A filha de Jairo é a menina de doze anos que Jesus trouxe de volta à vida dentro da casa do pai, um chefe da sinagoga, num episódio contado em Mateus 9:18-26, Marcos 5:21-43 e Lucas 8:40-56. A Bíblia não informa o nome dela; informa a idade, o estado em que estava e as palavras que Jesus disse ao tomá-la pela mão: “Talita cumi”.
É uma passagem muito pregada e, ao mesmo tempo, cercada de dúvidas. Ela estava doente ou já tinha morrido quando o pai procurou Jesus? Por que ele disse que a menina dormia? O que quer dizer a frase em aramaico? Se você ensina na igreja, precisa ter essas respostas no texto, e não na memória da última pregação que ouviu.
Hoje, vamos ler os três relatos lado a lado, conhecer Jairo e o cargo que ele ocupava, resolver a questão do “morrendo ou morta”, ver o que o texto diz sobre a idade e o nome da menina, acompanhar a cena dentro da casa e fechar com as lições do episódio e um esboço de pregação.
Onde está a história da filha de Jairo na Bíblia
A cura da filha de Jairo é contada por Marcos (Marcos 5:21-43), por Lucas (Lucas 8:40-56) e por Mateus (Mateus 9:18-26), os três primeiros evangelhos do Novo Testamento. João não a registra. Marcos tem o relato mais longo, com vinte e três versículos, e é dele que vêm quase todos os detalhes que a pregação costuma usar.
Em Marcos e Lucas, a cena começa logo depois que Jesus volta de barco da terra dos gadarenos: “E aconteceu que, quando voltou Jesus, a multidão o recebeu, porque todos o estavam esperando” (Lucas 8:40). Entre essa gente que esperava na margem estava um pai com pressa.
Marcos e Lucas não dizem em que cidade isso acontece. Mateus situa a sequência na “sua cidade” (Mateus 9:1), e o mesmo evangelho já tinha dito que Jesus foi morar em Cafarnaum (Mateus 4:13). Então a leitura mais comum põe a casa de Jairo em Cafarnaum1. Mas isso é uma dedução razoável, e não uma frase do texto.
As citações deste estudo seguem a Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as outras versões identificadas quando aparecem.
O que cada evangelho registra
Os três contam a mesma história, mas cada um guarda detalhes que os outros deixam de fora. A tabela organiza o que está em cada relato:
| Detalhe | Mateus 9 | Marcos 5 | Lucas 8 |
|---|---|---|---|
| O pai é nomeado | não (“um chefe”) | Jairo | Jairo |
| Cargo | chefe | um dos principais da sinagoga | príncipe da sinagoga |
| Estado da menina no início do relato | “faleceu agora mesmo” | “está à morte” | “estava à morte” |
| Idade | não informa | “já tinha doze anos” | “quase de doze anos” |
| Filha única | não informa | não informa | sim |
| Mensageiros com a notícia da morte | não | sim | sim |
| “Não temas, crê somente” | não | sim | sim |
| Pedro, Tiago e João na casa | não | sim | sim |
| Instrumentistas no velório | sim | não | não |
| “Talita cumi” | não | sim | não |
| “Que lhe dessem de comer” | não | sim | sim |
| Ordem de silêncio | não | sim | sim |
O detalhe que mais pesa na tabela está na terceira linha, e é dele que nasce a pergunta que vamos responder logo adiante.
Quem era Jairo
Jairo era chefe da sinagoga, e ele só é chamado pelo nome duas vezes: em Marcos 5:22 e em Lucas 8:41. O nome é a forma grega de Jair, nome que já aparece no Antigo Testamento (Números 32:41; Juízes 10:3) e que costuma ser explicado como “ele ilumina”.
O título grego que traduzimos por “chefe da sinagoga” aparece nove vezes no Novo Testamento, entre elas em Lucas 13:14 e Atos 18:8. Quem ocupava o cargo era um leigo, com responsabilidade sobre o prédio e sobre o culto: era ele quem escolhia quem faria as leituras da Lei2.
