Quem foi Davi na Bíblia?

Quando observamos a história da nação de Israel no Antigo Testamento, a figura de Davi rapidamente se sobressai entre todos os outros nomes.

Afinal, Davi foi o segundo rei da nação, sucedendo a Saul e antecedendo seu filho Salomão (1Sm 16; 2Sm 5; 1Rs 2).

Foi durante o seu reinado que Israel conheceu uma das fases mais consolidadas de sua história. Nesse período, houve a unificação das tribos, a conquista definitiva de Jerusalém, a centralização do culto e a expansão das fronteiras.

Mas Davi não é apenas mais um rei dentre os reis de Israel. A Bíblia Sagrada o descreve de forma única como “um homem segundo o coração de Deus” (1Sm 13.14 ARC), uma expressão que não foi dada a nenhum outro personagem bíblico.

Ao olharmos atentamente para a vida de Davi, encontramos uma trajetória marcada por luzes e sombras.

Na vida dele, houve fidelidade extraordinária e queda profunda. Houve cânticos e lamentos, unção e fuga, assim como um reinado glorioso e luto familiar.

Conhecer a vida deste homem não apenas revela os feitos de um rei, mas demonstra, sobretudo, a misericórdia de um Deus que sustenta os seus servos, mesmo quando eles falham.

E vale lembrar que é dessa mesma linhagem de Davi que viria o Messias, o Senhor Jesus Cristo, chamado por toda a Bíblia de “Filho de Davi” (Mt 1.1 ARC).

ORIGEM E FAMÍLIA

Davi nasceu em Belém, uma pequena cidade da tribo de Judá que, mais tarde, foi mencionada como “Belém Efrata” (Mq 5.2 ARC).

Ele era o filho mais novo de Jessé, que, por sua vez, era neto de Boaz e Rute, conforme acompanhamos na genealogia do livro de Rute (Rt 4.18-22).

Essa origem humilde, vinda de uma cidade pequena e de uma família que cuidava de rebanhos, nos dá um dos primeiros indícios de como Deus age.

Ao escolher Davi, o Senhor deliberadamente escolheu alguém que, aos olhos humanos, não despontava como um candidato natural ao trono.

Alguns intérpretes do Antigo Testamento chegam a sugerir que Davi seria filho de Jessé fora do casamento.

Esse detalhe ajudaria a explicar a sua exclusão inicial quando Samuel chegou à sua casa para ungir o próximo rei dentre os filhos presentes.

De toda forma, o texto bíblico é muito claro sobre um fato: Davi não foi convidado, não foi apresentado e nem mesmo lembrado.

Ele estava no campo, apascentando ovelhas e ocupado com o que parecia ser a tarefa mais simples e desprezível dentre todos os afazeres da família. No entanto, foi essa condição inicial que pautaria todo o seu caráter monárquico mais à frente.

A UNÇÃO POR SAMUEL

Como sabemos, o profeta Samuel recebeu uma missão importante após Saul ser rejeitado por Deus em virtude de sua desobediência (1Sm 15). Ele deveria ir à casa de Jessé, em Belém, para ungir um novo rei dentre os seus filhos.

Samuel ungindo Davi

O texto bíblico nos narra que Jessé fez passar diante de Samuel sete de seus filhos. E, a cada um que passava, Samuel se enganava. Ele julgava, seja pela aparência ou pela estatura, que ali estaria o ungido do Senhor.

Deus, porém, instruiu o profeta com palavras que se tornaram um grande princípio para nós na Escritura:

“Não atentes para a sua aparência, nem para a altura da sua estatura, porque o tenho rejeitado, porque o Senhor não vê como vê o homem; pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração”
1Sm 16.7 ARC

Após Jessé apresentar os sete filhos e nenhum deles ter sido escolhido, o profeta questionou se haveria mais alguém na casa. Foi então que Davi, o filho esquecido, foi chamado diretamente do pasto.

