Moisés foi o hebreu criado como príncipe do Egito que Deus chamou para tirar Israel da escravidão, receber a Lei no monte Sinai e conduzir o povo até a fronteira da terra prometida.
É a figura central de quatro dos cinco livros do Pentateuco — de Êxodo a Deuteronômio — e o único homem de quem a Escritura diz que o Senhor falava “face a face, como qualquer fala com o seu amigo” (Êx 33:11 ACF).
A vida dele se divide em três blocos de quarenta anos, e nenhum deles se parece com o outro. Quarenta anos de palácio. Quarenta anos de pasto. Quarenta anos de deserto com um povo às costas.
Hoje, vamos percorrer essa história inteira — do cesto de junco no Nilo até o túmulo que ninguém encontrou no monte Nebo — e entender por que o livro que narra tudo isso resume o propósito de Deus numa frase só: libertar um povo para que ele pudesse servir ao Senhor.
Sobre a tradução: as citações bíblicas deste artigo usam a Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo indicação em contrário.
A Vida de Moisés em Três Blocos de Quarenta Anos
O próprio Novo Testamento organiza a biografia de Moisés em três fases de quarenta anos (At 7:23,30,36). Essa é a maneira mais simples de guardar a história toda.
| Fase | Idade | Onde | O que aconteceu |
|---|---|---|---|
| Príncipe | 0 a 40 | Egito | Salvo do Nilo, criado na casa de Faraó, instruído em toda a ciência dos egípcios |
| Pastor | 40 a 80 | Midiã | Fugitivo, casa-se com Zípora, cuida do rebanho de Jetro |
| Libertador | 80 a 120 | Egito e deserto | Sarça ardente, pragas, saída do Egito, Sinai, quarenta anos de peregrinação |
Repare no desenho: os quarenta anos de preparo humano vieram primeiro, e não foram os que Deus usou para chamá-lo. O chamado veio depois de outros quarenta anos no lugar mais improvável, cuidando de ovelhas alheias.
Quem Foi Moisés e o Que Significa o Nome Dele
Moisés foi filho de Anrão e Joquebede, da tribo de Levi, e irmão mais novo de Arão e Miriã (Êx 6:20; Êx 7:7). Nasceu no Egito durante a perseguição em que Faraó ordenou a morte dos meninos hebreus.
O nome vem da fala da filha de Faraó no momento em que ela o adotou: “e chamou-lhe Moisés, e disse: Porque das águas o tenho tirado” (Êx 2:10 ACF).
Aqui há um detalhe que se perde na tradução. Na língua egípcia, mose significa “nascido” ou “filho”, e o som dessa palavra é parecido com o do termo hebraico para “tirado” das águas.1
Ou seja, o nome funcionava nas duas línguas ao mesmo tempo: para a corte, ele era simplesmente “o filho”; para os hebreus, “o tirado das águas”.
E o nome acabou descrevendo a vida inteira. O homem tirado das águas foi o homem que tiraria um povo inteiro de dentro da água.
O Nascimento no Egito e o Cesto no Nilo
O livro de Êxodo começa com uma ameaça demográfica. Os descendentes de Jacó haviam se multiplicado no Egito, e o novo Faraó, que não conhecia José, viu naquele crescimento um risco de segurança nacional (Êx 1:8-10).
A resposta foi a escravidão, e depois dela, o decreto: todo menino hebreu recém-nascido deveria ser lançado no rio (Êx 1:22).
Joquebede escondeu o filho por três meses. Quando não deu mais, fez um cesto de junco, calafetou com betume e piche, e o pôs entre as canas à margem do Nilo (Êx 2:3). Miriã ficou de longe, para ver o que aconteceria.
Vale notar o que ela fez ali. Joquebede cumpriu a letra da ordem de Faraó — o menino foi para o rio — e desobedeceu inteiramente à intenção dela.1
A filha de Faraó desceu ao rio, encontrou o cesto, ouviu o choro e teve compaixão. Miriã se aproximou e ofereceu uma ama de leite hebreia. Era a própria mãe do menino, que passou a criá-lo e ainda recebeu salário para isso (Êx 2:7-9).
O autor de Hebreus lê essa cena como fé, não como sorte: “Pela fé Moisés, já nascido, foi escondido três meses por seus pais, porque viram que era um menino formoso; e não temeram o mandamento do rei” (Hb 11:23 ACF).
