Tanque de Betesda: os cinco alpendres e a cura de João 5

O tanque de Betesda é o cenário de uma cura que Jesus fez sem que ninguém tivesse pedido. Um homem doente havia trinta e oito anos, deitado entre uma multidão de enfermos, e uma pergunta que parece dispensável: “Queres ficar são?” (Jo 5:6 ACF).

João 5:1-15 é o terceiro sinal registrado neste Evangelho e o primeiro que acontece em público, num sábado, diante da autoridade religiosa de Jerusalém. É dali que começa a oposição declarada contra Jesus, e é dali que sai o discurso mais direto sobre a sua igualdade com o Pai.

Este estudo percorre o episódio inteiro: onde ficava o tanque, o que eram os cinco alpendres, o que significa o nome Betesda, por que algumas Bíblias trazem o versículo 4 entre colchetes, o que era o leito que o homem carregou e por que carregá-lo virou caso de polícia religiosa.

1. Onde ficava o tanque de Betesda

João situa o lugar com uma precisão que ele raramente usa: “Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres” (Jo 5:2 ACF).

Repare: são três informações numa frase só. A cidade, a referência de localização pela porta da muralha e o nome do lugar, dado na língua local. Quem escreveu conhecia Jerusalém antes da destruição de 70 d.C.

O tanque ficava perto do extremo nordeste da cidade antiga, junto à porta das Ovelhas.1 Hoje, a área corresponde ao terreno da igreja de Santa Ana, em Jerusalém, onde uma escavação profunda expôs a estrutura do reservatório.1

Por que a localização importa para o texto

A porta das Ovelhas era por onde entravam os animais destinados ao sacrifício no templo. Wiersbe sugere que João pode ter visto sentido espiritual nesse detalhe, já que foi o mesmo autor que registrou a apresentação de Jesus como o Cordeiro de Deus (Jo 1:29).1

A observação é uma leitura possível, não uma afirmação do texto. João não explica o motivo de citar a porta. Mas o dado geográfico é sólido, e explica por que o episódio acontece a caminho do templo, e não num vilarejo distante.

2. Os cinco alpendres do tanque de Betesda

Reconstrução dos cinco alpendres e colunatas do Tanque de Betesda
Estrutura dos cinco alpendres e colunatas que cercavam os reservatórios de Betesda.

Alpendre, na Almeida, traduz uma estrutura coberta e sustentada por colunas — o que hoje se chamaria de pórtico ou galeria. Eram cinco, e serviam de abrigo para quem passava o dia ali.

Há registro histórico e achado arqueológico indicando que dois açudes vizinhos abasteciam aquele ponto da cidade.1 Isso ajuda a entender a planta do lugar: quatro alpendres cercando o conjunto e um quinto separando os dois tanques.

As traduções descrevem essas estruturas de maneiras diferentes, e vale ver as sete lado a lado, porque o vocabulário muda a imagem que o leitor forma.

João 5:2 nas sete versões

Versão Como traduz a estrutura Língua do nome
ACF cinco alpendres hebreu
ARC cinco alpendres hebreu
BKJ cinco alpendres língua hebraica
ARA cinco pavilhões hebraico
NAA cinco pórticos hebraico
NVI cinco entradas em volta aramaico
NVT cinco pátios cobertos

Duas coisas saltam da tabela. A primeira é que o número cinco não varia em nenhuma delas: é dado do texto, não escolha de tradutor. A segunda é que a NVI diz aramaico onde as Almeidas dizem hebreu, e a diferença não é erro de ninguém. Ou seja, o termo grego traduzido por “em hebreu” designa a língua falada pelos judeus da Palestina no primeiro século — que era o aramaico.

3. O que significa Betesda

Aqui é preciso separar o que se sabe do que se propõe. O nome aparece uma única vez no Novo Testamento, exatamente em João 5:2, e os manuscritos não concordam sobre a sua forma: circulam as grafias Betesda, Betzata e Betsaida. A derivação é dada como incerta pelos léxicos.