O texto bíblico o descreve como sendo ruivo, formoso de aspecto e de boa presença (1Sm 16.12). Diante da sua chegada, Deus falou imediatamente a Samuel:

“Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo”
1Sm 16.12 ARC

O profeta então derramou o óleo sobre a cabeça do rapaz. Aquela unção selou o exato momento em que o Espírito de Deus passou a habitar na vida daquele jovem de Belém:

“e desde aquele dia em diante o Espírito do Senhor se apoderou de Davi”
1Sm 16.13 ARC

Isso significa que, antes mesmo de despontar nas trincheiras e nos exércitos de Israel, foi a presença viva do Espírito Santo que passou a definir a trajetória e o coração do rapaz.

O PASTOR DAS POUCAS OVELHAS

Mesmo após ter sido ungido por Samuel, Davi não foi imediatamente conduzido ao trono real. Ele voltou para o campo, para as suas ovelhas e para aquilo que parecia insignificante para os outros.

Davi pastoreando ovelhas

E foi exatamente naquele pastoreio simples que Deus continuou a trabalhar e moldar o seu caráter.

Seu irmão mais velho, Eliabe, ao se referir ao rebanho, chegou a dizer com certo desprezo:

“poucas ovelhas no deserto”
1Sm 17.28 ARC

Mas, ironicamente, foi resguardando essas mesmas ovelhas que Davi enfrentou um leão e um urso, expondo a própria vida para defender o seu aprisco (1Sm 17.34-36).

Perceba que o caçula não subestimou as funções humildes que sua família lhe havia delegado. Pelo contrário, ele se entregou ao labor pastoril e encontrou, naquela solidão, uma verdadeira forja divina para sua vida.

Todo o seu zelo por aquelas ovelhas rejeitadas já prefigurava o cuidado instintivo e compassivo que ele teria pelo povo que o Senhor lhe confiaria mais adiante.

O reinado de Davi foi gerado muito antes de ele chegar ao palácio e usar uma coroa. Ele se sustentou primeiro no anonimato, na coragem forjada no deserto e na fidelidade silenciosa do dia a dia.

DAVI E GOLIAS

Em meio a uma das grandes batalhas entre Israel e os filisteus, localizada no vale de Elá, surgiu um homem da cidade de Gate chamado Golias.

Ele era um gigante com quase três metros de altura, segundo descreve o texto bíblico. Armado dos pés à cabeça, Golias passou quarenta dias desafiando o exército de Israel, pedindo um homem que viesse pelejar contra ele (1Sm 17.1-11).

Davi e Golias

Diante de um gigante como aquele, todos os homens de Israel, incluindo o rei Saul, tremiam e fugiam amedrontados (1Sm 17.24). Foi exatamente nesse contexto que Davi, ainda jovem, foi enviado pelo pai para levar mantimentos aos seus irmãos no acampamento militar.

Ao ouvir as afrontas daquele filisteu contra o exército do Deus vivo, Davi se indignou profundamente. Quando ele se ofereceu para enfrentar o gigante, sua proposta foi recebida com escárnio — primeiro por seu próprio irmão e, logo depois, pelo rei Saul.

Mas Davi usou suas próprias batalhas invisíveis como a sua credencial:

“O Senhor me livrou das garras do leão e das garras do urso; ele me livrará das mãos deste filisteu”
1Sm 17.37 ARC

Aquele ofício que a família tanto menosprezava era, na verdade, a escola bélica do futuro rei.

Davi rejeitou a pesada armadura que Saul tentou lhe oferecer. Ele apanhou apenas o seu cajado de pastor, selecionou cinco pedras lisas do ribeiro e correu em direção ao desafio.

Seu grito cruzou aquele vale, demonstrando uma fé inabalável contra o seu grande oponente:

“Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo, porém eu venho contra ti em nome do Senhor dos Exércitos”
1Sm 17.45 ARC

Com a funda, ele arremessou a pedra mortal bem no alvo, e o gigante desmoronou. Usando a espada do próprio inimigo, o jovem lhe decepou a cabeça.

Essa façanha cravou seu nome entre as fileiras israelitas e abriu definitivamente as portas para a corte de Saul.

