Soteriologia: A Doutrina da Salvação

Soteriologia é a parte da teologia que estuda a salvação — o que Deus fez em Cristo para salvar pecadores e como essa obra chega até uma pessoa concreta. O nome vem do grego sotería (“salvação”) com logos (“discurso”, “estudo”).

A palavra assusta mais do que o assunto. Quem já cantou sobre graça, já ouviu um convite no fim do culto e já leu Romanos está lidando com soteriologia desde sempre — só não com esse nome.

O que é soteriologia

Soteriologia é o estudo organizado daquilo que a Bíblia ensina sobre a salvação: de que somos salvos, por quem, com que base, por que meio e com que resultado.

O grupo de palavras gregas por trás do termo é curto, e vale conhecê-lo inteiro. O substantivo sotería significa “salvação”, “livramento”. O substantivo sotér significa “salvador”. E o verbo sózo significa “salvar”, “resgatar” — Sproul lembra que ele é usado para resgates comuns, como o de um doente restaurado ou o de um prisioneiro de guerra libertado1.

Esse dado importa porque impede uma leitura estreita. Ou seja, no Novo Testamento, “ser salvo” às vezes é curado, às vezes é escapar de um naufrágio, e às vezes é o que Pedro anuncia diante do Sinédrio: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4:12 ACF).

Fica então a pergunta que o termo obriga a fazer: salvo de quê? O anjo responde a José antes do nascimento de Jesus: “e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1:21 ACF). O perigo do qual o pecador precisa ser resgatado está antes da circunstância: é a própria culpa diante de Deus, e o juízo que ela merece.

Voltar ao topo

Onde a soteriologia entra na teologia sistemática

Teologia sistemática é o esforço de arrumar por assuntos aquilo que a Escritura ensina espalhado por sessenta e seis livros. As divisões clássicas costumam seguir esta ordem: doutrina da revelação, doutrina de Deus, doutrina do homem e do pecado, cristologia, pneumatologia, soteriologia, eclesiologia e escatologia.

A posição não é decorativa. Afinal, a soteriologia vem depois da doutrina do pecado, porque não faz sentido falar de resgate antes de estabelecer o naufrágio. E vem depois da cristologia, porque a salvação tem endereço histórico: é o que uma pessoa fez, numa cruz, num dia determinado.

Vem, porém, antes da eclesiologia. A igreja é o povo dos salvos reunido, não a agência que produz a salvação. Inverter essa ordem já custou caro à história cristã.

No sumário de Somos Todos Teólogos, a soteriologia é a sexta das oito partes, e reúne graça comum, eleição, chamada eficaz, justificação, fé salvadora, adoção e união com Cristo, santificação e perseverança dos santos. É praticamente o índice do percurso que este artigo vai percorrer.

Voltar ao topo

O vocabulário da salvação: expiação, propiciação, redenção, reconciliação, imputação

Cinco palavras aparecem toda semana no púlpito e quase nunca são explicadas. Vale abrir cada uma. Cada uma delas nasceu de um cenário diferente da vida antiga: o altar, a praça do mercado, o campo de batalha, o tribunal.

Termo Grego Imagem de origem O que afirma Texto-chave
Expiação hiláskomai o altar o pecado é coberto e removido por um sacrifício substituto Hb 2:17
Propiciação hilastérion o propiciatório da arca a ira justa de Deus contra o pecado é aplacada Rm 3:25
Redenção apolýtrosis a compra de um cativo o escravo é libertado mediante um preço pago Ef 1:7
Reconciliação katallagé o fim de uma inimizade a relação rompida entre Deus e o homem é restaurada 2Co 5:18
Imputação logízomai o livro-caixa algo é lançado na conta de alguém: o pecado em Cristo, a justiça no crente Rm 4:5

Expiação e propiciação são as duas que mais se confundem, e a diferença é de direção. Expiação olha para o pecado: ele é coberto, tirado do caminho — “para expiar os pecados do povo” (Hb 2:17 ACF). Propiciação olha para Deus: sua ira contra o pecado é satisfeita — “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue” (Rm 3:25 ACF).