Wiersbe registra que o termo admite várias grafias e várias interpretações. Entre as propostas, ele cita “casa de misericórdia” e “casa de graça”, de um lado, e “lugar de dois escoamentos”, de outro.1

As duas famílias de leitura

Proposta Sentido O que a sustenta
casa de misericórdia / casa de graça teológico leitura do nome a partir de raízes semíticas de hesed e hasda
lugar de dois escoamentos topográfico os dois reservatórios adjacentes atestados na região

Porém nenhuma das duas é afirmada pelo texto bíblico, e o episódio não depende de nenhuma delas. Vale dizer isso com clareza, porque a pregação popular costuma construir o sermão inteiro sobre “casa de misericórdia” como se fosse dado revelado. Ou seja: é uma proposta etimológica razoável, e é só isso.

A misericórdia que o capítulo demonstra não vem do nome do lugar. Vem de quem chegou nele.

4. A porta das ovelhas: por que a sua Bíblia pode dizer outra coisa

Um leitor que queira localizar a porta das Ovelhas no Antigo Testamento vai a Neemias, onde ela é citada na reconstrução do muro (Ne 3:1; 12:39). E, dependendo da tradução que tiver na mão, não vai encontrar o nome.

Versão Neemias 3:1
ACF porta do gado
ARC Porta do Gado
ARA Porta das Ovelhas
BKJ portão das ovelhas
NAA Portão das Ovelhas
NVI porta das Ovelhas
NVT porta das Ovelhas

Afinal, é a mesma porta. As Almeidas mais antigas optaram por um termo genérico para o rebanho, e as demais especificaram. Quem estuda pela ACF precisa saber disso para não concluir que João citou uma porta inexistente no Antigo Testamento.

O detalhe também confirma o cenário: uma porta por onde passava rebanho de sacrifício, com um reservatório de água logo ao lado. Água e rebanho ficam perto pelo motivo mais prosaico possível.

5. João 5:1-15: o texto do episódio

O relato é curto e vale lê-lo inteiro antes de destrinchar as partes. As citações abaixo seguem a ACF.

Depois disto havia uma festa entre os judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres. Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água (Jo 5:1-3 ACF).

João não informa qual festa era. Wiersbe considera o dado dispensável e lê o propósito da subida em outra chave: Jesus não foi a Jerusalém para cumprir calendário religioso, mas para curar um homem e transformar o milagre em ponto de partida de uma mensagem ao povo.1

A multidão que ninguém descreve

A lista de João é seca: enfermos, cegos, mancos e ressicados. O último termo, na ACF, traduz a condição de membros atrofiados; outras versões preferem “paralíticos”.

Vale medir o tamanho do estrago que aquela cena representa.1 E vale lembrar que a cura dessas mesmas enfermidades era anunciada como marca do ministério messiânico: “Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará” (Is 35:6 ACF). A liderança religiosa que conhecia esse texto tinha diante dos olhos o seu cumprimento.1

6. O anjo e o versículo 4: por que algumas Bíblias o trazem entre colchetes

Esta é a pergunta que mais aparece sobre o capítulo, e ela tem resposta objetiva. O versículo 4 explica o motivo da espera: um anjo descia, agitava a água, e o primeiro a entrar sarava (Jo 5:4 ACF).

Parte dos manuscritos antigos não traz o final do versículo 3 nem o versículo 4 inteiro.1 Por isso as traduções tratam o trecho de maneiras diferentes.

Como cada versão apresenta o trecho

Versão Tratamento do trecho
ACF versículo 4 no corpo do texto, sem marcação
ARA versículo 4 no corpo do texto
BKJ versículo 4 no corpo do texto
NVI versículo 4 no corpo do texto
NVT versículo 4 no corpo do texto
ARC trecho impresso entre colchetes, sinalizando a questão textual
NAA trecho impresso entre colchetes, sinalizando a questão textual

O argumento a favor de manter o trecho

Wiersbe reconhece a questão manuscrita e argumenta pela permanência, por um motivo interno ao relato: sem essa explicação, o episódio deixa de fazer sentido, e a resposta do homem no versículo 7 fica sem referente.1

O raciocínio dele é o do leitor comum, e é bom. Por que um doente de trinta e oito anos passaria a vida naquele lugar se nada de especial acontecesse ali? Depois de tanto tempo sem nenhum resultado, o esperado era desistir e procurar outro lugar.1 Alguma coisa fora do comum mantinha aquela gente reunida à beira da água.1

O que isso muda na leitura

Pouco — e vale dizer isso com todas as letras. A cura do capítulo não acontece pela água. O homem nunca entra no tanque. Ele é curado pela palavra de Jesus, a metros de distância do reservatório que ele passou décadas tentando alcançar.