NA CORTE DE SAUL

O que muitos não lembram é que, antes mesmo do confronto com Golias, Davi já havia sido levado à corte de Saul para atuar como músico do rei.

O texto bíblico relata que, quando o Espírito do Senhor se retirou de Saul, um espírito mau começou a atormentá-lo. Somente a música que Davi tocava na harpa conseguia trazer algum alívio ao rei (1Sm 16.14-23).

Assim, Davi serviu a Saul de duas formas distintas: primeiro como músico e, mais tarde, após a vitória sobre Golias, como guerreiro e capitão do exército.

Jônatas, filho do rei, também se afeiçoou de forma leal e muito profunda ao jovem herói de guerra. A Escritura testifica esse vínculo:

“a alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma”
1Sm 18.1 ARC

Embora tivesse o título de herdeiro natural, Jônatas não hesitou em se despir da sua capa e cedê-la a Davi, juntamente com sua espada e seu arco (1Sm 18.4).

Esse belo gesto confirmava que o filho do rei também enxergava o manto do Senhor sobre a vida de Davi. Naquele mesmo ínterim, o rapaz casou-se com Mical, tornando-se assim genro do monarca.

Porém, as contínuas vitórias nas batalhas acabaram insuflando o coro das mulheres de Israel, que cantavam:

“Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares”
1Sm 18.7 ARC

Essa melodia plantou a semente mortal da inveja no coração de Saul. A partir daí, o capitão honrado passou a ser caçado como um animal pelos corredores do palácio.

O rei chegou ao ponto de atirar sua própria lança contra Davi por duas vezes (1Sm 18.10,11; 19.10), esgotando qualquer chance de paz entre eles. A fuga passou a ser o seu único recurso de salvação.

A FUGA E OS REFÚGIOS

Aquele período de exílio pelo deserto moldou profundamente o caráter de Davi. Ele teve que peregrinar, suportou o escárnio e chegou até a se fingir de louco em território filisteu para conseguir sobreviver à sanha persecutória de Saul.

Mesmo sem tesouros, palácios ou guardas reais, Davi encontrou nas pedras e nos esconderijos o seu abrigo sob as asas do Altíssimo.

Davi nas Cavernas de Adulão

Seus refúgios acabaram entrando para a história. Na caverna de Adulão, por exemplo, ele arregimentou cerca de quatrocentos homens que estavam endividados, amargurados e oprimidos. Ali, ele forjou um improvável exército de valentes guerreiros (1Sm 22.1,2).

Em En-Gedi, Davi poupou a vida de Saul, decidindo decepar apenas a ponta de seu manto (1Sm 24). Mais tarde, no deserto de Zife, ele o preservou novamente, optando por subtrair-lhe somente a lança e a bilha de água (1Sm 26).

Nessas duas emboscadas providenciais, Davi fez questão de deter a espada de seus soldados. Ele respeitava de tal forma a soberania divina que jamais aceitaria antecipar sua tomada do trono através do assassinato do rei que governava.

Essas agruras acabaram inspirando composições visceralmente dramáticas. O Salmo 57 e o Salmo 142 (cuja epígrafe sinaliza orações feitas na caverna) emanam as lágrimas e os gemidos de um homem esgotado de ter que correr para salvar a própria vida.

A poesia hebraica alcançou a sua força máxima não na tranquilidade dos luxuosos salões de mármore, mas sim no medo constante da morte e no abandono das noites frias nas grutas.

REI EM HEBROM

A perseguição promovida por Saul só terminou em uma batalha contra os filisteus no monte Gilboa. Lá, Saul e seus filhos, incluindo Jônatas, acabaram sendo mortos (1Sm 31).

Mas, ao receber a notícia, Davi não se alegrou, mesmo sabendo que aquele seria o caminho aberto para ele assumir o trono.

Pelo contrário, ele lamentou amargamente e compôs uma das mais belas elegias registradas em toda a Bíblia:

“Caíram os fortes no meio da peleja!”
2Sm 1.25 ARC

Esse lamento de Davi por Saul e por Jônatas demonstra a imensa profundidade do seu coração. Não havia nele qualquer alegria pela queda de um inimigo; havia luto pelo ungido do Senhor e pelo seu amado amigo.