Interior do santuário bíblico com o altar e cortinas sóbrias
No tabernáculo e no templo, o propiciatório e os sacrifícios apontavam para a satisfação da justiça divina realizada definitivamente em Cristo.

O termo grego de Romanos 3:25 é o mesmo que a Septuaginta usa para o propiciatório, a tampa da arca da aliança sobre a qual o sangue era aspergido no Dia da Expiação. Ou seja, o lugar do encontro entre a culpa e a misericórdia deixou de ser um móvel do santuário e passou a ser uma pessoa.

Há quem recuse a palavra “propiciação” por achá-la pagã demais, como se Deus precisasse ser acalmado por presentes. Boice responde que a diferença decisiva é quem toma a iniciativa: “o próprio Deus aplaca Sua ira contra o pecado para que Seu amor possa receber e salvar os pecadores”2. Não é o homem subornando a divindade; é Deus provendo o que ele mesmo exige.

Boice observa ainda que apenas quatro textos do Novo Testamento empregam de fato o termo2 — e um deles diz: “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4:10 ACF).

Redenção traz o vocabulário do resgate pago. Paulo o usa duas vezes quase com as mesmas palavras: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas” (Ef 1:7 ACF) e “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” (Cl 1:14 ACF). Repare que o preço aparece explícito nos dois: sangue.

Reconciliação é a palavra das relações. Na ACF ela ocorre em quatro versículos, e o mais denso deles resume o evangelho inteiro: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados” (2Co 5:19 ACF). Repare que imputação aparece dentro dela: o que Deus deixou de lançar na conta do mundo foi lançado em outra.

Voltar ao topo

A ordem da salvação: o percurso clássico

Os teólogos chamam de ordo salutis — ordem da salvação — a tentativa de descrever os passos pelos quais a obra de Cristo se aplica a uma pessoa. O texto que mais alimenta essa discussão é uma cadeia de cinco elos em Romanos: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” (Rm 8:30 ACF).

Duas advertências antes de seguir. Vale levar as duas a sério. A primeira: a ordem é lógica, não cronológica. Ninguém sente a justificação na terça e a adoção na quinta. Pearlman diz que as bênçãos são simultâneas na prática e que só as separamos para poder estudá-las3.

A segunda: a lista não é uniforme entre as tradições. A sequência que segue é a mais comum nos manuais evangélicos, e o ponto exato em que se discorda — sobretudo a posição da regeneração em relação à fé — é justamente o ponto de divisão que a seção sobre calvinismo e arminianismo vai tratar.

O percurso clássico: eleição, chamado, regeneração, arrependimento e fé, justificação, adoção, santificação, perseverança, glorificação.

Voltar ao topo

Eleição e chamado

Eleição é a doutrina de que Deus escolhe. Que ele escolhe, a Escritura afirma sem rodeios: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1:4 ACF).

Vale reparar em como Paulo escreve isso. A frase está dentro de uma doxologia, não de um debate, e o verbo seguinte é “predestinou para filhos de adoção” (Ef 1:5). Sproul insiste que Paulo trata a predestinação como bênção, e não como problema4. Quem só encontra a palavra em discussão de internet perde esse tom. Basta ler o parágrafo inteiro de Efésios 1 para notar a diferença.

A pergunta que divide não é “Deus escolhe?”, e sim “com base em quê?” Uma leitura entende a eleição como decisão soberana e incondicional, apoiada em textos como “isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Rm 9:16 ACF). A outra a entende como escolha fundada na presciência — Deus conhece de antemão quem crerá e predestina esses à herança —, e apela para a mesma cadeia de Romanos 8, que começa em “aqueles que Deus de antemão conheceu” (Rm 8:29 NAA).

O chamado é o momento em que essa escolha alcança a pessoa por meio da pregação. Aqui os manuais distinguem dois sentidos: o convite externo, que vai a todos os que ouvem, e o chamado eficaz, interno, que efetivamente traz o pecador a Cristo. Jesus fala do segundo: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer” (Jo 6:44 ACF). E o convite universal está igualmente na página final da Bíblia: “E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22:17 ACF).