Marcos diz que ele era “um dos principais da sinagoga” (Marcos 5:22), e o “um dos” importa. Uma sinagoga podia ter mais de um dirigente; em Antioquia da Pisídia, quem convida Paulo a falar são “os principais da sinagoga”, no plural (Atos 13:15).
Por que o gesto dele chama atenção
Um homem de posição e, ao que tudo indica, de posses1 se joga no chão diante de um rabino itinerante: “e, vendo-o, prostrou-se aos seus pés” (Marcos 5:22). Mateus diz que ele “o adorou” (Mateus 9:18).
Isso acontece num momento em que a liderança religiosa já tinha se voltado contra Jesus. Marcos registrou, dois capítulos antes, que os fariseus saíram da sinagoga e “tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam” (Marcos 3:6). Pedir ajuda em público a esse homem custava alguma coisa para um dirigente de sinagoga3: os líderes que já se opunham a Jesus dificilmente aprovariam o gesto.
Como as versões chamam o pai em Mateus
Mateus não dá o nome e chama Jairo apenas de “chefe” (Mateus 9:18). A ACF e a ARA ficam com “um chefe”, e a BKJ traz “um certo governante”; já a NAA, a NVI e a NVT acrescentam “da sinagoga”, trazendo para Mateus o que Marcos e Lucas informam. Se na sua Bíblia aparece “dirigente” ou “líder da sinagoga”, é a mesma pessoa.
Ela estava doente, morrendo ou morta?
Esta é a dúvida que mais aparece sobre a história, e ela nasce de uma diferença real entre os relatos. Em Marcos e Lucas, quando Jairo chega, a menina está viva. Em Mateus, ela já morreu.
A resposta curta é esta: quando Jairo procurou Jesus, a filha estava morrendo; ela morreu enquanto Jesus ainda estava a caminho; e estava morta quando ele entrou no quarto. Mateus, que resume a história, já começa pela morte. Vamos ver como cada um descreve a menina no começo:
| Evangelho | O que o texto diz | O que isso quer dizer |
|---|---|---|
| Marcos 5:23 | “Minha filha está à morte” | ela está nas últimas, à beira da morte |
| Lucas 8:42 | “uma filha única, quase de doze anos, que estava à morte” | o verbo indica algo em andamento: estava morrendo |
| Mateus 9:18 | “Minha filha faleceu agora mesmo” | ela acaba de morrer |
Marcos e Lucas contam a história em dois tempos. Primeiro o pai pede que Jesus vá impor as mãos sobre uma menina que agoniza (Marcos 5:23). Depois, no caminho, chegam pessoas da casa: “A tua filha está morta; para que enfadas mais o Mestre?” (Marcos 5:35). Lucas registra o mesmo recado (Lucas 8:49).
O que Mateus faz com o relato
Mateus conta a mesma história em nove versículos e não menciona os mensageiros. Sem eles, não existe a cena da notícia chegando no meio do caminho; então, no relato dele, o pai já se aproxima dizendo que a filha morreu e pedindo que Jesus vá impor-lhe a mão para que ela viva.
É o modo habitual de Mateus narrar milagres, de forma mais condensada que Marcos e Lucas4. Ele faz o mesmo com o centurião de Cafarnaum, que em Mateus fala diretamente com Jesus e em Lucas manda emissários; o ponto da história permanece, e os intermediários somem5.
Portanto, os três concordam no essencial: a menina estava morta quando Jesus entrou no quarto, e saiu dali viva. A diferença está no momento em que cada evangelista deixa o leitor saber disso.
“Não está morta, mas dorme”
A segunda metade da dúvida vem da frase de Jesus na casa: “A menina não está morta, mas dorme” (Marcos 5:39). Teria sido um coma, um desmaio que os pais confundiram com morte?
Se lermos Lucas até o fim da cena, essa porta se fecha. Lucas diz que os presentes “riam-se dele, sabendo que estava morta” (Lucas 8:53), e depois descreve a volta da menina assim: “E o seu espírito voltou, e ela logo se levantou” (Lucas 8:55). Ou seja, espírito que volta é espírito que tinha saído.
