Quem Foi Melquisedeque na Bíblia?

↑ Este artigo faz parte da coleção Personagens Bíblicos — quem foram e o que ainda ensinam à igreja de hoje.

Melquisedeque foi rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Ele aparece em três versículos de Gênesis, abençoa Abraão, recebe o dízimo dos despojos de uma guerra — e some.

Mil anos depois, um salmo o traz de volta em uma única linha. Mil anos depois disso, o autor de Hebreus dedica um capítulo inteiro a ele e faz dessa figura a chave para explicar o sacerdócio de Jesus Cristo.

E aqui está o que torna o caso curioso: quanto menos o texto informa, mais peso a informação carrega. Hoje, vamos percorrer as três aparições — Gênesis, Salmos e Hebreus — para responder à pergunta que elas deixam no ar: por que um personagem de três versículos vira o argumento central de um livro inteiro do Novo Testamento?

Sobre a tradução: as citações bíblicas deste artigo usam a Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo indicação em contrário.

Quem Foi Melquisedeque na Bíblia

Melquisedeque foi rei da cidade de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, no tempo de Abraão. Ele surge no capítulo 14 de Gênesis, depois que Abraão volta de uma batalha em que resgatou o sobrinho Ló, e sai ao encontro do patriarca com pão e vinho.

O encontro dura três versículos. Nesses três versículos, ele abençoa Abraão e recebe dele o dízimo de tudo. Depois disso, o Antigo Testamento não volta a narrar nada sobre ele.

Antes da história, um resumo:

Dado Detalhe
Nome Melquisedeque (do hebraico malki-tsedeq, “rei de justiça”)
Cidade Salém — “paz”, geralmente identificada com Jerusalém
Ofícios rei e sacerdote do Deus Altíssimo, ao mesmo tempo
Época tempo de Abraão, antes da Lei e antes do sacerdócio levítico
Pai e mãe não registrados nas Escrituras
Onde aparece Gênesis 14.18-20 · Salmos 110.4 · Hebreus 5, 6 e 7
O que recebeu o dízimo dos despojos de guerra, das mãos de Abraão
O que ofereceu pão, vinho e uma bênção

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O Significado do Nome: Rei de Justiça

O próprio Novo Testamento traduz o nome, e é raro isso acontecer:

“A quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz” (Hebreus 7.2)

Melquisedeque junta duas palavras hebraicas: melek, rei, e tsedeq, justiça. E Salém vem da mesma raiz de shalom — paz.

Repare no que o autor de Hebreus faz aqui. Ele não está fazendo etimologia por curiosidade: está lendo o nome e a cidade como um retrato. Primeiro justiça, depois paz — nessa ordem. É a mesma ordem em que a Bíblia costuma pôr as duas coisas, porque a paz que vem antes da justiça não passa de trégua.

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A Cena: Dois Reis Diante de Abraão

Aqui está o detalhe que quase toda leitura apressada perde: não é um rei que sai ao encontro de Abraão. São dois.

O capítulo 14 de Gênesis conta uma guerra. Quatro reis do oriente saqueiam Sodoma e Gomorra e levam Ló, sobrinho de Abraão, junto com os bens. Abraão arma trezentos e dezoito homens da própria casa, persegue o exército até o norte da terra e volta com tudo o que fora tomado.

Trezentos e dezoito homens parecem pouco para enfrentar quatro reis, e é aqui que o contexto ajuda: naquele mundo, os exércitos das cidades-estado não eram muito maiores que a tropa que Abraão levantou dentro de casa. A tática também não foi improviso — ele alcançou os invasores em Dã, no extremo norte, e atacou de noite, uma manobra documentada em textos militares da época1.

É na volta que a cena acontece:

“E o rei de Sodoma saiu-lhe ao encontro (depois que voltou de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele) até ao Vale de Savé, que é o vale do rei. E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo” (Gênesis 14.17-18)

Dois reis, duas ofertas, dois caminhos. Bera, rei de Sodoma, oferece um negócio: fique com os bens e devolva as pessoas. Melquisedeque, rei de Salém, oferece pão, vinho e uma bênção — e não pede nada.

Warren Wiersbe chama atenção para o que os nomes dizem: Sodoma significa “queimando”, e Salém, “paz”2. Abraão está diante de dois estilos de vida opostos, e precisa escolher.

