Quem Foi Lucas na Bíblia: O Médico que Escreveu o Evangelho e Atos

↑ Este artigo faz parte da coleção Personagens Bíblicos — quem foram e o que ainda ensinam à igreja de hoje.

Lucas foi o médico que acompanhou Paulo em viagens, prisões e num naufrágio, e que escreveu os dois livros mais longos do Novo Testamento: o Evangelho que leva o seu nome e os Atos dos Apóstolos.

Ele ficou de fora do grupo dos doze, chegou depois da ressurreição e provavelmente veio do mundo gentio. Aparece três vezes na Escritura, sempre de passagem, sempre numa lista de nomes ao fim de uma carta.

E, ainda assim, saiu da pena dele mais texto do Novo Testamento do que da de qualquer outro autor1.

Hoje, vamos percorrer o que a Bíblia diz sobre Lucas, o que o texto dele revela sobre a profissão que exercia, e o método que ele mesmo declara logo nas primeiras linhas.

Sobre a tradução: as citações bíblicas deste artigo usam a Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo indicação em contrário.

Quem Foi Lucas e o Que a Bíblia Diz Dele

A Escritura menciona Lucas pelo nome três vezes, todas em cartas de Paulo, e todas em saudações finais.

Na primeira, ganha o apelido que ficou: “Saúda-vos Lucas, o médico amado” (Cl 4:14 ACF).

Na segunda, aparece numa lista de companheiros de trabalho: “Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores” (Fm 24 ACF).

E na terceira, quando quase todos já tinham ido embora, é o único que sobrou: “Só Lucas está comigo” (2Tm 4:11 ACF).

Repare no que essas três menções deixam de fora: cidade natal, relato de conversão, genealogia, uma fala sequer. O autor de dois livros inteiros do Novo Testamento gastou zero linhas consigo mesmo.

O que sabemos dele, portanto, vem de dois lugares: do que Paulo diz de passagem, e do que o próprio texto de Lucas revela sobre quem o escreveu.

Nome Lucas, do latim Lucas, forma reduzida de Lucanus
Profissão Médico — “o médico amado” (Cl 4:14 ACF)
Origem Provavelmente gentio; a tradição antiga o liga a Antioquia da Síria
Menções na Bíblia Três, todas em cartas de Paulo: Cl 4:14, Fm 24 e 2Tm 4:11
Obra Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos — cerca de 27% do Novo Testamento
Destinatário Teófilo (Lc 1:3; At 1:1)
Método declarado Investigar tudo, desde o princípio, e narrar em ordem (Lc 1:1-4)
Objetivo declarado “Para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (Lc 1:4 ACF)
Presença em Atos Quatro trechos narrados em “nós”: At 16:10-17; 20.5-15; 21.8-18; 27.1–28.16
Morte A Bíblia não registra. Um prólogo antigo ao Evangelho diz que morreu aos 84 anos, na Beócia7

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O Evangelho de Lucas começa de um jeito que nenhum outro evangelho começa. Antes de falar de Jesus, o autor explica o que fez para escrever.

“Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram” (Lc 1:1 ACF) — ou seja, ele sabia que já existiam outros relatos, e não fingiu ser o primeiro.

“Segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra” (Lc 1:2 ACF) — a fonte dele são testemunhas oculares, e ele diz isso abertamente, porque não era uma delas.

Então vem o método, e é a frase mais reveladora sobre o homem: “Pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio” (Lc 1:3 ACF).

Três decisões numa frase só: investigar tudo, investigar desde o começo e narrar em ordem.

E o objetivo fecha o prólogo: “Para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (Lc 1:4 ACF).

Ou seja, Teófilo já tinha ouvido a história. O que faltava não era informação, era certeza — e é para produzir certeza que Lucas se dá ao trabalho de apurar.

Esse é o retrato do homem, e ele o escreveu sem perceber que estava se descrevendo: um pesquisador. Entrevistou quem viu, organizou o material e assinou um relato ordenado2.

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Quem Era Teófilo

O nome aparece duas vezes, uma na abertura de cada volume: “ó excelente Teófilo” (Lc 1:3 ACF) e “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo” (At 1:1 ACF).

Fora isso, a Escritura não diz mais nada sobre ele. O tratamento “excelente” era usado para autoridades romanas, e é o mesmo que Paulo emprega diante do governador Félix (At 24:3).

Há uma leitura que explica bem o formato: nos prefácios da literatura greco-romana era comum dedicar a obra a um patrono, e Teófilo provavelmente foi quem bancou a publicação de Lucas–Atos3.

