Dízimo no Novo Testamento: Onde Aparece, o que Jesus e Paulo Ensinaram e as Três Leituras

O dízimo no Novo Testamento aparece em três lugares: em duas falas de Jesus contra os fariseus, na parábola do fariseu e do publicano e no capítulo 7 da carta aos Hebreus. Nenhum desses textos foi escrito para regulamentar a contribuição da igreja, e é justamente por isso que a pergunta continua aberta entre os evangélicos.

Quem dirige uma igreja, ensina numa classe de escola bíblica ou cuida da tesouraria ouve essa pergunta com frequência. Um membro novo quer saber se o dízimo é coisa da lei, um jovem leu que Jesus o aboliu, e um irmão antigo responde que quem não dizima rouba a Deus. A resposta honesta começa pelo que os textos dizem, e só depois passa para o que cada tradição conclui deles.

Hoje, vamos ler cada ocorrência do dízimo no Novo Testamento no seu contexto, ver o que Jesus disse e o que Ele não disse, entender o argumento de Hebreus 7 e acompanhar o que Paulo ensinou sobre contribuir sem usar a palavra dízimo.

Depois, vamos comparar as três leituras que convivem nas igrejas evangélicas: a de que o dízimo continua como norma, a de que ele pertencia à lei de Moisés e a de que a contribuição deve ser proporcional à renda, com o dízimo como ponto de partida. E vamos terminar com o que muda, na prática, para quem ensina o assunto na igreja local.

O dízimo aparece no Novo Testamento?

Aparece, porém pouco, e sempre de passagem. Os Evangelhos mencionam o dízimo quando Jesus repreende a religiosidade dos fariseus; Hebreus o menciona quando prova que o sacerdócio de Cristo é superior ao de Levi. Em nenhum dos casos o assunto principal é a contribuição dos cristãos.

Ou seja, o Novo Testamento possui textos sobre o dízimo, mas não possui um texto que diga à igreja “entregai a décima parte”. Também não possui um texto que diga “não entregueis mais”. As cartas dos apóstolos tratam da contribuição com outro vocabulário, o da coleta, da graça e da generosidade, e é nelas que a maior parte do ensino prático se encontra.

Por isso a pergunta “o dízimo continua?” não se resolve com um versículo. Ela pede que se leia cada passagem no seu lugar e que se junte o que elas dizem com o que Paulo ensinou às igrejas.

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Onde fala do dízimo no Novo Testamento: todas as ocorrências

Na Almeida Corrigida Fiel, a família da palavra (o verbo dizimar e o substantivo dízimo) ocorre dez vezes, em nove versículos: duas vezes como verbo, nos Evangelhos, e oito como substantivo, uma em Lucas e sete em Hebreus.

No grego, a língua em que o Novo Testamento foi escrito, todas essas palavras vêm da mesma família. Os Evangelhos usam o verbo apodekatoō, que quer dizer “dar a décima parte”, e Hebreus 7:5 usa o mesmo verbo no sentido de cobrar o dízimo. Hebreus emprega ainda o substantivo dekatē, “a décima parte”, e o verbo dekatoō, “receber ou pagar o dízimo”.

Referência Quem fala Contexto O que o texto afirma
Mateus 23:23 Jesus os ais contra escribas e fariseus, no templo dizimavam a hortelã, o endro e o cominho e desprezavam o juízo, a misericórdia e a fé
Lucas 11:42 Jesus refeição na casa de um fariseu dizimavam a hortelã, a arruda e toda hortaliça e desprezavam o juízo e o amor de Deus
Lucas 18:12 o fariseu da parábola oração no templo “dou os dízimos de tudo quanto possuo”
Hebreus 7:2 o autor de Hebreus Melquisedeque em Gênesis 14 Abraão deu a Melquisedeque o dízimo de tudo
Hebreus 7:4 o autor de Hebreus a grandeza de Melquisedeque o patriarca deu os dízimos dos despojos
Hebreus 7:5 o autor de Hebreus o sacerdócio levítico os filhos de Levi têm ordem, segundo a lei, de tomar o dízimo do povo
Hebreus 7:6 o autor de Hebreus Melquisedeque e Abraão aquele que não era da genealogia de Levi tomou dízimos de Abraão
Hebreus 7:8 o autor de Hebreus levitas × Melquisedeque aqui recebem dízimos homens que morrem; ali, aquele de quem se testifica que vive
Hebreus 7:9 o autor de Hebreus Levi em Abraão Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos por meio de Abraão

