Quem Foi o Rei Josias na Bíblia?

↑ Este artigo faz parte da coleção Personagens Bíblicos — quem foram e o que ainda ensinam à igreja de hoje.

Josias assumiu o trono de Judá ainda menino, com oito anos, e governou por três décadas em Jerusalém (2 Reis 22:1). Foi no reinado dele que aconteceu a maior reforma religiosa do reino do Sul. E o texto bíblico fecha o reinado dele com um superlativo: antes dele não houve rei semelhante, e depois dele nunca se levantou outro tal.

A parte mais conhecida da história é a demolição — os altares derrubados, os ídolos moídos, os sacerdotes pagãos destituídos. Só que a demolição foi consequência, e não causa. Tudo o que Josias fez começou no dia em que alguém leu para ele um livro que estava perdido dentro da casa de Deus.

Hoje, vamos percorrer a história dele por esse fio: o que o contato com a Escritura produziu num homem, depois numa nação, e para onde esse contato estava apontando desde o começo.

Quem Foi o Rei Josias na Bíblia?

Josias foi o décimo sexto rei de Judá e reinou por volta de 640 a 609 a.C. Era filho de Amom e bisneto de Ezequias, o que o coloca na linhagem do rei Davi — a mesma que sustenta a promessa que atravessa todo o Antigo Testamento.

O nome dele vem do hebraico Yoshiyahu e possui dois sentidos possíveis: “o Senhor sustenta” ou “aquele que o Senhor cura”. Os dois cabem na biografia.

Ele assumiu o trono menino, aos oito anos, e o caminho até lá foi violento: os servos de Amom conspiraram e mataram o rei dentro de casa; em seguida o povo da terra executou os conspiradores e pôs Josias no lugar do pai (2 Reis 21:23-24). E, segundo o texto, ele andou em todo o caminho de Davi, sem se apartar dele nem para a direita nem para a esquerda (2 Reis 22:2).

Voltar ao topo

A Casa que Ele Herdou

Para medir o que Josias fez, é preciso olhar o que ele recebeu. Depois da divisão da nação em dois reinos, coube a Judá a linhagem de Davi e o templo de Jerusalém — e o que Josias herdou foi isso tudo arruinado por dois reinados seguidos.

O avô, Manassés, subiu ao trono com doze anos e reinou cinquenta e cinco — o reinado mais longo de Judá, e o pior. Ele reconstruiu os altos que Ezequias tinha derrubado, levantou altares a Baal, plantou um poste sagrado e chegou a erguer altares dentro do próprio templo do Senhor (2 Reis 21:3-5). Fez o filho passar pelo fogo, consultou adivinhos e médiuns. E derramou tanto sangue inocente em Jerusalém que o texto diz que encheu a cidade de uma extremidade à outra (2 Reis 21:16).

O pai, Amom, reinou dois anos e não mudou nada. Serviu aos mesmos ídolos, andou no mesmo caminho, e morreu numa conspiração dos próprios servos (2 Reis 21:19-23).

Ou seja: quando Josias assume, fazia mais de meio século que Judá não via um rei fiel. Uma geração inteira nasceu, cresceu e morreu dentro daquilo. Ninguém no palácio tinha memória de outra coisa.

Voltar ao topo

O Rei que Buscou Antes de Encontrar

Aqui está o detalhe que costuma ser atropelado quando a história é contada depressa, e ele é decisivo para tudo o que vem depois.

O texto de Crônicas dá a cronologia:

Porque no oitavo ano do seu reinado, sendo ainda moço, começou a buscar o Deus de Davi, seu pai; e no duodécimo ano começou a purificar a Judá e a Jerusalém, dos altos, e dos bosques, e das imagens de escultura e de fundição. 2 Crônicas 34:3

Oitavo ano de reinado significa dezesseis anos de idade. Décimo segundo ano significa vinte. E o Livro da Lei só aparece no décimo oitavo ano, quando ele possui vinte e seis.

Repare no que isso quer dizer. Josias começou a buscar dez anos antes de ter o texto na mão. Ele purificou a terra oito anos antes de saber, com todas as letras, o que estava escrito. Não foi a leitura que despertou o rei — o rei já estava desperto, e buscava com o pouco que tinha.

Existe uma pergunta legítima aqui: como um menino criado na corte de Manassés e de Amom começa a buscar o Deus de Davi? O texto não responde. Ele registra o fato e segue adiante, sem nos dar o mérito de ninguém para explicar a virada.