Voltar ao topo

Regeneração, arrependimento e fé

Regeneração é o novo nascimento — a obra do Espírito que produz vida onde havia morte espiritual. Jesus a coloca como condição de visão: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3 ACF).

O substantivo grego palingenesía aparece só duas vezes no Novo Testamento, e uma delas nem trata do indivíduo: em Mateus 19:28 descreve a renovação do mundo. A outra é a que interessa aqui: “nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5 ACF).

A imagem já estava em Ezequiel, e o profeta a descreve como transplante: “tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito” (Ez 36:26-27 ACF). Para os exilados que ouviram isso, a promessa respondia a um fracasso nacional: a lei escrita fora deles não os havia mudado por dentro. O que permanece dessa promessa é o diagnóstico — o problema humano não é falta de informação, é natureza.

Arrependimento e fé são a resposta humana, e o Novo Testamento raramente as separa. Jesus abre o ministério com as duas juntas: “Arrependei-vos, e crede no evangelho” (Mc 1:15 ACF). Paulo resume assim três anos de trabalho em Éfeso: “testemunhando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20:21 NAA).

O grego de “arrependimento” é metánoia, mudança de mente. Ou seja, mais do que remorso ou promessa de melhorar, é virar o rosto para outra direção. E a fé, no vocabulário bíblico, vai além de opinião sobre fatos: é confiança depositada numa pessoa — “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (At 16:31 ACF).

Voltar ao topo

Justificação e adoção

Justificação é um veredito. O verbo grego dikaióo não significa tornar alguém bom aos poucos; significa declarar justo, pronunciar absolvido. É linguagem de tribunal, e Pearlman a descreve exatamente assim: o culpado é absolvido e declarado justo diante de Deus3.

A base do veredito não está no réu: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3:24 ACF). E o meio pelo qual ele é recebido é a fé, não o esforço: “o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo” (Gl 2:16 ACF).

Foi essa doutrina que rachou a Europa no século XVI. Lutero cunhou a fórmula simul iustus et peccator, “ao mesmo tempo justo e pecador”: justo pela obra de Cristo, pecador porque a perfeição ainda não chegou5. Roma respondia que Deus não declararia justo quem ainda não fosse de fato justo. A distância entre as duas respostas continua sendo a fronteira entre o catolicismo romano e o protestantismo.

Tiago parece contradizer Paulo quando escreve “o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2:24 ACF). A leitura evangélica corrente é que os dois usam “justificar” com focos distintos: Paulo trata da base da aceitação diante de Deus; Tiago, da evidência dela diante dos homens. Afinal, uma fé que não produz nada nunca foi a fé que Paulo descreveu.

Adoção é o que a justificação sozinha não diria. Repare na diferença: um juiz pode absolver um réu e nunca mais vê-lo. Deus absolve e leva para casa: “recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8:15 ACF). O termo hyiothesía aparece cinco vezes no Novo Testamento, sempre em Paulo, e não descreve sentimento: descreve mudança de estado. Paulo o liga diretamente à herança em Gálatas 4:5 e Romanos 8:23.

Voltar ao topo

Santificação: o que muda depois

Se a justificação é instantânea e completa, a santificação é progressiva e nunca completa nesta vida. Uma declara; a outra transforma. Porém confundir as duas é a origem de boa parte da angústia religiosa que se vê nos bancos da igreja.

O grego hagiasmós descreve um processo — o ato de tornar santo — e não o estado final. Paulo o apresenta como a vontade declarada de Deus: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4:3 ACF). E o autor de Hebreus a liga à visão de Deus: “Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14 ACF).

Aqui entra o texto que mais desconcerta quem quer separar limpo o que é de Deus e o que é do homem: “operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar” (Fp 2:12-13 ACF). Paulo manda trabalhar e, na mesma respiração, diz que quem trabalha dentro é Deus. Não há como transformar isso em fórmula limpa sem cortar metade do versículo.