Repare em dois detalhes da tabela. O primeiro: as nove passagens ficam em dois livros, os Evangelhos de Mateus e Lucas e a carta aos Hebreus. Nas treze cartas que levam o nome de Paulo, assim como em Atos, a palavra não aparece. O segundo: a contagem varia de uma tradução para outra, porque algumas versões trocam “dízimo” por “décima parte” em Hebreus 7. Quem compara com a NVT ou a BKJ vai encontrar menos ocorrências, e não há erro nisso.

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O que Jesus disse sobre o dízimo

As duas falas de Jesus sobre o dízimo são do mesmo tipo: os “ais”, isto é, o anúncio profético de juízo contra líderes que deveriam conduzir o povo e o desviavam. Lucas registra uma série de ais pronunciada numa refeição em casa de um fariseu (Lucas 11:37); Mateus registra a série final, no templo, pouco antes de Jesus sair dali (Mateus 24:1).

Mateus 23:23 e Lucas 11:42

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Mateus 23:23

A lei de Moisés mandava separar a décima parte da semente do campo e do fruto das árvores (Levítico 27:30). Os fariseus levavam a conta até as ervas do quintal, folha por folha, e ao mesmo tempo deixavam de lado o que o próprio Jesus chama de “o mais importante da lei”. É o mesmo diagnóstico do versículo seguinte, em que eles coam o mosquito e engolem o camelo (Mateus 23:24).

O ponto que mais divide os leitores está no fim do versículo: “deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”. As coisas que não deviam ser omitidas são os dízimos. Jesus não condenou a prática; condenou quem a usava para esconder a falta de justiça e de misericórdia.1

Lucas resume o que eles desprezavam em “o juízo e o amor de Deus”, e o dízimo, que deveria ser uma oferta de gratidão, tinha virado nas mãos deles um dever pesado e minucioso.2

E aqui está a pergunta que o leitor faz: então Jesus confirmou o dízimo? Para os seus ouvintes, sim. Afinal, Ele falava a judeus, antes da cruz, sob a lei de Moisés, e mandou que continuassem dizimando. O que o texto não resolve sozinho é se essa ordem passa, tal como está, para a igreja depois de Pentecostes, e é nesse ponto que as leituras se separam, como veremos adiante.

A hipocrisia que Jesus denuncia aqui é a mesma que Ele chamou de fermento em Lucas 12:1, e o assunto está desenvolvido em o que é o fermento dos fariseus.

Lucas 18:12

A terceira menção sai da boca de um personagem. Jesus contou a parábola “a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9), e o fariseu ora assim:

Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. Lucas 18:12

Os dois atos que ele apresenta passavam da medida. A lei prescrevia jejum apenas no Dia da Expiação,3 e ele jejuava duas vezes por semana; o dízimo da lei era sobre a produção, e ele dizimava “de tudo”. O problema da parábola não está no jejum nem no dízimo, mas no uso que ele faz dos dois: apresenta a Deus uma lista de méritos, como se a conta estivesse a seu favor.4

O veredito vem no versículo 14: o publicano, que só pediu misericórdia, “desceu justificado para sua casa, e não aquele”. Ou seja, o dízimo pode ser fiel e, mesmo assim, inútil diante de Deus, quando ocupa o lugar que pertence à graça.

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O que Hebreus 7 ensina sobre o dízimo

Hebreus 7 é a passagem mais longa do Novo Testamento sobre o dízimo, e a que mais cita a palavra. Mas o autor não está ensinando a igreja a contribuir; ele está provando que Jesus, sacerdote “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 7:17), é superior a todo o sacerdócio de Arão.

O argumento parte de Gênesis 14:20, em que Abrão volta da batalha, recebe a bênção de Melquisedeque e lhe dá “o dízimo de tudo”. A figura de Melquisedeque, o rei de Salém sem genealogia registrada, está apresentada em detalhe em quem foi Melquisedeque na Bíblia; aqui interessa o raciocínio que o autor constrói sobre o dízimo.