O “dorme” é a mesma linguagem que Jesus usa para Lázaro. Ele diz aos discípulos que Lázaro dorme, eles entendem sono comum, e João explica: “Mas Jesus dizia isto da sua morte” (João 11:13). No versículo seguinte vem a frase sem metáfora: “Lázaro está morto” (João 11:14).
O verbo grego de Marcos 5:39 é o comum para dormir, e o Novo Testamento também o usa para a morte de quem pertence a Cristo (1 Tessalonicenses 5:10). Na boca de Jesus, ali, a frase anunciava que aquela morte seria desfeita como se desfaz um sono6.
Quantos anos tinha e qual era o nome da filha de Jairo
A filha de Jairo tinha doze anos. Marcos informa a idade no fim do relato, quase como explicação de por que ela conseguia andar: “E logo a menina se levantou, e andava, pois já tinha doze anos” (Marcos 5:42). Lucas a dá no começo, “quase de doze anos” (Lucas 8:42), e outras versões trazem “cerca de doze anos” (BKJ, NVT) ou “uns doze anos” (ARA, NAA).
Lucas acrescenta que ela era filha única. A palavra grega é a mesma que ele usa para o filho da viúva de Naim (Lucas 7:12) e para o menino endemoninhado cujo pai diz “é o único que eu tenho” (Lucas 9:38). Entre os evangelhos, só Lucas usa a palavra nessas cenas, e nas três há um pai ou uma mãe diante da perda, ou do risco de perda, do único filho.
Talita era o nome dela?
Não. A Bíblia não informa o nome da filha de Jairo, nem o da mãe, que está presente no quarto (Marcos 5:40). “Talita” não é nome próprio: é a palavra aramaica para “menina”, e o próprio Marcos a traduz assim logo em seguida (Marcos 5:41).
Ou seja, a Bíblia não nos dá o nome, mas guarda a maneira como o pai se referia a ela. Em Marcos 5:23, o grego traz um diminutivo de carinho, “filhinha”, forma que no Novo Testamento só aparece ali e em Marcos 7:25. A ACF traduz “minha filha”; a ARA, a NAA e a NVT preferem “minha filhinha”.
A mulher no caminho
Entre o pedido de Jairo e a chegada à casa, a caminhada para. Uma mulher que sofria de um fluxo de sangue havia doze anos toca a veste de Jesus no meio da multidão e é curada, e Jesus se detém até que ela venha à frente e conte o que aconteceu (Marcos 5:25-34).
A história dela tem estudo próprio no blog, sobre a mulher do fluxo de sangue e o que os três evangelhos contam dela. Aqui vamos olhar para o que essa parada significou para Jairo.
Para um pai com a filha agonizando, cada minuto ali era perdido. E foi justamente durante essa conversa que a notícia chegou: “Estando ele ainda falando, chegaram alguns do principal da sinagoga” (Marcos 5:35). Pela nossa conta humana, a demora custou a vida da menina.
Os dois “doze” se cruzam no mesmo capítulo: doze anos de doença na mulher, doze anos de vida na menina (Marcos 5:25, 42). E a última coisa que Jairo ouviu antes do recado foi Jesus dizendo à mulher que a fé dela a tinha salvado. A conversa que atrasou o caminho também preparou o pai para o que viria em seguida3.
“Não temas, crê somente”
O recado dos mensageiros tem duas partes: a menina morreu, e não há razão para continuar incomodando o Mestre. A pergunta deixa ver o que eles pensavam: uma doente ainda justificava a visita do Mestre; uma morta, não.
Jesus responde ao pai, não aos mensageiros: “Não temas, crê somente” (Marcos 5:36). Em Lucas a frase vem com uma promessa: “Não temas; crê somente, e será salva” (Lucas 8:50).
Repare no verbo. O “para que sare” do pedido inicial (Marcos 5:23), o “a tua fé te salvou” dito à mulher (Marcos 5:34) e o “será salva” de Lucas 8:50 traduzem a mesma palavra grega, que cobre tanto a cura do corpo quanto a salvação. O que Jairo pediu no começo do caminho é o que Jesus promete depois da pior notícia.
