O Sinédrio era o supremo conselho judaico de Jerusalém: um tribunal de 71 membros que reunia autoridade religiosa e política sobre o povo judeu no tempo do Novo Testamento. Era presidido pelo sumo sacerdote — o Nasi — e formado por sacerdotes da aristocracia, ligados aos saduceus, anciãos do povo e escribas doutores da Lei, ligados aos fariseus.
Sob domínio romano o seu poder tinha um limite claro: Roma havia retirado dele o direito de executar a pena de morte civil. Repare no efeito disso no julgamento de Jesus — condenado pelo conselho, ele precisou ser levado a Pilatos para que a sentença fosse cumprida.
A religião de Israel não surgiu da noite para o dia; ela se formou ao longo de sua história. Em seus primórdios, tudo consistia em ritos simples.
As pessoas ofereciam algo a Deus, erguiam uma coluna ou depositavam dízimos diante de uma autoridade religiosa. Você pode ver um exemplo claro disso na história de Abrão e Melquisedeque (Gn 14:18-24).
Mais tarde, a partir do Êxodo, as coisas começaram a tomar uma nova forma. Durante a peregrinação do povo hebreu do Egito em direção à terra de Canaã, Deus iniciou o processo de ritualização da religião.
Ele estabeleceu um local de culto – o tabernáculo –, além de utensílios e objetos sagrados para esse culto.
Também separou um grupo específico de pessoas para realizar esse serviço sagrado: os levitas. E não parou por aí, pois Deus definiu os tipos de sacrifícios, as ofertas e até os dias e as festas dedicados à adoração.
Posteriormente, todas essas práticas passaram a ser realizadas no templo idealizado por Davi e construído por Salomão, recebendo ainda o maravilhoso acréscimo dos cantores levíticos.
Já nos tempos do Novo Testamento, sob a vigência do majestoso templo de Herodes (o Grande), os judeus possuíam uma assembleia que reunia membros das classes religiosas de Israel.
Essa assembleia – ou conselho – detinha uma poderosa mistura de poderes religioso e político. Tudo isso era impulsionado pela grande influência da figura do sumo sacerdote.
E era exatamente essa assembleia que recebia a denominação de sinédrio ou sinedrim.
A Origem do Sinédrio
O termo sinédrio (ou sinedrim), no hebraico, é סנהדרין (sanhedrîn). Já no grego, a palavra é συνεδριον (sunedrion).
O seu significado aponta para uma “assembleia para julgamento” formada por magistrados, ou até mesmo uma reunião do povo para deliberar sobre alguma decisão importante.
Curiosamente, na Bíblia Sagrada, a expressão “Sinédrio” aparece somente no Novo Testamento.
Contudo, a tradição judaica – registrada posteriormente no Talmude – e alguns intérpretes clássicos têm outra visão. Eles atribuem a sua origem aos 70 anciãos que auxiliavam Moisés na liderança do povo hebreu durante a peregrinação no deserto (Nm 11:16,17).

Apesar dessa forte conexão tradicional com Moisés, a maioria dos historiadores e teólogos modernos, como Emil Schürer e Joachim Jeremias, aponta para outra direção.
Eles afirmam que o Sinédrio, da forma como o vemos nos moldes neotestamentários, é, na verdade, um desenvolvimento pós-exílico.
Acredita-se que Esdras, por ordem do imperador persa Artaxerxes, teria organizado um grupo de “regedores e juízes” (Ed 7:25, ARC) para julgar as causas do povo judeu.
Mais adiante na história, o historiador judeu Flávio Josefo traz outro detalhe em sua obra Antiguidades Judaicas (Livro XII).
Ele afirma que, durante a dominação grega, foi permitido aos judeus terem anciãos que representassem o povo. O nome dado a esse seleto grupo de anciãos foi gerousia (que significa senado grego).
Mais tarde, esse mesmo grupo (gerousia) passou a ser formado por anciãos escolhidos da aristocracia judaica. E quem era o seu líder? O próprio sumo sacerdote.
Finalmente, sob a dominação romana – período que adentra o Novo Testamento –, o conselho judaico (Sinédrio) passou a atuar debaixo da autoridade do imperador e dos procuradores romanos na Judeia.
A Composição do Sinédrio
Ainda que a quantidade de membros possa ter variado de acordo com a época, afirma-se que, no tempo do Novo Testamento, o Sinédrio era rigorosamente composto por 71 membros.
