Hoje, vamos conversar um pouco sobre como compreendemos os nomes de Deus.
Primeiramente, é importante definirmos um limite: nossa conversa sobre os nomes relacionados ao ser de Deus se dará dentro do pensamento cristão protestante.
Sabemos que muitos dos nomes dados a Deus também estão presentes em outros credos, como no cristianismo católico, no judaísmo e no islamismo. No entanto, o nosso foco aqui é a esfera protestante.
Por isso, as fontes de pesquisa que utilizaremos para basear o nosso texto serão fontes estritamente protestantes.
Definido o nosso limite, vamos entender um pouco mais sobre o próprio ser de Deus.
Isso mesmo, Deus é um ser que se faz conhecido. Ele escolhe se revelar à sua criação. O nosso conhecimento sobre Ele sempre acontecerá através dessa revelação. Afinal, se o próprio Deus não se revelasse, seria impossível conhecê-lo.
Como bem enfatizou o reformador João Calvino, a mente humana, por conta própria, é incapaz de alcançar a essência divina.
Por isso, em Sua infinita graça, Deus “balbucia” conosco. Ele acomoda a sua linguagem à nossa capacidade limitada, tudo para que possamos conhecê-Lo de forma verdadeira e relacional.
Mas como Ele faz isso? Essa revelação acontece através das coisas criadas, assim como o apóstolo Paulo afirma no capítulo 1 da carta aos Romanos. Nós chamamos isso de revelação geral (ou natural).
A segunda maneira de Deus se revelar é o que chamamos de revelação especial. Essa acontece por meio de Sua Palavra e, de forma ainda mais específica, através do seu Filho, o Senhor Jesus Cristo.
É justamente nessa revelação especial que encontramos algo fascinante sobre Ele: a Sua revelação ocorre por meio de três Pessoas — a Pessoa do Pai, a Pessoa do Filho (Jesus Cristo) e a Pessoa do Espírito Santo.
Sim, nós servimos a um único Deus, que se manifesta por meio de três Pessoas. Ao longo da história, vemos Deus agindo dessa maneira. Na criação, por exemplo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo já estavam presentes.
Durante os relatos históricos e bíblicos, percebemos que, em alguns momentos, a ênfase é maior na figura do Pai; em outros, no Filho; e, às vezes, no Espírito Santo.
Mas não se engane: não existe subordinação na relação dessas três Pessoas. As três pessoas são Deus!
A teologia sistemática reformada, conforme aponta Louis Berkhof, nos lembra exatamente disso: os nomes divinos revelam os atributos de toda a Divindade.
Embora sejam distintas e possuam funções muito específicas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são plenamente Deus.
É muito importante compreendermos isso, pois a doutrina da Trindade é um dos grandes fundamentos do pensamento cristão.
Ela é o que chamamos teologicamente de dogma. E assim como as duas naturezas de Cristo (divina e humana), o batismo e a ceia, a Trindade é um dogma essencial da nossa fé.
E como trata-se de um dogma cristão, essa doutrina é unânime entre protestantes (reformados e pentecostais) e católicos romanos.
Entendendo os Nomes de Deus
Agora que definimos brevemente o ser de Deus, vamos explorar mais a fundo a questão dos Seus nomes.
Nas páginas do Antigo Testamento, encontramos três nomes principais que são dados a Deus. Todos os demais nomes que lemos na Bíblia estão diretamente relacionados a quem Ele é.
Ou seja, temos três nomes específicos para Ele, e outros diversos nomes que revelam as Suas qualidades e o Seu caráter.
Os três nomes dados a Deus são:
1. Yahweh
Este é um dos nomes mais conhecidos dados a Deus. Ele é a forma vocalizada da expressão YHWH (o tetragrama). Isso significa que, para conseguirmos pronunciar essas consoantes, foi necessário adicionar algumas vogais.
Sua origem teológica mais profunda está na maravilhosa revelação dada a Moisés, lá na sarça ardente: “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3.14).