O nome, em grego, significa “amigo de Deus” — o que fez alguns supor que fosse um destinatário simbólico, qualquer leitor que buscasse a fé. É possível, mas o “excelente” e a dedicatória dupla apontam mais para uma pessoa real.

De todo modo, o alvo declarado no prólogo não muda: um leitor que já ouviu falar de Jesus e precisa de chão firme debaixo do que ouviu.

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O “Médico Amado” e o Que a Profissão Deixou no Texto

Paulo chama Lucas de “o médico amado” (Cl 4:14 ACF), e essa é a única informação profissional que a Bíblia dá sobre ele.

O detalhe reaparece no texto sem anúncio. Ao contar a cura da sogra de Pedro, Marcos diz que ela estava com febre; Lucas registra que “estava enferma com muita febre” (Lc 4:38 ACF).

Em outra cena, apresenta um doente com o nome técnico da condição: “E eis que estava ali diante dele um certo homem hidrópico” (Lc 14:2 ACF) — hidropisia é o acúmulo de líquido que hoje chamamos de edema.

E em Atos, ao descrever o pai de Públio, especifica o quadro: “estar de cama enfermo de febre e disenteria” (At 28:8 ACF).

Nenhuma dessas passagens diz “porque Lucas era médico”. A profissão aparece na escolha das palavras, que é onde a formação de uma pessoa costuma se revelar.

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Lucas Era Gentio? Uma Questão em Aberto

A tradição da igreja o considera gentio, e nesse caso ele seria o único autor não judeu da Bíblia3.

O argumento principal está numa distinção que Paulo faz na mesma carta em que cita Lucas. Ao listar os companheiros, ele separa um grupo: “os quais são da circuncisão; são estes unicamente os meus cooperadores no reino de Deus” (Cl 4:11 ACF). Lucas é nomeado três versículos depois, fora desse grupo.

Há também o peso do que ele escolhe contar. O Evangelho de Lucas é o que mais se demora em samaritanos, gentios e pessoas de fora, e Atos é o livro que narra a chegada do evangelho às nações.

Do outro lado, há o que pesa contra. Lucas domina as Escrituras do Antigo Testamento com desenvoltura, cita profetas com naturalidade e escreve os primeiros capítulos num tom que lembra a narrativa hebraica — o que não é comum em quem cresceu fora daquele mundo.

Antioquia da Síria, que a tradição aponta como cidade dele, tinha uma grande comunidade judaica de língua grega, e um gentio “temente a Deus” que frequentasse a sinagoga aprenderia exatamente isso.

A Escritura não fecha a questão, e este artigo também não vai fechar. O que se pode dizer com segurança é o seguinte: a tradição antiga é unânime em Lucas como autor, e é quase unânime em considerá-lo gentio2.

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As Seções “Nós”: Quando o Autor Entra na Própria História

Atos é narrado em terceira pessoa — até que, sem aviso, o narrador muda de pronome.

Acontece pela primeira vez em Trôade: “E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho” (At 16:10 ACF).

De “eles” para “nós”, numa frase. E o “nós” reaparece ao longo do livro, em quatro blocos: At 16:10-17, At 20:5-15, At 21:8-18 e At 27:1–28.166.

A leitura mais simples desses trechos é que o autor estava lá. Ele não se apresenta, não se nomeia e não conta nada sobre si — apenas passa a incluir-se no grupo quando o grupo o inclui.

Vale reparar no que isso diz sobre o método dele. Nos trechos em que testemunhou, o texto continua igual: mesma sobriedade, mesmo nível de detalhe, nenhuma dramatização da própria presença.

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Companheiro de Paulo, de Filipos a Roma

Mapa da viagem marítima de Cesareia a Roma, com o naufrágio em Malta, narrada por Lucas em Atos 27 e 28
A viagem a Roma, narrada em primeira pessoa do plural em Atos 27 e 28

Seguindo os trechos em “nós”, dá para acompanhar onde Lucas esteve.

Ele entra em cena na travessia para a Macedônia e vai junto até Filipos, onde Paulo e Silas acabam presos depois de libertar uma escrava (At 16:19-40).

Reaparece anos depois, na viagem de volta a Jerusalém (At 20:5–21.18), e está a bordo na última viagem, a que levou Paulo preso para Roma — a que termina em tempestade de duas semanas e naufrágio na ilha de Malta (At 27:1–28.16).

