Cargos da Igreja Evangélica: Hierarquia, Diretoria e o que Cada Um Faz
Os cargos da igreja evangélica se dividem em dois níveis: os cargos ministeriais, como pastor, presbítero, diácono e evangelista, que cuidam da vida espiritual da congregação, e os cargos da diretoria, como presidente, secretário e tesoureiro, que respondem pela igreja diante da lei, no banco e no cartório.
Quem pesquisa a hierarquia da igreja evangélica costuma encontrar a escada de uma denominação apresentada como se valesse para todas. Ela não vale: cada igreja define os seus cargos no estatuto (e, se pertence a uma denominação, também na constituição ou no regimento dela), e é por isso que a mesma palavra, bispo por exemplo, nomeia funções bem diferentes de uma igreja para outra.
Se você monta a diretoria ou cuida da secretaria, essa confusão tem custo: cargo que ninguém sabe o que faz, mandato que vence sem ninguém perceber, assinatura no banco com quem já deixou a função.
Hoje, vamos montar esse mapa: todos os cargos numa tabela só, o que cada um faz e de onde vem, o que a Bíblia e a lei pedem, como as formas de governo arrumam tudo isso e como manter os mandatos em dia.
Existe uma hierarquia na igreja evangélica?
Não existe uma hierarquia única, válida para todas as igrejas evangélicas. São muitas denominações e um grande número de igrejas independentes, e cada uma define nos próprios documentos os nomes dos cargos, o que cada um faz e a ordem entre eles.
O que costuma se repetir é a divisão em dois níveis. O nível ministerial cuida da pregação, do ensino, do pastoreio e do serviço aos membros. O nível administrativo cuida da igreja como organização registrada: assinar contratos, abrir conta, representar a igreja na Justiça, prestar contas.
Os dois níveis se cruzam: em muitas igrejas o pastor também preside a diretoria, e um diácono pode ser o tesoureiro. Ou seja, a mesma pessoa pode ocupar um cargo em cada nível.
A própria palavra “hierarquia” é lida de jeitos diferentes. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus ligadas à CGADB afirma que “existe hierarquia no céu e na terra e também na Igreja, pois todos nós estamos sob autoridade”.1 A Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil põe o acento em outro lugar: os títulos bíblicos do ministro (bispo, pastor, presbítero, evangelista, entre outros) “indicam funções diversas e não graus diferentes de dignidade no ofício”.2 O ponto em que as duas, e também os batistas, concordam é que, no Novo Testamento, presbítero e bispo são nomes do mesmo ofício, como veremos adiante.
Em todas as tradições há autoridade. Paulo pede aos tessalonicenses que reconheçam “os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor” (1 Tessalonicenses 5:12). E há também um limite: para teólogos reformados como Boice, a diferença entre o pastor e o restante da igreja é de função dentro do corpo, e não de status ou de santidade.3
Tabela com todos os cargos da igreja evangélica
Abaixo, você encontra os cargos mais comuns nos dois níveis. A coluna “de onde vem” é a que explica as diferenças entre igrejas: alguns cargos têm base direta no Novo Testamento, outros são funções que cada igreja criou, e os da diretoria nascem do estatuto.
