A Tentação de Jesus no Deserto

Já discorremos sobre a pré-existência de Jesus, as predições a seu respeito e o mistério da encarnação.

Também apresentamos o ambiente hostil do seu ministério, o seu nascimento de forma extremamente pobre e simples, a passagem dos 12 aos 30 anos de idade e o batismo como base do seu chamado.

Agora, Jesus é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto. E, nesse ambiente, completamente a sós, Ele é tentado pelo diabo.

Assim como a direção do Espírito Santo foi marcante em todos os outros momentos da sua vida, na tentação não foi diferente. Jesus continuava sob essa mesma orientação.

Isso nos mostra que a tentação não foi um acontecimento inesperado. Os Evangelhos afirmam claramente que Ele foi “conduzido pelo Espírito ao deserto” (Mt 4.1 ARC).

A expressão grega para tentação é πειραζω (peirazo), que significa testar ou fazer uma experiência para provar a qualidade de algo. Logo, Jesus foi direcionado “ao deserto” (Lc 4.1 ARC) para passar por uma profunda provação.

Cabe destacar que a tentação em si não foi gerada pelo Espírito Santo. Afinal, a Palavra diz que “Deus a ninguém tenta” (Tg 1.13 ARC).

Quem articulou tudo isso foi o diabo. Contudo, Jesus precisou ser direcionado àquele local específico para ser provado.

Existem diversas interpretações sadias sobre esse episódio, mas precisamos olhar para alguns fatos essenciais de como Jesus venceu os ataques de Satanás.

A forma como Cristo prevaleceu sobre o inimigo estabelece um princípio espiritual poderoso. É ele que nos garante a vitória sobre as tentações do nosso dia a dia.

Observações sobre a Tentação de Jesus

O texto do Evangelho de Lucas nos relata o seguinte:

“E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito Santo ao deserto. E quarenta dias foi tentado pelo diabo, e, naqueles dias, não comeu coisa alguma, e, terminados eles, teve fome”
Lc 4.1,2 ARC

A narrativa mostra que o Espírito Santo o leva ao deserto. Lá, longe de todos e cercado por feras (Mc 1.13), Ele é tentado ininterruptamente durante 40 dias por Satanás.

Historicamente e geograficamente, o deserto da Judeia era uma região árida, inóspita e de relevo acidentado. Na tradição bíblica, o deserto sempre foi o palco da provação e do encontro com Deus, como aconteceu com Israel por 40 anos.

Jesus, atuando como o Israel perfeito, entra no mesmo cenário para triunfar exatamente onde a humanidade falhou.

Primeiramente, existe um debate sobre como Satanás apareceu. Alguns intérpretes modernos sugerem que as tentações vieram como pensamentos na mente de Cristo. Outros acreditam que uma pessoa possuída propôs as tentações a Ele.

No entanto, a interpretação ortodoxa prevalece. Ela defende que Satanás personificou-se diante de Cristo, ou seja, o próprio diabo tentou o Filho de Deus face a face.

Em segundo lugar, a provação durou 40 dias. É bem provável que as três tentações narradas sejam apenas o ataque final do inimigo, o clímax após vários dias de investidas contínuas.

Em terceiro lugar, notamos uma diferença de ordem entre Mateus e Lucas.

Em Mateus, o diabo primeiro sugere transformar pedras em pães; depois O leva ao ponto mais alto do templo; e, por fim, conduz Jesus a um monte muito alto.

Já em Lucas, a ordem começa com as pedras e os pães; depois segue para o alto monte; e termina na parte mais alta do templo.

A explicação é simples: Mateus segue a ordem cronológica, enquanto Lucas usa uma ordem de intensidade crescente. Para Lucas, o Templo de Jerusalém é o grande foco teológico, o lugar onde a missão de Cristo chegaria ao ápice.

Tudo isso deixa claro o intenso conflito espiritual enfrentado por Jesus. As propostas satânicas foram direcionadas exclusivamente à pessoa do Filho de Deus.

O objetivo do diabo era claro: frustrar o caminho de Jesus até a cruz do Gólgota. Isso é muito diferente de uma tentação humana comum.

Enquanto a nossa tentação busca obstruir o propósito divino em nós, a tentação de Jesus tinha como alvo impedir a salvação de toda a humanidade. É impressionante a ousadia de uma criatura tentar Aquele que é o Criador!

Satanás sabia exatamente que lidava com o Filho de Deus. Por isso se esforçou tanto. Lembre-se dos demônios clamando em Marcos:

“Ah! Que temos contigo, Jesus nazareno? […] bem sei quem és: o Santo de Deus”
Mc 1.24 ARC

E também em Gadara:

“que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?”
Mt 8.29 ARC

Essas reações mostram que o reino das trevas conhecia a identidade de Cristo e até a sua própria condenação:

“vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?”
Mt 8.29 ARC

Mesmo ciente do juízo final, Satanás investiu com toda fúria para tentar arruinar a reconciliação do homem com Deus.