Quando Moisés Viveu? As Duas Datas do Êxodo
Aqui vale um aviso, porque muito material sobre Moisés apresenta como fato aquilo que os estudiosos ainda discutem: a Bíblia não diz o nome do Faraó. Nem o do decreto contra os meninos, nem o da saída do Egito.
Existem duas datas propostas, e as duas têm base.2
A data recente, por volta de 1446 a.C. Vem da leitura literal de 1 Reis 6.1, que conta 480 anos entre a saída do Egito e o quarto ano do reinado de Salomão. É a datação mais adotada no meio evangélico, justamente porque parte de um número dado pela própria Escritura.
A data tardia, por volta de 1270 a 1260 a.C. Apoia-se em Êxodo 1.11, que diz que os hebreus construíram as cidades-celeiros de Pitom e Ramessés.
A cidade de Pi-Ramessés é geralmente identificada com esse lugar, e foi edificada no tempo de Ramessés II, que governou o Egito entre 1279 e 1213 a.C.
A arqueologia da conquista de Canaã, com destruições concentradas a partir do século XIII, costuma ser lida na mesma direção.2
Cada posição tem seu ponto fraco. Contra a data recente pesa a arqueologia; contra a tardia pesa o número de 1 Reis 6.1, que precisa ser lido como cifra simbólica — doze gerações de quarenta anos.
Sendo assim, o mais honesto é dizer o que se sabe: Moisés viveu no Egito do Império Novo, e o Faraó do Êxodo permanece sem nome no texto bíblico.
E há uma razão para isso. Nas inscrições egípcias, o Faraó é sempre o centro; no relato de Êxodo, ele é o personagem sem nome diante de um Deus que faz questão de dizer o Seu.
Quarenta Anos de Palácio — e o Egípcio Morto na Areia
Moisés cresceu como filho adotivo da princesa, o que lhe deu a formação da elite egípcia. Estêvão resume assim: “E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras” (At 7:22 ACF).
O Egito daquele tempo dominava engenharia, matemática, astronomia, medicina e administração. Moisés recebeu a melhor educação disponível no mundo antigo — e, quarenta anos depois, diria a Deus que não sabia falar.
Ele sabia de onde vinha. Um dia saiu para ver seus irmãos, “e viu que um egípcio feria a um hebreu, homem de seus irmãos” (Êx 2:11 ACF). Olhou para os dois lados, matou o egípcio e o escondeu na areia.
No dia seguinte, tentou separar dois hebreus que brigavam, e ouviu a pergunta que o desmontou: “quem te tem posto a ti por maioral e juiz sobre nós?” (Êx 2:14 ACF). O segredo já era público. Faraó procurou matá-lo, e Moisés fugiu.
Os dois episódios mostram um homem de compaixão real e de método próprio.3 A causa estava certa; o modo, não. Se o plano era libertar Israel eliminando egípcios um a um, o próprio povo tratou de mostrar que o problema não estava só do lado de fora.
Hebreus registra o que essa escolha custou: Moisés “recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado” (Hb 11:24,25 ACF).
Midiã: Quarenta Anos Cuidando de Ovelhas
Moisés se refugiou em Midiã, terra de parentes distantes dos hebreus (Gn 25:2). Ajudou as filhas de um sacerdote chamado Reuel — também conhecido como Jetro — a dar de beber ao rebanho, foi acolhido na casa e casou-se com Zípora. Teve dois filhos, Gérson e Eliezer (Êx 2:21,22; Êx 18:3,4).
O homem “poderoso em palavras e obras” passou os quarenta anos seguintes num pasto, cuidando de ovelhas teimosas. Era exatamente o treinamento de que precisava para liderar um povo teimoso.3
Enquanto isso, o texto muda o foco para Deus: “E ouviu Deus o seu gemido, e lembrou-se Deus da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó” (Êx 2:24 ACF).
Ou seja, Deus ouvia, via e se lembrava durante todos aqueles anos — e, enquanto isso, formava o homem que enviaria.
A Sarça Ardente e o Nome EU SOU
No monte Horebe, Moisés viu um arbusto que ardia sem se consumir. Chegou perto para entender, e Deus o chamou pelo nome do meio do fogo (Êx 3:1-4).