| Cargo | Nível | O que faz | De onde vem | Toda igreja tem? |
|---|---|---|---|---|
| Pastor | Ministerial | Prega, ensina, pastoreia e conduz o culto, o batismo e a Ceia | Efésios 4:11; Atos 20:28; 1 Pedro 5:1-4 | Sim, com nomes variados |
| Presbítero (ancião) | Ministerial | Supervisiona a igreja com o pastor; em várias igrejas, auxilia na visitação e na Ceia | Atos 14:23; Tito 1:5; 1 Timóteo 5:17 | Não; depende da forma de governo |
| Bispo | Ministerial | No Novo Testamento, o mesmo ofício do presbítero; nas igrejas de governo episcopal, supervisiona pastores e igrejas | Filipenses 1:1; Tito 1:7 | Não |
| Evangelista | Ministerial | Anuncia o evangelho aos de fora e abre trabalhos novos | Atos 21:8; Efésios 4:11; 2 Timóteo 4:5 | Não; em umas é cargo, em outras é função |
| Missionário | Ministerial | É enviado pela igreja para evangelizar e plantar igrejas em outro lugar | Atos 13:2-3 | Não |
| Diácono | Ministerial (serviço) | Lidera o serviço prático: ofertas, necessitados, ordem do culto | Atos 6:1-6; Filipenses 1:1 | Na maioria |
| Obreiro, auxiliar, cooperador | Ministerial (apoio) | Serve onde a liderança precisar, conforme a igreja | Organização de cada igreja; na AD, previstos na Declaração de Fé | Varia |
| Líder de departamento ou de célula | Ministerial (ministérios) | Coordena um ministério ou um pequeno grupo | Organização de cada igreja | Varia |
| Presidente | Administrativo | Representa a igreja, convoca e preside as assembleias | Estatuto | Toda igreja registrada precisa de quem a represente |
| Vice-presidente | Administrativo | Substitui o presidente nas ausências | Estatuto | Varia |
| Secretário | Administrativo | Atas, livros, cadastro de membros, correspondência | Estatuto | Na prática, sim |
| Tesoureiro | Administrativo | Entradas, pagamentos e prestação de contas | Estatuto | Na prática, sim |
| Conselho fiscal | Administrativo | Examina as contas e dá parecer à assembleia | Estatuto | Varia |
Só dois cargos da lista têm, no Novo Testamento, requisitos escritos para quem vai ocupá-los: o de presbítero (ou bispo) e o de diácono, ambos em 1 Timóteo 3. Os demais vêm de dons e funções descritos nas cartas, como o de evangelista, ou da organização que cada igreja montou ao longo da sua história.
Os cargos ministeriais, um por um
Pastor
A palavra grega por trás de “pastor” é poimḗn, o pastor de ovelhas. O Novo Testamento a aplica a Cristo, o “Pastor e Bispo das vossas almas” (1 Pedro 2:25), e, como título de líder da igreja, ela aparece em Efésios 4:11, em “pastores e doutores”, duas palavras para o mesmo grupo: quem pastoreia também ensina.4
O verbo, por sua vez, é dado aos presbíteros: Paulo diz aos anciãos de Éfeso que o Espírito Santo os constituiu “para apascentardes a igreja de Deus” (Atos 20:28), ou seja, para alimentar e cuidar do rebanho, e Pedro pede o mesmo aos presbíteros (1 Pedro 5:2).
No dia a dia, o pastor prega, ensina, ministra o batismo e a Ceia, visita, aconselha e conduz o culto. Os títulos que acompanham a palavra (pastor presidente, titular, auxiliar, setorial, dirigente) variam de igreja para igreja e vêm do estatuto ou da constituição da denominação. Nas Assembleias de Deus, por exemplo, pode haver muitos pastores numa mesma igreja, mas “apenas um deles é o que preside”, e esse é o pastor-presidente;5 em muitas igrejas, ele também preside a diretoria.
Presbítero (ancião)
Presbýteros quer dizer, literalmente, o mais velho, e no Novo Testamento nomeia o grupo de líderes que cuida de uma igreja local. A Almeida Corrigida Fiel (ACF) traduz a mesma palavra ora por “anciãos” (Atos 14:23; 20:17), ora por “presbíteros” (Tito 1:5), e as duas formas aparecem nas igrejas brasileiras.
Presbítero e pastor são a mesma coisa? Em Tito 1, Paulo começa falando dos presbíteros (v. 5) e passa a chamá-los de bispo (v. 7) sem mudar de assunto. E em Atos 20:28 é a esse mesmo grupo que ele manda pastorear. Ou seja, “presbítero” aponta para a maturidade de quem exerce o ofício, e “bispo”, para a tarefa de supervisionar.6
Ao mesmo tempo, Paulo faz uma distinção dentro do grupo: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1 Timóteo 5:17). Na leitura reformada, há ali os que governam e os que, além de governar, se dedicam à pregação e ao ensino.7
Hoje, há três práticas comuns. Nas igrejas presbiterianas e reformadas, o pastor é o presbítero docente (o que ensina), e os presbíteros regentes (os que governam) dirigem a igreja ao lado dele, com voto igual no conselho. Nas Assembleias de Deus, os presbíteros são “auxiliares dos pastores” e formam “o corpo auxiliar no governo da Igreja sob a presidência de um pastor”.8 E em muitas igrejas batistas e congregacionais não há presbíteros além do pastor: a igreja é servida por pastores e diáconos.9
Bispo
O que é bispo na igreja evangélica? A palavra vem do grego epískopos, supervisor, aquele que cuida e vigia. No Novo Testamento ela descreve uma tarefa do próprio presbítero, a de supervisão espiritual, e não necessariamente um cargo acima dele, com autoridade sobre os pastores locais.10 Tanto que Filipenses é dirigida aos santos “com os bispos e diáconos” (Filipenses 1:1), no plural, numa única cidade.
