Quem Foi Mefibosete na Bíblia: O Herdeiro à Mesa do Rei

↑ Este artigo faz parte da coleção Personagens Bíblicos — quem foram e o que ainda ensinam à igreja de hoje.

Mefibosete foi o filho de Jônatas e neto do rei Saul, o último herdeiro da casa que Davi substituiu no trono de Israel. Ficou aleijado dos dois pés aos cinco anos de idade, quando a ama que o carregava caiu na fuga depois da morte do pai e do avô em batalha (2Sm 4:4 ACF).

Anos depois, já rei, Davi mandou buscá-lo em Lo-Debar e lhe devolveu todas as terras de Saul, com uma frase que decide a história: “e tu sempre comerás pão à minha mesa” (2Sm 9:7 ACF). Repare no que isso significava: o herdeiro da dinastia derrotada passou a comer como filho na mesa do rei que ocupava o lugar do seu avô.

O que Significa o Nome Mefibosete

O nome que a Bíblia usa não foi, ao que tudo indica, o nome que ele recebeu ao nascer. Em 2 Samuel ele é Mefibosete; em 1 Crônicas, o mesmo homem aparece como Meribe-Baal: “E o filho de Jônatas foi Meribe-Baal” (1Cr 8:34 ACF).

A diferença está na segunda parte. Baal — “senhor” — era também o nome do deus cananeu, e os escribas passaram a substituí-lo por bosheth, que quer dizer vergonha. O nome pelo qual conhecemos esse homem carrega, portanto, uma troca deliberada, feita para não pronunciar o nome do ídolo.

Vale reparar na ironia que sobra disso. O herdeiro de Saul atravessa a Escritura chamado por uma palavra que significa vergonha — e é justamente ele quem se descreve assim diante de Davi: “Quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu?” (2Sm 9:8 ACF).

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Como Mefibosete Ficou Deficiente?

A ama fugindo com Mefibosete menino no colo, após a derrota em Gilboa

O texto é direto e cabe em um versículo:

“E Jônatas, filho de Saul, tinha um filho aleijado de ambos os pés; era da idade de cinco anos quando as novas de Saul e Jônatas vieram de Jizreel, e sua ama o tomou, e fugiu; e sucedeu que, apressando-se ela a fugir, ele caiu, e ficou coxo; e o seu nome era Mefibosete” (2Sm 4:4 ACF).

Foi um acidente, não uma condição de nascimento. A notícia da derrota em Gilboa chegou, a casa real entrou em pânico, e alguém correu com a criança no colo.

Afinal, a ama fugia porque o costume da época era eliminar os descendentes do rei derrotado — ela tentava salvar a vida do menino, e no caminho custou-lhe os pés.

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Lo-Debar: os Anos de Esquecimento

Quando Davi pergunta por alguém da casa de Saul, a resposta localiza Mefibosete em Lo-Debar, na casa de Maquir (2Sm 9:4 ACF). O nome do lugar costuma ser lido como “sem pasto” ou “lugar nenhum”.

Ficava na Transjordânia, ao norte do rio Iarmuque — uma área que fora aliada de Saul e que só mais tarde virou Estado vassalo sob Davi2. Repare no detalhe político: o herdeiro estava escondido em território de quem apoiava o avô dele.

Quantos anos ele passou ali? A Bíblia não diz. O que ela permite calcular é o intervalo: Mefibosete tinha cinco anos quando Saul morreu, e o encontro com Davi acontece depois de o reino já estar consolidado — quando o próprio Mefibosete já tinha um filho pequeno, Mica (2Sm 9:12 ACF).

Foram, no mínimo, quinze ou vinte anos escondido. Qualquer número exato que você encontrar por aí é estimativa, não texto bíblico.

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A Mesa do Rei

A cena de 2 Samuel 9 começa com uma pergunta de Davi: “Não há ainda alguém da casa de Saul para que eu use com ele da benevolência de Deus?” (2Sm 9:3 ACF). E aqui vale desfazer uma leitura sentimental comum: a motivação não foi a deficiência de Mefibosete, e sim um juramento antigo feito a Jônatas1 (1Sm 20:15 ACF).