A imagem diz algo sobre o próprio chamado: um arbusto do deserto, sem valor nenhum, torna-se um lugar sagrado porque Deus está nele. Moisés era o arbusto frágil; o fogo era de Deus.4
E aí veio a comissão: Deus tinha visto a aflição do povo, ouvido o clamor e descido para livrá-lo — e enviaria Moisés a Faraó (Êx 3:7-10).
Moisés apresentou quatro objeções seguidas, e cada uma recebeu resposta:
- “Quem sou eu?” (Êx 3:11) — a resposta não fala de Moisés: “certamente eu serei contigo”;
- “Qual é o teu nome?” (Êx 3:13) — a revelação central do capítulo;
- “Eles não me crerão” (Êx 4:1) — Deus lhe dá três sinais;
- “eu não sou homem eloquente”, e sim “pesado de boca e pesado de língua” (Êx 4:10 ACF) — Deus responde lembrando quem fez a boca do homem, e dá Arão como porta-voz.
A segunda pergunta abriu a resposta mais conhecida do Antigo Testamento: “EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx 3:14 ACF).
O nome, em hebraico, é construído sobre o verbo “ser” — e é o mais importante dos nomes de Deus na Bíblia. Ele declara que Deus existe por si mesmo, não depende de nada e é o mesmo ontem, hoje e sempre.4
Séculos depois, Jesus tomaria esse mesmo nome e o completaria — “Eu sou o pão da vida”, “Eu sou a luz do mundo”, “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”. Os judeus que o ouviram sabiam exatamente o peso do que estava sendo dito.
As Dez Pragas e a Páscoa
Moisés voltou ao Egito com oitenta anos e apresentou a Faraó a ordem do Senhor. A recusa foi imediata, e a carga de trabalho dos hebreus aumentou (Êx 5:1-9).
Foi então que Deus resumiu o que faria, na passagem que o próprio livro de Êxodo usa como chave:
“Eu sou o Senhor, e vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios, e vos livrarei da servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos” (Êx 6:6 ACF).
Vieram as dez pragas, nesta ordem (Êx 7—12):
- As águas do Nilo em sangue;
- Rãs;
- Piolhos;
- Moscas;
- Peste nos animais;
- Úlceras;
- Chuva de pedras e fogo;
- Gafanhotos;
- Trevas;
- A morte dos primogênitos.
Afinal, as pragas foram mais do que demonstração de poder. Cada uma atingiu uma área que os egípcios atribuíam a um de seus deuses — o Nilo, o gado, o sol —, e o próprio texto declara o alvo:
“e em todos os deuses do Egito farei juízos” (Êx 12:12 ACF).
Na véspera da última praga, Deus instituiu a Páscoa. Cada família deveria sacrificar um cordeiro sem defeito e passar o sangue nas ombreiras da porta. Onde houvesse sangue, o julgamento passaria adiante (Êx 12:13).
Israel saiu do Egito naquela noite, depois de 430 anos ali (Êx 12:40,41).
A Travessia do Mar Vermelho

Faraó mudou de ideia e partiu atrás do povo com seus carros de guerra. Israel ficou entre o exército e a água, e começou a reclamar com Moisés.
A resposta dele é uma das frases mais citadas de todo o Antigo Testamento: “O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis” (Êx 14:14 ACF).
Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fez soprar um forte vento oriental durante toda a noite, as águas se dividiram, e o povo passou em seco. Quando os egípcios entraram atrás, as águas voltaram (Êx 14:21-28).
Do outro lado, Moisés e o povo cantaram — é o primeiro cântico registrado na Bíblia (Êx 15:1-21). Miriã pegou o tamboril e conduziu as mulheres.
O Sinai, os Dez Mandamentos e a Aliança
Três meses depois da saída do Egito, Israel acampou diante do monte Sinai. Foi ali que Deus fez do povo resgatado uma nação com lei, culto e identidade próprios.
O Senhor desceu sobre o monte em fogo, fumaça e trovão, e falou os Dez Mandamentos diante de todos (Êx 19:16-19; Êx 20:1-17).
O efeito sobre o povo foi tão forte que eles pediram a Moisés que falasse com Deus no lugar deles — e foi assim que ele se tornou o mediador da aliança.5
Moisés subiu ao monte e ali ficou quarenta dias e quarenta noites, recebendo a Lei e as instruções para a construção do tabernáculo (Êx 24:18).