Com o tempo, “bispo” passou a nomear o líder que supervisiona vários presbíteros e igrejas; no século II, esse governo por meio de bispos já era o padrão,9 e é nesse sentido que o termo aparece hoje nas igrejas de governo episcopal, isto é, governadas por bispos, como veremos na seção sobre as denominações. Em outras igrejas, bispo é o título do pastor que lidera um ministério com muitas congregações, com o sentido que o estatuto lhe der; e há as que simplesmente não usam o termo. Sendo assim, “depois de bispo vem o quê?” depende do documento de governo de cada denominação.
Evangelista
Euangelistḗs, o que anuncia a boa notícia, aparece em apenas três passagens do Novo Testamento: em Filipe, “o evangelista, que era um dos sete” (Atos 21:8), na lista de Efésios 4:11 e na ordem a Timóteo, “faze a obra de um evangelista” (2 Timóteo 4:5). Em Efésios, o termo descreve gente dotada de modo especial para anunciar o evangelho.4
Timóteo cuidava da igreja de Éfeso e, mesmo assim, recebeu a ordem de evangelizar, ou seja, a tarefa atravessa os cargos. Em algumas igrejas, evangelista é um cargo ordenado, que pode anteceder o pastorado; em outras, é o nome de um ministério de evangelização aberto a qualquer membro.
Missionário
Em Atos 13, o envio de missionários parte de uma igreja local, a de Antioquia: enquanto os líderes serviam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse “Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (Atos 13:2), e a igreja jejuou, orou, impôs as mãos sobre os dois e os despediu.
Ou seja, a imposição de mãos ali reconheceu publicamente o que o Espírito já tinha feito e o que ia fazer ao enviá-los.11 Hoje, missionário é quem a igreja ou uma agência envia para evangelizar e plantar igrejas em outro lugar. Conforme a denominação, o título é reservado a pastores ordenados ou dado também a quem não é pastor.
Diácono
O diácono é o membro que a igreja escolhe para liderar o serviço prático: as ofertas, o cuidado dos necessitados, a ordem do culto e, em muitas igrejas, o apoio na Ceia. A palavra grega diákonos quer dizer servo, e o modelo nasce em Atos 6:1-6, quando a igreja de Jerusalém separou sete homens para cuidar da distribuição diária às viúvas, deixando os apóstolos livres para a oração e a Palavra.
Décadas mais tarde, a carta aos Filipenses já menciona bispos e diáconos lado a lado na mesma igreja (Filipenses 1:1). Quem pode ser diácono, como a igreja escolhe e consagra os seus e o que ele faz em cada tradição, você confere no artigo o que é diácono, o que faz e quem pode ser.
Obreiro, auxiliar e cooperador
Em muitas igrejas brasileiras, “obreiro” é o nome coletivo de quem exerce alguma função de serviço, do auxiliar ao presbítero; em outras, é um cargo específico, com lugar próprio na ordem que o estatuto define. Nas Assembleias de Deus, a Declaração de Fé usa “obreiro” como termo genérico para todos os cargos. Ela define o cooperador, também chamado de auxiliar ou trabalhador conforme a região, como o membro que se põe à disposição da igreja para servir, sem ficar limitado a uma só função, com base em 1 Coríntios 3:9 e Atos 13:5.12
Em outras igrejas, esses nomes têm outro sentido, e a ordem entre eles muda bastante. O que as funções de apoio têm em comum é a escala, combinada em encontros periódicos com a liderança; a pauta desses encontros está em como conduzir a reunião de obreiros, com pauta modelo e versículos.
Líder de departamento e líder de célula
Ministério infantil, louvor, jovens, Escola Bíblica, ação social: cada frente costuma ter um líder nomeado pela liderança pastoral, e muitas igrejas têm ainda líderes de célula. São funções de organização, sem lugar no estatuto nem no Novo Testamento como ofício, mas são elas que fazem a igreja funcionar durante a semana. No artigo sobre a igreja organizada em departamentos e ministérios, você vê como dividir essas frentes sem criar feudos.
