Presciência de Deus: O Que Significa e as Duas Leituras da Eleição

A presciência de Deus é o conhecimento que Deus possui dos acontecimentos antes que eles aconteçam. O termo aparece poucas vezes na Bíblia, e é um dos atributos divinos sobre os quais cristãos igualmente comprometidos com as Escrituras chegaram a conclusões diferentes.

A dificuldade não está em afirmar que Deus sabe o futuro, pois nisso as duas leituras concordam sem reserva. Ela aparece quando se pergunta o que Deus faz com esse conhecimento na escolha de quem será salvo, ou seja, se a eleição se baseia naquilo que Deus previu ou se o próprio conhecimento já é a escolha.

Hoje, vamos ver o que a Bíblia chama de presciência, o que o termo grego traz de informação, os textos em que ele aparece, e as duas leituras apresentadas lado a lado, com os argumentos de cada uma vindos de quem a defende.

O que a Bíblia chama de presciência

Presciência é palavra formada por pre (antes) e ciência (conhecimento), e significa literalmente conhecimento prévio. Aplicada a Deus, ela descreve o fato de que nada no futuro lhe é novidade.

Esse conhecimento não é uma dedução bem-feita a partir do presente. A Escritura o apresenta como característica que distingue o Deus verdadeiro dos ídolos:

Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade. Isaías 46:10

Portanto, a presciência está contida na onisciência divina. Quando dizemos que Deus é onisciente, estamos dizendo que Ele conhece todas as coisas, e o futuro está incluído nesse “todas”.

Existe, porém, uma diferença entre presciência e providência que vale registrar, pois as duas palavras são vizinhas e costumam ser confundidas. Presciência é conhecer de antemão; providência é o governo ativo de Deus sobre aquilo que acontece.1

Sendo assim, a pergunta que abre o debate trata da relação entre aquilo que Deus sabe e aquilo que Ele determina.

Voltar ao topo

O termo grego e a ambiguidade que ele carrega

No Novo Testamento, duas palavras gregas aparecem nesse campo, e as duas vêm da mesma raiz.

Termo grego Transliteração Onde aparece Tradução comum
πρόγνωσις prognōsis 1 Pedro 1:2 · Atos 2:23 presciência, conhecimento prévio
προγινώσκω proginōskō Romanos 8:29 · Romanos 11:2 conhecer de antemão

O substantivo prognōsis é o mesmo de onde vem “prognóstico” em português, e o sentido de conhecimento antecipado é direto.

O verbo proginōskō é onde mora a discussão. Os léxicos do Novo Testamento registram para ele duas glosas: conhecer de antemão e escolher de antemão. Ou seja, a ambiguidade está no próprio verbo, e não na argumentação de um dos lados.

A distribuição das ocorrências ajuda a ver a diferença entre as duas palavras. O substantivo prognōsis aparece duas vezes no Novo Testamento, e as duas se referem a Deus. O verbo proginōskō aparece cinco vezes, sendo três a respeito de Deus (Romanos 8:29, Romanos 11:2 e 1 Pedro 1:20) e duas a respeito de pessoas: em Atos 26:5, os judeus que conheciam Paulo desde o princípio, e em 2 Pedro 3:17, os leitores que sabem de algo de antemão.

Portanto, o verbo possui uso mais amplo que o substantivo, e é dele que os dois lados extraem os seus argumentos.

Existe ainda um dado do Antigo Testamento que pesa aqui. O verbo hebraico traduzido por “conhecer” é usado em sentido relacional, e não apenas informativo:

De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades. Amós 3:2

Deus obviamente sabia da existência das outras famílias da terra. Portanto, “conhecer” nesse versículo não pode significar apenas ter informação a respeito, e significa algo mais próximo de escolher para uma relação.

Este é o ponto exegético que sustenta a discussão inteira, e ele é aceito pelos dois lados. O que se discute é se Romanos 8:29 usa o verbo nesse sentido relacional ou no sentido de previsão.

Voltar ao topo

Os textos em que a presciência aparece

São poucos, e vale lê-los agrupados antes de ouvir qualquer argumento.

Primeiro grupo — a presciência ligada à eleição:

Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas. 1 Pedro 1:2

Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8:29

Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Romanos 11:2

Segundo grupo — a presciência ligada à cruz:

A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos. Atos 2:23

Repare que em Atos 2:23 a presciência vem acompanhada do “determinado conselho”, e não sozinha. São dois termos distintos na mesma frase, e o texto atribui a entrega de Cristo aos dois.

Terceiro grupo — o conhecimento de Deus sobre a pessoa antes dela existir:

Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta. Jeremias 1:5

Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia. Salmos 139:16

Quarto grupo — a eleição situada antes da fundação do mundo:

Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade. Efésios 1:4-5

Vale notar que o mesmo verbo aplicado aos eleitos é aplicado a Cristo em 1 Pedro 1:20, que fala dele como “conhecido, ainda antes da fundação do mundo”. Ninguém sustenta que o Pai apenas previu o Filho, o que mostra que o verbo comporta mais do que previsão em pelo menos um uso.