Repare na ordem dos acontecimentos, porque ela muda a leitura do livro inteiro. A Lei não veio antes do resgate, como condição para ele. Veio depois, para um povo que já havia sido tirado do Egito. Primeiro a redenção, depois a aliança.6
O Bezerro de Ouro e a Intercessão de Moisés
Enquanto Moisés estava no monte, o povo se cansou de esperar. Procurou Arão, pediu deuses visíveis, e Arão fundiu um bezerro de ouro com os brincos que eles trouxeram (Êx 32:1-4).
Deus avisou Moisés do que estava acontecendo e lhe fez uma oferta: destruir aquele povo e fazer de Moisés uma grande nação (Êx 32:10).
Moisés recusou. E a oração dele não apelou para o mérito de ninguém — apelou para o nome de Deus diante dos egípcios e para a aliança feita com Abraão, Isaque e Jacó (Êx 32:11-13).
Depois desceu, quebrou as tábuas diante do bezerro, destruiu o ídolo e voltou ao monte com uma proposta impressionante: perdoa o pecado deles, “se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32 ACF).
Deus ofereceu duas vezes a Moisés a chance de recomeçar sozinho — aqui e mais tarde, em Cades (Nm 14:11,12). Nas duas, ele preferiu ficar com o povo que o cansava.7
O Tabernáculo: Deus Passa a Morar no Meio do Povo
Boa parte de Êxodo é ocupada por instruções detalhadas de construção: medidas, materiais, cores, utensílios. Deus estava estabelecendo um lugar onde a Sua presença habitaria no meio do acampamento.
O livro fecha exatamente aí. Terminada a obra, a nuvem cobre a tenda e a glória do Senhor enche o tabernáculo (Êx 40:34). Séculos depois, essa tenda daria lugar a uma construção fixa em Jerusalém — a história dos três templos dos hebreus.
É esse o arco completo de Êxodo, e vale guardá-lo: redenção (capítulos 1—18), aliança (19—24) e adoração (25—40). Deus liberta, toma o povo para Si e passa a habitar no meio dele.6
Já escrevemos um artigo inteiro sobre a planta, os utensílios e o simbolismo dessa construção: O Tabernáculo de Moisés.
Cades e os Quarenta Anos no Deserto
Do Sinai, Israel marchou até Cades-Barneia, na fronteira sul de Canaã. Moisés enviou doze espias, um de cada tribo, para reconhecer a terra (Nm 13:1-16).
Dez voltaram falando dos gigantes e das cidades fortificadas. Dois — Josué e Calebe — falaram do Senhor. O povo escolheu a maioria, chorou a noite inteira e cogitou voltar ao Egito (Nm 14:1-4).
A sentença foi proporcional ao relatório: quarenta anos no deserto, um ano para cada dia em que os espias percorreram a terra, até que morresse toda aquela geração (Nm 14:33,34).
Foram quatro décadas de marcha, murmuração e provisão. Maná todas as manhãs, água da rocha, roupas que não se gastaram (Dt 8:4). E Moisés à frente, sustentando um povo que reclamava dele e de Deus na mesma frase.
Nem a própria família o poupou: Miriã e Arão contestaram a autoridade dele, e o Senhor respondeu em pessoa (Nm 12:1-9).
A Rocha de Meribá: Por Que Moisés Não Entrou na Terra
Perto do fim da jornada, o povo ficou sem água outra vez e voltou a reclamar. Deus mandou Moisés tomar a vara e falar à rocha diante de todos (Nm 20:8).
Moisés fez outra coisa. Chamou o povo de rebelde, perguntou “porventura tiraremos água desta rocha para vós?” e feriu a pedra duas vezes com a vara (Nm 20:10,11).
A água saiu. E veio a sentença: “Porquanto não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes tenho dado” (Nm 20:12 ACF).
Parece severo para quem tinha aguentado quarenta anos daquele povo. Mas Moisés era o legislador e o mediador da nação, e tomou para si, diante de todos, o crédito de um milagre que era de Deus. Quanto maior o privilégio, maior a responsabilidade.7
Há ainda um segundo motivo, do lado do desenho da Escritura: a lei, representada por Moisés, não é o que dá a herança ao povo. Quem introduz Israel na terra é Josué — figura de Cristo, o único que conduz o povo ao descanso prometido (Hb 4:1-11).8
O que mais chama atenção na cena é o que Moisés fez depois. Ele aceitou a disciplina e continuou liderando o povo até o último dia.