Para os filipenses, escritos por um apóstolo ausente e preso, a ordem tinha um alvo prático: a obediência deles não podia depender da presença dele. O que permanece é a estrutura — a santificação é esforço real, e o esforço não é a fonte.

Peregrino caminhando em estrada de colinas ensolaradas representando a santificação
A santificação e a perseverança marcam a caminhada contínua do crente, sustentado pela graça soberana até a glorificação final.

Pearlman organiza a coisa em três cenários: o tribunal, para a justificação; a casa, para a regeneração e a adoção; o templo, para a santificação, que é vida entregue ao serviço de Deus3. Ou seja, não são três etapas de uma escada, e sim três ângulos de uma única salvação.

Voltar ao topo

Perseverança e glorificação

Chega-se então à pergunta que mais aparece: o salvo pode se perder?

A resposta reformada é não, e Sproul a formula com clareza: quem tem fé verdadeira não a perde, e quem a perde nunca a teve6. O texto que ele usa é “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco” (1Jo 2:19 ACF), ao lado de “E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10:28 ACF) e da confiança de Paulo em “que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Fp 1:6 ACF).

A resposta arminiana é que a perseverança é real, mas condicional. Pearlman argumenta que os avisos de Hebreus foram dirigidos a cristãos, e descreve pessoas que “foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo” (Hb 6:4 ACF) — linguagem, para ele, de gente regenerada. Se a apostasia de salvos não fosse ao menos possível, sustenta, tais advertências ficariam sem fundamento7.

Repare que cada lado tem textos que o outro precisa explicar. Quem sustenta a segurança eterna tem de dar conta das advertências; quem sustenta a possibilidade de queda tem de dar conta das promessas de guarda. A Escritura não resolve o impasse com um versículo que decida a questão em definitivo, e é honesto dizer isso em vez de fingir que resolve.

Glorificação é o último elo, e nele não há divergência que valha registro. É a consumação: corpo ressurreto, pecado ausente, semelhança com Cristo. João a descreve como algo ainda não visível: “agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele” (1Jo 3:2 ACF). Paulo, em Romanos 8:30, já a escreve no passado — o que ainda não aconteceu é tratado como feito, porque quem prometeu não falha.

Voltar ao topo

Calvinismo e arminianismo ponto a ponto

Quase todo ponto do percurso acima é atravessado por essa divisão. Convém dizer de saída o que os dois lados não disputam: que o pecador está perdido, que a salvação é obra de Deus, que ninguém a merece e que ela chega pela fé em Cristo. Sproul registra o consenso: “Ambos os lados – calvinismo e arminianismo – concordam em que a graça é uma necessidade absoluta para a salvação”8.

A diferença está no grau e no modo. A pergunta técnica é se a passagem da morte espiritual para a vida é monergismo — Deus obrando sozinho — ou sinergismo, Deus e homem cooperando8.

Ponto Leitura calvinista Leitura arminiana
Condição humana morto no pecado, incapaz de responder sem obra prévia de Deus (Ef 2:1) caído e incapaz por si, mas capacitado a responder pela graça que Deus oferece a todos (Tt 2:11)
Base da eleição o beneplácito soberano de Deus, sem condição no eleito (Ef 1:5; Rm 9:16) a presciência divina: Deus prevê quem crerá e predestina esses (Rm 8:29)
Extensão da expiação definida: eficaz para os eleitos, embora suficiente para todos (Jo 6:37) universal: Cristo morreu por todos, e o benefício se aplica a quem crê (1Jo 2:2; 1Tm 2:4)
Ação da graça eficaz — o chamado interno alcança seu alvo (Jo 6:44) resistível — o homem pode recusar o que Deus oferece (Ap 22:17)
Ordem de fé e regeneração a regeneração precede e produz a fé a fé precede e é seguida da regeneração
Perseverança o verdadeiro salvo persevera até o fim (Fp 1:6; Jo 10:28) a perseverança é real, porém condicional; a apostasia é possível (Hb 6:4-6)
Segurança do crente ancorada no decreto e na guarda de Deus ancorada na permanência em Cristo pela fé

Um esclarecimento sobre a expressão expiação limitada, que costuma travar a conversa antes de ela começar. Sproul observa que teólogos reformados preferem “expiação definida”, porque o que está em jogo não é o valor do sacrifício, e resume a posição na frase “suficiente para todos e eficiente para alguns”9. Quem se opõe ao ponto discorda do desígnio, não do mérito.