O que Jesus fez com a notícia
Se você comparar Bíblias neste versículo, vai notar uma diferença. A ACF diz que Jesus agiu “tendo ouvido estas palavras” (Marcos 5:36), e a BKJ e a NVT também falam em ouvir; já a ARA traz “sem acudir a tais palavras”, e a NAA, “sem levar em conta tais palavras”. Isso acontece porque as versões seguem textos gregos um pouco diferentes, e o verbo das mais recentes pode significar tanto “ouvir de passagem” quanto “não dar atenção”.
Mas as duas leituras chegam ao mesmo lugar: Jesus ouviu o que os mensageiros disseram e não deixou que aquilo fosse a última palavra.
A partir daqui, ele restringe quem o acompanha: “E não permitiu que alguém o seguisse, a não ser Pedro, Tiago, e João, irmão de Tiago” (Marcos 5:37). É a primeira das três ocasiões em que só esses três estão com Jesus; as outras são a transfiguração e o Getsêmani7.
A casa: choro, instrumentistas e riso

Quando chegam, o velório já começou: “viu o alvoroço, e os que choravam muito e pranteavam” (Marcos 5:38). Mateus acrescenta “os instrumentistas” (Mateus 9:23). A palavra grega designa tocadores de flauta, e é assim que a ARA e a NAA traduzem; no Novo Testamento ela só aparece aqui e em Apocalipse 18:22.
Eram pranteadores profissionais, gente que ajudava a família a expressar o luto4. A presença deles diz uma coisa importante para a nossa pergunta anterior: ninguém contrata músicos para um velório enquanto ainda há esperança8. E o enterro, naquele tempo, costumava acontecer no mesmo dia da morte9.
Jesus pergunta por que tanto alvoroço e diz que a menina dorme. A resposta, infelizmente, é o riso (Marcos 5:40). Então ele tira todo mundo de casa: “tendo-os feito sair, tomou consigo o pai e a mãe da menina, e os que com ele estavam, e entrou onde a menina estava deitada” (Marcos 5:40).
Por que tirar todos do quarto?
O texto não explica. O que ele mostra é que ficam cinco testemunhas, os pais e os três discípulos, número mais que suficiente para a exigência da Lei de duas ou três testemunhas (Deuteronômio 19:15)8, e que o milagre acontece longe de quem tinha acabado de zombar.
O gesto tem precedente no Antigo Testamento. Quando o filho da sunamita que hospedava Eliseu morreu, o profeta “entrou ele, e fechou a porta sobre eles ambos, e orou ao Senhor” (2 Reis 4:33). A diferença está no que vem depois: Eliseu ora e se estende sobre o menino, enquanto Jesus fala uma frase.
“Talita cumi”: o que Jesus disse e por que tocou na mão dela
O centro do episódio é um versículo: “E, tomando a mão da menina, disse-lhe: Talita cumi; que, traduzido, é: Menina, a ti te digo, levanta-te” (Marcos 5:41).
Talita cumi significa “Menina, levanta-te”. São duas palavras em aramaico, a língua do dia a dia na Galileia: talita, “menina”, e cumi, “levanta-te”. A ARA e a ARC grafam “Talitá cumi”, com acento.
Marcos tem o hábito de guardar palavras aramaicas de Jesus e traduzi-las para leitores que não conheciam a língua2. Faz isso com “Efatá; isto é, Abre-te” (Marcos 7:34) e com “Aba, Pai” no Getsêmani (Marcos 14:36). Repare que, ao traduzir, ele acrescenta “a ti te digo”, que não está nas duas palavras aramaicas e põe o peso na autoridade de quem fala.
Por isso a frase não funciona como fórmula. Ela é uma ordem dada por quem tem poder sobre a morte, e repeti-la não produz o mesmo efeito8. Mais tarde, em Jope, Pedro faria sair todos do quarto e diria “Tabita, levanta-te” (Atos 9:40), mas só depois de pôr-se de joelhos e orar, como mostra a história de Dorcas, a discípula que Pedro ressuscitou.