Foi durante esse ministério de Paulo que Lucas acumulou boa parte do que registrou: as cidades, os nomes das autoridades locais, as rotas marítimas e os detalhes de navegação que fazem os capítulos finais de Atos serem tão diferentes de tudo o que veio antes.

E há um efeito colateral: Estêvão e Simão Cirineu têm as histórias preservadas porque Lucas as escreveu. Sem ele, o martírio de Estêvão seria um nome numa lista.

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“Só Lucas Está Comigo”

A última menção a Lucas na Bíblia é também a mais dura de ler.

Paulo escreve a segunda carta a Timóteo perto do fim da vida, preso em Roma. No mesmo capítulo, registra que Demas o abandonou, que outros foram enviados a outros lugares, e então diz: “Só Lucas está comigo” (2Tm 4:11 ACF).

Quatro palavras que resumem uma amizade de anos.

Não há registro de que Lucas tenha pregado, fundado igreja ou liderado alguma coisa. O que a Escritura registra dele é presença — do primeiro “nós” em Trôade até a cela em Roma.

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Uma Obra em Dois Volumes: Lucas e Atos

Lucas e Atos formam um projeto em duas partes, e o segundo volume começa se referindo ao primeiro: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar” (At 1:1 ACF)4.

Repare no “começou”. Para Lucas, o Evangelho conta o que Jesus começou a fazer e ensinar, e Atos conta o que Ele continuou fazendo pela igreja — o que explica por que o segundo volume não termina em conclusão, e sim com Paulo pregando em Roma, como se a história seguisse depois da última página.

Juntos, os dois livros somam cerca de 27% do Novo Testamento, mais do que o conjunto das cartas de Paulo. É a maior contribuição de um único autor ao cânon do Novo Testamento1, e vale ver como isso se encaixa no conjunto de quem escreveu a Bíblia.

O tema que atravessa os dois volumes é declarado por Jesus no Evangelho: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19:10 ACF) — e a ênfase de Lucas recai sobre o caráter universal dessa salvação5.

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O Que Só Lucas Conta

Boa parte do que se conhece do ensino de Jesus está no Evangelho de Lucas e em nenhum outro.

Só ele registra:

  • O anúncio do nascimento de João Batista e o encontro de Maria com Isabel (Lc 1:5-56);
  • Os cânticos de Maria, de Zacarias e de Simeão (Lc 1:46-55; 1.68-79; 2.29-32);
  • O menino Jesus no templo, aos doze anos (Lc 2:41-52);
  • A parábola do bom samaritano (Lc 10:25-37);
  • A parábola do filho pródigo (Lc 15:11-32);
  • A parábola do rico e Lázaro (Lc 16:19-31);
  • O encontro com Zaqueu (Lc 19:1-10);
  • A conversa com os dois discípulos no caminho de Emaús (Lc 24:13-35).

Tire Lucas do Novo Testamento e desaparecem o bom samaritano, o filho pródigo e Emaús. Se você quiser ver como esse material se organiza, vale conhecer as parábolas de Jesus reunidas.

E há um padrão no que ele escolhe preservar. Nas histórias exclusivas de Lucas, quem aparece no centro costuma ser quem estava na margem: um samaritano, um filho que gastou tudo, um mendigo à porta de um rico, um cobrador de impostos subido numa árvore.

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As Mulheres no Evangelho de Lucas

O mesmo padrão explica outra marca do livro: as mulheres aparecem nomeadas, e aparecem com frequência.

Lucas registra que um grupo de mulheres acompanhava e sustentava o ministério de Jesus, e faz questão de nomeá-las: “E Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus bens” (Lc 8:3 ACF). A lista começa em Maria Madalena, no versículo anterior.

É dele também a cena de Marta e Maria (Lc 10:38-42), a mulher encurvada que Jesus chama de “filha de Abraão” (Lc 13:10-17), a viúva de Naim (Lc 7:11-17) e a parábola da viúva persistente (Lc 18:1-8).

Numa narrativa do primeiro século, nomear mulheres e registrar que elas financiavam o grupo é informação que o autor decidiu preservar quando podia ter resumido.

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A Oração na Vida de Jesus

Outro traço do Evangelho de Lucas é a atenção aos momentos em que Jesus ora.

Ele registra Jesus orando no batismo (Lc 3:21), retirando-se para lugares desertos (Lc 5:16), passando a noite em oração antes de escolher os doze (Lc 6:12), orando na transfiguração (Lc 9:28-29) e no Getsêmani (Lc 22:41-44).