Voltar ao topo

A leitura arminiana: Deus prevê sem determinar

Nesta leitura, a presciência é conhecimento antecipado no sentido estrito, e a eleição se baseia nela.

Deus, conhecendo o futuro, vê quem responderá ao evangelho pela fé, e elege essas pessoas para a herança que lhes está reservada. O conhecimento antecede a escolha e a fundamenta.

O argumento central é sobre a natureza da previsão. Prever um acontecimento não é o mesmo que causá-lo, e a presciência de Deus a respeito do uso que a pessoa fará do livre-arbítrio não a obriga a escolher um destino ou outro. Nas palavras de Myer Pearlman, Deus prevê sem intervir.2

Aplicado a 1 Pedro 1:2, isso significa que a eleição é “segundo a presciência” no sentido de estar fundamentada nela. Pearlman descreve assim o que Deus faz: “previu que essas pessoas aceitariam o evangelho e permaneceriam salvos, e predestinou para essas pessoas uma herança celestial. Ele previu o destino delas, mas não o fixou.”3

A ordem da frase é o apoio gramatical dessa leitura. Em Romanos 8:29 a presciência vem primeiro e a predestinação vem depois, ligadas por “também”, o que sugere que a segunda decorre da primeira.

Esta é a posição historicamente associada a Jacó Armínio, e é a que se encontra tipicamente nas igrejas de tradição wesleyana e pentecostal.

Voltar ao topo

A leitura reformada: conhecer de antemão já é escolher

Nesta leitura, “conhecer de antemão” em Romanos 8:29 não descreve informação sobre a pessoa, e sim a decisão de colocá-la em relação com Deus. A eleição não se baseia em algo previsto no ser humano; ela se baseia no beneplácito da vontade divina.

O apoio principal é o uso relacional do verbo, que já vimos em Amós 3:2 e em 1 Pedro 1:20. Se “conhecer” ali significa escolher para uma relação, então Romanos 8:29 diz que Deus predestinou aqueles a quem Ele mesmo decidiu conhecer.

O segundo apoio é a objeção lógica à outra leitura. Se a eleição depende da fé prevista, então a causa última da salvação estaria na resposta humana, o que os reformados entendem como incompatível com a graça sendo inteiramente de Deus.

Este ponto pertence a uma discussão maior, sobre a ordem dos acontecimentos na salvação, que tratamos no artigo sobre soteriologia.

R. C. Sproul chama a leitura anterior de “ponto de vista de presciência”, e a descreve como a versão popular da predestinação: aquela em que a eleição de Deus se baseia naquilo que Ele antevê que a pessoa fará.4

A Confissão de Fé de Westminster, que é o documento doutrinário dessa tradição, trata a presciência dentro da providência, falando de Deus governando todas as coisas “segundo a Sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da Sua própria vontade”.5

Esta é a posição associada a João Calvino, e é a que se encontra tipicamente nas igrejas de confissão reformada.

Voltar ao topo

Onde as duas leituras concordam

Dois Cristãos Comparando as Duas Leituras da Eleição com as Bíblias Abertas

Este é o trecho que costuma ficar de fora dos artigos sobre o assunto, e ele é maior do que a discussão sugere.

Primeiro: as duas afirmam que Deus conhece o futuro integralmente. Nenhuma das posições ortodoxas limita a onisciência divina. As leituras que negam a Deus o conhecimento das decisões livres futuras são uma terceira coisa, fora do escopo deste debate.

Segundo: as duas afirmam que a salvação é pela graça, mediante a fé, e que ninguém se salva por mérito próprio. O que se discute é a ordem lógica entre a graça e a fé, pois as duas leituras afirmam que ambas existem e que ambas são necessárias.

Terceiro: as duas leituras precisam da presciência. Sproul, escrevendo do lado reformado, reconhece que a predestinação tem de começar com a presciência, seja qual for a posição que se sustente, porque Deus não pode predestinar alguém que Ele não conheça de antemão.6

Ou seja, a presciência não é o território de um dos lados. A diferença está no que se entende que ela contém, e não em admiti-la.

Voltar ao topo

O que a história do debate mostra

A discussão é antiga e passou por Agostinho, pela Reforma e pelo Sínodo de Dort, em 1618.

Foram os calvinistas posteriores, e não Calvino, que fizeram da predestinação um corolário da presciência e da onipotência de Deus. Calvino havia tratado a predestinação sob a rubrica da salvação, como expressão da experiência de ser salvo; a geração seguinte transformou a doutrina em marca de ortodoxia.7

Isso não resolve a questão exegética, mas ajuda a entender por que o tema chegou até nós com o peso de fronteira denominacional que ele tem hoje. Boa parte da temperatura do debate é herança do século XVII.

Voltar ao topo

Reflexões Finais

Independentemente da leitura que se adote, a Escritura trata a presciência com um propósito prático, e não especulativo. Ela aparece para dar segurança a quem crê, e não para alimentar disputa.