Se o versículo 4 pertence ao texto, ele explica a expectativa daquela multidão. Se não pertence, a expectativa continua explicada pelo versículo 7, na boca do próprio doente. Em nenhuma das hipóteses o milagre depende do anjo.

7. Trinta e oito anos: o número que João faz questão de informar

“E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo” (Jo 5:5 ACF). Repare que João podia ter escrito “havia muitos anos”. Ele deu o número.

Wiersbe levanta uma possibilidade que a própria Escritura autoriza: trinta e oito é exatamente o tempo que Israel levou de Cades-Barnéia até o ribeiro de Zerede, enquanto a geração da incredulidade se consumia no deserto (Dt 2:14).1 Nessa leitura, o homem deitado seria um retrato da nação — impotente, parada, à espera de que algo acontecesse.1

As durações que o texto informa

Quando os Evangelhos e Atos registram há quanto tempo dura o mal, o número costuma vir junto com a impossibilidade humana de resolvê-lo:

Episódio Referência Duração informada
o homem de Betesda Jo 5:5 trinta e oito anos
a mulher encurvada Lc 13:16 dezoito anos
Enéias, em Lida At 9:33 oito anos

Os dois primeiros têm mais em comum do que a duração: as duas curas acontecem em dia de sábado e as duas geram conflito com a autoridade religiosa. A mulher encurvada de Lucas 13 é o paralelo mais próximo deste episódio em todo o Evangelho.

8. “Queres ficar são?”: a pergunta e a resposta que desconversa

Jesus vê o homem deitado, sabe há quanto tempo aquilo dura, e pergunta: “Queres ficar são?” (Jo 5:6 ACF). A pergunta soa desnecessária. É por isso que ela está ali.

A resposta óbvia seria um sim. Não é o que vem. O homem responde com a explicação de por que ainda não conseguiu: não tem quem o ponha no tanque, e enquanto ele se arrasta, outro desce primeiro (Jo 5:7 ACF).

Wiersbe lê a cena com dureza: tanto tempo naquela situação deixou a vontade do homem tão paralisada quanto o corpo.2 Ele não pede cura. Ele apresenta o histórico do fracasso.

A ligação com o versículo 40

O mesmo capítulo termina com Jesus dizendo à liderança religiosa que eles não querem vir a ele para ter vida (Jo 5:40 ACF). Wiersbe põe os dois versículos lado a lado e vê no doente uma ilustração do estado espiritual de Israel.2

A cura, quando vem, é por ordem: levantar, pegar o leito e andar (Jo 5:8 ACF). Jesus manda o homem fazer justamente aquilo que ele não podia fazer, e dá, na mesma ordem, a capacidade de obedecer.2

Isso é o oposto de uma cura condicionada à fé do doente. O texto não registra fé alguma da parte dele. Registra iniciativa da parte de Jesus, num homem que não pediu nada e que, pouco depois, nem saberia informar quem o havia curado (Jo 5:13 ACF).

9. “Toma o teu leito”: o que era aquele leito

A palavra grega usada aqui é krabattos, e não é o termo comum para cama. É um empréstimo popular, do latim grabatus, que designa o catre, a esteira, o colchonete de quem não tem mais do que isso.

Ela ocorre doze vezes no Novo Testamento, e a distribuição é reveladora:

Onde Referências Contexto
Marcos Mc 2:4, 9, 11, 12; 6:55 o paralítico descido pelo telhado e os enfermos trazidos a Jesus
João Jo 5:8, 9, 10, 11, 12 o homem de Betesda
Atos At 5:15; 9:33 os doentes postos nas ruas e Enéias, em Lida

Ou seja: nas doze ocorrências a palavra está ligada a alguém que não anda por conta própria. É o objeto da dependência.

A ordem que se repete

Em Marcos, ao paralítico do telhado, Jesus diz: “Levanta-te, e toma o teu leito, e anda” (Mc 2:9 ACF). Em João, ao homem de Betesda: “Levanta-te, toma o teu leito, e anda” (Jo 5:8 ACF). É a mesma ordem, com a mesma palavra para o leito.