Voltar ao topo

O Livro Estava Dentro da Casa de Deus

No décimo oitavo ano do reinado, Josias mandou reformar o templo. Enviou o escrivão Safã para acertar o pagamento dos operários, e o texto guarda um detalhe de caráter: não se exigia prestação de contas do dinheiro entregue, porque aqueles homens procediam com fidelidade (2 Reis 22:7).

Foi no meio da obra que apareceu o livro. Hilquias, o sumo sacerdote, o encontrou e o entregou a Safã — e o escrivão foi quem leu diante do rei:

O sacerdote Hilquias me deu um livro. E Safã o leu diante do rei. 2 Reis 22:10

Repare bem na cena, porque ela é mais dura do que parece à primeira vista. O livro não estava perdido no deserto, nem numa cidade tomada por inimigos, nem enterrado por algum invasor. Estava dentro da casa de Deus — e ninguém tinha dado pela falta. Seria o mesmo que perder a Bíblia dentro da igreja e continuar tocando a programação normalmente, sem que ninguém sentisse falta dela.

Esse é o dado que mede o estado espiritual da nação melhor do que qualquer altar derrubado. O problema de Judá não era só a idolatria visível nos montes; era o silêncio da Palavra dentro do próprio lugar onde ela deveria ser lida.

Não se sabe com certeza qual porção era. A leitura mais provável é que fosse o livro de Deuteronômio, e ela explica bem a reação do rei: os capítulos 4 a 13 condenavam o que a nação tinha feito, os capítulos 14 a 18 cobravam o que ela tinha deixado de fazer, e a aliança dos capítulos 27 a 30 advertia, item por item, sobre o que aconteceria se não houvesse arrependimento.1

Voltar ao topo

O Que Um Homem Faz ao Ouvir

A resposta de Josias cabe em meia linha:

Sucedeu, pois, que, ouvindo o rei as palavras do livro da lei, rasgou as suas vestes. 2 Reis 22:11

Rasgar as vestes era o gesto de luto daquele mundo, e a própria Escritura mostra em que companhia ele aparece: Jacó rasgou as vestes ao crer que José tinha morrido (Gênesis 37:34), e Jó rasgou o manto no dia em que perdeu tudo (Jó 1:20). Ou seja, o rei reagiu à leitura como quem recebe notícia de morte na família.

E ele possui vinte e seis anos nesse momento, buscando ao Senhor havia dez.1 Ou seja, não é a maturidade de quem envelheceu na fé. É a resposta de um homem novo que levou a sério aquilo que acabara de ouvir — e que entendeu, na hora, que a distância entre o que estava escrito e o que a nação vivia era grande demais para ser resolvida com um ajuste.

Logo em seguida ele mandou uma comissão consultar o Senhor. Existiam outros profetas ministrando naquela época, entre eles Jeremias e Sofonias, este último parente do próprio rei — mas nenhum dos dois foi consultado, e é possível que estivessem fora de Jerusalém.1 Quem os recebeu foi a profetisa Hulda, casada com Salum, o encarregado do guarda-roupa real.

A resposta dela veio em duas partes, e a ordem das duas diz muito. A primeira foi dirigida “ao homem que vos enviou” (2 Reis 22:15-17); só a segunda foi dirigida “ao rei de Judá” (2 Reis 22:18-20).

Antes de tratar Josias como rei, a palavra o tratou como um homem qualquer. Diante da lei de Deus ele era um homem comum, como o restante do povo.1 O trono não lhe deu uma versão mais branda do juízo: deu a ele a mesma palavra que o povo ouviu, e só depois tratou das suas questões pessoais.

E o que ela disse ao rei foi isto:

Porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante o Senhor, quando ouviste o que falei contra este lugar, e contra os seus moradores, que seria para assolação e para maldição, e que rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o Senhor. 2 Reis 22:19

O juízo sobre a nação estava mantido. Sobre o rei, não. E a razão declarada não foi a reforma que ele ainda ia fazer — foi o que aconteceu dentro dele quando ouviu o texto.

Voltar ao topo

A Reforma Veio Depois da Leitura

Só agora, com o livro lido e a resposta de Hulda na mão, começa a parte que todo mundo conhece. E a sequência importa: primeiro a leitura pública, depois a aliança, e só então a demolição.