Dois gestos mostram que Melquisedeque era maior do que os descendentes levíticos de Abraão: ele recebeu o dízimo do patriarca e o abençoou.5 E o autor explica a regra do segundo gesto:

Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior. Hebreus 7:7

Em seguida vem a frase que surpreende o leitor de hoje: Levi, que recebia dízimos de Israel, “pagou dízimos” por meio de Abraão, “porque ainda ele estava nos lombos de seu pai” (Hebreus 7:9-10). O próprio autor suaviza a afirmação com “por assim dizer”. Ou seja, Abraão é tratado como o pai que representa toda a família sacerdotal que viria dele, e o texto não ensina que Levi existisse antes de nascer.6

O que Hebreus 7 permite concluir sobre o dízimo, então? Três coisas, e só elas:

  1. O dízimo é anterior à lei. Abraão o entregou séculos antes de Moisés, e Jacó prometeu fazer o mesmo em Betel (Gênesis 28:22). A prática era antiga, e outros povos da época também conheciam a entrega da décima parte;7
  2. O dízimo dos levitas era “segundo a lei” (Hebreus 7:5), ligado ao sacerdócio de Arão. Poucos versículos depois, o autor afirma que, “mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei” (Hebreus 7:12);
  3. O texto trata o dízimo de Abraão como um gesto legítimo de reconhecimento, e não como um erro a ser corrigido.

Repare que cada uma das três leituras que vamos comparar se apoia num desses pontos. Quem defende a permanência do dízimo lê o primeiro e o terceiro; quem o considera parte da lei de Moisés lê o segundo. Portanto, Hebreus 7, sozinho, não decide a questão, porque não foi escrito para isso.

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O que Paulo diz sobre contribuir

Paulo tratou de dinheiro em várias cartas, organizou uma coleta entre as igrejas da Galácia, da Macedônia e da Acaia e não usou a palavra dízimo nenhuma vez. O que ele ensinou está em três blocos: o sustento de quem serve, a coleta regular e a contribuição como graça.

O sustento de quem ensina (1 Coríntios 9 e Gálatas 6)

Em 1 Coríntios 9, Paulo defende o direito do obreiro de viver do seu trabalho, embora ele mesmo tenha aberto mão desse direito em Corinto. O argumento termina na prática do templo:

Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar, participam do altar? 1 Coríntios 9:13

Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho. 1 Coríntios 9:14

Os sacerdotes e levitas viviam das ofertas e dos dízimos que o povo levava, e Paulo aplica o mesmo princípio aos que servem sob a graça; a ordem do Senhor a que ele se refere é a de Mateus 10:10, “digno é o operário do seu alimento”.8 Em Gálatas 6:6, a instrução chega ao membro comum: “o que é instruído na palavra reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui”.

Ou seja, Paulo aproveita a lógica do dízimo levítico, o povo sustentando quem serve, sem transportar para a igreja a porcentagem.

A coleta regular e proporcional (1 Coríntios 16:1-2)

Família numa casa de Corinto separando moedas num baú no primeiro dia da semana, como em 1 Coríntios 16:2

No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar. 1 Coríntios 16:2

A coleta era para os santos pobres de Jerusalém (Romanos 15:26), e o versículo traz quatro instruções: regularidade (“no primeiro dia da semana”), participação de todos (“cada um de vós”), planejamento (“ponha de parte”) e proporção (“conforme a sua prosperidade”).

Os cristãos judeus estavam acostumados a dizimar, e Paulo não fixa proporção nenhuma; o dízimo pode servir de bom começo para quem aprende a contribuir, mas a medida cresce à medida que Deus dá mais.9

A contribuição como graça (2 Coríntios 8 e 9)

Os dois capítulos que Paulo dedica inteiramente à coleta começam pelo exemplo das igrejas da Macedônia, que eram pobres e, mesmo assim, “segundo o seu poder (o que eu mesmo testifico) e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente” (2 Coríntios 8:3). O modelo apresentado não é uma tabela, e sim Cristo, “que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre” (2 Coríntios 8:9).