Ele escolhe. Recusa o espólio de Bera com um juramento:

“Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra, jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão” (Gênesis 14.22-23)

E ainda assim não impõe a decisão a mais ninguém: os aliados Aner, Escol e Manre ficam livres para tomar a parte deles (Gênesis 14.24)3.

Vale reparar no tempo dessa história. O perigo não veio durante a batalha — veio depois dela, na hora de dividir o que sobrou.

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O Pão e o Vinho: o Que o Texto Diz e o Que Não Diz

O texto diz que Melquisedeque “trouxe pão e vinho”. Só isso.

Há quem leia o gesto como hospitalidade: alimento para homens que voltavam de uma perseguição longa. Há quem leia como ato sacerdotal, e enxergue ali um prenúncio da Ceia do Senhor.

As duas leituras têm defensores sérios, e o texto de Gênesis não decide entre elas. O que o texto afirma é a função de quem traz: o mesmo versículo que menciona o pão e o vinho informa que “era este sacerdote do Deus Altíssimo”.

Ou seja: quem serve ali é um sacerdote. O gesto vem carregado por causa de quem o faz, e não por causa do que está na bandeja.

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A Bênção e a Primeira Vez que a Bíblia Diz “Deus Altíssimo”

“E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra. E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo” (Gênesis 14.19-20)

Esta é a primeira ocorrência da expressão “Deus Altíssimo” em toda a Bíblia. Antes de Gênesis 14.18, ela não aparece — e, a partir daí, se repete quatro vezes no mesmo capítulo, inclusive na boca de Abraão.

Repare no que a bênção declara: Deus é “o Possuidor dos céus e da terra”. É uma afirmação de propriedade universal, dita por um sacerdote que não pertence à família de Abraão, sobre um homem que acabara de recusar ficar rico às custas de Sodoma.

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El Elyon: o Título Que Abraão Reinterpreta

Aqui entra um dado que costuma ficar de fora dos estudos populares, e que ajuda a entender a cena.

“Deus Altíssimo” traduz o hebraico El Elyon. E El Elyon era, no mundo daquela época, uma forma conhecida de se referir ao deus cananeu El, na literatura da região4.

Isso levanta uma pergunta honesta: Melquisedeque adorava o mesmo Deus de Abraão, ou usava um título religioso da terra dele?

O texto de Gênesis não abre a teologia de Melquisedeque para exame. Mas registra uma coisa muito significativa: Abraão pega o mesmo título e o aplica ao SENHOR. Veja de novo o juramento dele, três versículos depois:

“Levantei minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra” (Gênesis 14.22)

Abraão não recusa o título. Ele o esclarece. Onde Melquisedeque disse “Deus Altíssimo”, Abraão diz “o SENHOR, o Deus Altíssimo” — juntando ao nome da aliança o título que acabara de ouvir, e repetindo a mesma expressão da bênção, “Possuidor dos céus e da terra”.

É um gesto de discernimento, não de sincretismo. Abraão reconhece o que era verdadeiro naquela bênção e ancora tudo no Deus que o chamou de Ur.

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O Dízimo Antes da Lei

Gênesis 14.20 traz a primeira menção ao dízimo em toda a Bíblia5. E ela acontece séculos antes da Lei de Moisés, antes do tabernáculo e antes de existir uma tribo de Levi.

Vale entender o gesto no mundo em que ele aconteceu. No Antigo Oriente Próximo, separar uma parte dos despojos de guerra para a divindade era prática corrente, e essa parte era recolhida pelos sacerdotes6. Abraão faz algo que o mundo dele reconheceria — mas faz para o sacerdote do Deus Altíssimo, e depois recusa ficar com o resto.

Duas observações que o texto sustenta, e que vale separar do que se costuma acrescentar:

  • o dízimo aqui é dos despojos de uma guerra, não da renda mensal de Abraão;
  • é um gesto espontâneo, anterior a qualquer mandamento sobre o assunto.

Se você quiser ver o que a Escritura inteira diz sobre o tema, reunimos os principais versículos sobre dízimos e ofertas em outro artigo.

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Onde Ficava Salém?

A identificação mais comum é com Jerusalém, e ela tem apoio dentro da própria Escritura. O Salmo 76 põe os dois nomes lado a lado:

“Conhecido é Deus em Judá; grande é o seu nome em Israel. E em Salém está o seu tabernáculo, e a sua morada em Sião” (Salmos 76.1-2)

Porém, há outra tradição antiga. Evidências cristãs primitivas e o mapa Madeba — o mapa mais antigo da Palestina, um mosaico no piso de uma igreja do século VI — associam Salém a Siquém7.