Em 1 Pedro 1:2 o destinatário é uma igreja perseguida, espalhada pela Ásia Menor, e a presciência entra como consolo: aquilo que lhes acontecia não havia escapado a Deus. Em Atos 2:23 o alvo é a cruz, e Pedro afirma diante da multidão que aquela injustiça também estava dentro do conhecimento e do conselho divinos.

Pearlman resume bem o ponto de parada, e vale para os dois lados: é inevitável esbarrar em mistério ao tratar da presciência de Deus e da vontade do homem, mas quem se dedica às exortações práticas das Escrituras não erra o caminho.8

As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. Deuteronômio 29:29

Uma observação de método para quem vai ensinar isso na igreja. Este assunto pertence ao grupo de doutrinas em que cristãos ortodoxos divergem, ao lado da natureza do homem e do momento do arrebatamento, e é diferente das doutrinas estruturais da fé, como a Trindade e as duas naturezas de Cristo.

Portanto, apresentar as duas leituras com os argumentos de cada uma serve melhor à congregação do que apresentar uma só como se fosse a única possível.

Voltar ao topo

Pontos Principais a Recordar

  1. Presciência é conhecimento prévio, e está contida na onisciência de Deus. Providência é outra coisa: o governo ativo de Deus sobre aquilo que acontece;
  2. O termo grego carrega duas possibilidades: proginōskō significa conhecer de antemão e também escolher de antemão. A ambiguidade está no verbo, e não na argumentação de um dos lados;
  3. O uso relacional de “conhecer” é fato do texto: em Amós 3:2 e em 1 Pedro 1:20 o verbo não pode significar apenas ter informação. Os dois lados aceitam isso;
  4. A leitura arminiana entende que Deus previu quem creria e elegeu essas pessoas: Ele previu o destino delas, mas não o fixou;
  5. A leitura reformada entende que conhecer de antemão é escolher para relação, e que a eleição se funda no beneplácito da vontade de Deus, não em algo previsto no ser humano;
  6. As duas concordam em mais do que discordam: Deus conhece o futuro integralmente, a salvação é pela graça mediante a fé, e a predestinação pressupõe a presciência em qualquer das leituras;
  7. O propósito bíblico do tema é pastoral: nos dois textos principais, a presciência aparece para dar segurança a quem sofre, e não para fundamentar especulação.

Voltar ao topo

Perguntas Frequentes

O que quer dizer “eleitos segundo a presciência de Deus”?

A expressão está em 1 Pedro 1:2 e liga a eleição dos crentes ao conhecimento prévio de Deus Pai. A discussão está na palavra “segundo”: ela pode indicar que a eleição é fundamentada naquilo que Deus previu, ou que ela é conforme o conhecimento eletivo de Deus, no sentido de escolha.

Vale reparar no contexto da carta, que costuma ser esquecido. Pedro escreve a cristãos dispersos e perseguidos, e a frase aparece na saudação, como consolo — a situação deles não pegou Deus de surpresa.

Qual a diferença entre presciência e predestinação?

Presciência é conhecer de antemão; predestinação é determinar de antemão um destino. Em Romanos 8:29 as duas aparecem em sequência, com a presciência vindo primeiro e a predestinação em seguida.

A relação entre elas é justamente o objeto do debate. Para uns, a predestinação decorre daquilo que a presciência viu; para outros, a presciência já é a escolha que a predestinação executa.

A presciência de Deus anula o livre-arbítrio?

Quem sustenta a leitura arminiana responde que não, com o argumento da distinção entre previsão e causa: Deus prevê sem intervir, e a escolha continua sendo da pessoa.

Quem sustenta a leitura reformada trabalha a questão de outro modo, entendendo que a vontade humana é real, mas não é a causa última da salvação, que está na graça de Deus. As duas posições afirmam que o ser humano decide e responde de verdade.

Presciência é a mesma coisa que onisciência?

Não são termos intercambiáveis, embora estejam ligados. Onisciência é o conhecimento de todas as coisas; presciência é a parte desse conhecimento que se refere ao que ainda não aconteceu.

Ou seja, a presciência está contida na onisciência. Afirmar a onisciência de Deus já implica afirmar que Ele conhece o futuro.

Voltar ao topo

Fontes

  1. SPROUL, R. C. Somos Todos Teólogos: uma introdução à teologia sistemática. São José dos Campos: Fiel, 2014, p. 98.
  2. PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 2006, p. 55.
  3. PEARLMAN, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, p. 225.
  4. SPROUL, Somos Todos Teólogos, p. 250.
  5. BOICE, James Montgomery. Fundamentos da Fé Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 156.
  6. SPROUL, Somos Todos Teólogos, p. 259.
  7. GONZÁLEZ, Justo L. Uma Breve História das Doutrinas Cristãs. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 126.
  8. PEARLMAN, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, p. 228.

Nota sobre as citações bíblicas: todas as citações deste artigo seguem a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF). As formas gregas foram conferidas no texto do Novo Testamento com numeração de Strong.

Voltar ao topo

Deixe um comentário