Mefibosete chega, se prostra e se chama de “cão morto”. Davi responde restituindo as terras de Saul e o coloca à mesa.

O capítulo fecha repetindo duas coisas na mesma frase, como quem não quer que o leitor escolha só uma: “porquanto sempre comia à mesa do rei, e era coxo de ambos os pés” (2Sm 9:13 ACF).

A mesa não curou os pés. Ele continuou coxo — e continuou à mesa.

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A Acusação de Ziba

Ziba diante de Davi na fuga de Jerusalém, com os jumentos carregados

Anos mais tarde, durante a fuga de Davi por causa da revolta de Absalão, Ziba — o servo encarregado das terras — aparece sozinho diante do rei e acusa o patrão de ter ficado em Jerusalém esperando recuperar o trono do avô (2Sm 16:3 ACF). Davi, em fuga e sem tempo de apurar, entrega os bens a Ziba.

Quando o rei volta, Mefibosete se apresenta e dá a sua versão: “Ó rei meu senhor, o meu servo me enganou; porque o teu servo dizia: Albardarei um jumento, e nele montarei, e irei com o rei; pois o teu servo é coxo” (2Sm 19:26 ACF).

Vale reparar em como ele se apresentou: “não tinha lavado os pés, nem tinha feito a barba, nem tinha lavado as suas vestes desde o dia em que o rei tinha saído” (2Sm 19:24 ACF).

Pés descalços e barba por fazer eram sinais de luto — e o detalhe pesa contra a acusação de Ziba: quem pretendia assumir o trono teria se apresentado com aparência digna de rei, não de enlutado3.

📌 Ainda assim, a Bíblia não declara quem mentiu. Davi divide as terras entre os dois, e a resposta de Mefibosete é o detalhe que fecha o retrato: “Tome ele também tudo; pois já veio o rei meu senhor em paz à sua casa” (2Sm 19:30 ACF).

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Mefibosete Morreu Enforcado?

Não. Essa é uma confusão entre dois homens diferentes com o mesmo nome, e os dois aparecem no mesmo capítulo.

Em 2 Samuel 21, para reparar a matança dos gibeonitas promovida por Saul, sete descendentes dele são entregues e executados.

Um deles se chamava Mefibosete — mas era filho de Rispa, concubina de Saul: “Mas tomou o rei os dois filhos de Rispa, filha da Aiá, que tinha tido de Saul, a Armoni e a Mefibosete” (2Sm 21:8 ACF).

E o texto tem o cuidado de dizer, dois versículos antes, que o outro foi poupado: “Porém o rei poupou a Mefibosete, filho de Jônatas, filho de Saul, por causa do juramento do Senhor” (2Sm 21:7 ACF).

O Mefibosete da mesa do rei, filho de Jônatas, não está entre os executados. A Bíblia não registra como ele morreu.

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Onde Mefibosete Aparece na Bíblia

O nome Mefibosete aparece 10 vezes na Bíblia, todas em 2 Samuel — e duas dessas vezes se referem a outro homem, o filho de Rispa. Esta é a lista completa:

  • 2Sm 4:4 — a apresentação: filho de Jônatas, aleijado dos dois pés aos cinco anos;
  • 2Sm 9:6 — ele chega diante de Davi e se prostra com o rosto por terra;
  • 2Sm 9:10 — Ziba é encarregado de trabalhar a terra devolvida a ele;
  • 2Sm 9:11 — Ziba aceita a ordem, e o rei repete: ele comerá à minha mesa;
  • 2Sm 9:12 — o registro do filho pequeno, Mica;
  • 2Sm 9:13 — morava em Jerusalém, comia à mesa do rei e era coxo de ambos os pés;
  • 2Sm 16:1 — Ziba encontra Davi na fuga, sozinho, com provisões;
  • 2Sm 16:4 — Davi entrega a Ziba tudo o que era de Mefibosete;
  • 2Sm 21:7 — o rei o poupa da entrega aos gibeonitas, por causa do juramento;
  • 2Sm 21:8outro Mefibosete: filho de Rispa, entregue e executado.

