A igreja de Filadélfia é uma das duas, entre as sete de Apocalipse, que não recebe uma única repreensão. A outra é Esmirna. As cinco restantes ouvem alguma acusação; estas duas, nenhuma.
Ora, isso já seria notável em qualquer congregação. É mais notável ainda porque a carta diz, na mesma frase em que elogia, que essa igreja tinha pouca força. Era pequena, pressionada de fora, sem peso na cidade — e é dela que Cristo diz que guardou a sua palavra e não negou o seu nome.
Este estudo percorre a carta inteira, versículo por versículo: a cidade onde ela foi lida, o que a palavra “Filadélfia” significa, quem é o Cristo que se apresenta ali, o que era a porta aberta, o que estava em jogo na promessa de Apocalipse 3:10 e o que a coluna do último versículo prometia a quem morava sobre uma falha geológica.
1. A cidade de Filadélfia: um posto avançado sobre uma falha geológica
Filadélfia é a sexta das sete cidades listadas em Apocalipse 1:11, na ordem em que o mensageiro percorreria a província da Ásia: “a Éfeso, e a Esmirna, e a Pérgamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia” (Ap 1:11 ACF). A ordem é geográfica, e vale reparar no lugar que Filadélfia ocupa nela.
A cidade ficava na estrada principal do correio imperial romano em direção ao Oriente, o que lhe rendeu o apelido de portal do Oriente. Também era chamada de pequena Atenas, pela quantidade de templos que abrigava.1 Ou seja, uma igreja plantada ali estava num ponto de passagem.
A cidade que tremia
O problema do lugar era o solo. Filadélfia estava sobre uma zona de instabilidade sísmica e foi arrasada por um terremoto no ano 17 a.C., o mesmo que derrubou Sardes e outras cidades da região. Parte da população nunca voltou a morar dentro dos muros, preferindo permanecer no campo ao redor.1
Guarde esse detalhe. Ele volta no último versículo da carta, quando Cristo promete fazer do vencedor uma coluna que jamais sai do lugar. Para quem tinha visto as colunas da própria cidade caírem, a imagem falava de uma dor conhecida.
2. O significado de Filadélfia: o que a palavra quer dizer
O nome da cidade, em grego, é Philadelpheia, e o substantivo comum de que ele deriva é philadelphia: a soma de philos, amor de afeição, com adelphos, irmão. Traduzido em uma expressão, amor fraternal — o amor entre irmãos.
Vale notar que os léxicos registram os dois termos como entradas distintas. O topônimo aparece duas vezes no Novo Testamento, e as duas em Apocalipse: em 1:11, na lista das sete cidades, e em 3:7, na abertura da carta. Fora dessas duas ocorrências, o nome da cidade não aparece.
Onde o Novo Testamento usa a palavra
Já o substantivo comum ocorre cinco vezes, e nenhuma delas em Apocalipse. Todas as cinco estão em cartas, e todas tratam de conduta dentro da comunidade cristã:
- Romanos 12:10 — “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal” (Rm 12:10 ACF);
- 1 Tessalonicenses 4:9 — os leitores não precisam de instrução no assunto, porque já foram ensinados por Deus;
- Hebreus 13:1 — três palavras em português na ACF: “Permaneça o amor fraternal” (Hb 13:1 ACF);
- 1 Pedro 1:22 — o amor fraternal como resultado de almas purificadas na obediência à verdade;
- 2 Pedro 1:7 — um degrau na sequência de virtudes que culmina na caridade.
Vale notar o que isso significa para a leitura da carta. Repare no verbo que Cristo escolhe para elogiar aquela igreja: ela guardou a palavra dele. O elogio recai sobre a fidelidade, e o nome da cidade fica onde estava, como topônimo. Ler nele uma descrição do caráter da congregação é um jogo de palavras que a carta não faz.
3. Apocalipse 3:7-13: o texto da carta
A carta inteira, na Almeida Corrigida Fiel:
“E ao anjo da igreja que está em Filadélfia escreve: Isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre: Conheço as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar; tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome.
Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo. Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra.
Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, do meu Deus, e também o meu novo nome. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”
— Apocalipse 3:7-13 (ACF)
São sete versículos, e nenhum deles contém acusação. Repare que a carta seguinte, a Laodiceia, não terá um único elogio.