Também não é possível determinar com segurança se Melquisedeque era cananeu, amorreu ou jebuseu8. O que o texto apresenta é a posição dele: o rei principal da região, aquele que recebe a parte dos despojos.

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Mil Anos de Silêncio: o Salmo 110

Depois de Gênesis 14, Melquisedeque desaparece do Antigo Testamento. Volta uma única vez, em uma única linha, no salmo que o Novo Testamento mais cita:

“Jurou o Senhor, e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque” (Salmos 110.4)

O Salmo 110 é messiânico: fala de alguém que se assenta à direita do SENHOR e domina no meio dos inimigos (v. 1-2). E, no meio dessa descrição de realeza, aparece um juramento sobre sacerdócio.

É aqui que a coisa fica interessante. O salmo não diz que o Messias será sacerdote como Arão. Diz que será sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque — uma ordem que, até aquele momento, tinha um único integrante conhecido, mencionado três vezes, mil anos antes.

Vale dizer o peso que esse salmo tem. Ele é um dos textos do Antigo Testamento que o Novo mais retoma, e duas linhas dele reaparecem em pontos decisivos: o versículo 1 na pregação de Pentecostes, e o versículo 4 três vezes em Hebreus9.

O próprio Jesus usou o salmo para calar uma discussão. Diante dos fariseus, ele perguntou de quem o Cristo é filho; responderam que de Davi. Então ele citou a primeira linha:

“Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés?” (Mateus 22.44)

E emendou a pergunta que ninguém soube responder: “Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” (Mateus 22.45). O texto registra o resultado — “ninguém podia responder-lhe uma palavra” (Mateus 22.46).

Ou seja: o salmo que apresenta o Messias como sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque é o mesmo que Jesus usa para mostrar que o Cristo é mais do que descendente de Davi.

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Por Que Hebreus Precisava Dele

Para entender o capítulo 7 de Hebreus, é preciso ver o problema que o autor tinha nas mãos.

O Novo Testamento apresenta Jesus como Rei e como Sumo Sacerdote. Mas a realeza e o sacerdócio, em Israel, vinham de tribos diferentes: a promessa do trono era da casa de Davi, da tribo de Judá, e o sacerdócio pertencia à tribo de Levi, por determinação da Lei.

Jesus é de Judá. O próprio autor de Hebreus reconhece a dificuldade sem rodeios:

“Visto ser manifesto que nosso Senhor procedeu de Judá, e concernente a essa tribo nunca Moisés falou de sacerdócio” (Hebreus 7.14)

Ou seja: pela linhagem, Jesus não poderia ser sacerdote. É justamente aí que Melquisedeque resolve a questão — ele é o precedente de um sacerdócio que não depende de genealogia, e que existia antes de Levi nascer.

E o autor vai além do problema imediato. Se o sacerdócio levítico bastasse, não haveria por que anunciar outro sacerdote de outra ordem (Hebreus 7.11). Só que trocar o sacerdócio não é um ajuste de detalhe:

“Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei” (Hebreus 7.12)

Repare no tamanho da afirmação. O sacerdócio estava amarrado à Lei — quem podia servir, como servir, o que oferecer. Mudar quem é o sacerdote implica mexer no sistema inteiro. É por isso que Hebreus não trata Melquisedeque como curiosidade: ele é a peça que autoriza a mudança de aliança.

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O Argumento do Silêncio: Hebreus 7.3

É neste versículo que a confusão costuma começar:

“Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” (Hebreus 7.3)

Muita gente lê essa frase e conclui que Melquisedeque era um ser eterno. Não é o que o texto está dizendo.

Duas coisas seguram essa leitura. A primeira é o próprio versículo: ele termina afirmando que Melquisedeque foi “feito semelhante ao Filho de Deus”. Semelhança é comparação — e ninguém compara uma coisa com ela mesma.

A segunda é o gênero do argumento. Em Gênesis, todo personagem importante entra com uma genealogia: filho de quem, pai de quem, quantos anos viveu, quando morreu. Melquisedeque entra sem nada disso e sai sem obituário. O que Hebreus explora é o silêncio da Escritura, não a biologia do homem. Na página, ele não tem começo nem fim — e é essa figura, desenhada pelo que o texto omite, que serve de retrato do sacerdócio de Cristo, esse sim sem começo e sem fim.

