A Dinâmica das Epístolas de Paulo

Compreender a dinâmica dos livros da Bíblia Sagrada e a forma como os acontecimentos se desenrolaram sempre foi uma tarefa desafiadora. O principal motivo para isso é a ausência de uma datação nítida na maioria desses escritos.

O que temos, na verdade, são fatos e personagens históricos. Eles servem de referência para que possamos estabelecer o momento em que esses livros foram redigidos.

Por exemplo, o Evangelho de Lucas nos localiza no tempo de forma bem precisa:

“E, no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, e Herodes, tetrarca da Galileia, e seu irmão Filipe, tetrarca da Ituréia e da província de Traconites, e Lisânias, tetrarca da Abilene”
Lc 3.1 ARC

Nesse trecho de Lucas, encontramos várias informações históricas, datas e personagens que revelam a hierarquia do Império Romano. Ele menciona o imperador Tibério César, o governador Pôncio Pilatos e os governantes que dividiam o território judaico.

Portanto, cada livro bíblico possui um momento histórico específico. E isso não é diferente com as cartas escritas pelo apóstolo Paulo; todas estão inseridas dentro de um contexto no decorrer do tempo.

Para compreendermos melhor as epístolas paulinas, é fundamental conhecer o cenário em que elas foram produzidas.

O que é uma Epístola?

A palavra epístola vem do grego epistole (επιστολη), que significa simplesmente carta. Sendo assim, toda epístola apresenta um remetente, um assunto central e um destinatário.

Epístola

Até mesmo uma carta mais curta, como a destinada a Filemom, deixa claro quem é o autor (Paulo), qual é o tema (o escravo Onésimo) e quem a recebe (Filemom).

O conteúdo de uma epístola sempre inicia com uma breve apresentação. Logo após identificar o autor e o destinatário, há uma saudação característica. Veja o exemplo da Epístola aos Efésios:

“1 Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso e fiéis em Cristo Jesus:
2 a vós graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo”
Ef 1.1,2 ARC

Logo nesses primeiros versículos, identificamos o autor, os destinatários e a saudação inicial. Esse padrão se repete em todas as outras cartas do apóstolo.

Após essa introdução, o texto passa a tratar dos assuntos que motivaram a escrita. Na Epístola aos Efésios, por exemplo, Paulo aborda uma série de temas fundamentais:

  1. As bênçãos espirituais em Cristo (Ef 1:3-23);
  2. A nova vida em Cristo (Ef 2);
  3. O apostolado de Paulo (Ef 3:1-13);
  4. A oração de Paulo pelos crentes de Éfeso (Ef 3:14-21);
  5. A unidade do corpo de Cristo (Ef 4 1-16);
  6. A vida dos crentes (Ef 4:17-32 – 5:1-21);
  7. Os deveres conjugais (Ef 5:22-33);
  8. Os deveres dos pais e dos filhos (Ef 6:1-9);
  9. A armadura de Deus (Ef 6:10-20).

Finalmente, a carta é encerrada com uma bênção final, como lemos na conclusão aos Efésios:

“23 Paz seja com os irmãos e caridade com fé, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo.
24 A graça seja com todos os que amam o nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade. Amém!”
Ef 6.24 ARC

A Dinâmica das Epístolas Paulinas

Deixando de lado a Epístola aos Hebreus (devido ao seu estilo literário e outras características), o apóstolo Paulo é reconhecido como autor de 13 epístolas.

Podemos classificar esses escritos em três grandes grupos: eclesiásticas (para igrejas), pastorais (para pastores) e pessoais (para um indivíduo específico).

Dessa forma, Romanos, I e II Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses e I e II Tessalonicenses formam as epístolas eclesiásticas. Já I e II Timóteo e Tito compõem as pastorais, enquanto Filemom é a única epístola estritamente pessoal.

Além disso, muitos estudiosos do Novo Testamento adotam um agrupamento conhecido como as “Epístolas do Cativeiro”, que inclui Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom.

Esse grupo recebe tal nome porque foi escrito durante o período em que Paulo estava preso em Roma. Os destinatários são diversos: três igrejas regionais e um irmão na fé.

A tradição cristã reconhece a autoria paulina dessas 13 cartas. Embora alguns intérpretes façam observações pontuais sobre o estilo de certas epístolas, seguiremos a posição tradicional neste estudo.

Epístolas Paulinas

Uma ótima maneira de compreender o contexto das epístolas é traçarmos a linha do tempo das três viagens missionárias de Paulo, conforme relatadas no Livro de Atos.

Durante essas viagens, Paulo e seus companheiros eram guiados pelo Espírito Santo para visitar diversas regiões.

Eles se estabeleciam em uma cidade para anunciar o Evangelho. E, com a conversão de novas vidas, formava-se ali uma comunidade cristã.

