A Harmonia dos Evangelhos — Jesus Existiu?

Se Jesus Cristo realmente existiu, então podemos confiar que os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João são verdadeiros. Afinal, eles são os principais relatos históricos sobre a vida e a obra do nosso Salvador.

Ainda que outros livros do Novo Testamento tragam fatos sobre Jesus – como na conversão de Saulo ou a revelação a João na ilha de Patmos –, os Evangelhos continuam sendo as nossas fontes documentais primárias sobre Cristo.

Por isso, não faz sentido alguém dizer que Jesus existiu e, ao mesmo tempo, considerar os Evangelhos como uma invenção humana.

A própria história comprova a existência de Jesus através de fontes extra-bíblicas do primeiro e segundo séculos. Historiadores como Flávio Josefo (em suas Antiguidades Judaicas) e Tácito (nos Anais) confirmam a vida de Cristo e sua crucificação sob Pôncio Pilatos.

Dessa forma, reconhecer a figura histórica de Jesus exige que nós olhemos para os Evangelhos não como meras lendas, mas como registros biográficos e teológicos da antiguidade.

Tanto os chamados Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) — que compartilham uma estrutura e visão semelhantes — quanto o Quarto Evangelho (João) nos apresentam inúmeros aspectos sobre Jesus.

Essas narrativas vão desde o nascimento de João Batista, o homem que prepararia o caminho para Ele, até as últimas palavras de Jesus aos seus discípulos após a Sua ressurreição.

No intervalo de todos esses eventos, nós encontramos o anúncio e o nascimento de Jesus, além de uma pequena parte de sua infância. Também acompanhamos o seu batismo, a tentação no deserto, diversos ensinos, milagres, sua paixão, ressurreição e as aparições aos discípulos.

É muito interessante notar que cada Evangelho apresenta particularidades sobre a vida de Jesus. Por exemplo, a cura do cego Bartimeu e o encontro com Zaqueu são mencionados somente em Lucas.

Já a visita dos magos é mencionada apenas em Mateus; a parábola da semente é relatada somente em Marcos; e as últimas instruções de Jesus na última ceia aparecem exclusivamente no Evangelho de João.

Com isso, percebemos que existem fatos únicos em cada relato, fatos repetidos em dois ou três deles e alguns poucos eventos da vida de Jesus que aparecem simultaneamente nos quatro Evangelhos.

Não Há Contradições

Um fato é determinante quando estudamos a vida e a obra de Jesus Cristo: não existem contradições nos quatro Evangelhos.

Ainda que Mateus, Marcos, Lucas e João nos mostrem ângulos diferentes sobre os mesmos eventos, quando comparamos um relato com o outro, o que vemos é uma complementaridade fascinante. Não existem contradições insuperáveis.

É natural que surjam algumas dúvidas. Podemos nos perguntar, por exemplo, se foi um ou se foram dois os cegos curados em Jericó.

Ou ainda, se foi um ou dois os homens libertos da possessão demoníaca na região de Gadara, além de dúvidas sobre a sequência exata do nascimento e da genealogia de Jesus.

Mas, mesmo que alguns textos apresentem certa dificuldade, com uma boa hermenêutica cristã e estudo do contexto da época, não encontraremos aparentes contradições.

Por exemplo, na cura dos endemoninhados gadarenos, Mateus menciona dois homens (Mt 8.28), enquanto Marcos (Mc 5.2) e Lucas (Lc 8.27) focam em apenas um.

Pela lógica hermenêutica e histórica, onde há dois, existe pelo menos um. É provável que Marcos e Lucas tenham concentrado a narrativa no caso mais notório ou no porta-voz, sem negar que houvesse um segundo homem.

Omissão de detalhes não significa negação de fatos. Da mesma forma, as diferenças nas genealogias (Mt 1 e Lc 3) refletem propósitos teológicos bem distintos.

Enquanto Mateus demonstra o direito legal de Jesus ao trono de Davi através da linha real, Lucas traça a linhagem biológica até Adão, conectando Cristo a toda a humanidade.

Além disso, se um fato da vida de Jesus é relatado apenas em um dos Evangelhos, não devemos questioná-lo ou tratá-lo como um acréscimo.

Muito pelo contrário! Se o fato está apenas em Mateus, Marcos, Lucas ou João, é porque o autor teve acesso a informações específicas — seja por testemunho ocular direto ou pesquisa rigorosa, como no caso de Lucas — e propósitos teológicos que os outros evangelistas não tiveram.

Harmonia dos Evangelhos

A chamada harmonia dos Evangelhos é a tentativa de colocar em ordem cronológica e temática todos os fatos mencionados nos quatro relatos bíblicos.