A Morte no Monte Nebo
Nas planícies de Moabe, Moisés reuniu a nova geração e repassou a Lei — é o livro de Deuteronômio, cujo nome significa “segunda lei”. Depois pôs as mãos sobre Josué diante de todos e o confirmou como sucessor (Dt 31:7,8; Nm 27:18-23).
Então subiu o monte Nebo, ao cume do Pisga, e o Senhor lhe mostrou a terra inteira, do norte ao sul (Dt 34:1-4).
Moisés morreu ali com 120 anos, e o texto faz questão de registrar que “os seus olhos nunca se escureceram, nem perdeu o seu vigor” (Dt 34:7 ACF). O Senhor o sepultou num vale de Moabe, e até hoje ninguém sabe onde (Dt 34:6). Israel o pranteou por trinta dias.
O epitáfio está no último parágrafo do Pentateuco: “E nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, a quem o Senhor conhecera face a face” (Dt 34:10 ACF).
Ele ficou a cerca de dez quilômetros da fronteira e não atravessou. Mas pisou naquela terra séculos depois, no monte da transfiguração, conversando com Jesus sobre a partida que Ele cumpriria em Jerusalém (Lc 9:30,31).
Quem Moisés Era como Pessoa
A Bíblia não faz retrato de herói. Ela mostra um homem inteiro.
- Impetuoso quando jovem — matou o egípcio por conta própria e teve de fugir;
- Inseguro quando chamado — deu quatro desculpas seguidas a Deus e ainda pediu que enviasse outro (Êx 4:13);
- Explosivo sob pressão — quebrou as tábuas, feriu a rocha, discutiu com o povo;
- Intercessor teimoso — recusou duas vezes a oferta de virar uma nação nova sozinho;
- Manso — “E era o homem Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12:3 ACF).
Essa última linha costuma soar estranha ao lado das outras, não acha? Mansidão, na Escritura, não é temperamento calmo: é força sob controle, a disposição de não usar o próprio poder em causa própria.
Moisés tinha argumento e autoridade para se defender de Miriã e de Arão, e ficou calado — Deus falou por ele.
Moisés Aponta para Jesus
Moisés é a figura do Antigo Testamento que o Novo mais usa como ponto de comparação. Assim como acontece com Ester e com Pedro, a vida dele conta uma história maior do que a própria biografia.
Ele mesmo anunciou isso: “O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Dt 18:15 ACF) — texto que Pedro aplica diretamente a Cristo em Atos 3.22.
Os paralelos atravessam a vida toda:
- Os dois escaparam de um decreto que mandava matar meninos;
- Os dois saíram do Egito para cumprir o chamado (Mt 2:15);
- Os dois jejuaram quarenta dias antes do ministério;
- Moisés deu a Lei no monte; Jesus a interpretou no Sermão do Monte;
- O cordeiro da Páscoa livrou Israel do julgamento; Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29 ACF);
- Moisés levantou a serpente no deserto, e Jesus usou aquela cena para explicar a própria cruz (Jo 3:14).
Entretanto, há uma diferença, e Hebreus a coloca em termos de posição: Moisés foi fiel na casa de Deus, como servo; Cristo é fiel sobre a casa, como Filho (Hb 3:5,6).
Lições da Vida de Moisés para Hoje
Deus prepara antes de enviar. Foram oitenta anos de formação para quarenta de ministério. Os quarenta anos de pasto ensinaram o que a corte do Egito não ensinaria.
Currículo não é chamado. Tenho certeza de que muita gente já se sentiu assim: o homem “poderoso em palavras e obras” só foi enviado depois de perder a posição, o discurso e a confiança em si mesmo.
A demora de Deus não é ausência. Enquanto Israel gemia, o texto diz que Deus ouvia, via, sabia e se lembrava da aliança (Êx 2:24,25).
Liderar é interceder. As duas vezes em que Moisés poderia ter trocado o povo por um projeto próprio, ele preferiu ficar.
Obediência inclui o método. Em Meribá o resultado saiu certo e o caminho saiu errado — e foi o caminho que contou.
Servir com fidelidade vale mais que ver o resultado. Moisés não entrou na terra, e ainda assim Deuteronômio o chama de servo do Senhor.
Perguntas Frequentes
Quem foi Moisés na Bíblia?