O que a Bíblia diz sobre os cargos da igreja
O Novo Testamento não traz um organograma. Os cargos aparecem à medida que a igreja cresce e os problemas surgem: primeiro os sete de Atos 6, para que as viúvas não ficassem sem a sua parte; depois os presbíteros, escolhidos em cada igreja nova que Paulo e Barnabé deixavam para trás.
“E, havendo-lhes, por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido” (Atos 14:23)
Ordenar presbíteros nas igrejas que fundava era parte da maneira de Paulo trabalhar.13 Em Creta, onde ele não teve tempo de fazer isso, deixou Tito “para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros” (Tito 1:5). A expressão traduzida por “pôr em boa ordem” vem da medicina e descreve o ato de endireitar um membro torto.13 Ou seja, a igreja sem liderança reconhecida é um corpo que ainda precisa ser endireitado.
Em Efésios 4:11, a lista é de dons que Cristo deu à igreja: “uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores”. O versículo seguinte diz para quê: “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério”.
Portanto, quem faz a obra do ministério é a igreja inteira, e os líderes existem para preparar os membros para ela.3 Sobre apóstolos e profetas hoje, a discussão é longa e tem texto próprio: os cinco ministérios de Efésios 4:11.
Juntando os textos, cada tradição organiza os ofícios de um jeito. Para os batistas, como Strong, são dois: o de bispo, presbítero ou pastor, e o de diácono.14 A IPB tem três classes de oficiais: ministros (presbíteros docentes), presbíteros regentes e diáconos.2 As Assembleias de Deus têm pastores, evangelistas, presbíteros, diáconos e cooperadores.1 E a tradição episcopal trabalha com bispos, pastores e diáconos.9
Hierarquia ou serviço?
Os discípulos também discutiram quem estaria acima de quem, e Jesus aproveitou a discussão para trocar a pergunta. Quando a mãe de Tiago e João pediu que os filhos se sentassem um à direita e outro à esquerda de Jesus no Reino, e os outros dez se indignaram, Jesus chamou todos e disse:
“Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal” (Mateus 20:25-26)
Os dois irmãos queriam mandar nos outros discípulos do mesmo jeito que os governantes pagãos mandavam nos seus súditos, e Jesus mudou a régua: no Reino, a grandeza se mede pelo caráter de quem serve, e não pela posição.15
Os próprios apóstolos aprenderam a lição. Pedro, ao se dirigir aos presbíteros, apresenta-se como “presbítero com eles” (1 Pedro 5:1), e não como superior. E Paulo exige que o bispo seja “despenseiro da casa de Deus” (Tito 1:7), isto é, o administrador de bens que pertencem a outro: o despenseiro não diz “isto é meu”, ele responde ao dono da casa pelo que lhe foi confiado.16
Ou seja, a igreja tem ordem, cargos e autoridade, e a Bíblia manda reconhecer e honrar quem preside. Mas a autoridade de qualquer cargo, do auxiliar ao bispo, é a autoridade de quem serve, e é por esse critério que o membro deve escolher os seus líderes e o líder deve avaliar o próprio trabalho.
Diretoria da igreja: presidente, secretário e tesoureiro

A diretoria existe porque a igreja, além de comunidade de fé, é uma pessoa jurídica, ou seja, uma organização registrada em cartório, com nome, conta e obrigações próprias, separadas das de cada membro. O Código Civil põe as organizações religiosas nessa lista, entre as entidades privadas (art. 44, IV), e garante a elas liberdade para se criar, se organizar e funcionar do seu jeito (art. 44, § 1º).17 É a diretoria que assina pela igreja no banco, no cartório, na Receita e diante de fornecedores.
O que a lei exige da diretoria? O Código Civil não lista os cargos de presidente, secretário e tesoureiro. O que ele pede é que o registro da igreja informe, entre outras coisas:17
- quem são os fundadores e os diretores, com nome e identificação (art. 46, II);
- como a igreja é administrada e quem a representa, na Justiça e fora dela, tanto para assinar e cobrar quanto para responder a uma cobrança ou a um processo (art. 46, III);
- se a parte do estatuto que trata da administração pode ser mudada, e de que forma (art. 46, IV).
O que os diretores assinam compromete a igreja quando eles agem dentro dos poderes que o estatuto lhes dá (art. 47). E, quando a diretoria decide em conjunto, vale o voto da maioria dos presentes, a não ser que o estatuto diga outra coisa (art. 48).