É também em Lucas que os discípulos fazem o pedido: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11:1 ACF).

Repare no que o médico observador fez aqui. Ele não comenta a vida de oração de Jesus, não a explica e não a transforma em lição — apenas anota, cena após cena, quando e onde Ele orava. Se esse é o ponto que te interessa, vale ver o que a oração na Bíblia representa em outras passagens.

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Quando o Evangelho de Lucas Foi Escrito

Não há data no texto, e os estudiosos se dividem entre duas janelas3.

A primeira é antes da morte de Paulo, por volta de 62 a 64 d.C. O argumento mais citado é o final de Atos: o livro termina com Paulo em prisão domiciliar em Roma, pregando livremente (At 28:30,31), sem mencionar o desfecho do processo, a perseguição de Nero ou a queda de Jerusalém — três acontecimentos que dificilmente ficariam de fora se já tivessem ocorrido.

A segunda é depois da queda de Jerusalém, em 70 d.C. ou pouco depois, principalmente pela relação literária entre Lucas e o Evangelho de Marcos.

O que vale reter é de onde vem o debate: da evidência interna, do que o texto diz e do que ele deixa de dizer. Documento datado, nesse caso, é coisa que ninguém tem.

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O que a Tradição Diz sobre a Morte de Lucas

A Escritura não registra a morte de Lucas. O último dado bíblico sobre ele é a cela em Roma, ao lado de Paulo.

O que existe é tradição, e ela tem um endereço. O prólogo antimarcionita ao Evangelho de Lucas, um texto antigo que introduzia o Evangelho nos manuscritos, descreve o autor assim: sírio de Antioquia, médico de profissão, discípulo dos apóstolos, que depois seguiu Paulo até o martírio do apóstolo, “nunca teve mulher, nunca gerou filhos, e morreu aos oitenta e quatro anos, cheio do Espírito Santo, na Beócia”7.

É de lá que vêm quase todos os dados sobre Lucas que circulam por aí — Antioquia, os 84 anos, a vida sem casamento. Duas ressalvas honestas, antes de tomar isso como biografia:

  • A data do prólogo é incerta. Ele já foi tratado como texto do fim do século II, e nessa hipótese seria testemunho antiquíssimo; hoje boa parte dos estudiosos o considera mais tardio, possivelmente do século III ou depois8;
  • O texto diz “na Beócia”, uma região da Grécia central — não uma cidade. A menção a Tebas, que aparece em muitos sites, é dedução a partir dali, já que Tebas era a principal cidade da região.

Aqui vale a distinção que este artigo tenta manter do começo ao fim. O que a Bíblia diz, dizemos com a Bíblia; o que vem da tradição, dizemos como tradição — que é, aliás, o mesmo cuidado que o próprio Lucas declara no prólogo quando separa o que recebeu de testemunhas oculares daquilo que outros já haviam empreendido escrever.

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Lições da Vida de Lucas para Hoje

Apurar é um ato de serviço. Lucas investigou tudo, desde o princípio, para que um leitor tivesse certeza. O trabalho silencioso de conferir antes de afirmar não aparece no texto — aparece na confiança que o texto merece.

Dá para servir sem aparecer. Nas quatro seções em que estava presente, ele escreveu “nós” e seguiu adiante — sem se nomear, sem contar o que sentiu, sem transformar a própria presença em cena.

A formação que você tem entra no que você faz. O médico não deixou de ser médico ao escrever: a precisão das descrições e o interesse pelos doentes atravessam os dois volumes.

Ficar é um ministério. “Só Lucas está comigo” foi escrito quando havia pouca coisa a ganhar em estar ali. A companhia dele na prisão vale tanto quanto os dois livros.

Quem escreve decide o que sobrevive. Estêvão, Zaqueu, Emaús, o filho pródigo e o bom samaritano chegaram até nós porque alguém achou que valia a pena registrar. É uma responsabilidade que continua de pé.

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Perguntas Frequentes

Quem foi Lucas na Bíblia?

Lucas foi um médico, companheiro de viagem do apóstolo Paulo e autor de dois livros do Novo Testamento: o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos.

A Bíblia o menciona três vezes pelo nome (Cl 4:14; Fm 24; 2Tm 4:11), sempre em saudações de cartas paulinas. Não foi apóstolo nem testemunha ocular do ministério de Jesus, e escreveu a partir de investigação e de entrevistas com quem presenciou os fatos (Lc 1:1-4).