A diferença é o que cada uma provoca. Em Marcos, a discussão que se segue é sobre autoridade para perdoar pecados. Em João, é sobre o sábado. O mesmo ato encontra acusações diferentes, dependendo do que o acusador estava disposto a defender.

Por que carregar o leito era o problema

Os escribas mantinham uma lista de trinta e nove trabalhos proibidos no shabbath, e transportar carga era um deles.2 O homem curado não estava trabalhando: estava levando embora o objeto que o representava havia trinta e oito anos. Para a regra, era carga.

10. Era sábado: a cura que virou acusação

João guarda a informação para o fim do versículo 9: “E aquele dia era sábado” (Jo 5:9 ACF). Porém é essa frase que reposiciona tudo o que veio antes.

O milagre não teria gerado conflito em outro dia da semana.2 Jesus podia ter ido ao tanque na véspera ou esperado o dia seguinte, e não fez nem uma coisa nem outra.2 A escolha do dia é deliberada.

A acusação muda de figura

Os líderes abordam o homem curado, não Jesus, e a primeira frase que dirigem a alguém que acabou de andar depois de trinta e oito anos é uma acusação de ilegalidade (Jo 5:10 ACF). Infelizmente, nenhuma pergunta sobre a cura, e nenhuma alegria.

Quando o alvo passa a ser Jesus, a resposta dele é curta: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5:17 ACF). O argumento é o seguinte: aquele repouso do sétimo dia já havia sido quebrado quando o pecado entrou, e de Gênesis 3 em diante o Pai nunca interrompeu a obra de resgatar quem se perdeu.2

A liderança entendeu na hora o que estava sendo dito. Jesus usou “meu Pai”, e não a fórmula coletiva que os judeus empregavam; a acusação então deixa de ser violação do sábado e passa a ser blasfêmia.3 O próprio João explica: procuravam matá-lo porque, além do sábado, ele se fazia igual a Deus (Jo 5:18 ACF).

O que estava realmente em jogo

O sábado era dádiva, e as tradições legalistas o haviam convertido numa prisão de regulamentos.2 Jesus desafiou isso de propósito, e o fez mais de uma vez: curou outro homem no sábado adiante, no capítulo 9 (Jo 9:14 ACF), e defendeu os discípulos acusados de colher espigas (Mt 12:1-8).2

É aqui que começa a perseguição oficial, que termina na cruz.3

11. “Não peques mais”: o encontro no templo

O episódio tem um segundo tempo. Jesus encontra o homem no templo e diz: “Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior” (Jo 5:14 ACF).

A frase dá a entender que havia relação entre o sofrimento daquele homem e algum pecado.2 Mas é preciso ler o que Jesus não disse: ao contrário do paralítico de Marcos 2, aqui não há declaração de perdão.2

O contraste com João 9

O leitor que tirar daqui a regra “doença é castigo de pecado” precisa explicar o capítulo 9 do mesmo Evangelho. Diante do cego de nascença, os discípulos fazem exatamente essa pergunta, e Jesus a recusa: “Nem ele pecou nem seus pais” (Jo 9:3 ACF).

Basta pôr os dois lado a lado: mesmo livro, mesmo autor, respostas opostas. A conclusão honesta é que a Escritura não autoriza generalização em nenhuma das duas direções.

O que o homem fez depois

Ele foi contar à liderança quem o havia curado (Jo 5:15 ACF). O texto não diz por quê. Também não guarda nenhum sinal de fé da parte dele, nem, por outro lado, de hostilidade contra quem o curou.2 Wiersbe registra o estranhamento com franqueza: alguém pode sair curado do encontro com Cristo sem que isso signifique ter sido salvo por ele.2

Esse é o detalhe mais desconfortável do episódio, e o pregador que o omite entrega uma versão mais bonita e menos verdadeira do texto.

12. O que João 5 pede de quem o lê hoje

O caminho aqui é o mesmo do texto: primeiro o que aconteceu ali, depois o que permanece.

A iniciativa é de quem cura, não de quem precisa

Naquele alpendre havia uma multidão. Jesus escolheu um, e escolheu o que não o procurou, não sabia quem ele era e respondeu à oferta de cura com uma reclamação sobre logística.