A composição exata envolvia o sumo sacerdote (que atuava como presidente ou Nasi) e mais 70 membros. Eles eram divididos basicamente da seguinte forma:
- Sacerdotes e a Aristocracia: Membros das famílias sacerdotais mais ricas e influentes de Israel (majoritariamente ligados aos saduceus).
- Anciãos do Povo: Líderes tribais e chefes de famílias proeminentes.
- Escribas e Doutores da Lei: Especialistas na Torá (predominantemente ligados aos fariseus).
Imagine só: essa mistura de fariseus e saduceus frequentemente gerava fortes tensões teológicas internas!
Um exemplo claro disso eram as divergências sobre a ressurreição dos mortos. E foi exatamente isso que o apóstolo Paulo usou, de forma muito hábil, a seu favor durante o seu próprio julgamento (At 23:6-10).
Esse Sinédrio, formado por 71 membros, era também denominado grande sinédrio ou supremo concílio de Jerusalém.
Isso porque, em algumas pequenas localidades, costumava existir um pequeno sinédrio (composto por 23 membros), cuja função era julgar apenas as causas judiciais locais.

Pelas classes ali representadas, podemos afirmar que esse conselho reunia a grande força da nação.
Havia representantes do poder político, visto que, por vezes, o próprio sumo sacerdote era indicado pelo procurador romano.
Havia também o poder econômico, representado pelos membros das famílias mais ricas. E, por fim, o poder religioso, através dos saduceus e fariseus.

Durante as sessões do Sinédrio, a organização era impecável. Seus membros sentavam-se formando um semicírculo para que todos os presentes pudessem ver uns aos outros.
Para que nada passasse despercebido, essas assembleias eram registradas por dois escrivães posicionados ao lado do sumo sacerdote.
A regra era a seguinte: quem fosse julgado no Sinédrio deveria, primeiramente, apresentar sua defesa. Depois disso, seguiam-se as acusações, culminando com a sentença ou absolvição.
Repare no contraste: no caso de Jesus, nada disso aconteceu. Não foi apresentada defesa alguma. Ele ouviu somente as acusações vindas por parte do sumo sacerdote e dos demais presentes no Sinédrio.
Até Onde ia o Poder do Sinédrio?
Durante o período neotestamentário, sob a dominação romana, o Sinédrio exercia um enorme poder sobre o mundo judeu.
Ele atuava como uma verdadeira suprema corte de Israel. Contudo, seu poder era limitado, operando, na prática, como vassalo da autoridade romana.
Um exemplo crucial dessa limitação é o famoso jus gladii (o direito da espada). Roma havia retirado do Sinédrio o direito de executar a pena de morte civil.
E é por isso que, no caso de Jesus, ocorreu o que lemos nas Escrituras. Embora Ele tenha sido julgado e condenado primeiramente no Sinédrio (Jo 18:12-27), os líderes precisaram levá-Lo a Pilatos, a autoridade romana na Judeia.
Apenas ele poderia permitir que a sentença de morte por crucificação fosse ratificada e executada.
Ainda assim, o Sinédrio mantinha autoridade sobre o templo em Jerusalém e sobre as sinagogas espalhadas pelo território de Israel. Desse modo, exerciam uma administração central da religião judaica.
Além disso, o conselho exercia forte autoridade na aplicação da Torá sobre o povo judeu, tornando-se a instância decisiva nas questões teológicas e religiosas daquela época.
Em caso de desobediência grave às leis da Torá, a condenação era severa: blasfêmia. E foi essa a acusação exata que levantaram contra Jesus perante o sumo sacerdote (Mt 26:65).
Ademais, como o sumo sacerdote era muitas vezes indicado pelo procurador romano na Judeia, o Sinédrio adquiria uma grande influência política.
Para você ter uma ideia do alcance desse poder, Saulo de Tarso tinha em suas mãos cartas que o autorizavam a prender qualquer seguidor de Jesus. Ele podia capturá-los e levá-los para Jerusalém (At 9:1,2), a fim de serem julgados pelo rigoroso Sinédrio.
Felizmente, a Palavra nos mostra algumas exceções. O texto do Evangelho de Lucas informa que José de Arimateia, um membro do Sinédrio, não concordou com a decisão do conselho de entregar Jesus à condenação (Lc 23:49-52).
E, pelo texto do Evangelho de João, é possível entendermos que Nicodemos, aquele que encontrou Jesus à noite, também fosse um proeminente membro do Sinédrio (Jo 7:45-53).