4. Quem fala: o santo, o verdadeiro, o que tem a chave de Davi
Cada uma das sete cartas abre com uma descrição de quem está falando, e a descrição sempre tem a ver com o que aquela igreja precisa ouvir. Em Filadélfia, são três títulos.
O santo
Chamar-se santo, no vocabulário do Antigo Testamento, é reivindicar o que pertence a Deus. Wiersbe é direto quanto ao alcance disso: o título “equivale a dizer que ele é Deus”.1 Santidade, aqui, tem o sentido de separação antes do de pureza moral: a distância entre o Criador e tudo o mais.
O verdadeiro
O grego é alēthinos. O sentido principal do termo é o de quem é a coisa autêntica, o original diante da imitação, antes do de quem diz a verdade. É a palavra usada para o pão verdadeiro em João 6:32 e para a videira verdadeira em João 15:1.
Agora, se a cidade era cheia de templos, esse título tem endereço. Havia deuses em quantidade, e a carta afirma que apenas um deles é o genuíno.
Os dois títulos reaparecem juntos mais adiante, na boca dos mártires que clamam sob o altar: “Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6:10 ACF). São eles que sustentam o pedido de justiça.
O que tem a chave de Davi
O terceiro título é uma citação. Em Isaías 22, Sebna administrava a casa real de Judá e usava o cargo em benefício próprio; Deus anuncia que o removerá e colocará Eliaquim em seu lugar, com autoridade real: “E porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro, e abrirá, e ninguém fechará; e fechará, e ninguém abrirá” (Is 22:22 ACF).
Apocalipse 3:7 repete a fórmula quase palavra por palavra e a aplica a Cristo. O que estava sobre o ombro de um mordomo passa às mãos do Filho: quem administra a casa de Deus é ele, e a autoridade de abrir e fechar não é delegada a mais ninguém.1
A palavra grega para chave, kleis, ocorre seis vezes no Novo Testamento, e quatro delas estão em Apocalipse. Além desta, o Cristo ressuscitado diz ter “as chaves da morte e do inferno” (Ap 1:18 ACF), e as outras duas são as chaves do abismo. Em Apocalipse, chave é sempre autoridade sobre um domínio que ninguém mais abre.
5. A porta aberta que ninguém pode fechar

O primeiro elogio da carta vem em forma de dádiva: “eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar” (Ap 3:8 ACF).
No vocabulário do Novo Testamento, porta aberta é oportunidade de ministério, e o uso é consistente. Em Atos 14:27, Deus abriu aos gentios a porta da fé. Em 1 Coríntios 16:9, Paulo diz que uma porta grande e eficaz se lhe abriu. Em 2 Coríntios 2:12, ele encontra uma porta aberta em Trôade. Em Colossenses 4:3, pede oração para que Deus abra a porta da palavra.1
Uma porta e muitos adversários
Repare no que Paulo acrescenta em 1 Coríntios 16:9, no mesmo fôlego em que fala da porta: “e há muitos adversários” (1Co 16:9 ACF). As duas coisas convivem no mesmo versículo.
Portanto, é exatamente a situação de Filadélfia. A porta está aberta, e a igreja é fraca e tem oposição organizada na cidade. O texto põe as duas lado a lado: a oposição é o cenário em que a porta aberta acontece.
Basta lembrar quem abriu a porta: é quem tem a chave. Foi por isso que a carta começou com o título da autoridade: enquanto ele a mantém aberta, o adversário local não a fecha.
6. Tendo pouca força: o elogio que parece uma ressalva
A expressão desconcerta na primeira leitura. Que tal ler devagar? Cristo elogia a igreja e, no meio do elogio, diz que ela tem pouca força. A construção grega é a mesma nas traduções, e a comparação entre versões mostra como cada uma resolveu o tom:
| Versão | Apocalipse 3:8, trecho central |
|---|---|
| ACF | “tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome” |
| ARC | “tendo pouca força, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” |
| ARA | “que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” |
| BKJ | “porque tens uma pequena força, e tens guardado a minha palavra, e não negaste o meu nome” |
| NAA | “Sei que você tem pouca força, mas guardou a minha palavra e não negou o meu nome” |
| NVI | “Sei que você tem pouca força, mas guardou a minha palavra e não negou o meu nome” |
| NVT | “Você tem pouca força, mas ainda assim obedeceu à minha palavra e não negou meu nome” |
A ACF, a ARC e a BKJ ligam as duas orações sem conjunção adversativa. A ARA insere “entretanto”; a NAA, a NVI e a NVT inserem “mas”. A diferença muda o peso da frase: nas primeiras, a pouca força é o pano de fundo da fidelidade; nas outras, é o obstáculo que a fidelidade venceu.