Rei Davi

Logo após viver esse luto, Davi foi conduzido pelo Senhor e subiu a Hebrom. Ali, os homens de Judá o ungiram rei sobre a casa de Judá (2Sm 2.4).

Contudo, as outras tribos de Israel continuavam seguindo a casa de Saul, sendo governadas por Isbosete, o filho do rei morto.

Durante sete anos e seis meses, Davi reinou apenas sobre Judá em Hebrom (2Sm 2.11), enquanto a guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi continuava a se prolongar (2Sm 3.1).

Somente após a morte de Isbosete é que todas as tribos de Israel vieram a Davi, em Hebrom, para finalmente ungi-lo como rei sobre toda a nação (2Sm 5.1-3).

Assim, cumpriu-se a unção feita pelo profeta Samuel anos antes, naquele campo humilde em Belém, diante de seu pai Jessé e dos seus sete irmãos.

A CONQUISTA DE JERUSALÉM

Logo após ser ungido rei sobre todo o Israel, Davi tomou uma decisão muito estratégica e profundamente significativa: ele subiu contra a fortaleza de Sião, que ainda estava em poder dos jebuseus, e a conquistou (2Sm 5.6-10).

Essa cidade passou então a se chamar Cidade de Davi, e, mais tarde, ficaria conhecida mundialmente como Jerusalém.

Davi conquista Jerusalém

A escolha de Sião denotava uma imensa sabedoria tática de Davi. Ao conquistar uma cidadela que estava encravada fora da jurisdição direta das doze tribos, ele conseguiu impedir disputas políticas entre os irmãos.

Jerusalém firmou-se, portanto, como a verdadeira espinha dorsal política do povo de Israel.

Com sua sede de governo estabelecida, os laços diplomáticos começaram a dar frutos. Hirão, rei de Tiro, enviou-lhe grandes carregamentos de cedro, carpinteiros e pedreiros para edificar a casa real de Davi (2Sm 5.11).

E o cronista bíblico não deixa margens para qualquer vaidade monárquica em relação a isso:

“Davi foi-se engrandecendo cada vez mais, porque o Senhor Deus dos Exércitos era com ele”
2Sm 5.10 ARC

Todo o prestígio e o avanço contínuo do seu trono originavam-se unicamente da mão direta de Deus sobre a vida daquele antigo pastor de ovelhas.

A ARCA TRAZIDA PARA JERUSALÉM

Tendo Jerusalém estabelecida como a capital política do reino, Davi compreendeu que era necessário também torná-la o centro espiritual de toda a nação.

Para isso, ele decidiu trazer a arca da aliança, que na época estava na casa de Abinadabe em Quiriate-Jearim, diretamente para a sua nova capital.

Arca em Jerusalém

Essa decisão de Davi foi tomada em conjunto, num conselho com os capitães do exército e com todo o povo de Israel (1Cr 13.1-4).

No entanto, o cortejo festivo sofreu um baque trágico logo nas primeiras milhas. Apesar do som efusivo das liras, o objeto sagrado estava sendo transportado em desrespeito às ordenanças mosaicas originais: ele estava num carro de bois, em vez de ser conduzido respeitosamente nos ombros dos coatitas.

Diante da arca caminhavam Uzá e Aiô (2Sm 6.3). Num momento em que passavam por uma eira, os bois tropeçaram e a arca pendeu.

Movido por um instinto humano, Uzá tocou a madeira sagrada para equilibrar a relíquia. O juízo divino, porém, o fulminou naquela mesma hora (1Cr 13.10).

A ira do Senhor causou pânico e gerou indignação no próprio rei. Ele se perguntou:

“Como vou conseguir levar a arca do Senhor?”
2Sm 6.9 NVI

Atordoado, Davi abandonou a urna de forma provisória na propriedade do levita Obede-Edom, o giteu (2Sm 6.10).