O toque na mão de uma morta
Os três evangelhos registram que Jesus pegou a mão da menina (Mateus 9:25; Marcos 5:41; Lucas 8:54). Para um judeu, aquilo tinha consequência definida pela Lei: “Aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, imundo será sete dias” (Números 19:11).
Jairo, que cuidava da leitura da Lei na sinagoga, conhecia bem essa regra. Mas o relato não se ocupa da impureza; ocupa-se do que passou da mão de Jesus para a da menina, que foi a vida. Minutos antes, no caminho, a mulher impura também tinha tocado Jesus e sido curada.
O resultado foi imediato e visível: a menina ficou de pé e saiu andando pelo quarto, e todos “assombraram-se com grande espanto” (Marcos 5:42).
“Que lhe dessem de comer” e a ordem de silêncio
Depois do milagre, Jesus dá duas ordens. A primeira é doméstica: “disse que lhe dessem de comer” (Marcos 5:43). Lucas registra o mesmo (Lucas 8:55).
A ordem confirma que o corpo voltou de verdade, com fome, e mostra um cuidado prático com uma menina que provavelmente tinha comido pouco durante a doença9. O milagre não dispensou os pais da tarefa comum de alimentar a filha8.
A segunda ordem é de silêncio: “mandou-lhes expressamente que ninguém o soubesse” (Marcos 5:43). Lucas diz que ele mandou os pais “que a ninguém dissessem o que havia sucedido” (Lucas 8:56).
Por que pedir silêncio desta vez?
Marcos registra várias ordens assim desde o primeiro capítulo. A revelação de Jesus como Messias avança por etapas, sem que o entusiasmo popular atropele o caminho que leva à cruz10.
O contraste fica nítido porque, poucos versículos antes, Jesus fez o oposto. Ao homem liberto na terra dos gadarenos, ele disse: “Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez” (Marcos 5:19). Lá era território gentio, de onde os moradores tinham acabado de pedir que ele se retirasse (Marcos 5:17), e o endemoninhado gadareno ficou como o primeiro anunciador dele naquela região2.
O silêncio, aliás, não segurou a notícia por muito tempo. Mateus encerra o episódio dizendo: “E espalhou-se aquela notícia por todo aquele país” (Mateus 9:26).
A filha de Jairo, o filho de Naim e Lázaro
Os Evangelhos contam em detalhe três casos em que Jesus trouxe um morto de volta à vida antes da própria ressurreição. Isso não quer dizer que foram os únicos, já que, na resposta a João Batista, Jesus fala de mortos, no plural (Lucas 7:22). Dos três, a filha de Jairo é a que estava morta havia menos tempo:
| Filha de Jairo | Filho da viúva de Naim | Lázaro | |
|---|---|---|---|
| Texto | Marcos 5:21-43; Lucas 8:40-56; Mateus 9:18-26 | Lucas 7:11-15 | João 11:1-44 |
| Quem era | menina de doze anos, filha única | jovem, filho único de uma viúva | irmão de Marta e Maria |
| Há quanto tempo morto | morrera durante o caminho de Jesus | estava sendo levado para o sepultamento | “quatro dias” no sepulcro (João 11:17) |
| Onde | no quarto, com cinco testemunhas | na porta da cidade, diante da multidão | no sepulcro, diante de muitos judeus |
| A palavra de Jesus | “Talita cumi” | “Jovem, a ti te digo: Levanta-te” | “Lázaro, sai para fora” |
| O sinal de vida | andou e recebeu comida | “começou a falar” | saiu com as faixas do sepultamento |
Cada um deu prova concreta de que estava vivo7. Repare também na progressão: uma morte recente, dentro de casa; outra a caminho da sepultura; outra de quatro dias. A ressurreição de Lázaro fecha a série com o caso que nenhum incrédulo poderia chamar de desmaio.
O Antigo Testamento tem dois casos semelhantes, ambos de meninos: o filho da viúva de Sarepta, com Elias (1 Reis 17:22), e o filho da sunamita, com Eliseu (2 Reis 4:35).