Paulo poderia ordenar e escolhe não fazê-lo: “Não digo isto como quem manda, mas para provar, pela diligência dos outros, a sinceridade de vosso amor” (2 Coríntios 8:8). A medida que ele aceita está no versículo 12:

Porque, se há prontidão de vontade, será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não tem. 2 Coríntios 8:12

O versículo também protege o ofertante. Ele adverte contra dar ou prometer o que não se possui, na esperança de que Deus recompense, e lembra que a falha mais comum é a oposta: não aumentar a contribuição quando a renda aumenta.10

O que pesa diante de Deus é a proporção entre o que se dá e o que se tem, e não a quantia; a contribuição que nasce da graça tem método, mas não vira legalismo.11

E o capítulo 9 traz a regra que resume o assunto: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Coríntios 9:7). Somados, os dois capítulos pedem uma contribuição voluntária, sacrificial, alegre, proporcional aos bens de cada um e administrada com honestidade.12

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As três leituras evangélicas do dízimo hoje

Com os mesmos textos na mão, as igrejas evangélicas chegam a três conclusões principais. A tabela resume cada uma com os textos em que se apoia e a resposta que dá à objeção mais comum.

Leitura O que afirma Textos em que se apoia Como responde à objeção principal
O dízimo continua como norma a décima parte da renda pertence ao Senhor também na nova aliança Gênesis 14:20; Gênesis 28:22; Mateus 23:23; Hebreus 7:4-8 à objeção “isso é lei”, responde que o dízimo é anterior a Moisés e foi confirmado por Jesus
O dízimo pertence à lei de Moisés a porcentagem não obriga a igreja; vale a contribuição voluntária ensinada pelos apóstolos Hebreus 7:5, 12, 18; Romanos 6:14; 2 Coríntios 9:7 à objeção “Jesus mandou dizimar”, responde que Ele falava a judeus sob a lei, antes da cruz
Proporção, com o dízimo como ponto de partida a contribuição é proporcional à renda; a décima parte é um bom começo, e não um teto 1 Coríntios 16:2; 2 Coríntios 8:3, 12 à objeção “sem número, cada um dá o mínimo”, responde que regularidade e proporção são ordens apostólicas

1. O dízimo continua como norma. A primeira leitura entende que o que Abraão e Jacó praticaram antes da lei, e o que Jesus mandou não omitir, continua como medida do povo de Deus; nessa perspectiva, não devolver o dízimo como as Escrituras ensinam é uma infidelidade.13

2. O dízimo pertence à lei de Moisés. A segunda leitura começa por Hebreus 7:12: o dízimo era o sustento do sacerdócio levítico, e esse sacerdócio terminou em Cristo. Quem a sustenta lembra que nenhuma carta apostólica cobra porcentagem e que Paulo, tendo autoridade para mandar, preferiu não mandar (2 Coríntios 8:8). Nessa leitura, o cristão não é menos generoso; ele só não tem a décima parte como regra.

3. Proporção, com o dízimo como ponto de partida. A terceira fica no meio do caminho e é a do comentário bíblico mais citado neste estudo.9 Ela recebe do Antigo Testamento a disciplina da décima parte, como uma escola em que o crente aprende a administrar o que é de Deus, e recebe de Paulo a proporção que cresce com a renda. Ou seja, o dízimo é o começo, e não o teto.

A história da igreja ajuda a perceber que a discussão é antiga. No século 2, Irineu de Lião escreveu que o Senhor, em vez do simples pagamento do dízimo, ensinou a repartir todos os bens com os pobres, e que, libertos pela graça, os cristãos entregam ao Senhor os seus bens sem reservar a parte de maior valor, a exemplo da viúva pobre do templo.14 Ele não estava dispensando ninguém de contribuir; estava dizendo que a graça pede mais, e não menos.

O que as três leituras têm em comum é muito: todas ensinam que a igreja deve ser sustentada pelos seus membros, que o obreiro tem direito ao sustento, que a contribuição deve ser regular e que Deus olha o coração de quem dá. A diferença está no número, e não no dever de contribuir.

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Do Antigo ao Novo Testamento: o que mudou e o que permaneceu

A comparação abaixo mostra por que as três leituras são possíveis. Algumas linhas mudam bastante de um Testamento para o outro; outras quase não mudam.

