O que é o Sinédrio na Bíblia?

A religião de Israel não surgiu da noite para o dia; ela se formou ao longo de sua história. Em seus primórdios, tudo consistia em ritos simples.

As pessoas ofereciam algo a Deus, erguiam uma coluna ou depositavam dízimos diante de uma autoridade religiosa. Você pode ver um exemplo claro disso na história de Abrão e Melquisedeque (Gn 14.18-24).

Mais tarde, a partir do Êxodo, as coisas começaram a tomar uma nova forma. Durante a peregrinação do povo hebreu do Egito em direção à terra de Canaã, Deus iniciou o processo de ritualização da religião.

Ele estabeleceu um local de culto – o tabernáculo –, além de utensílios e objetos sagrados para esse culto.

Também separou um grupo específico de pessoas para realizar esse serviço sagrado: os levitas. E não parou por aí, pois Deus definiu os tipos de sacrifícios, as ofertas e até os dias e as festas dedicados à adoração.

Posteriormente, todas essas práticas passaram a ser realizadas no templo idealizado por Davi e construído por Salomão, recebendo ainda o maravilhoso acréscimo dos cantores levíticos.

Já nos tempos do Novo Testamento, sob a vigência do majestoso templo de Herodes (o Grande), os judeus possuíam uma assembleia que reunia membros das classes religiosas de Israel.

Essa assembleia – ou conselho – detinha uma poderosa mistura de poderes religioso e político. Tudo isso era impulsionado pela grande influência da figura do sumo sacerdote.

E era exatamente essa assembleia que recebia a denominação de sinédrio ou sinedrim.

A Origem do Sinédrio

O termo sinédrio (ou sinedrim), no hebraico, é סנהדרין (sanhedrîn). Já no grego, a palavra é συνεδριον (sunedrion).

O seu significado aponta para uma “assembleia para julgamento” formada por magistrados, ou até mesmo uma reunião do povo para deliberar sobre alguma decisão importante.

Curiosamente, na Bíblia Sagrada, a expressão “Sinédrio” aparece somente no Novo Testamento.

Contudo, a tradição judaica – registrada posteriormente no Talmude – e alguns intérpretes clássicos têm outra visão. Eles atribuem a sua origem aos 70 anciãos que auxiliavam Moisés na liderança do povo hebreu durante a peregrinação no deserto (Nm 11.16,17).

Significado de Sinédrio

Apesar dessa forte conexão tradicional com Moisés, a maioria dos historiadores e teólogos modernos, como Emil Schürer e Joachim Jeremias, aponta para outra direção.

Eles afirmam que o Sinédrio, da forma como o vemos nos moldes neotestamentários, é, na verdade, um desenvolvimento pós-exílico.

Acredita-se que Esdras, por ordem do imperador persa Artaxerxes, teria organizado um grupo de “regedores e juízes” (Ed 7.25 ARC) para julgar as causas do povo judeu.

Mais adiante na história, o historiador judeu Flávio Josefo traz outro detalhe em sua obra Antiguidades Judaicas (Livro XII).

Ele afirma que, durante a dominação grega, foi permitido aos judeus terem anciãos que representassem o povo. O nome dado a esse seleto grupo de anciãos foi gerousia (que significa senado grego).

Mais tarde, esse mesmo grupo (gerousia) passou a ser formado por anciãos escolhidos da aristocracia judaica. E quem era o seu líder? O próprio sumo sacerdote.

Finalmente, sob a dominação romana – período que adentra o Novo Testamento –, o conselho judaico (Sinédrio) passou a atuar debaixo da autoridade do imperador e dos procuradores romanos na Judeia.

A Composição do Sinédrio

Ainda que a quantidade de membros possa ter variado de acordo com a época, afirma-se que, no tempo do Novo Testamento, o Sinédrio era rigorosamente composto por 71 membros.

A composição exata envolvia o sumo sacerdote (que atuava como presidente ou Nasi) e mais 70 membros. Eles eram divididos basicamente da seguinte forma:

  • Sacerdotes e a Aristocracia: Membros das famílias sacerdotais mais ricas e influentes de Israel (majoritariamente ligados aos saduceus).
  • Anciãos do Povo: Líderes tribais e chefes de famílias proeminentes.
  • Escribas e Doutores da Lei: Especialistas na Torá (predominantemente ligados aos fariseus).

Imagine só: essa mistura de fariseus e saduceus frequentemente gerava fortes tensões teológicas internas!