Semanas depois, ao receber informes sobre a frutificação assombrosa que ocorria na casa de Obede-Edom, o ânimo do rei se reacendeu (2Sm 6.12).

Davi compreendeu onde havia errado na lei e ordenou que a marcha prosseguisse com protocolos estritos, declarando:

“Ninguém pode levar a arca do Senhor, senão os levitas; porque o Senhor os elegeu”
1Cr 15.2 ARC

A cada seis passos que os levitas davam, touros cevados banhavam o chão em sacrifícios pacíficos.

Davi saltava diante do Senhor com toda a força da sua alma. Finalmente, Jerusalém festejava o estabelecimento da adoração ao lado do assento real.

O DESEJO DE CONSTRUIR O TEMPLO

Após trazer a arca da aliança para Jerusalém e conseguir garantir o descanso de todos os seus inimigos (2Sm 7.1), Davi olhou para o seu próprio palácio, luxuosamente construído com madeiras de cedro.

Ao compará-lo com o lugar onde estava depositada a arca de Deus — que ainda repousava em uma simples tenda —, algo mexeu com ele.

Primeiro Templo de Israel

Houve então, no coração de Davi, um intento forte de construir um local permanente e digno para que Deus fosse adorado (2Sm 7.2).

Esse desejo foi tão profundo em sua alma que acabou se tornando a base de um de seus Salmos:

“Não entrarei na minha tenda, nem me deitarei no meu leito; não concederei sono aos meus olhos, nem um cochilo às minhas pálpebras, enquanto não encontrar um lugar para o Senhor”
Sl 132.3-5 NVI

Mas um decreto divino acabou freando os intentos arquitetônicos do rei guerreiro. Deus revelou ao profeta Natã que Davi já havia derramado sangue demais em suas inúmeiras empreitadas bélicas.

O mérito de uma construção tão sagrada deveria pertencer a um sucessor de paz:

“Quando teus dias forem completados, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti a tua semente, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre”
2Sm 7.12,13 ARC

A aliança com Deus inverteu completamente os papéis naquele momento. Davi pleiteou erigir uma “casa” de pedra (um templo) para Deus;

E o Senhor, em contrapartida, respondeu-lhe prometendo assentar para ele uma “Casa” imperecível, ou seja, uma dinastia eterna.

E essa mesma semente davídica fincaria suas raízes históricas até florescer, de forma esplendorosa, na vida e na morte de Cristo.

A QUEDA: BATE-SEBA E URIAS

Mesmo após tantas conquistas e de ter a consolidação total do seu reino, além de trazer a arca para Jerusalém e receber a promessa de um trono eterno, Davi cometeu um pecado que o marcaria pelo resto de sua vida.

Em um tempo em que os reis costumavam sair para a guerra, Davi decidiu permanecer no conforto de Jerusalém (2Sm 11.1).

E foi exatamente nesse tempo de ociosidade que, passeando pelo terraço do seu palácio, Davi avistou Bate-Seba, esposa de Urias, um dos seus mais valorosos guerreiros, e foi tomado de desejos por ela.

Bate Seba

O adultério se consumou e, como resultado, veio uma gravidez. Tentando encobrir o seu pecado a todo custo, Davi arquitetou um plano para conduzir Urias, de forma traiçoeira, a um ponto da batalha onde os inimigos estariam em enorme vantagem. Isso culminou na morte daquele homem fiel (2Sm 11.1-27).

Logo em seguida, Bate-Seba migrou oficialmente para os aposentos da coroa de Israel. O luto simulado tentava escamotear um abismo moral profundo, mas a farsa exalava um cheiro fétido diante dos céus de Jerusalém.

Foi então que o profeta Natã entrou no palácio trazendo uma parábola cirúrgica: um barão riquíssimo havia assaltado o curral de um vizinho paupérrimo apenas para assar a única ovelha de estimação dele em um banquete (2Sm 12.1-5).