Quem escreveu o Evangelho de Lucas?

O próprio texto não traz o nome do autor, mas a tradição antiga da igreja é unânime em atribuir o Evangelho e Atos a Lucas, companheiro de Paulo.

A evidência interna reforça isso: os dois livros são dedicados a Teófilo, o segundo se refere ao primeiro (At 1:1) e as seções em “nós” de Atos indicam alguém que acompanhou Paulo em parte das viagens.

Para quem foi escrito o Evangelho de Lucas?

Para Teófilo, tratado no prólogo como “excelente Teófilo” (Lc 1:3), possivelmente uma autoridade romana ou o patrono que financiou a obra.

O objetivo é declarado no próprio texto: para que ele conhecesse “a certeza das coisas” de que já estava informado (Lc 1:4). Por trás de Teófilo, os leitores implícitos são cristãos vindos do mundo gentio.

Quando o Evangelho de Lucas foi escrito?

O texto não traz data, e há duas janelas em disputa: uma antes da morte de Paulo, por volta de 62 a 64 d.C., e outra depois da queda de Jerusalém, em 70 d.C.

O argumento mais citado a favor da janela antiga é que Atos termina com Paulo ainda preso em Roma, sem mencionar o desfecho do processo.

Lucas era gentio?

A tradição da igreja o considera gentio, o que faria dele o único autor não judeu da Bíblia. O argumento bíblico mais usado está em Colossenses 4.11-14, onde Paulo lista separadamente os cooperadores “da circuncisão” e menciona Lucas fora desse grupo. Em sentido contrário pesa o domínio que ele demonstra do Antigo Testamento. A Escritura não resolve a questão.

Como Lucas morreu?

A Bíblia não registra a morte de Lucas. O prólogo antimarcionita ao Evangelho, texto antigo que introduzia o livro nos manuscritos, diz que ele nunca se casou, não teve filhos e morreu aos oitenta e quatro anos na Beócia, região da Grécia central. A datação desse prólogo é disputada, então o dado vale como tradição antiga, não como registro bíblico.

Qual o significado do nome Lucas?

“Lucas” vem do latim Lucas, forma reduzida de Lucanus, ligada à região da Lucânia, no sul da Itália. Era um nome comum no mundo greco-romano, o que combina com a tradição que o identifica como gentio.

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Conclusão

Lucas é o autor que mais escreveu no Novo Testamento e o que menos falou de si.

Não sabemos onde nasceu, como se converteu, o que pregou ou como morreu. Sabemos que era médico, que Paulo o amava, que ele investigou tudo desde o princípio e que continuou ali quando os outros já tinham ido embora.

E sabemos o motivo pelo qual ele escreveu, porque ele fez questão de declarar na primeira página: “para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (Lc 1:4 ACF).

E você?

Diante do que a vida de Lucas mostra, o que você tem feito com aquilo que só você pode registrar — a história, a memória, o cuidado que ninguém mais vai guardar no seu lugar?

Se este artigo te ajudou, o nosso guia de personagens bíblicos reúne a história dos homens e mulheres que marcaram a Escritura, e a coleção de versículos explicados traz as passagens mais buscadas explicadas uma a uma.

Fique na Paz!

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Fontes

  1. HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Vida, 2015, p. 1175 (pág. do PDF).
  2. HAYS, Manual Bíblico Ilustrado Vida, p. 1175 (pág. do PDF).
  3. FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Como Ler a Bíblia Livro por Livro: um guia de estudo panorâmico. Trad. Thomas Neufeld de Lima e Daniel Hubert Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 340 (pág. do PDF).
  4. HAYS, Manual Bíblico Ilustrado Vida, p. 1359 (pág. do PDF).
  5. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. I. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 219.
  6. HAYS, Manual Bíblico Ilustrado Vida, p. 2058 (pág. do PDF).
  7. PRÓLOGO ANTIMARCIONITA ao Evangelho de Lucas. Texto latino publicado por Donatien De Bruyne, Revue Bénédictine 40 (1928), p. 193ss; tradução inglesa disponível em tertullian.org.
  8. Sobre a datação disputada dos prólogos antimarcionitas: BRUCE, F. F. Pedro, Estêvão, Tiago e João: estudos do cristianismo não-paulino. Trad. Eulália A. P. Kregness. São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 118 — que os trata como testemunho das últimas décadas do século II, posição hoje minoritária.
  9. Bíblia Almeida Corrigida Fiel (ACF). Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

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