Ele convocou os anciãos, subiu à casa do Senhor com todo o povo, e o texto foi lido em voz alta diante de todos — sacerdotes, profetas e gente do povo, do menor ao maior (2 Reis 23:1-2). Depois firmou a aliança, e o povo firmou junto. A demolição veio como consequência do que tinha sido lido em voz alta, e não como uma iniciativa de governo.

O que ele mandou fazer, conforme 2 Reis 23:

  • tirou do templo os objetos feitos para Baal e para o exército dos céus, e os queimou fora de Jerusalém (23:4);
  • destituiu os sacerdotes que os reis de Judá tinham posto para queimar incenso nos altos (23:5);
  • queimou o poste sagrado junto ao ribeiro de Cedrom, desfez em pó e lançou o pó sobre sepulturas (23:6);
  • derrubou as casas dos prostitutos cultuais que ficavam na casa do Senhor (23:7);
  • profanou os altos desde Geba até Berseba (23:8);
  • profanou Tofete, no vale dos filhos de Hinom, para que ninguém mais fizesse passar filho ou filha pelo fogo a Moloque (23:10);
  • tirou os cavalos dedicados ao sol e queimou os carros do sol (23:11);
  • derrubou os altares do terraço de Acaz e os que Manassés fizera nos dois átrios (23:12);
  • profanou os altos que Salomão edificara a Astarote, a Quemos e a Milcom (23:13);
  • quebrou as estátuas, cortou os postes sagrados e encheu o lugar com ossos de homens (23:14).

E tem um detalhe que só se enxerga de longe: ao destruir o altar de Betel, Josias cumpriu uma profecia dita trezentos anos antes, quando um homem de Deus clamou contra aquele altar e anunciou, pelo nome, o rei que o derrubaria. Trezentos anos!

Um filho nascerá na família de Davi e se chamará Josias. Sobre você ele sacrificará os sacerdotes dos altares idólatras que agora queimam incenso aqui. 1 Reis 13:2, NVI

Voltar ao topo

A Páscoa: Para Onde o Texto Apontava

O ato que fecha a reforma não é uma demolição. É uma festa.

Josias mandou celebrar a Páscoa, e o texto diz que não se celebrou tal Páscoa desde os dias dos juízes que julgaram a Israel (2 Reis 23:22). A comparação com o bisavô ajuda a medir. Ezequias também tinha promovido uma grande Páscoa, mas foi no segundo mês do ano; a de Josias aconteceu no primeiro, no tempo devido. E foi maior: todo o Judá e Israel se acharam ali (2 Crônicas 35:18), e o povo ofereceu quase o dobro de sacrifícios — pelo menos 37.600 animais, além de 3.800 bois.2

Agora, por que a Páscoa, e não outra festa qualquer? Porque a Páscoa é a festa que relembra a noite em que o sangue do cordeiro na porta separou quem vivia de quem morria, no Egito. Ao restaurá-la, Josias não estava recuperando um costume antigo. Estava devolvendo à nação a memória de que ela existia por resgate, e não por mérito.

E é aqui que o fio da história chega ao fim para onde vinha apontando desde o começo. O contato com a Escritura levou o rei ao arrependimento, o arrependimento levou à aliança, a aliança levou à Páscoa — e a Páscoa aponta para fora dela mesma:

Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. 1 Coríntios 5:7

O cordeiro daquela noite era figura. Josias restaurou a figura sem poder ver o cumprimento; nós lemos a mesma Escritura já sabendo o nome do Cordeiro. Ou seja: o mesmo movimento que aconteceu com ele acontece conosco, e termina no mesmo lugar — o texto lido com seriedade não nos deixa onde nos encontrou, e não nos deixa em nós mesmos.

O reinado terminou anos depois, quando Josias morreu em batalha contra o faraó Neco (2 Reis 23:29). O juízo anunciado sobre Judá veio, como Hulda tinha dito, e o reino do Sul acabou levado cativo para a Babilônia. Mas o veredito do texto sobre o homem permanece:

E antes dele não houve rei semelhante, que se convertesse ao Senhor com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças, conforme toda a lei de Moisés; e depois dele nunca se levantou outro tal. 2 Reis 23:25

Vale um cuidado com esse versículo, porque ele costuma ser citado como se fosse exclusivo. Não é: o mesmo livro diz de Ezequias que “depois dele não houve quem lhe fosse semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele” (2 Reis 18:5). Os dois elogios existem lado a lado, e cada um mede uma coisa — o de Ezequias mede a confiança no Senhor; o de Josias mede a conversão de todo o coração conforme toda a lei de Moisés. Ou seja, o que distingue Josias no veredito final é justamente a régua do texto escrito.