Tomado de grande indignação pela história, Davi clamou por uma justiça severa contra aquele assaltante. Natã, então, fulminou a máscara do monarca na mesma hora ao declarar:

“Tu és este homem”
2Sm 12.7 ARC

As paredes de cedro não serviram para proteger o pecador. Completamente despido de sua autoridade e prostrado diante de Deus, o rei verteu sua alma nas linhas do que conhecemos como o Salmo 51:

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito reto”
Sl 51.10 ARC

Aquele grito de dor rasgou a eternidade e o restabeleceu aos favores perdoadores de Jeová. Davi caiu horrendamente, de fato. Mas ele jamais negou ou tentou mitigar os próprios demônios perante a justa disciplina de Deus.

A sua contrição, porém, não suspendeu o julgamento natural do seu erro. A espada ceifadora ficaria desembainhada sobre os corredores familiares pelo resto de seus dias, conforme dito:

“não se apartará a espada jamais da tua casa”
2Sm 12.10 ARC

AS CONSEQUÊNCIAS NA CASA DE DAVI

Logo após o seu pecado, o filho concebido no adultério adoeceu gravemente e morreu (2Sm 12.18). Mas as consequências trágicas não pararam por ali. Amnom, um dos filhos de Davi, cometeu o crime de incesto com Tamar, sua própria meia-irmã.

Ao saber do ocorrido, Absalão, que era irmão de Tamar e também filho de Davi, tomou as dores e matou Amnom, fugindo logo depois da presença do rei.

Davi Arrependido

Durante alguns anos, Absalão viveu longe de seu pai. Quando finalmente houve uma reconciliação aparente entre eles, Absalão, em vez de honrar o rei, começou a tramar uma enorme conspiração contra ele.

Ele foi ganhando o coração dos homens de Israel ao se colocar como aquele que faria a justiça de maneira mais rápida e eficaz do que o próprio rei (2Sm 15.4 ARC).

A conspiração cresceu e se tornou uma rebelião aberta. Como resultado, Davi foi obrigado a fugir de Jerusalém, levando consigo toda a sua casa, atravessando o ribeiro Cedrom e subindo o monte das Oliveiras em profundo choro (2Sm 15.30).

Foi exatamente no meio dessa fuga, sentindo a dor imensurável de ser traído pelo próprio filho, que Davi compôs o Salmo 3:

“Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários! São muitos os que se levantam contra mim”
Sl 3.1 ARC

Perceba que os inimigos do rei já não eram mais pessoas externas; eram de dentro da sua própria casa.

Aquilo que Davi havia feito de forma oculta com Bate-Seba estava, agora, sendo exposto diante de todo o povo de Israel, cumprindo exatamente as palavras que Natã havia proferido:

“tu o fizeste em oculto, mas eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o sol”
2Sm 12.12 ARC

O exército rebelde de Absalão acabou sendo estilhaçado na floresta de Efraim. Durante a sua fuga, o usurpador teve seus longos cabelos enroscados nos galhos de um grande carvalho e foi morto pelo general Joabe.

Ao receber os mensageiros que traziam a notícia, Davi debruçou-se num choro copioso, aterrorizado pela sorte de sua semente rebelde:

“Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!”
2Sm 18.33 ARC

Toda essa história dolorosa consolida um duro aprendizado para nós: o perdão tem o poder de restaurar a alma, mas o tempo — e, nesse caso, o próprio Deus — se encarrega de extrair o amargor das consequências que são inevitáveis.

OS ÚLTIMOS DIAS E A SUCESSÃO

Já acamado, trêmulo e frágil, Davi amargou os últimos dias de sua vida enfrentando um motim derradeiro. Dessa vez, Adonias cooptou o experiente general Joabe e o velho sacerdote Abiatar para tentarem um golpe de Estado pelo trono real (1Rs 1.5-7).

Instigado pelos alertas nervosos do profeta Natã e de Bate-Seba, Davi precisou reacender o brilho de sua coroa para tentar frear aquele caos que se instalava no palácio.