Os nomes dos cargos, quantos são, como se escolhe e quanto dura o mandato ficam, portanto, com o estatuto. Além disso, registrar a igreja como organização religiosa ou como associação muda bastante essa liberdade, e esse é o tema do artigo sobre a natureza jurídica das igrejas no Brasil.
Quem compõe a diretoria
Uma composição frequente nos estatutos de igrejas evangélicas é a que você viu na tabela lá em cima, com dois de cada na secretaria e na tesouraria:
- Presidente, que em muitas igrejas é o pastor e, em muitos estatutos, assina com o tesoureiro os documentos financeiros, e vice-presidente;
- Primeiro e segundo secretários, com as atas, o livro e o cadastro de membros e os documentos oficiais;
- Primeiro e segundo tesoureiros, com os pagamentos, os comprovantes e a prestação de contas;
- Conselho fiscal, que dá parecer sobre as contas antes de a assembleia aprová-las.
Se a sua igreja possui poucos membros, uma diretoria de três pessoas (presidente, secretário e tesoureiro) costuma dar conta, desde que o estatuto permita. O que a prudência desaconselha, porém, é juntar a presidência e a tesouraria na mesma pessoa, porque aí quem decide o gasto é o mesmo que movimenta a conta e presta contas dele.
Então, se você ocupa um desses cargos, o trabalho de cada um tem artigo próprio no blog: o do secretário está em o que faz o secretário e como organizar a secretaria da igreja, e o do tesoureiro em a função do tesoureiro e a tesouraria da igreja.
Quem elege e por quanto tempo
Também aqui quem manda é o estatuto. Nas igrejas de governo congregacional, a diretoria costuma ser eleita pela assembleia de membros; em outras, o estatuto entrega a indicação ao conselho, ao corpo de pastores (o “ministério”) ou à convenção. Na IPB, a Constituição determina que “o pastor é sempre o representante legal da igreja, para efeitos civis”;2 nas Assembleias de Deus, o pastor-presidente “é geralmente indicado por seu antecessor, mas há também eleição por aclamação ou por voto secreto”, conforme as normas estatutárias de cada igreja.5
Por isso, convém que o mandato tenha prazo escrito, com regra clara de reeleição e de substituição quando alguém sai no meio do caminho. Sem isso, você descobre o problema na pior hora, quando o banco pede a ata da diretoria em vigor e a última eleição foi há seis anos! O Código Civil prevê até que, se a igreja ficar sem ninguém que a administre, qualquer interessado pode pedir ao juiz que nomeie um administrador provisório (art. 49).17
Como as denominações organizam os cargos
As diferenças entre igrejas ficam mais fáceis de entender pela forma de governo do que pela lista de títulos. Os manuais de teologia costumam agrupar as igrejas protestantes em três formas principais:9
| Forma de governo | Quem decide na igreja local | Cargos típicos | Onde aparece |
|---|---|---|---|
| Episcopal | Os bispos supervisionam pastores e igrejas e são os que ordenam ministros | Bispo, pastor, diácono | Varia; confira o estatuto da sua igreja |
| Presbiteriana | O conselho, formado pelo pastor e pelos presbíteros regentes; acima dele, concílios que reúnem várias igrejas (presbitério, sínodo e assembleia geral) | Presbítero docente (pastor), presbítero regente, diácono | Igrejas presbiterianas, como a IPB |
| Congregacional | A assembleia dos membros da igreja local, sem autoridade externa sobre ela | Pastor e diácono (em algumas, presbíteros) | Varia; confira o estatuto da sua igreja |
Muitas igrejas misturam elementos das três: a assembleia tem a palavra final na eleição da diretoria e, ao mesmo tempo, o pastor presidente tem autoridade ampla. A tabela descreve tendências, e não regras.
Três exemplos com documento oficial
Três tradições mostram esses princípios virando cargos concretos, cada uma no seu próprio documento.
Igreja Presbiteriana do Brasil. Na Constituição da IPB, os oficiais são de três tipos: ministros do Evangelho (ou presbíteros docentes), presbíteros regentes e diáconos. Os ofícios são perpétuos, mas o exercício deles é temporário: quem foi ordenado continua oficial, mas só atua no cargo durante o mandato.2
O ministro pode ser designado pastor efetivo, pastor auxiliar, pastor evangelista ou missionário, e o pastor efetivo é eleito pela igreja por até cinco anos, com possibilidade de reeleição. O presbítero regente, eleito pela igreja e ordenado pelo Conselho, cuida do governo e da disciplina e tem nos concílios autoridade igual à dos ministros. Presbíteros e diáconos servem por cinco anos, renováveis, e a nova eleição deve acontecer três meses antes do fim do mandato.2
O Conselho pode consultar os diáconos em questões administrativas, e é a assembleia de membros que elege pastores e oficiais.2 É um desenho em que o nível ministerial e o administrativo praticamente se fundem.