Esse nome denota que Deus é um Ser autoexistente. Ele não depende de absolutamente nada. É o Deus eterno, imutável e a fonte de quem procedeu todas as coisas criadas.
Para os israelitas das gerações posteriores, o nome de Deus era considerado sagrado demais para ser pronunciado ou mesmo escrito.
Eles eram movidos por um temor reverencial de quebrar o terceiro mandamento: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão”. Por conta desse temor, esse nome é, às vezes, chamado de “impronunciável”.
Foi por isso que estudiosos judeus (conhecidos como massoretas, que viveram entre os séculos VI e X d.C.) tiveram uma ideia: eles inseriram as vogais de dois outros nomes de Deus (Adonai e Elohim) no tetragrama.
Dessa forma, durante as leituras públicas, o nome inefável não seria pronunciado de forma indevida. Os termos Yahweh, Yᵉhovah, ou simplesmente Javé são os que mais se aproximam da expressão original hebraica.
Como nos aponta o Dicionário Bíblico Wycliffe (PFEIFFER; VOS; REA, 2007), a expressão que traduzimos por “Jeová” é, na verdade, uma forma híbrida.
E isso ainda gera certa divergência entre alguns estudiosos mais modernos. Portanto, a expressão mais próxima e fiel ao hebraico original seria mesmo Yahweh.
Além disso, vemos essa expressão ser usada em várias combinações ao longo do Antigo Testamento para designar qualidades específicas do Senhor. Veja algumas:
- Yahweh Nissi — o Senhor é minha bandeira (Êx 17.15)
- Yahweh Shalom — o Senhor é paz (Jz 6.24)
- Yahweh Shammah — o Senhor está ali (Ez 48.35)
- Yahweh Sabaoth — o Senhor dos exércitos (1Sm 17.45)
- Yahweh Elohe Yisrael — o Senhor Deus de Israel (Jz 5.3)
2. Adonai
A palavra Adonai significa, literalmente, “Senhor”.
Esse nome divino aparece no livro de Josué, em um momento muito marcante: Josué estava diante das muralhas de Jericó quando foi surpreendido pelo príncipe dos exércitos do Senhor.
Ele logo se prostra, O adora e faz a seguinte pergunta:
“Que diz meu Senhor ao seu servo?”
Js 5.14 ARC
É exatamente nessa expressão de reverência, “meu Senhor”, que encontramos o termo Adonai.
Enquanto Adonai é usado como “Senhor” em todo o Antigo Testamento, no Novo Testamento, essa mesma ideia é traduzida pela palavra grega κύριος (kurios), que também significa “senhor”. Em alguns contextos, chega a ser traduzida por theos, que é o nome de Deus em grego.
Aqui, podemos fazer uma conexão vital para nós, cristãos: o Novo Testamento aplica esse título de Senhor (Kurios) frequentemente a Jesus Cristo, atestando de forma clara a Sua divindade.
Quando o apóstolo Paulo nos escreve, em Filipenses 2.9-11, que Jesus recebeu “o nome que está acima de todo nome”, e que toda língua confessará que Ele é Senhor (Kurios), ele está atribuindo a Cristo a mesma majestade do Yahweh revelado no Antigo Testamento.
3. Elohim
Para encontrar esse nome, basta abrirmos no primeiríssimo versículo da nossa Bíblia, em Gênesis 1.1: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Aqui mesmo já nos deparamos com Elohim.
Segundo o autor Champlin (2006), esse nome possui um detalhe gramatical interessante: ele está no plural (inclusive, em outros contextos bíblicos, pode ser traduzido como “deuses” ou até magistrados).
No entanto, quando Elohim é aplicado ao único Deus verdadeiro, ele carrega um sentido muito maior. Ele aponta para o Ser supremo, e descreve o Seu poder, a Sua força e a Sua majestade totalmente inigualável.
O Uso da Expressão El
Agora que já observamos os três nomes principais dados a Deus (Yahweh, Adonai e Elohim), precisamos destacar um outro termo muito importante que também tem a função de indicá-Lo: a expressão el.