Para cuidar desses novos irmãos, Paulo sempre designava um líder que daria continuidade ao trabalho pastoral. Feito isso, a equipe missionária partia para o próximo destino orientado pelo Espírito.

Viagens Missionárias de Paulo

A primeira viagem missionária (At 13 – 14.28) teve início na Antioquia da Síria. De lá, eles percorreram diversos locais, como Selêucia, Chipre, Salamina, Pafos, Perge, Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra, Derbe e Atália, até retornarem à Antioquia.

Primeira Viagem Missionária de Paulo

Na segunda viagem (At 15:40 – 18:22), a rota passou por Listra, Trôade, Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas, Corinto, Éfeso e Jerusalém, culminando mais uma vez na Antioquia da Síria.

Segunda Viagem Missionária de Paulo

Já na terceira viagem (At 18:22,23 – 21:15), Paulo e sua equipe saíram novamente de Antioquia e passaram pela Galácia, Frígia, Éfeso, Corinto, Trôade, Mileto, Tiro, Cesareia e Jerusalém.

Foi após esse período que Paulo acabou aprisionado e levado de Jerusalém para Roma (At 21:17-40), a grande capital do império.

Terceira Viagem Missionária de Paulo

Ao observar essas viagens, notamos claramente as passagens por Filipos, Tessalônica, Corinto, Éfeso e Galácia. Todas essas regiões foram evangelizadas pelo apóstolo e seus companheiros.

No entanto, o Livro de Atos não registra nenhuma visita de Paulo à região de Colossos. Pelo que lemos na epístola enviada a eles, aquela igreja foi fundada por Epafras, um fiel colaborador, como o próprio Paulo descreve:

“como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo, que para vós é um fiel ministro de Cristo”
Cl 1.7 ARC

De forma semelhante, também não há registros de que o apóstolo tenha visitado a comunidade de Roma antes de seu aprisionamento na cidade.

À medida que essas igrejas iam surgindo de cidade em cidade, os desafios e problemas não demoravam a aparecer.

Havia distorções doutrinárias, lutas por liderança, pressões para adotar ritos judaicos, uso inadequado dos dons espirituais, divisões, idolatria e falsos profetas.

Foram esses dilemas que motivaram a escrita das epístolas. Paulo precisava realinhar essas novas igrejas aos fundamentos do Evangelho que ele havia pregado.

Dinâmica das Epístolas de Paulo

Segundo intérpretes de peso, como F.F. Bruce e Craig Keener, essas cartas eram escritas a partir da cidade onde Paulo estava hospedado no momento.

Movido por grande zelo pastoral, sempre que recebia notícias preocupantes, ele dedicava tempo para exortar e orientar essas comunidades por escrito.

Vale lembrar que o processo de escrita era bem diferente do atual. O apóstolo costumava ditar o texto a um amanuense (escriba), que transferia as palavras para o papiro.

Vemos isso claramente no final da carta aos Romanos, onde o próprio escriba insere sua saudação:

“Eu, Tércio, que esta carta escrevi, vos saúdo no Senhor”
Rm 16.22 ARC

Com a carta pronta, o próximo passo era confiá-la a um portador de confiança, que assumiria os riscos de uma longa e perigosa viagem até o destino final.

Tíquico levou as mensagens aos crentes de Éfeso e Colossos. Epafrodito carregou a carta para os Filipenses. Já Febe, uma diaconisa de Cencreia, foi encarregada da importante Epístola aos Romanos.

Assim, cada documento representava um enorme esforço e dedicação de Paulo pelas igrejas que ele ajudara a fundar.

Diante disso, podemos organizar as treze cartas de acordo com o local provável de onde foram enviadas:

Epístola Local provável em que foi escrita
I Tessalonicenses Corinto (2ª viagem missionária)
II Tessalonicenses Corinto (2ª viagem missionária)
I Coríntios Éfeso (3ª viagem missionária)
II Coríntios Macedônia (3ª viagem missionária)
Gálatas Macedônia (3ª viagem missionária)
I Timóteo Macedônia (3ª viagem missionária)?
Romanos Corinto (3ª viagem missionária)
Colossenses Roma (durante o primeiro aprisionamento)
Efésios Roma (durante o primeiro aprisionamento)
Filipenses Roma (durante o primeiro aprisionamento)
Filemom Roma (durante o primeiro aprisionamento)
Tito Roma (após o primeiro aprisionamento?)
II Timóteo Roma (durante o segundo aprisionamento)

Independentemente do lugar ou das condições, Paulo se importava com as igrejas. Ele sempre encontrava um meio de consolar, corrigir e edificar o corpo de Cristo.

Mesmo privado de sua liberdade em Roma, ele não deixou de ministrar a Éfeso, Filipos, Colossos e ao seu amigo Filemom.

Por que entender essa dinâmica é importante hoje?

Conhecer o cenário por trás de cada carta não é apenas um detalhe histórico. Pelo contrário, é um cuidado essencial para qualquer cristão que deseja amadurecer na leitura bíblica.

