De Salomão a Herodes – A História dos Três Templos dos Hebreus

Ao longo de anos dedicados ao estudo e ensino das Escrituras, percebo que é muito comum haver uma certa confusão histórica em relação aos templos construídos em Jerusalém.

No entanto, compreender essa cronologia é algo fundamental. Isso proporciona uma leitura muito mais rica do texto bíblico e da história judaica.

Você já notou que toda religião tem sua forma específica de culto? Nela, temos ritos, utensílios, livros sagrados, pessoas envolvidas, musicalidade, roupas específicas e locais sagrados.

E, justamente nestes locais considerados sagrados, muitas religiões apresentam os seus templos. Basicamente, um templo é um edifício ou uma construção que se torna um espaço sagrado para os adeptos de uma determinada fé.

A palavra templo tem a sua origem no latim templum. Originalmente, ela significava “território delimitado e consagrado para a avaliação de auspícios”.

Ou seja, era um espaço muito bem demarcado onde os antigos romanos realizavam os seus rituais. Lá, eles consultavam os deuses para obter seus augúrios (presságios ou prognósticos) antes de tomarem decisões importantes.

Com o passar do tempo, esse significado evoluiu. A palavra templum passou a designar o próprio edifício
destinado ao culto religioso, exatamente como o conhecemos hoje.

Essa mudança ocorreu por um motivo simples: os templos eram construídos justamente nos locais onde os auspícios eram tomados. Assim, estabeleceu-se uma forte associação entre o lugar sagrado e o edifício religioso.

Mas, para os hebreus, o templo era muito mais do que um simples edifício. Era o grande centro da vida religiosa e o lugar exato onde se manifestava a gloriosa presença divina.

Ao longo de toda a história hebraica, existiram três templos. Cada um deles teve seu próprio significado e uma importância ímpar. Daí vem a nossa necessidade de conhecermos um pouco da história desses três templos hebreus.

1º Templo – Como Nasceu o Templo de Salomão?

Após a difícil conquista da terra de Canaã, os hebreus passaram a ser liderados por juízes. Estes eram homens escolhidos pelo próprio Deus para conduzir o povo nas batalhas contra os inimigos da terra.

Mais tarde, a nação hebraica passou a ser governada por reis. Isso deu início ao longo período da monarquia, tendo Saul, Davi e Salomão como os primeiros reis da nação.

Mas há um detalhe importante: do período dos juízes até parte do reinado de Davi, o único local de culto que eles tinham era o tabernáculo. Esse ambiente sagrado havia sido instituído por Deus por meio de Moisés.

Esse tabernáculo nada mais era do que uma tenda móvel. Conforme o povo se movia na longa peregrinação pelo deserto, a tenda era desmontada, transportada e montada novamente pelos levitas, sempre acompanhada de todos os seus utensílios.

As coisas começaram a mudar durante o reinado de Davi, o segundo rei de Israel. Depois de trazer a arca da aliança novamente para Jerusalém e ter, finalmente, descanso de todos os seus inimigos (2Sm 7.1), Davi fez uma observação.

Ele comparou o belo palácio onde morava com o local modesto onde estava depositada a arca do Senhor. Foi então que brotou em seu coração o profundo desejo de construir um local definitivo e permanente para abrigá-la (2Sm 7.2).

Esse desejo nobre de Davi foi confirmado pelo Senhor pela boca do profeta Natã:

“Vai e faze tudo quanto está no teu coração, porque o Senhor é contigo”
2Sm 7.3 ARC

E veja que interessante: mesmo sendo uma ideia originalmente humana, vinda do coração de Davi, esse propósito de construir um local fixo para a manifestação divina foi totalmente aprovado por Deus.

Davi teve a ideia da construção do templo. Contudo, segundo as palavras do profeta Natã, quem executaria essa obra não seria Davi, mas sim o seu filho Salomão:

“¹² Quando teus dias forem completados, e vieres a dormir com teus pais, então, farei levantar depois de ti a tua semente, e estabelecerei o seu reino.
¹³ Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre”
2Sm 7.12,13 ARC

Assim, logo após assumir o trono da nação, Salomão edifica o majestoso templo ao Senhor (1Rs 5.13-18; 6.1-38). A inauguração aconteceu de maneira esplendorosa e foi marcada pela manifestação visível da presença de Deus (1Rs 8.1-66).

Hoje, nós conhecemos esse lugar como o primeiro templo ou, mais comumente, o templo de Salomão. Este magnífico edifício cumpriu o seu propósito. Ele serviu como o grande centro espiritual da nação de Israel por cerca de quatro séculos.

Infelizmente, toda essa glória durou até ser tragicamente destruída pelo exército babilônico, liderado pelo rei
Nabucodonosor, por volta do ano 586 a.C.

2º Templo – O que Representou o Templo de Zorobabel?

O tempo passou e, após o reinado de Salomão, já durante o governo de seu filho Roboão, a nação hebraica sofreu uma dura divisão. O povo foi separado em dois reinos: o Reino do Norte (Israel) e o Reino do Sul (Judá). A partir dali, cada um desses reinos passou a ter os seus respectivos reis.

Mais tarde, o Reino do Norte (Israel) acabou sendo levado cativo pelos assírios, e o reino foi completamente destruído.

Por sua vez, o Reino do Sul (Judá) não teve um destino melhor: foi invadido pelos babilônicos. Isso culminou na trágica destruição do templo de Salomão e no terrível saque de todos os utensílios sagrados dos judeus.