Fora de 2 Samuel, o mesmo homem aparece com o nome antigo, Meribe-Baal, em duas passagens de Crônicas que dizem a mesma coisa: “E o filho de Jônatas foi Meribe-Baal; e Meribe-Baal gerou a Mica” (1Cr 8:34 ACF, repetido quase palavra por palavra em 1Cr 9:40).

Repare no que a lista mostra de uma vez: toda a história dele cabe em três capítulos — 2 Samuel 9, 16 e 21 — e a Bíblia não registra como ele morreu.

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Esboço de Pregação sobre Mefibosete

Um roteiro em três pontos, seguindo a ordem da própria narrativa: o lugar onde ele estava, a busca que não partiu dele, e a mesa que não dependeu da cura. Serve para mensagem, estudo de célula ou aula de EBD.

Tema: a benevolência que procura primeiro. Texto: 2 Samuel 9 (versículo-chave: 9:7).

  1. Lo-Debar: onde a graça foi buscar (2Sm 9:4) — o herdeiro do trono estava escondido num lugar cujo nome significa “sem pasto”, vivendo de favor na casa de outro homem. Aplicação: ninguém precisa melhorar de endereço antes de ser procurado;
  2. A pergunta partiu do rei (2Sm 9:3) — “Não há ainda alguém da casa de Saul…”. Repare que Mefibosete não pediu audiência, não enviou carta, não sabia do juramento. A iniciativa é inteira de Davi, e por causa de uma promessa feita ao pai dele. Aplicação: quem promete é quem procura;
  3. A mesa não curou os pés (2Sm 9:13) — o capítulo fecha dizendo, na mesma frase, que ele comia à mesa do rei e continuava coxo. Aplicação: ser aceito não é o mesmo que ser consertado, e o texto não deixa confundir uma coisa com a outra.

Conclusão sugerida: vale terminar na frase que ele mesmo diz — “um cão morto tal como eu” (2Sm 9:8 ACF) — e contrastá-la com o lugar onde ele passou a sentar. Não foi a autoimagem dele que mudou primeiro: foi a mesa.

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Perguntas Frequentes sobre Mefibosete

Mefibosete era filho de quem?

De Jônatas, filho do rei Saul. Ou seja, Mefibosete era neto de Saul e sobrinho-neto por aliança de Davi, que havia jurado amizade eterna a Jônatas (1Sm 20:15 ACF).

O que significa o nome Mefibosete?

A forma mais aceita liga o nome a bosheth, “vergonha”. Em 1 Crônicas 8:34 ele aparece como Meribe-Baal, e a troca de Baal por bosheth era uma prática dos escribas para evitar pronunciar o nome do ídolo cananeu.

Como Mefibosete ficou coxo?

Aos cinco anos, quando chegou a notícia da morte de Saul e Jônatas em batalha. A ama que o carregava caiu durante a fuga (2Sm 4:4 ACF). Foi acidente, não condição de nascimento.

Quantos anos Mefibosete ficou em Lo-Debar?

A Bíblia não informa. Pelo texto, ele tinha cinco anos quando o pai morreu e já era pai de um menino quando Davi o encontrou (2Sm 9:12 ACF) — o que situa o período entre quinze e vinte e poucos anos, sem número exato.

Mefibosete morreu enforcado?

Não. Quem foi executado em 2 Samuel 21 era outro Mefibosete, filho de Rispa (2Sm 21:8 ACF). O filho de Jônatas foi expressamente poupado por Davi (2Sm 21:7 ACF), e a Escritura não registra como ele morreu.

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Fontes

  1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. II — Histórico. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 321.
  2. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 347.
  3. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 360.

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