É uma diferença sutil e decisiva: o texto não diz que Melquisedeque era eterno. Diz que ele foi apresentado de um jeito que prefigura quem é.

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Maior Que Abraão, Logo Maior Que Levi

Estabelecido isso, o autor de Hebreus monta um argumento de encadeamento que vale acompanhar devagar, porque é ele que sustenta o capítulo:

“Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos” (Hebreus 7.4)
“Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior” (Hebreus 7.7)

O raciocínio corre assim: Melquisedeque abençoou Abraão e recebeu dízimo dele — logo, é maior que Abraão. Levi, o pai da tribo sacerdotal, é descendente de Abraão. O próprio texto puxa a conclusão até o fim:

“E, por assim dizer, por meio de Abraão, até Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos. Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hebreus 7.9-10)

Se Melquisedeque é maior que Abraão, e Levi estava em Abraão, então a ordem de Melquisedeque é superior à de Levi10. E se o sacerdócio levítico bastasse, não haveria por que anunciar outro sacerdote de outra ordem (Hebreus 7.11).

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O Juramento Que o Sacerdócio Levítico Nunca Teve

Há um detalhe em Hebreus 7 que costuma passar batido, e que muda o tom de tudo: os sacerdotes levíticos assumiam o ofício sem juramento. O de Cristo, não.

“E visto como não é sem prestar juramento (porque certamente aqueles, sem juramento, foram feitos sacerdotes, mas este com juramento por aquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá; Tu és sacerdote eternamente, Segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 7.20-21)

É a linha do Salmo 110 sendo usada como garantia. E a garantia tem uma consequência prática: enquanto os sacerdotes antigos eram muitos, “porque pela morte foram impedidos de permanecer” (Hebreus 7.23), este permanece.

“Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hebreus 7.25)

Vale pesar essas duas palavras. Perfeitamente — não parcialmente, não enquanto der. E sempre — sem intervalo, sem substituição, sem sucessor. O sacerdote antigo morria e outro tomava o lugar; a intercessão recomeçava do zero. Aqui não recomeça, porque não para.

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Rei e Sacerdote: Por Que Uzias Foi Ferido

Uma pergunta comum sobre Melquisedeque é como ele podia acumular os dois ofícios. A resposta curta: ele é anterior à Lei que os separou.

Depois de Moisés, essa separação passou a ser levada muito a sério — e a Bíblia registra o que aconteceu quando um rei tentou atravessar a linha. Uzias, rei de Judá, entrou no templo para queimar incenso. Oitenta sacerdotes o enfrentaram:

“A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o Senhor, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar incenso; sai do santuário, porque transgrediste” (2 Crônicas 26.18)

Ele se indignou, e o texto diz que a lepra lhe saiu à testa ali mesmo, diante dos sacerdotes, junto ao altar do incenso. Uzias morreu leproso, morando numa casa separada, excluído da casa do Senhor (2 Crônicas 26.19-21).

Guarde o contraste. Em Israel, juntar coroa e incensário era transgressão11. Melquisedeque exerce os dois ofícios sem repreensão alguma — porque pertence a outra ordem, anterior àquela Lei. E os dois ofícios voltam a se unir uma única vez depois disso: em Cristo.

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De Adão a Cristo: a Linha Que Melquisedeque Costura

Há uma leitura mais ampla que ajuda a situar a figura dele na Bíblia inteira.

No princípio, Adão é apresentado com traços de rei e sacerdote ao mesmo tempo: recebe domínio sobre a terra e a incumbência de guardar o jardim. Nessa chave, a posição de Melquisedeque — rei e sacerdote — retoma algo que existia antes da expulsão do Éden12.

A linha continua. No Sinai, Deus chama Israel inteiro para essa mesma vocação dupla:

“E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo” (Êxodo 19.6)

E termina em Cristo, que é ao mesmo tempo o Rei descendente de Davi e o Sumo Sacerdote que se ofereceu a si mesmo — o segundo Adão13.

Melquisedeque, nessa leitura, é um lembrete colocado bem no começo: rei e sacerdote foram feitos para andar juntos.

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Melquisedeque Era Jesus?

Não. Melquisedeque é um tipo de Cristo — uma prefiguração —, e não Jesus em pessoa.