O rei então antecipou as engrenagens da sua sucessão. Ele ordenou que Zadoque e Natã ungissem publicamente a Salomão, montado na mula real e soando as trombetas nas colinas de Giom com brados festivos de:

“Viva o rei Salomão!”
1Rs 1.39 ARC

Foi em seus últimos dias que Davi deixou preciosas instruções ao seu filho Salomão sobre como ele deveria reinar, exortando-o profundamente a guardar todos os mandamentos do Senhor:

“Sê forte, pois, e sê homem”
1Rs 2.2 ARC

Logo em seguida, conforme registra o livro dos Reis, Davi “dormiu com seus pais e foi sepultado na cidade de Davi” (1Rs 2.10 ARC). Ele havia reinado durante quarenta anos sobre Israel: sendo sete anos e seis meses em Hebrom, e mais trinta e três anos em Jerusalém.

Assim terminou a intensa vida do segundo rei de Israel, do pequeno pastor de Belém, do corajoso vencedor de Golias, do grande salmista da nação e, acima de tudo, do rei segundo o coração de Deus.

DAVI E CRISTO

A coroa de Davi não ficou enferrujada e esquecida nos porões de Jerusalém. O Pacto Davídico firmado por Deus tornou-se o ancoradouro da linhagem messiânica.

Desde então, toda a tradição dos profetas aguardou febrilmente a vinda de um rebento justo, capaz de reger as nações com sabedoria.

Reino de Davi e Cristo

Aquele sangue da família de Jessé conseguiu atravessar séculos de exílio, resistindo bravamente pelas perseguições gregas e romanas, até desaguar de forma gloriosa no ventre da Virgem de Nazaré. O próprio anjo atestou a ela:

“Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. E reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim”
Lc 1.32,33 ARC

Por sua vez, o Apóstolo Mateus selou a primeira página da Nova Aliança provando esse sangue incontestável quando escreveu:

“Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi”
Mt 1.1

As vitórias nas batalhas, as fugas perigosas, os salmos declamados no medo, o arrependimento sincero e a dor profunda servem para desenhar, lá no Antigo Testamento, a sombra humana daquele que seria o verdadeiro Filho de Deus.

CONCLUSÃO

A trajetória de Davi tem muito a nos ensinar sobre como Deus age na vida daqueles que Ele decide chamar.

Quando ainda era um pastor esquecido lá em Belém, o jovem Davi jamais poderia imaginar que aquele óleo derramado por Samuel sobre a sua cabeça o conduziria por um caminho que seria tão longo, tão difícil e, ao mesmo tempo, tão glorioso.

No entanto, percebemos que foi o próprio Senhor que o sustentou em cada um de seus passos. O cuidado começou com as poucas ovelhas no deserto e foi até a completa unificação das doze tribos sob um único trono em Jerusalém.

A história de Davi também nos deixa um lembrete importante: o servo de Deus não é aquele que jamais cai, mas sim aquele que, ao cair, sabe como voltar-se para o Senhor com um coração verdadeiramente quebrantado.

Davi pecou de forma grave, e as consequências terríveis de sua queda o acompanharam até os seus últimos dias de vida.

Contudo, Deus fez questão de chamá-lo de “um homem segundo o seu coração”. Por quê?

Porque Davi nunca deixou de buscar o Senhor, nunca endureceu o seu coração diante de uma repreensão divina e nunca trocou o seu Deus por outros deuses das nações ao redor.

Por isso, ao olharmos para a história de Davi, somos também chamados a olhar para o nosso interior.

Existe, no meio das tarefas mais simples do nosso dia a dia, uma escola silenciosa. É ali que Deus molda e forma o caráter daqueles que Ele um dia usará para propósitos maiores.

Existe também, no meio das nossas próprias quedas e falhas, a incrível possibilidade de um arrependimento genuíno que nos restaure à comunhão com o Senhor.

E, sobre todas essas coisas, existe a nossa certeza de que Cristo, o Filho de Davi, é aquele que reina para todo o sempre, e de que o Seu Reino nunca terá fim.

E você?

O que a história do Rei Davi revela sobre a sua própria caminhada e confiança no Senhor?

O que tem aprendido ao ler os livros escritos por esses grandes homens de Deus?

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Fique na Paz!

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