O que permanece disso não é uma lição sobre esforço. É uma afirmação sobre o caráter de Deus: a graça de Betesda não foi resposta a mérito, a fé demonstrada ou a pedido bem formulado. Foi decisão de quem chegou. Quem lê o próprio caso pela régua do merecimento está lendo pela régua errada.

Um diagnóstico exato do próprio impasse ainda não é uma sentença

O homem estava certo sobre os fatos. Ele realmente não tinha quem o ajudasse, e realmente sempre chegava depois. O diagnóstico dele sobre a própria situação era exato — e completamente irrelevante para o que aconteceu em seguida.

Há uma distância entre descrever bem o próprio impasse e concluir que ele é definitivo. A ordem de Jesus atravessou trinta e oito anos de evidência acumulada em sentido contrário.

Religião pode ficar cega para o bem que acontece na frente dela

Um homem anda pela primeira vez em quase quatro décadas, e a autoridade religiosa consegue enxergar apenas a esteira debaixo do braço dele. Não era hipocrisia deliberada; era um sistema de regras que havia substituído o objeto do cuidado.

O aviso é para quem hoje ocupa a função que eles ocupavam. E você, diante de uma vida transformada de um jeito que não segue o nosso procedimento, qual é a primeira coisa que pergunta? Vale responder com honestidade, porque é a primeira reação que denuncia o que se estava protegendo.

O texto não fecha a história do homem, e isso é proposital

João não informa se ele creu. Registra que foi ao templo, encontrou Jesus, ouviu um aviso e depois foi falar com os líderes. Fim.

Se o Evangelho de João foi escrito para que os leitores creiam e tenham vida (Jo 20:31), então um personagem que recebe o milagre e sai de cena sem decisão registrada é um espelho posto na frente do leitor. Afinal, cura de corpo e vida eterna não são a mesma coisa, e o capítulo diz onde está a segunda: quem ouve a palavra de Jesus e crê passou da morte para a vida (Jo 5:24 ACF).

13. Esboço de pregação sobre o tanque de Betesda

Texto: João 5:1-15 · Tema: a graça que chega antes do pedido

Introdução

Situar o lugar: Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, cinco alpendres cheios de gente esperando um movimento na água. Perguntar à congregação o que é esperar trinta e oito anos por alguma coisa.

1. O lugar da espera (vv. 1-4)

Uma multidão organizada em torno de uma esperança de que só um seria atendido de cada vez. A religiosidade sem Cristo produz exatamente esse arranjo: muita gente, pouca chance, e o mais fraco sempre por último.

2. A pergunta que expõe (vv. 5-7)

“Queres ficar são?” O homem responde com o histórico do fracasso. Mostrar como o diagnóstico correto da própria impotência não produz, sozinho, nenhuma mudança.

3. A palavra que levanta (vv. 8-9a)

Jesus ordena o impossível e concede, na ordem, a capacidade de cumpri-la. Ligar com Jo 5:24: a mesma palavra que levantou o corpo é a que dá vida ao espírito.

4. O dia que revela corações (vv. 9b-13)

Era sábado. A reação da liderança expõe o que ela realmente protegia. Aplicação para a igreja: o que a nossa primeira pergunta diante do inesperado revela sobre nós.

5. O reencontro no templo (vv. 14-15)

O aviso de Jesus e o silêncio do texto sobre a fé do homem. Fechar com o apelo: o corpo dele saiu de pé daquele alpendre, e o capítulo ainda pergunta pela alma.

Sugestão de conclusão

Betesda tinha cinco alpendres e uma água que atendia um por vez. O Evangelho não tem fila. Quem ouve e crê passa da morte para a vida, sem depender de chegar primeiro.

14. Perguntas Frequentes sobre o tanque de Betesda

O que era o tanque de Betesda?

Era um reservatório de água em Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, cercado por cinco estruturas cobertas que a Almeida chama de alpendres. Ali se reunia uma multidão de enfermos, cegos, mancos e paralíticos, que esperava um movimento na água. É o cenário do terceiro sinal registrado no Evangelho de João, a cura de um homem doente havia trinta e oito anos, em João 5:1-15.

O que significa Betesda?

A derivação do nome é incerta, e os manuscritos trazem formas diferentes: Betesda, Betzata e Betsaida. Entre as propostas mais citadas estão casa de misericórdia ou casa de graça, de leitura teológica, e lugar de dois escoamentos, de leitura topográfica, ligada aos dois reservatórios vizinhos atestados naquela região. Nenhuma delas é afirmada pelo texto bíblico.