A confusão nasce de Hebreus 7.3, e já vimos o que o versículo faz: ele compara. “Feito semelhante ao Filho de Deus” é linguagem de retrato, não de identidade.

Há quem vá além e proponha que Melquisedeque fosse o Cristo pré-encarnado, uma aparição da segunda pessoa da Trindade antes do nascimento em Belém — o que se costuma chamar de cristofania. R. C. Sproul trata dessa hipótese ao lado da figura do comandante do exército do SENHOR que Josué encontra (Josué 5.13-15) e observa que, ainda que fossem manifestações desse tipo, não seriam encarnações anteriores: a encarnação acontece uma vez, e acontece em Jesus de Nazaré.

Some-se a isso o detalhe decisivo: se Melquisedeque fosse Jesus, o argumento inteiro de Hebreus 7 desmoronaria. Não faz sentido dizer que Jesus é sacerdote “segundo a ordem” de si mesmo.

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Quantas Vezes Ele Aparece na Bíblia

Melquisedeque é citado nominalmente em três livros:

Onde Texto O que acontece
Gênesis 14.18-20 narrativa o encontro com Abraão: pão, vinho, bênção e dízimo
Salmos 110.4 profecia o juramento: “sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque”
Hebreus 5.6,10; 6.20; 7.1-28 argumento a explicação do sacerdócio de Cristo

Tudo o que se sabe historicamente sobre ele está nos três versículos de Gênesis. O restante da Bíblia não acrescenta biografia — acrescenta significado.

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O Que Melquisedeque Ensina Hoje

Deus tem servos fora do mapa que conhecemos. Melquisedeque não pertence à família de Abraão, não vem da linhagem escolhida, e mesmo assim é sacerdote do Deus Altíssimo — e abençoa o patriarca. É bom lembrar disso quando ficamos convencidos de que Deus só trabalha dentro do nosso círculo.

O perigo mora depois da vitória. Abraão enfrentou a tentação mais séria na volta da batalha, quando lhe ofereceram uma recompensa legítima aos olhos de qualquer um. Ele preferiu dever a bênção a Deus, e não o enriquecimento a Sodoma.

O que não se sabe também ensina. O silêncio sobre a origem de Melquisedeque não é lacuna a ser preenchida com especulação; é parte do retrato. Há um tanto de fé em aceitar que a Escritura diz o que precisa dizer, e cala o resto.

A ordem importa: justiça primeiro, depois paz. O nome e a cidade dele trazem as duas coisas nessa sequência, e é a mesma sequência do evangelho — a paz com Deus vem depois de a justiça ser satisfeita na cruz.

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Perguntas Frequentes

Melquisedeque era Jesus?

Não. Melquisedeque é um tipo de Cristo — uma prefiguração —, não Jesus mesmo. Hebreus 7.3 diz que ele foi “feito semelhante ao Filho de Deus”, e semelhança é comparação, não identidade. Além disso, o argumento de Hebreus 7 depende dessa distinção: não faria sentido afirmar que Jesus é sacerdote “segundo a ordem” de si mesmo.

Melquisedeque era filho de quem?

A Bíblia não registra a genealogia dele. Hebreus 7.3 afirma que ele é “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida” — o que descreve o silêncio da Escritura sobre a origem dele, e não uma afirmação de que fosse eterno.

Quem governou sendo rei e sacerdote ao mesmo tempo?

Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo (Gênesis 14.18). Em Israel os dois ofícios ficavam separados, e o rei Uzias foi ferido de lepra ao tentar queimar incenso no templo (2 Crônicas 26.16-21). Os dois se unem novamente em Jesus Cristo, Rei e Sumo Sacerdote.

Salém, a cidade de Melquisedeque, é Jerusalém?

É a identificação mais comum, e o Salmo 76.2 aproxima os dois nomes: “E em Salém está o seu tabernáculo, e a sua morada em Sião”. Há, porém, uma tradição antiga — presente no mapa Madeba, do século VI — que associa Salém a Siquém.

Por que Melquisedeque ofereceu pão e vinho?

O texto de Gênesis registra o gesto sem explicá-lo. Há quem o entenda como hospitalidade a homens que voltavam de uma longa perseguição, e há quem o leia como ato sacerdotal que prefigura a Ceia do Senhor. O que o versículo afirma é a função de quem serviu: “era este sacerdote do Deus Altíssimo”.