Ao longo dos séculos, estudiosos como Taciano com o Diatessaron (no século II) e Agostinho de Hipona têm se dedicado a organizar os eventos da vida de Jesus contidos em Mateus, Marcos, Lucas e João.

Hoje, você pode encontrar diversos livros, dicionários e enciclopédias bíblicas que elaboram grandes gráficos cruzando um determinado evento com a sua referência nos Evangelhos.

O estudo dessa harmonia enriquece a leitura prática, oferecendo ao leitor uma visão tridimensional e completa do ministério de Cristo.

Esta harmonia apresenta eventos contidos de forma exclusiva em um dos quatro Evangelhos, como as chamadas parábolas da graça:

A parábola da ovelha perdida (Lc 15.1-7), a parábola da dracma perdida (Lc 15.8-10) e a parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32), que lemos somente em Lucas.

Por outro lado, alguns eventos são apontados apenas em Mateus e Lucas, como é o caso da genealogia de Jesus (Mt 1.1-17 e Lc 3.23-38).

Outros eventos, como a tentação de Jesus no deserto, são mencionados somente nos Evangelhos Sinóticos (Mt 3.13-16; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13).

Há uma concordância tão profunda entre os Sinóticos que a teologia acadêmica estuda isso através do chamado “Problema Sinótico”, investigando como esses três autores compartilharam fontes orais ou documentos comuns, preservando sempre a inspiração e suas ênfases autorais exclusivas.

Além disso, existem também os eventos relatados nos quatro Evangelhos. Mesmo que um narre com mais ou com menos versículos, Mateus, Marcos, Lucas e João relatam conjuntamente esses fatos da vida de Jesus.

Eventos nos Quatro Evangelhos

Como vimos, existem eventos mencionados em apenas um Evangelho, em dois, em três e eventos relatados nos quatro. E, mesmo que apontem um mesmo evento da vida de Jesus, muitas vezes a quantidade de versículos varia de um Evangelho para o outro.

Além disso, uma mesma narrativa contida nos quatro Evangelhos pode apresentar detalhes complementares muito ricos, como no julgamento de Jesus por Pilatos.

Embora os quatro apresentem esse fato histórico, o Evangelho de Mateus informa um detalhe crucial da psicologia do momento. Pilatos sabia que os líderes religiosos eram movidos pela inveja:

“Porque sabia que por inveja o haviam entregado”
Mt 27.18 ARC

Assim, podemos relacionar os eventos da vida de Jesus relatados simultaneamente nos quatro Evangelhos:

  1. O Batismo de Jesus;
  2. Jesus deixa a Judeia;
  3. Jesus deixa a Galileia;
  4. A Primeira Multiplicação de Pães;
  5. A Entrada Triunfal em Jerusalém;
  6. A Predição da Traição de Jesus;
  7. A Predição da Negação de Pedro;
  8. O Getsêmani;
  9. A Prisão de Jesus;
  10. Jesus perante o Sinédrio;
  11. A Negação de Pedro;
  12. Jesus perante Pilatos;
  13. A Crucificação;
  14. O Sepultamento de Jesus;
  15. A Ressurreição de Jesus.

Estes eventos estão contidos nos quatro Evangelhos, narrados com as particularidades teológicas observadas por Mateus e João, que foram discípulos e testemunhas oculares, e com as informações rigorosamente coletadas por Marcos e Lucas.

Neste sentido, destacando seu compromisso histórico e investigativo, Lucas escreve:

“1 Muitos já se decidiram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós,
2 conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da Palavra.
3 Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente…”
Lc 1.1-3 NVI

A exatidão buscada por Lucas ecoa exatamente o que se exige de um documento histórico e fidedigno.

Leitura Recomendada para Aprofundamento

Para enriquecer ainda mais o seu estudo sobre a harmonia e historicidade dos Evangelhos, recomenda-se:

  • F.F. Bruce, Merece Confiança o Novo Testamento? – Uma obra clássica que atesta a validade e preservação histórica dos textos bíblicos.
  • Santo Agostinho, A Consonância dos Evangelhos – Uma das primeiras obras teológicas a abordar de forma sistemática a harmonia entre os quatro evangelistas.
  • Craig Blomberg, A Confiabilidade Histórica dos Evangelhos – Um estudo acadêmico contemporâneo e profundo sobre as aparentes contradições e o contexto histórico do Novo Testamento.

E você?

Como a harmonia dos Evangelhos fortalece a sua fé na veracidade das Escrituras Sagradas?

Fique na Paz!

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

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