O que essas ressurreições não eram
A filha de Jairo voltou à mesma vida de antes e, mais tarde, morreu de novo. O mesmo vale para os outros. A ressurreição de Cristo foi de outra natureza: o mesmo corpo, mas transformado, que não volta a morrer11. As três ressurreições dos Evangelhos são sinais que apontam para ela, e não equivalentes dela.
O que a história da filha de Jairo ensina
O caminho aqui é o do próprio texto: o que aquilo significou para Jairo, para a menina e para quem estava na casa, e só então o que isso diz a nós.
A posição de Jairo não o poupou da dor nem o impediu de pedir
Jairo tinha cargo, prestígio e, provavelmente, dinheiro. Nada disso mantinha a filha viva. E o lugar dele na sinagoga tornava mais caro pedir ajuda a um homem que os fariseus já queriam matar (Marcos 3:6). Ele pediu assim mesmo, prostrado no chão, em público.
Se você lidera na igreja hoje, conhece esse risco: a função pode virar motivo para não admitir necessidade diante dos outros. Jairo não deixou o cargo falar mais alto que a filha.
A demora de Jesus não era descaso
Pela conta de Jairo, a parada para atender a mulher foi fatal. E Jesus não pediu desculpas pelo atraso; disse “Não temas, crê somente” a um pai cujo medo tinha acabado de se confirmar. (E quantas vezes nós também tomamos a demora de Deus por descaso?)
O que fica para nós é quem estava no controle da cena desde o começo: para Jesus, a morte da menina não fechava a história, e por isso ele podia parar no caminho sem perder nada do que importava.
A morte de quem pertence a Cristo tem outro nome
Os pranteadores riram porque sabiam o que é a morte. Jesus não negou o fato: chamou-o de sono porque ia desfazê-lo. Paulo usa a mesma linguagem para consolar a igreja de Tessalônica: “aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele” (1 Tessalonicenses 4:14).
Se você prega em velório ou visita uma família enlutada, essa é a base. A nossa esperança diante da morte se apoia em quem tem a última palavra sobre ela, e por isso não precisa minimizar a dor de ninguém.
O milagre terminou com uma ordem doméstica
O último gesto de Jesus na casa foi mandar alimentar a menina. Depois do maior acontecimento daquele dia, ele se ocupa de uma refeição. Quando nós acompanhamos uma família depois de uma resposta de oração, também temos essa parte do trabalho: cuidar do que vem depois, com as coisas comuns.
Esboço de pregação sobre a filha de Jairo
Este esboço segue Marcos 5, onde estão quase todos os detalhes da cena, e foi pensado para você usar em culto, célula ou aula de adultos.
Texto: Marcos 5:21-24, 35-43 · Versículo-chave: Marcos 5:36 · Tema: a palavra de Jesus diante da pior notícia
Introdução
Apresentar Jairo: chefe da sinagoga, conhecido na cidade, e pai de uma menina de doze anos que está morrendo. Perguntar à igreja o que um homem assim tinha a perder ao se jogar aos pés de Jesus em público.
1. O pedido (Marcos 5:21-24)
Jairo pede que Jesus vá impor as mãos “para que sare, e viva”. Jesus vai com ele. Mostrar que a fé de Jairo começa pequena e concreta: ele sabe o que quer e sabe a quem pedir.
2. A notícia (Marcos 5:35-36)
A interrupção no caminho, o recado dos mensageiros e a frase “para que enfadas mais o Mestre?”. Jesus responde ao pai: “Não temas, crê somente”. Aplicar: o medo de Jairo tinha base nos fatos, e mesmo assim Jesus manda continuar crendo.
3. A palavra (Marcos 5:38-43)
O velório, o riso, a casa esvaziada, a mão da menina e o “Talita cumi”. A ordem de alimentá-la. Mostrar que a palavra que levantou a menina é a mesma palavra que hoje sustenta a igreja diante da morte (1 Tessalonicenses 4:14).
Sugestão de conclusão
Na casa de Jairo, a última palavra não foi dos mensageiros nem dos pranteadores. Foi de Jesus. Fechar lendo Marcos 5:36 devagar, como palavra dirigida a quem está no culto carregando uma notícia difícil.