Moisés foi o hebreu criado como filho da filha de Faraó que Deus chamou para libertar Israel da escravidão no Egito. Ele recebeu a Lei no monte Sinai, liderou o povo por quarenta anos no deserto e é tradicionalmente reconhecido como autor dos cinco primeiros livros da Bíblia.
Quantos anos Moisés viveu?
Cento e vinte anos, divididos em três fases de quarenta: quarenta no Egito, quarenta em Midiã como pastor e quarenta liderando Israel no deserto (Dt 34:7; At 7:23,30,36).
Por que Moisés não entrou na terra prometida?
Porque em Meribá, Deus mandou que ele falasse à rocha, e Moisés feriu a pedra com a vara e falou como se a água viesse dele e de Arão. O Senhor disse que ele não havia crido para santificá-lo diante do povo (Nm 20:10-12).
O que significa o nome Moisés?
A explicação dada pela própria Bíblia é “tirado das águas” (Êx 2:10). Em egípcio, a palavra mose significa “filho” ou “nascido”, e soa parecido com o verbo hebraico “tirar” — o nome funciona nas duas línguas.
Moisés era gago?
O texto diz que ele se declarou “pesado de boca e pesado de língua” (Êx 4:10 ACF). A Bíblia não usa um termo médico, e Atos 7.22 afirma que ele era “poderoso em suas palavras e obras” — o que sugere insegurança ou dificuldade de fala mais do que gagueira no sentido clínico.
Quem foi o primeiro filho de Moisés?
Gérson, nascido em Midiã, filho de Moisés com Zípora: “A qual deu à luz um filho, a quem ele chamou Gérson, porque disse: Peregrino fui em terra estranha” (Êx 2:22 ACF). O nome é o registro do exílio — Moisés batiza o próprio filho com a condição em que vivia. O segundo é Eliézer, “porque disse: O Deus de meu pai foi por minha ajuda, e me livrou da espada de Faraó” (Êx 18:4 ACF), e os dois nomes juntos contam a virada: o primeiro guarda a fuga, o segundo o livramento.
Quem escreveu os livros de Moisés?
A tradição judaica e cristã atribui a Moisés a autoria do Pentateuco — Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. O próprio texto registra que Moisés escreveu (Êx 24:4; Dt 31:9,24), e Jesus se refere à Lei como “de Moisés” (Mc 12:26; Jo 5:46).
Conclusão
A história de Moisés começa com um bebê que deveria morrer e termina com um túmulo que ninguém encontrou. Entre um ponto e outro, um povo escravo virou nação, recebeu uma lei e passou a ter a presença de Deus habitando no meio do acampamento.
O livro que narra tudo isso resume o propósito numa frase: Deus liberta o Seu povo para que ele possa servi-Lo.6 A saída do Egito não terminou em liberdade solta — terminou em aliança e em adoração.
E o homem escolhido para conduzir esse caminho não foi o príncipe de quarenta anos, cheio de recursos. Foi o pastor de oitenta, que já tinha perdido a confiança em si mesmo e precisou ouvir de Deus: EU SOU me enviou a vós.
E você?
Em que área da sua vida Deus tem te chamado, e você tem respondido com um “quem sou eu”?
Se este artigo te ajudou, o nosso guia de personagens bíblicos reúne a história dos homens e mulheres que marcaram a Escritura, e a coleção de versículos explicados traz as passagens mais buscadas explicadas uma a uma.
Fique na Paz!
Fontes e Referências
Notas
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. I — Pentateuco. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 236.
- ENNS, Peter. “Datação do Êxodo”. In: HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Editora Vida, 2015, verbete “Datação do Êxodo”.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 237.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 238.
- ALEXANDER, T. Desmond. Do Paraíso à Terra Prometida: uma introdução ao Pentateuco. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 94.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 232.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 597.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 452.
Fontes consultadas
- Bíblia Sagrada, Almeida Corrigida Fiel (ACF);
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. I — Pentateuco;
- ALEXANDER, T. Desmond. Do Paraíso à Terra Prometida: uma introdução ao Pentateuco;
- HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida — verbete “Datação do Êxodo”, de Peter Enns;
- FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Como Ler a Bíblia Livro por Livro: um guia de estudo panorâmico;
- Quem foi Moisés na Bíblia — Respostas;
- Moisés — eBiografia;
- História de Moisés — Estilo Adoração.