As Três Propostas Tentadoras

Baseando-nos em Lucas, vemos três propostas: a primeira ataca a identidade de Jesus; a segunda oferece as riquezas do mundo; e a terceira manipula a Palavra de Deus.

Na primeira, Satanás provoca:

“Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão”
Lc 4.3 ARC

Jesus acabara de ouvir o Pai dizer no batismo que Ele era o “Filho amado” (Lc 3.22 ARC). E o diabo tentou colocar em dúvida a Palavra de Deus, sugerindo que Ele interrompesse seu jejum e comunhão com o Pai.

Mas Jesus respondeu enfaticamente com as Escrituras (Dt 8.3):

“Escrito está que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus”
Lc 4.4 ARC

Trazendo isso para nossa realidade, quantas vezes somos instigados a usar nossas posições ou criar “atalhos”?

Acabamos sacrificando princípios ou nossa comunhão com Deus só para saciar o nosso “pão” imediato. Cristo ensina que a obediência é o verdadeiro sustento.

Na segunda investida, Satanás O leva a um alto monte e mostra “todos os reinos do mundo” num só instante (Lc 4.5 ARC).

Ele oferece poder e glória em troca de adoração (Lc 4.6 ARC). Ele alega que esses reinos lhe foram entregues, indicando que muitos governos humanos possuem uma influência diabólica permitida pela soberania de Deus.

Os judeus esperavam um Messias que trouxesse libertação política contra Roma. Porém, o Reino do Messias não é deste mundo. Ele precisaria passar pela cruz, e não pelo atalho oferecido.

Jesus então rebate usando Deuteronômio 6.13:

“porque está escrito: Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele servirás”
Lc 4.8 ARC

Muitas vezes, o inimigo oferece riquezas e glória em troca de pequenas concessões na nossa adoração. O fascínio pelo poder nos afasta do serviço exclusivo a Deus.

Por fim, o diabo leva Jesus ao pináculo do templo em Jerusalém. Dessa vez, usa o Salmo 91:

“Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo. porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem e que te sustenham nas mãos, para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra”
Lc 4.9-11 ARC

Isso tocava o centro da alma judaica. Um Messias caindo do templo e sendo salvo por anjos seria o sinal espetacular que os fariseus esperavam. Evitaria conflitos com a liderança religiosa.

Mas sem a oposição dos líderes, não haveria morte. Sem a morte, não haveria ressurreição, e sem ela, não haveria salvação para “todo aquele que nele crê” (Jo 3.16 ARC). Não existe Messias redentor sem a cruz.

Jesus, firmado na Palavra (Dt 6.16), responde:

“Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus”
Lc 4.12 ARC

“Testar” a Deus exigindo provas ou sinais espetaculares para validar a fé é um grande perigo. A verdadeira fé não pede shows, mas confia no caráter do Senhor.

Apesar da vitória, a persistência de Satanás o faria voltar depois:

“ausentou-se dele por algum tempo”
Lc 4.13 ARC

E Mateus nos conforta com o desfecho daquele deserto:

“eis que chegaram os anjos e o serviram”
Mt 4.11 ARC

Conclusão

Satanás é o tentador. Ele sempre usará estratégias para nos confundir e roubar a nossa identidade de filhos de Deus.

Ele também trará ofertas para que deixemos de adorar ao Senhor e passemos a adorar suas propostas. O inimigo apresenta “atalhos” sedutores para sermos aceitos nos círculos sociais e religiosos.

Essa foi a tentativa contra Cristo: fazê-lo recuar da sua missão diante da oposição.

Portanto, use a Palavra de Deus como sua defesa. Paulo orientou os efésios sobre isso:

“Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”
Ef 6.17 ARC

Faça uso das Escrituras. Ela é a nossa principal arma de combate contra as seduções propostas pelo inimigo.

E você?

Como tem enfrentado as tentações no seu próprio deserto?

Fique na Paz!

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Bibliografia Recomendada

Para um aprofundamento adicional no tema deste artigo, recomendo as seguintes obras, que também serviram de inspiração e base para a nossa construção teológica:

  • Bíblia de Estudo Pentecostal (Edição Almeida Revista e Corrigida). Rio de Janeiro: CPAD.
  • CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Hagnos.
  • HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Lucas. São Paulo: Cultura Cristã.
  • BRUCE, F. F. Merece Confiança o Novo Testamento? São Paulo: Vida Nova.

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