No antigo Oriente, essa mesma expressão costumava ser usada pelos povos para indicar as suas próprias divindades. Ou seja, ela não era uma indicação exclusiva ao Deus verdadeiro.
Mas, quando se trata do Senhor, o termo el pode aparecer sozinho ou — como acontece na maioria das vezes — acompanhado de outras expressões que revelam os atributos e as qualidades de Deus.
Imagina só o Salmo 91.1 e 2. O texto nos diz: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus”.
Vamos observar de perto as palavras: Altíssimo, Senhor e Deus.
Altíssimo, nesse contexto, descreve uma qualidade divina, e no original é Elyon. A palavra Senhor é um dos Seus nomes, e aqui é representada por Yehowah (ou Javé). Já a palavra Deus, outro nome Dele, no original é Elohim.
Percebeu como é rico? Em apenas dois versículos, encontramos dois nomes de Deus e uma linda designação de Sua qualidade: Altíssimo.
Dessa forma, a expressão el (que quer dizer Deus) traz consigo outras composições maravilhosas, que nós também conhecemos como os nomes de Deus. Acompanhe:
- El Elyon — o Deus Altíssimo (Sl 91.1)
- El Shaddai — o Deus Todo-Poderoso (Gn 17.1)
- El Hai — o Deus vivo (Js 3.10)
- El Olam — o Deus da eternidade (Gn 21.33)
- El Roi — o Deus que vê (Gn 16.13)
- El Rehum — o Deus da compaixão (Dt 4.31)
- El Nose — o Deus do perdão (Sl 99.8)
- El Hannun — o Deus gracioso (Ne 9.31)
- El Kanna — o Deus zeloso (Êx 20.5)
- Emanuel — Deus conosco (Is 7.14)
A Importância Prática de Conhecer os Nomes de Deus
Saber tudo isso não deve ser apenas um exercício teológico ou acadêmico para as nossas mentes. Pelo contrário, conhecer os nomes do Senhor possui um valor prático e devocional muito profundo para as nossas vidas!
Saber, por exemplo, que Deus é El Roi (o Deus que vê) pode trazer o consolo que precisamos naqueles momentos em que nos sentimos abandonados, exatamente como Ele fez com Agar no meio do deserto.
Além disso, clamar a Yahweh Shalom (o Senhor é paz) tem o poder de transformar completamente a nossa experiência em meio aos tempos de ansiedade e de guerra espiritual.
A revelação do caráter de Deus, demonstrada através dos Seus nomes, serve para nutrir a nossa fé. Ela direciona o nosso coração à adoração e, mais do que isso, estabelece uma base sólida para depositarmos nossa confiança diária nEle.
Resumindo (e Concluindo)
Para amarrarmos tudo o que vimos até aqui, lembre-se de que temos quatro formas principais de nomes dados a Deus em todo o Antigo Testamento:
- Yahweh e as suas maravilhosas derivações, como Yahweh Shalom (o Senhor é paz);
- Adonai;
- Elohim;
- El acompanhado de suas derivações (como vimos em el roi, o Deus que vê).
Vale salientar, é claro, que a Bíblia é rica. Existem ainda outros nomes e inúmeras expressões, apontadas por vários intérpretes bíblicos, que também dizem respeito ao Senhor.
Todos esses nomes falam diretamente sobre o ser de Deus, mostrando Suas qualidades e as Suas poderosas ações no meio da humanidade.
Nosso Deus é um Deus que se revela e se dá a conhecer de forma amorosa; por isso, Ele nos presenteia com nomes que declaram quem Ele verdadeiramente é!
E você?
O que os nomes de Deus revelam sobre a sua própria caminhada e confiança nEle?
Fique na paz!
Referências Bibliográficas
- CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. 8. ed. São Paulo: Hagnos, 2006.
- PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Dicionário bíblico Wycliffe. 2ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.