Um exemplo claro disso eram as divergências sobre a ressurreição dos mortos. E foi exatamente isso que o apóstolo Paulo usou, de forma muito hábil, a seu favor durante o seu próprio julgamento (At 23.6-10).

Esse Sinédrio, formado por 71 membros, era também denominado grande sinédrio ou supremo concílio de Jerusalém.

Isso porque, em algumas pequenas localidades, costumava existir um pequeno sinédrio (composto por 23 membros), cuja função era julgar apenas as causas judiciais locais.

Composição do Sinédrio

Pelas classes ali representadas, podemos afirmar que esse conselho reunia a grande força da nação.

Havia representantes do poder político, visto que, por vezes, o próprio sumo sacerdote era indicado pelo procurador romano.

Havia também o poder econômico, representado pelos membros das famílias mais ricas. E, por fim, o poder religioso, através dos saduceus e fariseus.

Poderes do Sinédrio

Durante as sessões do Sinédrio, a organização era impecável. Seus membros sentavam-se formando um semicírculo para que todos os presentes pudessem ver uns aos outros.

Para que nada passasse despercebido, essas assembleias eram registradas por dois escrivães posicionados ao lado do sumo sacerdote.

A regra era a seguinte: quem fosse julgado no Sinédrio deveria, primeiramente, apresentar sua defesa. Depois disso, seguiam-se as acusações, culminando com a sentença ou absolvição.

No entanto, no caso de Jesus, as coisas aconteceram de maneira muito diferente. Não foi apresentada defesa alguma. Ele ouviu somente as acusações vindas por parte do sumo sacerdote e dos demais presentes no Sinédrio.

Até Onde ia o Poder do Sinédrio?

Durante o período neotestamentário, sob a dominação romana, o Sinédrio exercia um enorme poder sobre o mundo judeu.

Ele atuava como uma verdadeira suprema corte de Israel. Contudo, seu poder era limitado, operando, na prática, como vassalo da autoridade romana.

Um exemplo crucial dessa limitação é o famoso jus gladii (o direito da espada). Roma havia retirado do Sinédrio o direito de executar a pena de morte civil.

E é por isso que, no caso de Jesus, ocorreu o que lemos nas Escrituras. Embora Ele tenha sido julgado e condenado primeiramente no Sinédrio (Jo 18.12-27), os líderes precisaram levá-Lo a Pilatos, a autoridade romana na Judeia.

Apenas ele poderia permitir que a sentença de morte por crucificação fosse ratificada e executada.

Ainda assim, o Sinédrio mantinha autoridade sobre o templo em Jerusalém e sobre as sinagogas espalhadas pelo território de Israel. Desse modo, exerciam uma administração central da religião judaica.

Além disso, o conselho exercia forte autoridade na aplicação da Torá sobre o povo judeu, tornando-se a instância decisiva nas questões teológicas e religiosas daquela época.

Em caso de desobediência grave às leis da Torá, a condenação era severa: blasfêmia. E foi essa a acusação exata que levantaram contra Jesus perante o sumo sacerdote (Mt 26.65).

Ademais, como o sumo sacerdote era muitas vezes indicado pelo procurador romano na Judeia, o Sinédrio adquiria uma grande influência política.

Para você ter uma ideia do alcance desse poder, Saulo de Tarso tinha em suas mãos cartas que o autorizavam a prender qualquer seguidor de Jesus. Ele podia capturá-los e levá-los para Jerusalém (At 9.1,2), a fim de serem julgados pelo rigoroso Sinédrio.

Felizmente, a Palavra nos mostra algumas exceções. O texto do Evangelho de Lucas informa que José de Arimateia, um membro do Sinédrio, não concordou com a decisão do conselho de entregar Jesus à condenação (Lc 23.49-52).

E, pelo texto do Evangelho de João, é possível entendermos que Nicodemos, aquele que encontrou Jesus à noite, também fosse um proeminente membro do Sinédrio (Jo 7.45-53).

E você?

O que pensa sobre a atuação e a grande influência do Sinédrio nos dias de Jesus?

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Fique na Paz!

Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura:

  • BRUCE, F.F. Merece Confiança o Novo Testamento? Vida Nova.
  • JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus. Paulus.
  • JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus (Antiguidades Judaicas). CPAD.
  • SCHÜRER, Emil. A History of the Jewish People in the Time of Jesus Christ.

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