O que eram os cinco alpendres do tanque de Betesda?

Estruturas cobertas e sustentadas por colunas, que abrigavam quem passava o dia à beira do tanque. Outras traduções as chamam de pórticos, pavilhões, pátios cobertos ou entradas. O número cinco não varia em nenhuma das versões, porque é dado do texto e não escolha de tradutor. A planta provável é a de quatro estruturas ao redor do conjunto e uma quinta separando os dois reservatórios.

Onde fica o tanque de Betesda hoje?

No extremo nordeste da cidade antiga de Jerusalém, na área que hoje corresponde ao terreno da igreja de Santa Ana, onde uma escavação profunda expôs a estrutura do reservatório. A referência de localização dada por João, a porta das Ovelhas, é a mesma porta citada na reconstrução do muro em Neemias 3:1 e 12:39.

Por que algumas Bíblias não trazem João 5:4?

Há uma divergência entre as cópias antigas do Evangelho: nem todas trazem o trecho sobre o anjo. Diante disso, ARC e NAA optaram por imprimi-lo entre colchetes, sinalizando a dúvida ao leitor, enquanto ACF, ARA, BKJ, NVI e NVT o mantêm sem marcação. Quem defende a permanência argumenta pela coerência da narrativa, já que a queixa do doente adiante pressupõe justamente essa expectativa. Seja como for, nada no milagre depende disso: o homem jamais chega a entrar na água.

Por que Jesus perguntou se o homem queria ser curado?

A pergunta parece dispensável e é justamente por isso que aparece. O homem não responde sim: responde com a explicação de por que nunca conseguiu chegar primeiro ao tanque. Depois de tanto tempo naquela condição, a vontade estava tão parada quanto o corpo. A pergunta expõe isso antes que a cura aconteça.

Quantos anos o homem de Betesda estava doente?

João 5:5 informa o número exato: trinta e oito. Curiosamente, Deuteronômio 2:14 usa a mesma cifra para o trecho da peregrinação entre Cades-Barnéia e o ribeiro de Zerede, período em que morreu a geração que se recusara a entrar na terra. Há comentaristas que leem aí um paralelo deliberado, com o doente funcionando como imagem de Israel — sem força para se mover e à espera de uma intervenção que não vinha.

Por que carregar o leito no sábado era proibido?

A tradição rabínica havia catalogado trinta e nove atividades vetadas no shabbath, e o transporte de peso figurava entre elas. Ainda que ninguém pudesse chamar aquilo de ofício — era apenas a esteira em que ele passara décadas —, o enquadramento formal se aplicava assim mesmo. Daí a cena: os primeiros a falar com o recém-curado escolheram apontar a infração, e não celebrar o que acabara de acontecer com ele.

O homem curado em Betesda se converteu?

O texto não diz. Ele foi ao templo, encontrou Jesus, ouviu o aviso para não pecar mais e em seguida informou aos líderes quem o havia curado. Não há registro de fé da parte dele, nem sinal de oposição a Jesus. O silêncio parece proposital: receber um milagre e receber a vida eterna não são a mesma coisa, e o próprio capítulo diz onde está a segunda, em João 5:24.

Qual a diferença entre a cura de Betesda e a do cego de nascença?

As duas acontecem em sábado, no mesmo Evangelho, e geram conflito com a liderança religiosa. A diferença está na relação entre doença e pecado. Em João 5:14, Jesus adverte o homem curado a não pecar mais, para que não lhe aconteça coisa pior. Em João 9:3, diante do cego, ele recusa expressamente a associação, dizendo que nem ele nem seus pais pecaram. Os dois casos juntos impedem a generalização em qualquer das duas direções.

Fontes

Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as demais versões identificadas quando citadas. As formas gregas, as glosas e as contagens de ocorrência referem-se ao texto etiquetado do STEPBible (TAGNT, CC BY 4.0). Veja também quem foi Nicodemos, outro diálogo particular registrado só por João, e a mulher encurvada, a outra cura de sábado que terminou em controvérsia.

  1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, volume I. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 391.
  2. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, volume I. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 392.
  3. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, volume I. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 393.

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