E é preciso registrar quem escreve o quê. Sproul defende a leitura reformada; Pearlman escreve de dentro da tradição pentecostal e defende a arminiana. Ler os dois é mais útil do que ler só o que já se pensa.

Pearlman propõe um fecho que serve bem a um blog de leitores de várias igrejas: “As respectivas posições fundamentais, tanto do Calvinismo como do Arminianismo, são ensinadas nas Escrituras. O Calvinismo exalta a graça de Deus como a única fonte de salvação — e assim o faz a Bíblia; o Arminianismo acentua a livre vontade e responsabilidade do homem — e assim o faz a Bíblia”7. Ele conclui recomendando fugir dos extremos dos dois lados — a vida descuidada de um, o legalismo do outro.

Esta é uma divergência entre irmãos, não uma fronteira de fé. Wesley era arminiano e Whitefield, calvinista; ambos pregaram o mesmo evangelho a multidões.

Voltar ao topo

O que a soteriologia muda na vida da igreja

Doutrina que fica no caderno não serve para nada. Quatro consequências práticas se impõem.

1. Ela protege o evangelismo da manipulação. Agora, se a salvação é obra de Deus recebida pela fé, o pregador não precisa arrancar decisões por pressão emocional. Anuncia-se Cristo, chama-se ao arrependimento e à fé, e o resultado não está nas mãos de quem fala.

2. Ela separa segurança de presunção. A justificação é completa desde o primeiro dia; a santificação, não. Quem entende isso para de medir a própria aceitação diante de Deus pelo desempenho da semana — e, ao mesmo tempo, não usa a graça como licença, porque a mesma Escritura que promete guarda também adverte.

3. Ela dá linguagem para o sofrimento. A glorificação ainda não chegou. O corpo adoece, a mente cansa, o pecado insiste. Paulo chama isso de gemido enquanto se aguarda “a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Rm 8:23 ACF). Afinal, a fé cristã não exige fingir que já se chegou.

4. Ela ensina a discordar sem quebrar comunhão. Duas pessoas podem divergir sobre a extensão da expiação e partir o mesmo pão no domingo. Saber onde está a divergência real — e onde ela não está — é parte do trabalho de uma igreja madura.

Voltar ao topo

Esboço de pregação sobre a salvação

Um roteiro em três pontos sobre a cadeia de Romanos 8:29-30, útil para culto, célula ou EBD.

Tema: a salvação começou antes de você e termina depois de você. Texto: Romanos 8:29-30 (versículo-chave: 8:30).

  1. O que começou sem mim (Rm 8:29) — conhecer de antemão e predestinar. Deus não reagiu à minha decisão: agiu antes dela. Ler ao lado de Efésios 1:4-5 e mostrar que Paulo escreve isso em tom de louvor, não de debate;
  2. O que aconteceu comigo (Rm 8:30a) — chamou e justificou. O chamado veio por uma pregação concreta, e o veredito não se apoia no meu currículo (Rm 3:24). Aqui cabe explicar a diferença entre justificação e santificação, que resolve boa parte da angústia da igreja;
  3. O que ainda não vi (Rm 8:30b) — glorificou. Paulo escreve no passado o que ainda não aconteceu. Fechar em 1 João 3:2 e deixar o “ainda não é manifestado” respirar.

Conclusão sugerida: ler Romanos 8:30 inteiro em voz alta, devagar, e perguntar à igreja qual dos cinco verbos depende de nós. A pergunta pode ficar sem resposta falada.

Voltar ao topo

Perguntas frequentes sobre soteriologia

O que significa soteriologia?