Assembleias de Deus (CGADB). A Declaração de Fé descreve uma estrutura de pastores, evangelistas, presbíteros, diáconos e cooperadores, em que “obreiro” é o termo genérico para todos.1 Pastores e evangelistas são indicados pelos ministérios locais nas convenções e ordenados perante a igreja, e um dos pastores preside a igreja; o papel da convenção é promover a união entre as igrejas e zelar pela doutrina, enquanto a autoridade espiritual e administrativa do pastor é interna a cada igreja.5 Presbíteros e diáconos são cargos locais, consagrados na própria igreja, e os presbíteros auxiliam o pastor no governo.8
Igrejas batistas. Na teologia batista clássica, a igreja local tem dois ofícios, pastor e diácono,14 e é a unidade básica do governo, decidido pela assembleia dos seus membros.9
Nas demais denominações, os cargos, os nomes e a ordem entre eles estão no estatuto da convenção, no regimento interno ou no estatuto da igreja local. Antes de comparar a sua igreja com outra, ou de copiar o organograma alheio, leia o estatuto da sua: é ele que vale no cartório e na assembleia.
Modelo de organograma da igreja por porte
Não existe organograma obrigatório. Portanto, o modelo abaixo é um ponto de partida para você que está desenhando ou revendo a estrutura, e deve ser ajustado à forma de governo e ao estatuto da sua igreja.
| Porte da igreja | Nível ministerial | Diretoria | Cuidado principal |
|---|---|---|---|
| Igreja começando, uma congregação e poucos obreiros | Pastor e dois ou três diáconos ou auxiliares | Presidente (o pastor), secretário e tesoureiro | Não deixar presidência e tesouraria com a mesma pessoa |
| Igreja estabelecida, com departamentos | Pastor, presbíteros (se a forma de governo prevê), junta diaconal e líderes de departamento | Diretoria completa, com vices e conselho fiscal | Reunião de obreiros regular e escala por ministério |
| Igreja com congregações | Pastor presidente, pastores auxiliares ou dirigentes de congregação, presbíteros e diáconos em cada congregação | Em geral, diretoria única na sede, à qual as congregações prestam contas | Cadastro centralizado e prestação de contas por congregação |
Afinal, o desenho cresce com a igreja, e não antes dela. Criar cargos para preencher um organograma bonito inverte a ordem de Atos 6: lá, a função nasceu de uma necessidade real; aqui, o cargo nasce vazio e procura uma função que o justifique.
Como registrar cargos e mandatos
Cargo que não está escrito em lugar nenhum vira disputa na primeira troca de liderança. Para evitar isso, você precisa de três registros:
- A ata. Toda eleição, posse, consagração ou destituição deve constar em ata, com data, nomes, cargo e prazo do mandato. A ata da eleição da diretoria costuma ser levada também ao cartório em que o estatuto da igreja está registrado, que é onde o Código Civil manda averbar as alterações do ato constitutivo (art. 45);17
- O cadastro do membro. Na ficha de cada membro, você registra que cargo ou função ele exerce, desde quando e até quando, inclusive os cargos que já deixou;
- O calendário de mandatos. Basta uma lista simples com o fim de cada mandato, para que a eleição aconteça antes do vencimento, e não depois de o banco recusar uma assinatura.
Infelizmente, o cadastro do membro é o que mais se perde, porque mora num caderno ou numa planilha que troca de dono sempre que a secretaria muda. E é dele que saem, na véspera da assembleia, a lista dos oficiais com direito a voto e a lista de quem precisa ser reconduzido ou substituído.
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Perguntas Frequentes sobre os Cargos da Igreja
Quais são os cargos na igreja evangélica?
No nível ministerial: pastor, presbítero, bispo, evangelista, missionário, diácono e as funções de apoio, como obreiro, auxiliar e líder de departamento. No administrativo: presidente, vice-presidente, secretário, tesoureiro e conselho fiscal.
Quais deles existem, e com que nome, é o estatuto de cada igreja que define.
Presbítero e pastor são a mesma coisa?