Porém, a mesma Babilônia que tomou os judeus como cativos acabou sendo tomada pelo poderoso Império Persa. Foi então que, sob o reinado de Ciro, o persa, uma promessa se cumpriu. Exatamente conforme as predições dos profetas, os judeus começaram a regressar para as terras de Judá.

Dentre aqueles que regressavam cheios de esperança, estava um homem escolhido a dedo pelos persas para ser o governador de Judá: o seu nome era Zorobabel.

Com a valiosa ajuda de Esdras e de profetas levantados por Deus, como Ageu e Zacarias, Zorobabel liderou um ousado projeto de reconstrução do templo em Jerusalém.

Foi assim que, mais tarde, o santuário foi reerguido, ficando conhecido para sempre como o segundo templo ou o templo de Zorobabel.

Essa reconstrução, finalmente concluída por volta de 516 a.C., pode até ter sido arquitetonicamente mais modesta se comparada à grandiosidade da obra de Salomão (Ed 3.12). No entanto, ela teve um valor imenso.

Foi ela quem marcou o aguardado restabelecimento do culto sacrificial e resgatou a identidade judaica após aqueles longos e dolorosos anos de exílio.

3º Templo – Por que o Templo de Herodes foi tão Marcante?

O tempo continuou sua marcha implacável. Os impérios dos babilônicos, dos persas e dos gregos se passaram.

Agora, um pouco antes do nascimento do Senhor Jesus, o império que ditava as regras e dominava o mundo antigo era o temido Império Romano. O Império Romano tinha uma prática política bem astuta para tentar amenizar os constantes conflitos com os povos colonizados.

Eles permitiam que alguns reis locais se tornassem vassalos de Roma, garantindo, em troca, que essas colônias pudessem manter a sua própria religiosidade. Foi exatamente sob essa pesada dominação romana que surgiu a figura de Herodes, o Grande.

Ele era o pai dos demais Herodes citados no Novo Testamento e, tristemente, ficou conhecido como o autor da terrível matança das crianças logo após o nascimento de Jesus (Mt 2.16-18). Mas ele também foi o homem que decidiu reformar e ampliar o templo reconstruído por Zorobabel.

A obra executada por Herodes fez com que o templo alcançasse uma área muito maior do que a dos santuários anteriores. O local transformou-se em uma construção monumental, extravagante e extremamente luxuosa.

Para você ter uma ideia, o famoso historiador judaico-romano Flávio Josefo descreve com verdadeiro fascínio a magnitude daquela arquitetura em seus relatos clássicos. Era uma obra que simplesmente deixava de queixo caído os viajantes de todo o mundo antigo.

E não parou por aí. Além de toda a ampliação, do luxo ostensivo dos muros, dos santuários e de uma decoração exuberante (cujos vestígios arqueológicos ainda podem ser parcialmente visitados hoje no chamado Muro das Lamentações, em Jerusalém), Herodes foi além.

Ele construiu, totalmente anexados ao templo, palácios, fortalezas e vários outros edifícios administrativos ao redor do complexo. Tudo isso tinha um único objetivo: demonstrar de forma clara o seu grande poder e influência política.

Talvez a sua obra mais controversa tenha sido a Torre de Antônia — ou Fortaleza Antônia. Tratava-se de uma verdadeira fortaleza romana adjacente ao templo, que servia como quartel militar para a guarnição de Roma. Era a forma física de garantir o controle romano absoluto sobre aquele local sagrado.

Entretanto, mesmo com toda essa grandiosidade, luxo e riquezas incalculáveis, esse grande centro religioso e econômico de Jerusalém também teve o seu fim. Ele foi brutalmente destruído pelas tropas romanas lideradas pelo general Tito, no ano 70 d.C.

Durante a terrível invasão, o templo foi incendiado, e o intenso calor fez com que o ouro que revestia as paredes derretesse, escorrendo e se infiltrando nas fendas das pedras.

Como consequência, os gananciosos soldados romanos, na ânsia de recuperar aquele ouro derretido, não tiveram outra escolha senão remover, literalmente, todas as pedras do templo. Não ficou pedra sobre pedra.

Isso cumpriu perfeitamente e nos mínimos detalhes as predições feitas por Jesus quando esteve naquele exato ambiente (Mt 24.1,2).

O que Tiramos Como Conclusão?

Quando olhamos para toda essa impressionante trajetória, podemos tirar preciosas lições. Para nós, que vivemos no contexto da graça e do Novo Testamento, essa longa transição histórica aponta diretamente para uma profunda realidade espiritual.

A glória e a presença de Deus, que antes enchiam tendas e templos suntuosos, deixam definitivamente de habitar em construções feitas por mãos humanas (At 17.24).

Ele escolheu fazer morada permanente na vida de cada um de nós, nos transformando, de forma maravilhosa, em verdadeiros santuários do Seu próprio Espírito (1Co 3.16).

E você?

O que essa história milenar dos templos revela sobre o valor que Deus dá à sua vida hoje?

Fique na Paz!

Referências Bibliográficas e Leituras Sugeridas:

  • JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus (Antiguidades Judaicas). Rio de Janeiro: CPAD.
  • PACKER, J. I.; TENNEY, M. C.; WHITE, William. A Vida Quotidiana nos Tempos Bíblicos. Vida Nova.
  • BÍBLIA SAGRADA (Textos-base referenciados nas versões Almeida Revista e Corrigida – ARC).

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