplicação: o inimigo nomeado é o que já foi vencido; o prazo é fixado por quem escreve a carta.
IV. A única ordem é não largar (v. 10b) — fiel até à morte, a coroa do vencedor dos jogos, o paralelo de Tiago 1:12. Aplicação: a fidelidade que se pede é a continuidade do que já se faz, sob custo maior.
V. O que o carrasco não alcança (v. 11) — a segunda morte definida em Ap 20:14 e Ap 21:8. Conclusão: a promessa dita em negativo toca o medo exato daquela igreja, e é a que sobra quando tudo o mais foi tirado.
13. Perguntas Frequentes sobre a igreja de Esmirna
O que significa Esmirna na Bíblia?
O nome grego da cidade coincide com o da mirra, resina usada como perfume e no preparo de corpos para sepultamento, e por isso costuma ser explicado pelo sentido de amargor. Os léxicos separam duas entradas: o nome da cidade, que ocorre em Apocalipse 1:11 e 2:8, e o nome da resina, que ocorre em Mateus 2:11 e João 19:39.
Onde ficava a cidade de Esmirna?
Na costa ocidental da Ásia Menor, ao norte de Éfeso, num porto que sustentava seu comércio. A cidade nunca deixou de existir: hoje é Izmir, na Turquia. Era aliada antiga de Roma e recebeu de Tibério, em 26 d.C., o encargo de abrigar um dos templos provinciais dedicados ao culto do imperador.
Por que a igreja de Esmirna não recebeu nenhuma repreensão?
A carta credita a ela perseverança sob perseguição, indigência e calúnia, sem apontar falha alguma. Das sete cartas, só Esmirna e Filadélfia deixam de trazer acusação, e as duas são as descritas sob pressão externa. Nas outras cinco, o que Cristo condena começou dentro da própria congregação.
O que quer dizer pobreza, mas tu és rico, em Apocalipse 2:9?
A palavra grega traduzida por pobreza indica indigência, a falta absoluta de recursos, e aparece três vezes no Novo Testamento. O parêntese que vem em seguida não nega a situação: acrescenta uma segunda avaliação, feita por outro critério. A mesma inversão aparece em 2 Coríntios 6:10 e 8:9, e o contrário exato dela em Apocalipse 3:17, sobre Laodiceia.
Quem era a sinagoga de Satanás em Apocalipse 2:9?
O texto se refere a um grupo determinado, na Esmirna do primeiro século, que se apresentava como judeu e caluniava publicamente os cristãos, expondo-os à prisão romana. A expressão ocorre duas vezes na Bíblia, em Apocalipse 2:9 e 3:9, e o segundo texto promete que aqueles mesmos virão a reconhecer o amor de Cristo pela igreja. O critério de fundo é o de Romanos 2:28-29: quem julga o interior é Deus.
O que significa a tribulação de dez dias?
A expressão marca um período curto e limitado, e não uma contagem exata. Ela funciona assim em outros lugares da Escritura, como Gênesis 24:55 e Daniel 1:12. O que a carta assegura à igreja não é o cancelamento do sofrimento, e sim que ele tem um limite fixado por Cristo.
O que é a coroa da vida prometida em Apocalipse 2:10?
O grego usa a palavra da coroa de louros dada ao vencedor nos jogos atléticos, e não a da realeza. A imagem tinha efeito imediato numa cidade que sediava competições. Na ACF a expressão aparece em dois lugares: nesta carta e em Tiago 1:12, que a promete aos que amam a Deus e são aprovados na prova.
O que é a segunda morte em Apocalipse 2:11?
É o lago de fogo, conforme a definição dada pelo próprio livro em Apocalipse 20:14 e repetida em 21:8. A expressão ocorre quatro vezes, todas em Apocalipse. A promessa feita ao vencedor de Esmirna não é escapar de morrer, e sim que a morte física será a única que ele conhecerá.
Policarpo tem relação com a igreja de Esmirna?
Sim. Policarpo liderava a igreja de lá e foi executado no ano 156, por não aceitar prestar ao imperador o gesto de culto que Roma exigia. Isso se deu gerações depois de a carta ter sido escrita. O episódio é registro histórico, não parte do texto bíblico, mas mostra que o tipo de pressão descrito em Apocalipse 2 continuou ali por gerações.
Fontes
Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as demais versões identificadas quando citadas. As formas gregas, as glosas e as contagens de ocorrência referem-se ao texto etiquetado do STEPBible (TAGNT, CC BY 4.0).
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, volume II. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 728.
- Ibid., p. 730.
- WILSON, Mark W. “O culto imperial”. In: HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Editora Vida, 2015, verbete “O culto imperial”.
- HUFFMAN, Douglas S. “Martírio no Novo Testamento”. In: HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Editora Vida, 2015, verbete “Martírio no Novo Testamento”.
- MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur: uma meticulosa pesquisa da Bíblia, livro a livro. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, seção “Apocalipse” (pp. 577-586).