Voltar ao topo

Como Nós Perdemos a Palavra de Deus no Dia a Dia

O livro não sumiu do templo de um dia para o outro. Ele foi ficando para trás, até que uma geração inteira passou a servir a Deus sem saber o que Ele havia dito. E é neste ponto que a história para de ser sobre Judá.

Existem algumas perguntas que medem isso melhor do que qualquer diagnóstico geral, e elas são desconfortáveis na medida certa.

Quantas coisas fazemos que atrapalham a leitura? Não são as coisas ruins, necessariamente. É a soma das boas — o dia cheio, o cansaço, a lista que nunca termina.

Nossa leitura tem sido seletiva? Gostamos da mensagem do dia desde que ela seja a nosso favor. Quem se lembra das caixinhas de versículos com promessas? Alguém compraria, ou daria de presente, uma caixinha de exortações? E uma caixinha com versículos de juízo da parte de Deus?

A Bíblia está sendo lida ou exibida? Existe um tipo de idolatria que se instala justamente na ostentação da Palavra, no lugar do contato, do entendimento e da aplicação dela. Todos conhecemos aquele suporte de deixar a Bíblia aberta na sala, sempre no Salmo 23 ou no 91, com as páginas amareladas pela falta de uso.

Josias não teve como alegar ignorância depois que ouviu. Nós também não temos — e a diferença é que, no nosso caso, o livro não está perdido em obra nenhuma. Ele está ali, ao alcance da mão.

Voltar ao topo

Perguntas Frequentes sobre o Rei Josias

Quem foi o rei Josias na Bíblia?

Josias foi o décimo sexto rei de Judá, por volta de 640 a 609 a.C., filho de Amom e bisneto de Ezequias. Subiu ao trono aos oito anos e reinou trinta e um anos em Jerusalém.

Ficou conhecido pela maior reforma religiosa do reino do Sul, iniciada depois que o Livro da Lei foi encontrado no templo, e é dele o veredito de que antes e depois não houve rei semelhante (2 Reis 23:25).

Com que idade Josias começou a reinar?

Josias assumiu o trono com oito anos de idade, depois que o pai, Amom, foi morto numa conspiração (2 Reis 22:1).

Aos dezesseis começou a buscar o Deus de Davi, aos vinte iniciou a purificação de Judá (2 Crônicas 34:3) e aos vinte e seis, no décimo oitavo ano do reinado, o Livro da Lei foi encontrado no templo.

Qual livro foi encontrado no templo?

O texto o chama de “livro da lei” e não identifica a porção. A leitura mais aceita é que fosse Deuteronômio, porque o conteúdo que provoca a reação do rei — condenação, cobrança e advertência sobre a aliança — corresponde à estrutura daquele livro.1

Qual foi a reforma religiosa do rei Josias?

A reforma teve três movimentos, nesta ordem: a leitura pública do livro diante do povo, a renovação da aliança com o Senhor e a destruição sistemática dos altares, postes e cultos idólatras em todo o reino (2 Reis 23:1-14).

Ela foi coroada pela celebração da Páscoa mais numerosa desde os dias dos juízes (2 Reis 23:21-23).

Voltar ao topo

Conclusão

A história de Josias costuma ser contada como a história de um rei que limpou um reino. Ela é isso, mas o mais importante acontece antes: um livro esquecido volta a ser lido, e um homem o leva a sério a ponto de rasgar a própria roupa.

Tudo o que veio depois — a aliança, os altares derrubados, a Páscoa — nasceu ali. E a Páscoa que ele restaurou não terminava nela mesma: apontava para o Cordeiro que ainda seria sacrificado.

E nós? Que lugar a Escritura ocupa hoje, na nossa casa e na nossa igreja? Ela está sendo lida com a mesma seriedade, ou já viramos a geração que aprendeu a viver sem sentir falta dela?

Fique na paz!

Voltar ao topo

Fontes

  1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. II — Histórico. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 575.
  2. WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, vol. II, p. 577.

Voltar ao topo

Deixe um comentário