É a área da teologia que estuda a salvação. O nome combina o grego sotería (“salvação”) com logos (“estudo”). Do mesmo grupo vêm sotér (“salvador”) e o verbo sózo (“salvar”), que no Novo Testamento cobre desde a cura de um doente até a salvação eterna anunciada em Atos 4:12.

Qual a diferença entre justificação e santificação?

Justificação é um veredito; santificação é um processo. Na justificação Deus declara o pecador justo por causa de Cristo, de uma vez e por completo (Rm 3:24). Na santificação o Espírito vai tornando o crente parecido com Cristo ao longo da vida, e a Escritura nunca a apresenta como concluída aqui (1Ts 4:3). Confundir as duas leva ou ao desespero ou à presunção.

A salvação pode ser perdida?

As duas grandes tradições evangélicas respondem diferente. A leitura calvinista diz que não: quem tem fé verdadeira persevera, e quem abandona nunca creu de fato (Jo 10:28; Fp 1:6). A leitura arminiana diz que sim: a perseverança é condicional, e as advertências de Hebreus 6:4-6 pressupõem que a apostasia é possível. Cada lado precisa explicar os textos do outro, e nenhum versículo isolado encerra a questão.

O que é expiação limitada?

É a posição de que a morte de Cristo foi projetada para salvar eficazmente os eleitos, e não para tornar todos meramente salváveis. Teólogos reformados preferem chamá-la de expiação definida e resumem a ideia como suficiente para todos e eficiente para alguns — o valor do sacrifício não é limitado, e sim o desígnio. Quem discorda aponta para 1 João 2:2 e 1 Timóteo 2:4.

Qual a diferença entre expiação e propiciação?

É uma diferença de direção. Expiação olha para o pecado, que é coberto e removido pelo sacrifício (Hb 2:17). Propiciação olha para Deus, cuja ira justa contra o pecado é aplacada (Rm 3:25). O termo grego de Romanos 3:25 é o mesmo usado para o propiciatório da arca, onde o sangue era aspergido no Dia da Expiação.

A soteriologia é igual em todas as denominações?

Não. Entre evangélicos, o eixo principal de divergência é calvinismo × arminianismo, que afeta eleição, extensão da expiação e perseverança. Entre protestantismo e catolicismo romano, a divergência é mais funda e recai sobre a justificação: se Deus declara justo quem ainda é pecador ou só quem já se tornou justo. O que os evangélicos sustentam em comum é que a salvação é pela graça, mediante a fé, por causa de Cristo.

Por onde começar a estudar soteriologia?

Comece pelo texto bíblico, não pelo manual. Um caminho curto: Romanos 3 a 8 lido inteiro e em ordem, depois Efésios 1 e 2. Só então abra uma teologia sistemática — e, se possível, leia um autor de cada lado da divisão, para conhecer os argumentos na formulação de quem os defende, e não na caricatura de quem os rejeita.

Voltar ao topo

Fontes

Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as demais versões identificadas quando citadas. As contagens de ocorrências referem-se ao texto da ACF; os dados de grego seguem o texto do Novo Testamento etiquetado por números de Strong.

  1. SPROUL, R. C. Somos Todos Teólogos: uma introdução à teologia sistemática. São José dos Campos: Fiel, 2014, Parte Seis, capítulo 38, “Graça comum”.
  2. BOICE, James Montgomery. Fundamentos da Fé Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 272.
  3. PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 2006, capítulo VIII, “A Salvação”, seção “A natureza da salvação”.
  4. SPROUL, Somos Todos Teólogos, capítulo 39, “Eleição e reprovação”.
  5. SPROUL, Somos Todos Teólogos, capítulo 41, “Justificação somente pela fé”.
  6. SPROUL, Somos Todos Teólogos, capítulo 45, “Perseverança dos santos”.
  7. PEARLMAN, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, capítulo VIII, “A Salvação”, seção “Equilíbrio escriturístico”.
  8. SPROUL, Somos Todos Teólogos, capítulo 40, “Chamada eficaz”.
  9. SPROUL, Somos Todos Teólogos, capítulo 30, “A extensão da expiação”.

Deixe um comentário