E você?
O que pensa sobre a atuação e a grande influência do Sinédrio nos dias de Jesus?
Perguntas Frequentes sobre o Sinédrio
O nome “Sinédrio” aparece no Antigo Testamento?
Não. A palavra é grega — sunedrion — e só ocorre em livros do Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, João e Atos. Nem toda tradução a conserva: a ACF a mantém em cinco passagens, como Mc 14.60 e Mt 5.22, enquanto a NVT e a BKJ preferem sempre “conselho”. O que falta no Antigo Testamento é o nome, não a prática.
O Sinédrio nasceu dos setenta anciãos de Moisés?
A tradição judaica registrada no Talmude diz que sim, e o liga aos setenta homens que Deus mandou Moisés ajuntar para que levassem com ele a carga do povo (Nm 11:16,17, ACF).
A maioria dos historiadores modernos, entre eles Emil Schürer e Joachim Jeremias, enxerga outra coisa: o conselho que aparece nos Evangelhos seria formação posterior ao exílio. Os degraus estão em Esdras, encarregado por Artaxerxes de pôr “regedores e juízes” sobre o povo (Ed 7:25, ARC), e na gerousia, o senado de anciãos que Flávio Josefo descreve sob a dominação grega.
Por que o Sinédrio tinha 71 membros, e não 70?
Porque o setenta conta os conselheiros, e o septuagésimo primeiro é quem preside. Essa cadeira era do sumo sacerdote, chamado Nasi, e com ele o colegiado fechava em 71.
O número variou conforme a época. O que se firmou no tempo do Novo Testamento foi esse formato, dividido entre sacerdotes da aristocracia, anciãos do povo e escribas doutores da Lei.
Como fariseus e saduceus conviviam no mesmo tribunal?
Mal, e a Escritura não esconde. Cada bancada carregava para dentro do conselho as divergências teológicas que a separavam fora dele, e a ressurreição dos mortos era a maior de todas.
Paulo conhecia esse terreno. Ao ser julgado, declarou-se fariseu e pôs a ressurreição no centro da causa; o conselho se dividiu contra si mesmo e o tribuno romano teve de retirá-lo dali à força (At 23:6-10, ACF).
Qual era a diferença entre o grande Sinédrio e o pequeno sinédrio?
O tamanho e o alcance. O grande Sinédrio era o de Jerusalém, com os 71 membros, e funcionava como instância suprema da nação. Os pequenos sinédrios tinham 23 membros, existiam em localidades menores e cuidavam somente das causas judiciais dali.
Esse alcance nacional explica as cartas que Saulo de Tarso levava consigo: com elas podia prender seguidores de Jesus em Damasco, fora da Judeia, e conduzi-los presos até Jerusalém (At 9:1,2, ACF).
O Sinédrio podia condenar alguém à morte?
Podia declarar a sentença, não executá-la. Roma havia retirado do conselho o jus gladii, o direito da espada, e sem ele a condenação parava no veredito.
O julgamento de Jesus mostra o mecanismo inteiro. O conselho chegou à decisão — “É réu de morte” (Mt 26:66, ACF) — e precisou levá-lo a Pilatos. Quando o governador mandou que o julgassem pela lei deles, a resposta foi direta: “A nós não nos é lícito matar pessoa alguma” (Jo 18:31, ACF).
Algum membro do Sinédrio discordou da condenação de Jesus?
Pelo menos dois. Lucas apresenta José de Arimateia como homem de bem e justo, e faz questão de registrar que ele “não tinha consentido no conselho e nos atos dos outros” (Lc 23:51, ACF). Foi esse mesmo homem quem depois pediu a Pilatos o corpo de Jesus.
O outro é Nicodemos, e o registro dele é anterior ao julgamento. Quando os colegas quiseram agir contra Jesus, ele os lembrou de que a lei não condena um homem “sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz” (Jo 7:51, ACF). João o apresenta como “um deles” (Jo 7:50, ACF), no grupo dos principais dos sacerdotes e fariseus que ali deliberavam.
Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.
Fique na Paz!
Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura:
- BRUCE, F.F. Merece Confiança o Novo Testamento? Vida Nova.
- JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus. Paulus.
- JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus (Antiguidades Judaicas). CPAD.
- SCHÜRER, Emil. A History of the Jewish People in the Time of Jesus Christ.