Afinal, cada texto respondia a problemas reais em comunidades específicas. Se ignorarmos esse contexto, corremos o grave risco de distorcer versículos e aplicar as orientações de uma forma que o próprio autor nunca planejou.

Saber, por exemplo, que I Tessalonicenses é uma de suas primeiras cartas (início dos anos 50 d.C.) e que Romanos foi escrita na fase mais madura de seu ministério faz toda a diferença.

Isso nos permite acompanhar o amadurecimento teológico do apóstolo e entender a profundidade de seus ensinamentos.

Portanto, estudar a dinâmica das epístolas de Paulo nos leva muito além da história. Somos direcionados a uma leitura reverente, fiel e apaixonada por tudo o que o Espírito Santo nos deixou registrado.

Perguntas Frequentes sobre as Epístolas de Paulo

O que é uma epístola?

Epístola é a palavra grega para carta, e o sentido é literal: correspondência escrita por alguém, sobre um assunto determinado, para um leitor determinado. Por isso toda carta de Paulo permite identificar essas três coisas. A menor delas serve de exemplo: quem assina é Paulo (Fm 1:1, ACF), o motivo do envio é o escravo Onésimo (Fm 1:10, ACF) e quem recebe é Filemom, em cuja casa a igreja se reunia (Fm 1:2, ACF).

Quantas epístolas Paulo escreveu, e por que Hebreus não entra na conta?

São treze cartas atribuídas a ele pela tradição cristã, de Romanos a Filemom. Hebreus vem logo em seguida no Novo Testamento, mas fica fora dessa contagem por dois motivos: a carta não se apresenta pelo nome de quem a escreve, começando direto no argumento (Hb 1:1, ACF), e o estilo destoa do que se lê nas demais. É por seguir essa posição tradicional que o presente estudo mantém a conta em treze.

Qual é a diferença entre epístolas eclesiásticas, pastorais e pessoais?

A diferença está em quem recebe a carta. Nove delas vão a comunidades inteiras e por isso se chamam eclesiásticas: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses. Outras três, as pastorais, chegam às mãos de homens encarregados de cuidar de igrejas, que são 1 e 2 Timóteo e Tito. Sobra Filemom, a única estritamente pessoal, dirigida a um cristão a respeito de um assunto de sua própria casa.

O que são as Epístolas do Cativeiro?

São as quatro cartas escritas durante a prisão de Paulo em Roma: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. O nome vem da circunstância do autor, não do assunto tratado. Três delas atravessam o império até igrejas de regiões distintas; a quarta é dirigida a um só cristão.

Paulo esteve em Colossos e em Roma antes de escrever àquelas igrejas?

Não há registro disso. O nome Colossos aparece uma única vez em toda a Bíblia, no endereçamento da própria carta (Cl 1:2, ACF), e Atos não narra nenhuma passagem do apóstolo por lá. Ele mesmo se dirige aos que “não viram o meu rosto em carne” (Cl 2:1, ACF), e a fé chegou àquela cidade por Epafras (Cl 1:7, ACF). Quanto a Roma, Paulo escreve dizendo que havia proposto ir muitas vezes e fora impedido até então (Rm 1:13, ACF); chegaria depois, e como prisioneiro.

Paulo escrevia as cartas de próprio punho?

Em geral, não: ele ditava a um amanuense, o secretário que passava as palavras ao papiro. O de Romanos se identifica no fim da carta: “Eu, Tércio, que esta carta escrevi, vos saúdo no Senhor” (Rm 16:22, ARC). Pronta a carta, vinha a parte mais arriscada, que era a viagem até o destinatário, confiada a um portador. Tíquico ficou encarregado de dar notícias de Paulo em Éfeso e em Colossos (Ef 6:21 e Cl 4:7, ACF), Epafrodito voltou aos filipenses que o haviam enviado (Fp 2:25, ACF) e Febe, que servia na igreja de Cencreia, é quem o apóstolo recomenda aos romanos (Rm 16:1, ACF).

Por que saber de onde e quando cada carta foi escrita muda a leitura?

Porque cada uma responde a um problema determinado que alguém estava vivendo: um erro de doutrina, uma disputa de liderança, a pressão para adotar ritos judaicos. Passar por cima disso é o caminho mais curto para extrair do versículo uma ordem que o autor jamais deu.

Há ainda a distância entre a posição da carta no volume e a data em que foi escrita: 1 Tessalonicenses está entre as primeiras de Paulo, e Romanos, que aparece bem antes no índice, pertence a uma fase madura do ministério. Quem lê nessa chave acompanha, de carta em carta, o amadurecimento do apóstolo e a ocasião que arrancou dele cada texto.

E você?

O que a compreensão dessa dinâmica muda na sua forma de estudar as epístolas?

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Fique na Paz!

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