Na leitura da maior parte das igrejas evangélicas, sim: no Novo Testamento, presbítero, bispo e pastor descrevem o mesmo ofício por ângulos diferentes, como se vê em Tito 1:5-7 e Atos 20:17-28.
Hoje depende da igreja. Nas presbiterianas, o pastor é o presbítero que se dedica à pregação, ao lado dos presbíteros regentes; nas Assembleias de Deus e em muitas outras, presbítero é um cargo de auxílio ao pastor; e em muitas igrejas batistas não há presbíteros além do pastor.
O que é bispo na igreja evangélica?
Em grego, epískopos significa supervisor. No texto bíblico, é o presbítero visto pela sua tarefa de supervisão.
Nas igrejas de governo episcopal, ele supervisiona pastores e congregações; em outras, é um título que o estatuto dá a certos pastores, e muitas igrejas não usam o termo.
Quem compõe a diretoria da igreja?
Em geral, presidente, vice-presidente, primeiro e segundo secretários, primeiro e segundo tesoureiros e, em muitos estatutos, um conselho fiscal.
O Código Civil não fixa esses nomes. No que toca à diretoria, exige que o registro informe quem são os diretores, como a igreja é administrada e quem a representa (art. 46, II e III).
Depois de bispo vem o quê?
Não há resposta única. Nas igrejas de governo episcopal, a resposta está no documento de governo de cada denominação.
Para presbiterianos, batistas e para a Declaração de Fé das Assembleias de Deus, bispo e presbítero são o mesmo ofício no Novo Testamento, e todos os pastores servem debaixo de Cristo, o Sumo Pastor (1 Pedro 5:4).
Conclusão
Os cargos da igreja evangélica parecem confusos porque misturam três origens diferentes: os ofícios que o Novo Testamento descreve, as funções que cada igreja criou para dar conta do serviço e os cargos que o estatuto exige para a igreja existir diante da lei. Basta separar as três, e a tabela fica clara.
O que não muda de uma igreja para outra é o critério de Jesus em Mateus 20: no Reino, quem quer ser grande serve. Portanto, um organograma bem desenhado, com cada cargo escrito no estatuto e cada mandato registrado, é só a forma prática de fazer esse serviço acontecer sem atropelo.
E você? Os cargos da diretoria e do ministério estão escritos no estatuto, com prazo de mandato? Quando foi a última vez que alguém conferiu quem está com o mandato vencido?
Fique na paz!
Fontes
- CONVENÇÃO GERAL DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL. Declaração de Fé. CPAD, nov. 2016, cap. XIV, introdução, p. 75.
- IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, arts. 8º, 9º, 25, 30, 33, 34, 50, 52, 54 e 80. Disponível em: https://www.executivaipb.com.br/site/constituicao/constituicao.pdf.
- BOICE, James Montgomery. Fundamentos da Fé Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 538-539.
- BÍBLIA de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 1999, nota a Ef 4.11, p. 1405.
- CONVENÇÃO GERAL DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL, Declaração de Fé, cap. XIV, 3 (“Pastores e evangelistas”), p. 75.
- BÍBLIA de Estudo de Genebra, notas a Tt 1.5 e 1.7, p. 1457.
- BÍBLIA de Estudo de Genebra, nota a 1Tm 5.17, p. 1447.
- CONVENÇÃO GERAL DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL, Declaração de Fé, cap. XIV, 4 (“Os presbíteros”), p. 76.
- FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 932-934.
- BOICE, Fundamentos da Fé Cristã, p. 550.
- BÍBLIA de Estudo de Genebra, nota a At 13.3, p. 1290.
- CONVENÇÃO GERAL DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL, Declaração de Fé, cap. XIV, 6 (“Os cooperadores”), p. 76.
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. II. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 338.
- STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática, vol. 2. Trad. Augusto Victorino. São Paulo: Hagnos, 2003, p. 674.
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. I. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 101-102.
- WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. II, p. 339.
- BRASIL. Código Civil (Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002), arts. 44, 45, 46, 47, 48 e 49. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm.
Consultados sem nota: o sentido de poimḗn, presbýteros, epískopos, euangelistḗs e diákonos e as ocorrências no Novo Testamento seguem o léxico grego e o texto etiquetado do STEPBible (Tyndale House, CC BY 4.0), com base no léxico de Abbott-Smith.
Nota sobre as citações bíblicas: todas as citações deste artigo seguem a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF).
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