Reflexões Finais
A história da filha de Jairo é curta, mas reúne num só capítulo a doença, a demora, a notícia da morte, o luto e a vida devolvida. E em cada passo, quem decide o rumo da cena é a palavra de Jesus: o “Não temas”, o “dorme”, o “Talita cumi”, a ordem de alimentá-la.
Se você ensina essa passagem, o cuidado principal é deixar os três evangelhos falarem juntos, sem esconder as diferenças entre eles. Elas não enfraquecem a história; mostram três testemunhas contando o mesmo fato cada uma do seu jeito.
E você, quando a notícia que chega parece encerrar o assunto, a quem tem dado a última palavra? Fique na paz!
Perguntas Frequentes sobre a filha de Jairo
Em qual passagem Jesus ressuscita a filha de Jairo?
O episódio está em três evangelhos: Mateus 9:18-26, Marcos 5:21-43 e Lucas 8:40-56. Marcos traz a narrativa mais detalhada, incluindo a frase em aramaico e a idade da menina. Mateus é o mais breve e não menciona o nome do pai.
Qual é a idade da filha de Jairo?
Ela tinha doze anos. Marcos 5:42 informa a idade depois da ressurreição, e Lucas 8:42 a apresenta logo no começo como “quase de doze anos”. Mateus não diz quantos anos ela tinha.
Qual era o nome da filha de Jairo?
Nenhum dos três evangelhos o registra, e o da mãe também fica sem menção. A palavra “Talita”, que muita gente toma por nome, significa apenas “menina” em aramaico e foi a forma como Jesus se dirigiu a ela.
O que significa talita cumi?
Significa “Menina, levanta-te”. É uma frase em aramaico, guardada só por Marcos (Marcos 5:41), que logo a traduz para os leitores. As versões grafam “Talita cumi” (ACF, BKJ) ou “Talitá cumi” (ARA, ARC, NAA).
A filha de Jairo estava morrendo ou já estava morta?
Quando Jairo procurou Jesus, ela estava agonizando, segundo Marcos e Lucas. Morreu enquanto Jesus seguia para a casa, e a notícia chegou pelos mensageiros. Mateus, que resume a história e omite esse recado, põe a morte já no pedido do pai. Ao chegar, Jesus encontrou a menina morta, como confirma Lucas 8:53.
Jesus ressuscitou ou curou a filha de Jairo?
Ressuscitou. O episódio costuma ser chamado também de cura porque começa com uma menina doente, e foi a cura que o pai pediu. Mas o que o texto descreve no quarto é uma volta da morte: Lucas diz que “o seu espírito voltou” (Lucas 8:55).
Qual a semelhança entre a filha de Jairo e a mulher do fluxo de sangue?
As duas histórias estão entrelaçadas no mesmo trecho e têm o número doze em comum: doze anos de enfermidade numa, doze anos de idade na outra. Nas duas, Jesus toca ou é tocado por alguém que a Lei considerava impuro, e o relato não se ocupa da impureza, e sim da cura que passa dele para elas. A uma ele chama de “filha”; a outra é a “filhinha” pela qual o pai implorou.
O que podemos aprender com a história de Jairo?
Um homem importante se humilhou para pedir socorro em favor da filha, e a resposta passou por uma espera que pareceu tirar dele qualquer chance. O episódio ensina a ouvir a voz de Cristo acima do recado mais duro e mostra que ele chama de sono a morte de quem lhe pertence.
Fontes
Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as demais versões identificadas quando citadas. As formas gregas e aramaicas, as glosas e as contagens de ocorrência referem-se ao texto etiquetado do STEPBible (TAGNT, CC BY 4.0).
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- BOCK, Darrell L. “Resposta aos desafios contemporâneos aos Evangelhos”. In: HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Editora Vida, 2015, verbete “Resposta aos desafios contemporâneos aos Evangelhos”, seção “Diferenças entre os relatos e a formulação de enunciados”.
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- SPROUL, R. C. Somos Todos Teólogos: uma introdução à teologia sistemática. São José dos Campos, SP: Fiel, 2014, cap. 54, “A ressurreição”.