O dízimo de Abraão a Melquisedeque vale como regra hoje?

Gênesis 14.20 traz a primeira menção ao dízimo na Bíblia, e ela é anterior à Lei. No episódio, trata-se do dízimo dos despojos de uma guerra, entregue espontaneamente. O Novo Testamento trata da contribuição pelo critério do coração — “cada um contribua segundo propôs no seu coração” (2 Coríntios 9.7).

O que significa “segundo a ordem de Melquisedeque”?

Significa um sacerdócio que não se herda por linhagem e que não termina com a morte do sacerdote, ao contrário do sacerdócio levítico. Era o único caminho para que Jesus, da tribo de Judá, fosse sacerdote — como Hebreus 7.14 reconhece expressamente.

E você?

O que mais te chama a atenção nessa figura que aparece em três versículos e atravessa a Bíblia inteira?

Fique na Paz!

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Fontes

  1. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 46.
  2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. I — Pentateuco. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 99.
  3. Ibid., p. 100.
  4. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 46.
  5. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. I — Pentateuco. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 100.
  6. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 171.
  7. Ibid., p. 46.
  8. Idem, p. 46.
  9. MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, verbete “Salmos”, quadro “Profecias messiânicas nos Salmos”.
  10. SPROUL, R. C. Somos Todos Teólogos: uma introdução à teologia sistemática, capítulo 21, “A Transmissão do Pecado”, seção “Realismo” — onde o autor expõe o argumento de Hebreus 7 sobre Levi ter pago dízimos estando “nos lombos” de Abraão.
  11. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. I — Pentateuco. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 321.
  12. ALEXANDER, T. Desmond. Do Paraíso à Terra Prometida: uma introdução ao Pentateuco. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 44.
  13. ALEXANDER, T. Desmond. Do Paraíso à Terra Prometida: uma introdução ao Pentateuco. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 153.

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12 comentários em “Quem Foi Melquisedeque na Bíblia?”

  1. A paz.

    Posso até estar errada, mas Melquisedeque veio até a Terra para dar continuidade, fortalecer e cuidar dos caminhos do Senhor Jesus.

    Deus cuida do que é Dele, nos mínimos detalhes.

    Aleluia!

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  2. Um texto muito interessante, uma curiosidade, a Bíblia é um celeiro de aprendizado. Cada história, dentro do seu contexto, nos ensina algo para a vida. Excelente texto. Parabéns Diego.

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  3. Acho q o texto foi claro q ele era um rei e sacerdote e no mais os detalhes sobre ele saberemos no céu. Deus deixou escrito apenas o q precisamos saber e ja existem muitas distorções…. no mais só especulações desnecessarias.

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  4. A bíblia já deixa bem claro quem foi Melquisedeque: Rei e Sacerdote, sem genealogia, sem princípio e sem fim, semelhante a Jesus Cristo.
    O que se tem a comentar mais do que a própria Escrituras Sagradas diz quem era Melquisedeque.
    Qualquer comentário além do que já está escrito, é pura especulação ou fantasia.

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  5. Eu acredito que Melquisedeque foi o Verbo preexistente que mais tarde se tornou o Filho de Deus, Jesus Cristo. Pois nenhum homem teria o nome de Rei da Justiça e Rei da Paz, que é o significado do nome Melquisedeque. Jesus é o único que se ajusta a essas qualificações. Jesus sempre interagiu no Antigo Testamento até que se manifestou no Novo Testamento, concluindo sua obra definitiva como Rei e Sacerdote.

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  6. Ouvi em uma pregação que Melquisedeque era descendente de Sete e que Abraão provavelmente já tinha ouvido falar dele; por esse motivo, teria lhe dado o dízimo de tudo. Gostaria de saber se mais alguém já ouviu essa pregação?

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    • Graça e paz, Carmen. Eu não ouvi essa pregação, mas estou confuso com a afirmação de que ‘Melquisedeque era descendente de Sete’, pois é fato que toda a humanidade descende de Sete. Se observar a sequência, perceberá a seguinte linhagem: Adão > Sete > Enos > Cainan > Maalalel > Jarede > Enoque > Matusalém > Lameque > Noé. Como toda a humanidade descende de Noé, logo, todos descendem de Sete. Portanto, tanto eu quanto você e Abraão somos descendentes de Sete.

      Deus te abençoe!

      Responder

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