Aspecto No Antigo Testamento No Novo Testamento
Quem recebia os levitas, por herança (Números 18:21); no terceiro ano, também o estrangeiro, o órfão e a viúva (Deuteronômio 14:28-29) os que ensinam a palavra (Gálatas 6:6; 1 Coríntios 9:14) e os santos necessitados (1 Coríntios 16:1; Romanos 15:26)
A base a lei da terra e do sacerdócio levítico (Levítico 27:30; Hebreus 7:5) a graça de Cristo, que se fez pobre (2 Coríntios 8:9)
A motivação as dízimas do campo “santas são ao Senhor” (Levítico 27:30) a sinceridade do amor (2 Coríntios 8:8) e a alegria de quem dá (2 Coríntios 9:7)
A medida a décima parte da colheita e do rebanho “conforme a sua prosperidade” (1 Coríntios 16:2), “segundo o que qualquer tem” (2 Coríntios 8:12)
A frequência ao ritmo das colheitas “no primeiro dia da semana” (1 Coríntios 16:2)

O que permaneceu é tão importante quanto o que mudou. Nos dois Testamentos, quem serve no altar é sustentado pelo povo, a contribuição tem tempo marcado, e o pobre está no destino da oferta. Sendo assim, o que mudou foi o centro: a lei entregava a medida pronta, e a graça entrega o motivo, deixando a medida à consciência de cada um diante de Deus.

O dízimo do Antigo Testamento tinha ainda uma vizinha que não se confunde com ele, a oferta das primícias, o primeiro e o melhor da colheita; a diferença entre as duas está explicada em primícias na Bíblia. E os textos de dízimo e oferta mais usados no ofertório, dos dois Testamentos, estão reunidos em versículos de dízimos e ofertas.

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Como ensinar o dízimo na igreja sem coação

Para quem ensina, a conclusão prática do estudo é que o Novo Testamento oferece um vocabulário muito claro sobre contribuir. Qualquer que seja a leitura da sua igreja, inclusive a que mantém a décima parte, dá para ensiná-la com as quatro palavras do próprio Paulo: a contribuição é voluntária, regular, proporcional e alegre.

O que o Novo Testamento não autoriza é a pressão. Paulo recusou mandar onde podia (2 Coríntios 8:8) e excluiu a contribuição feita “com tristeza, ou por necessidade” (2 Coríntios 9:7). E o tom de barganha, o dízimo apresentado como preço de uma bênção, é o que Franklin Ferreira e Alan Myatt chamam de “tentativa louca de vender o poder do Espírito”, condenada em Atos 8:18-19, quando Simão ofereceu dinheiro aos apóstolos.15

Existe ainda uma parte do ensino que não se faz no púlpito, e sim na tesouraria. Paulo levou a coleta acompanhado de irmãos escolhidos pelas igrejas e explicou o motivo: “zelamos do que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens” (2 Coríntios 8:21). Todo ministério precisa tratar o dinheiro recebido com o mesmo cuidado, para não dar ocasião a acusação nenhuma.9

Na prática, isso significa registrar cada entrega no dia, separar dízimo de oferta, emitir recibo a quem pedir e apresentar as contas à assembleia. Um controle de dízimos e ofertas bem feito é uma maneira de praticar 2 Coríntios 8:21 hoje. E, para o membro que decide entregar a décima parte e pergunta se ela incide sobre o salário bruto ou o líquido, a conta está em como calcular o dízimo.

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Reflexões Finais

O Novo Testamento cita o dízimo em nove versículos, todos de passagem, e nenhum deles foi escrito para regulamentar a oferta da igreja. Jesus mandou os fariseus não omitirem o dízimo, mas colocou acima dele a justiça, a misericórdia e a fé. Hebreus reconhece o dízimo de Abraão, mas o usa para mostrar que o sacerdócio de Levi deu lugar a Cristo. E Paulo ensinou a contribuir sem nunca citar a porcentagem.

Eu creio que é por isso que crentes sérios, com a mesma Bíblia aberta, chegam a conclusões diferentes sobre o número. Mas nenhum deles chega à conclusão de que o cristão pode deixar de contribuir! A pergunta que o texto faz a cada um de nós continua a de 2 Coríntios 8:8: o que a minha oferta prova sobre a sinceridade do meu amor?

