O que é Circuncisão na Bíblia: O Sinal da Aliança do Gênesis ao Novo Testamento

A circuncisão na Bíblia entra em cena com três idades muito diferentes no mesmo dia: Abraão, com noventa e nove anos; Ismael, com treze; e todos os homens da casa dele, inclusive os estrangeiros comprados por dinheiro. Só a partir da geração seguinte o rito passaria a ser feito no oitavo dia de vida.

O próprio texto dá o nome daquilo que está sendo instituído: um sinal de aliança. E um sinal existe para indicar uma realidade, não para produzi-la.

Hoje, vamos acompanhar esse sinal ao longo de toda a Escritura. De onde ele veio, como era praticado em Israel, o que aconteceu na igreja primitiva quando alguém quis transformá-lo em condição de salvação, e onde a própria Escritura diz que ele sempre apontou.

O que é circuncisão na Bíblia

No sentido literal, circuncisão é a remoção da pele que cobre a extremidade do órgão sexual masculino, o prepúcio. A Escritura trata o procedimento de forma direta e sem detalhe, porque o interesse dela está inteiramente no que aquilo significava.

E o significado está declarado no texto que institui o rito: ele é sinal da aliança que Deus fez com Abraão. Quem trazia a marca estava identificado como parte daquele povo, e quem não a trazia estava fora dele.

Portanto, a circuncisão bíblica pertence à mesma família de outros sinais visíveis que Deus estabeleceu, como o arco-íris depois do dilúvio e a guarda do sábado. São marcas dadas por Deus para que uma promessa dele fique reconhecível entre os homens.

Existe ainda um segundo nível, e ele nasce dentro do próprio Antigo Testamento. Antes de qualquer apóstolo escrever uma linha, Moisés e os profetas já mandavam Israel circuncidar o coração — e é para lá que este artigo caminha.

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Gênesis 17: o rito instituído como sinal

Tudo começa numa aparição a Abraão, quando ele tinha noventa e nove anos:

Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será circuncidado. E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós. Gênesis 17:10-11

O relato de Abraão traz duas alianças, e a diferença entre elas é importante. Em Gênesis 15 Deus garante a descendência e a terra, sem condição alguma; a aliança de Gênesis 17 é apresentada como perpétua e vem precedida de uma ordem — “anda em minha presença e sê perfeito” —, de modo que ela concentra a atenção em Abraão como pai de muitas nações.1

O versículo seguinte diz quem deveria receber a marca:

O filho de oito dias, pois, será circuncidado, todo o homem nas vossas gerações; o nascido na casa, e o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua descendência. Gênesis 17:12

O estrangeiro sem parentesco nenhum com Abraão entra no sinal já na primeira aplicação dele. Ou seja, desde o dia da instituição a marca dizia respeito a pertencer àquela casa, e não a ter nascido dentro de uma linhagem.2

Foi assim que a coisa aconteceu de fato. Abraão circuncidou Ismael, os nascidos em casa, os comprados de estrangeiros e a si mesmo, tudo no mesmo dia (Gênesis 17:23-27) — e a promessa que ele recebeu ali só se cumpriria muito depois, como conta a história de Abraão e a fé que esperou cem anos.

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Um costume que já existia, com um propósito novo

A circuncisão não foi inventada em Gênesis 17. Vários povos do antigo Oriente Próximo já a praticavam antes de Abraão, ligando o gesto à puberdade, à fertilidade ou ao casamento, e Israel não estava sozinho nisso.3

O que muda com Abraão é o propósito. O mesmo gesto que os vizinhos usavam para marcar passagem de idade ou entrada numa família passa a marcar pertencimento à comunidade da aliança — e essa transformação de um costume comum em sinal de algo novo é um procedimento que Deus repete em outros momentos, como na instituição da Páscoa.4

Ainda no século II, o filósofo pagão Celso atacava a Bíblia dizendo que Israel havia tomado dos egípcios o hábito de circuncidar.5 A resposta de Orígenes a esse ataque foi escrita por volta de 248 d.C., cerca de setenta anos depois dele.

Sendo assim, a pergunta que o texto responde é outra: o que o gesto passou a dizer depois que Deus o tomou para si. Um homem circuncidado no mundo de Abraão anunciava fertilidade ou casamento, e um homem circuncidado na casa de Abraão anunciava uma promessa recebida de Deus.

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O oitavo dia e a faca de pedra

O prazo é fixado em Gênesis 17:12 e repetido na lei de Moisés, como norma para todo menino nascido em Israel:

E no dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio. Levítico 12:3

Sobre o instrumento, existem dois textos que mencionam pedra. Zípora circuncidou o filho com “uma pedra aguda” no caminho de volta ao Egito (Êxodo 4:25), e Josué recebeu a ordem de fazer facas de pedra antes de circuncidar o povo em Gilgal (Josué 5:2).