E na sua igreja, o assunto é ensinado com os textos inteiros, ou só com os versículos que interessam a uma das leituras?

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Perguntas Frequentes

Jesus aboliu o dízimo?

Não. Em Mateus 23:23, Ele disse aos fariseus que deviam praticar a justiça, a misericórdia e a fé “e não omitir aquelas”, isto é, os dízimos. A dúvida que divide os evangélicos é outra: se essa palavra, dita a judeus antes da cruz, obriga também a igreja depois de Pentecostes.

O que Paulo diz sobre o dízimo?

Paulo não usa a palavra dízimo em nenhuma das suas cartas. Ele ensina a contribuir no primeiro dia da semana e conforme a prosperidade de cada um (1 Coríntios 16:2), a sustentar quem ensina a palavra (Gálatas 6:6) e a dar de forma voluntária e alegre (2 Coríntios 9:7), sem fixar porcentagem.

Onde fala no Novo Testamento sobre o dízimo?

Em Mateus 23:23 e Lucas 11:42, nas repreensões de Jesus aos fariseus; em Lucas 18:12, na parábola do fariseu e do publicano; e em Hebreus 7:2-9, no argumento sobre Melquisedeque. Atos e as demais cartas falam de coleta e oferta, mas não de dízimo.

O dízimo é obrigatório para o cristão?

Depende da leitura que a igreja adota. Para uns, a décima parte continua sendo a medida, porque é anterior à lei e foi confirmada por Jesus; para outros, ela pertencia ao sacerdócio levítico; e há quem a trate como ponto de partida, e não como teto. Todas as leituras evangélicas concordam que contribuir com regularidade para a obra é dever do cristão.

Quantas vezes aparece a palavra dízimo no Novo Testamento?

Na Almeida Corrigida Fiel são dez ocorrências em nove versículos, contando o verbo dizimar: Mateus 23:23, Lucas 11:42, Lucas 18:12 e Hebreus 7:2, 4, 5, 6, 8 e 9, que traz a palavra duas vezes. Outras traduções somam menos, porque traduzem parte de Hebreus 7 por “décima parte”.

Quais são os 4 pilares do dízimo?

A expressão não vem da Bíblia; é um esquema de pregação, e cada pregador monta a sua lista. Se a ideia é resumir o ensino apostólico sobre contribuir em quatro palavras, as de 1 Coríntios 16:2 e 2 Coríntios 9:7 servem bem: voluntária, regular, proporcional e alegre.

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Fontes

  1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. I. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 114.
  2. Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999, p. 1202 (nota em Lucas 11.42).
  3. Bíblia de Estudo de Genebra, p. 1212 (nota em Lucas 18.12).
  4. WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, NT vol. I, p. 323.
  5. Bíblia de Estudo de Genebra, p. 1471 (nota em Hebreus 7.4-10).
  6. Bíblia de Estudo de Genebra, p. 1472 (nota em Hebreus 7.9).
  7. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. II. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 388.
  8. WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, NT vol. I, p. 784.
  9. WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, NT vol. I, p. 815.
  10. Bíblia de Estudo de Genebra, p. 1381 (nota em 2 Coríntios 8.12).
  11. WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, NT vol. I, p. 860.
  12. FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 963.
  13. BOICE, James Montgomery. Fundamentos da Fé Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, pp. 591-592.
  14. IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias. São Paulo: Paulus (Coleção Patrística, vol. 4), livro IV, 13,3 e 18,2.
  15. FERREIRA; MYATT, Teologia sistemática, p. 906.

Termos gregos (apodekatoō, dekatē, dekatoō) conforme o léxico do STEPBible (Strong G586, G1181, G1183). Consultados também, sem gerar nota: FERREIRA; MYATT, Teologia sistemática, p. 962 (a coleta de 1 Coríntios 16 e 2 Coríntios 8), e as páginas sobre o dízimo de Respostas Bíblicas e de Biblia.com.br, para mapear como a pergunta é respondida hoje.

Citações bíblicas conforme a Almeida Corrigida Fiel; as contagens de ocorrências referem-se ao texto da ACF.

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