A escolha do material é tradição, e não falta de recurso. Tanto no Egito quanto entre os israelitas o rito continuou sendo feito com lasca de pedra muito depois de as ferramentas de metal se tornarem comuns, porque era essa a lâmina associada aos rituais antigos.6

Outro detalhe da prática ajuda a entender a cena de Gênesis 34, em que os homens de Siquém aceitam ser circuncidados. Feito em adultos, o procedimento doía muito e tirava de combate a população masculina inteira por dias seguidos7 — foi essa janela que os filhos de Jacó exploraram.

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Abraão foi declarado justo antes de receber o sinal

Aqui está o dado que Paulo usa como base de todo o argumento dele em Romanos, e ele é simplesmente uma questão de ordem no texto de Gênesis. A fé de Abraão foi contada como justiça em Gênesis 15:6, e o rito só é instituído dois capítulos depois.

E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles também na incircuncisão. Romanos 4:11

Paulo não está diminuindo o rito. Ele está lendo a sequência dos capítulos, e usa o mesmo tipo de raciocínio na carta aos Gálatas, ao lembrar que Abraão viveu quatrocentos e trinta anos antes de a lei ser dada (Gálatas 3:17).8 A marca chegou depois, como selo de algo que já existia.

Portanto, a função do sinal fica estabelecida pela própria cronologia do relato. Ele confirmava uma relação com Deus; nunca a produziu.

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Gilgal: a geração que atravessou o deserto sem o sinal

Facas de Pedra e o Acampamento de Israel em Gilgal

Josué 5 registra um período inteiro em que Israel deixou a ordem de Gênesis 17 de lado. Durante os quarenta anos no deserto, os meninos que nasciam pelo caminho ficaram sem a marca.

O acerto de contas veio já dentro da terra prometida:

E foi esta a causa por que Josué os circuncidou: todo o povo que tinha saído do Egito, os homens, todos os homens de guerra, já haviam morrido no deserto, pelo caminho, depois que saíram do Egito. Josué 5:4

A operação parou o acampamento inteiro, que ficou no arraial até sarar (Josué 5:8), do lado oriental de Jericó (Josué 4:19). O texto narra a cena sem nenhum constrangimento, e a ordem de prioridade que ela mostra é a do próprio livro: o sinal veio antes da primeira batalha.

O que o Senhor diz em seguida explica o gesto: “Hoje retirei de sobre vós o opróbrio do Egito” (Josué 5:9). A geração que entrava na terra recebeu ali a marca que os pais dela haviam deixado de dar.

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Jesus foi circuncidado ao oitavo dia

Lucas registra o cumprimento da norma no caso de Jesus, e junta o rito ao nome:

E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido. Lucas 2:21

O versículo é curto, porém diz duas coisas de uma vez. Jesus nasceu sob a lei e sob ela foi criado, como qualquer menino judeu do primeiro século; e o nome anunciado pelo anjo foi dado no dia do sinal da aliança.

Sendo assim, quando o Novo Testamento discutir se os gentios convertidos precisam ser circuncidados, o assunto não será o valor do rito para Israel. Será outra pergunta, e é a que vem a seguir.

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Quando o sinal virou exigência: Atos 15 e Gálatas

O problema aparece em Antioquia, com uma frase que Lucas registra com todas as letras:

Então alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos. Atos 15:1

Repare no que foi acrescentado. A circuncisão deixou de ser apresentada como sinal de uma aliança e passou a ser apresentada como condição para a salvação. É um peso diferente do que Gênesis 17 lhe atribui, e a mudança está toda no acréscimo daquela última oração.

A questão foi levada a Jerusalém, e a reunião que se seguiu ficou conhecida como Concílio de Jerusalém. Ou seja, o assunto foi tratado como matéria de doutrina, e não como divergência local de costume. Pedro respondeu com uma pergunta:

Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar? Atos 15:10

A resolução foi que a circuncisão não seria exigência para os convertidos gentios, ainda que com alguma oposição, e a carta enviada às igrejas da Síria e da Cilícia pediu deles outras coisas, não essa.9

Paulo trata do mesmo assunto na carta aos Gálatas, e a formulação dele é mais dura porque o contexto era de igrejas já fundadas sendo pressionadas a mudar:

Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor. Gálatas 5:6

A frase merece leitura atenta. Ele não diz que a circuncisão passou a ser errada, e sim que ela deixou de valer como critério — tanto quanto a incircuncisão deixou de valer.

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Timóteo e Tito: o mesmo rito, duas decisões opostas

Dois episódios muito próximos mostram como Paulo aplicava esse critério na prática, e eles parecem se contradizer até que se olhe o motivo de cada um.

Caso O que Paulo fez O que o texto dá como razão
Timóteo (Atos 16:3) circuncidou “por causa dos judeus que estavam naqueles lugares; porque todos sabiam que seu pai era grego”
Tito (Gálatas 2:3) não circuncidou “nem ainda Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se”

No caso de Timóteo, a questão era de acesso ao trabalho. Ele era filho de mãe judia crente e de pai grego (Atos 16:1), e acompanharia Paulo justamente nas cidades onde a situação da família dele era conhecida. Nada estava sendo decidido ali sobre salvação.

No caso de Tito, o verbo que Paulo escolhe é constrangido. Havia gente exigindo o rito como condição, e ceder ali significaria conceder exatamente o ponto que o Concílio de Jerusalém havia negado.

Ou seja, o mesmo apóstolo faz e deixa de fazer a mesma coisa, e a diferença está inteira na pergunta que estava em jogo. Quando a circuncisão era costume, ele a tratou como costume; quando foi apresentada como exigência para pertencer a Cristo, ele recusou.

Esse critério acompanha o ministério inteiro dele, e o percurso está reunido na história completa do apóstolo Paulo, de Tarso a Roma.

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A circuncisão do coração

A leitura interior do rito já está na lei de Moisés, séculos antes de Paulo:

Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz. Deuteronômio 10:16

Alguns capítulos adiante, o mesmo livro promete que o próprio Deus fará a obra: “o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência” (Deuteronômio 30:6). Jeremias repete a ordem à sua geração, em Jeremias 4:4.

Portanto, quando Paulo escreve aos romanos sobre o judeu interior, ele está retomando algo que os leitores judeus já conheciam da própria Escritura:

Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus. Romanos 2:29

Colossenses 2:11 dá um nome a essa obra: uma circuncisão “não feita por mão”, que o texto atribui a Cristo. O adjetivo é a chave: o que Cristo realiza ali é obra dele, e a pessoa a recebe.

O uso figurado da palavra vai além do coração e alcança lábios, ouvidos e até o fruto de uma árvore. Esses outros usos estão reunidos no artigo sobre o significado bíblico de incircunciso.

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Reflexões Finais

Da instituição em Gênesis até as cartas de Paulo, a circuncisão é tratada como aquilo que Gênesis 17:11 declarou: um sinal. Ele identificava, confirmava e distinguia, e chegou a Abraão depois da fé que ele já tinha.

O conflito da igreja primitiva não nasceu do rito, mas do peso que lhe foi atribuído. Assim que alguém escreveu “não podeis salvar-vos”, a discussão deixou de ser sobre um costume antigo e passou a ser sobre o suficiente da obra de Cristo — e foi por isso que os apóstolos não trataram o assunto como detalhe.

A ordem de circuncidar o coração, por sua vez, atravessa os dois Testamentos sem mudar de sentido. O que Deuteronômio pede e Deuteronômio promete é o mesmo que Paulo descreve, e a promessa é sempre a parte mais forte: o Senhor circuncidará o teu coração.

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Perguntas Frequentes

O que significa a circuncisão para Deus?

Significa sinal de aliança. Em Gênesis 17:11 Deus chama o rito de “sinal da aliança entre mim e vós”, ou seja, uma marca visível de que aquela pessoa pertencia ao povo com quem Ele havia feito uma promessa.

O sinal não conferia mérito nem salvação. Romanos 4:11 o descreve como “selo da justiça da fé”, recebido por Abraão depois de ele já ter sido declarado justo.

Quando a circuncisão deixou de ser exigida?

Na igreja primitiva, por decisão registrada em Atos 15. Alguns cristãos vindos da Judeia ensinavam que sem a circuncisão não havia salvação, e a questão foi levada aos apóstolos e presbíteros em Jerusalém.

A resolução foi que os gentios convertidos não seriam obrigados ao rito. Paulo desenvolve o mesmo ponto em Gálatas 5:6, ao dizer que em Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum.

Jesus foi circuncidado?

Sim. Lucas 2:21 registra que Ele foi circuncidado quando se cumpriram os oito dias, conforme a norma de Levítico 12:3, e que nesse mesmo dia recebeu o nome anunciado pelo anjo.

O episódio mostra que Jesus nasceu e foi criado sob a lei, cumprindo o que ela pedia de qualquer menino judeu do primeiro século.

O que é a circuncisão do coração na Bíblia?

É a expressão que a própria Escritura usa para descrever uma disposição interior de obedecer a Deus, em contraste com a marca externa. Deuteronômio 10:16 traz a ordem, Jeremias 4:4 a repete e Deuteronômio 30:6 promete que Deus mesmo fará essa obra.

Paulo retoma a imagem em Romanos 2:29, e em Colossenses 2:11 ela aparece como uma circuncisão “não feita por mão”, realizada por Cristo.

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Fontes

  1. ALEXANDER, T. Desmond. Do Paraíso à Terra Prometida: uma introdução ao Pentateuco. São Paulo: Editora Vida Nova, p. 77.
  2. Ibid., p. 78.
  3. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, p. 48 (comentário em Gênesis 17.9-14).
  4. Ibid., p. 84 (comentário em Êxodo 12.1-28).
  5. YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, p. 99.
  6. WALTON, op. cit., p. 81 (comentário em Êxodo 4.25).
  7. WALTON, op. cit., p. 66 (comentário em Gênesis 34.13-17).
  8. BOICE, James Montgomery. Fundamentos da Fé Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, p. 224.
  9. BRUCE, F. F. Pedro, Estêvão, Tiago e João: estudos do cristianismo não-paulino. São Paulo: Shedd Publicações, p. 27-28.

Citações bíblicas conforme a Almeida Corrigida Fiel.

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