O que a igreja tinha, então
Duas coisas, e a carta as nomeia: guardou a palavra e não negou o nome. Ambos são verbos de resistência, e nenhum deles é de expansão. Ninguém está sendo elogiado ali por tamanho, estrutura ou influência na cidade.
Wiersbe observa que Apocalipse 3:10 sugere uma provação já ocorrida, em que a igreja se mostrou fiel.2 Sendo assim, o elogio recai sobre uma resistência que já tinha passado pelo teste.
7. A sinagoga de Satanás e o que Cristo promete fazer com ela
O versículo 9 identifica a oposição: “os da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem” (Ap 3:9 ACF).
A mesma expressão já tinha aparecido na carta a Esmirna, dita da mesma forma: “a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” (Ap 2:9 ACF). Das sete cartas, essas duas são as únicas que descrevem o adversário assim — e são também as duas únicas que não recebem repreensão. A pressão de fora e a ausência de acusação de dentro andam juntas nas duas.
Como a oposição funcionava
Wiersbe descreve dois mecanismos prováveis: a exclusão dos cristãos de origem judaica da sinagoga e o uso de acusações falsas, tática que o livro de Atos mostra sendo empregada contra Paulo.2
Infelizmente, o segundo mecanismo é o mais corrosivo dos dois, porque não se responde a ele com argumento. Quando quem tem crédito na cidade diz aos vizinhos o que os cristãos supostamente fazem, o testemunho passa a ser dado contra uma versão já instalada.
A promessa que a carta faz sobre eles
A promessa de Cristo, ali, deixa os adversários falando na cidade. O que ele garante é que virão, se prostrarão e saberão — e o objeto do saber é o que mais surpreende na frase: “e saibam que eu te amo” (Ap 3:9 ACF).
O que ficará público é o afeto de Cristo por aquela igreja. Ou seja, a vindicação prometida passa pela relação antes de passar pelo tribunal — e nenhuma parte dela depende de argumento, crescimento ou reviravolta política na cidade.
8. A hora da tentação: o versículo mais disputado da carta
Apocalipse 3:10 é o versículo da carta que mais gera discussão, e a discussão começa na tradução. Duas expressões variam entre as versões, e as duas mudam o sentido do que se lê:
| Versão | O que a igreja guardou | Do que será guardada |
|---|---|---|
| ACF | a palavra da minha paciência | a hora da tentação |
| ARC | a palavra da minha paciência | a hora da tentação |
| BKJ | a palavra da minha paciência | a hora da tentação |
| ARA | a palavra da minha perseverança | a hora da provação |
| NAA | a palavra da minha perseverança | a hora da provação |
| NVI | a minha palavra de exortação à perseverança | a hora da provação |
| NVT | a minha ordem para perseverar | o grande tempo de provação |
O substantivo por trás de “paciência” e “perseverança” é hypomonē, que os léxicos glosam como suportar permanecendo. É a paciência de quem continua de pé sob peso, e não a de quem espera sentado. Portanto, as traduções mais recentes optaram por “perseverança” porque a palavra portuguesa carrega melhor essa carga.
O segundo termo é peirasmos, que abrange tanto a provação enviada para testar quanto a tentação que leva ao pecado. Os léxicos classificam a ocorrência de Apocalipse 3:10 no primeiro grupo, ao lado de Tiago 1:2 e 1 Pedro 1:6 — teste, não sedução.
Guardar da hora, e não da tentação
Há um detalhe gramatical que costuma passar batido e que decide boa parte da conversa. O verbo é tēreō, guardar, seguido da preposição ek, de dentro de. Os léxicos registram essa combinação em apenas um outro lugar do Novo Testamento, e é uma oração de Jesus:
“Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.” — João 17:15 (ACF)
Ali, o guardar-de acontece com os discípulos permanecendo dentro do mundo. Quem usa Apocalipse 3:10 para provar que a igreja será retirada antes da provação precisa lidar com o único paralelo da mesma construção, onde a preservação se dá sem retirada.
O que os intérpretes fazem com o versículo
Wiersbe entende a promessa como referida à Tribulação descrita em Apocalipse 6 a 19, e registra que, para diversos estudiosos, o versículo garante que a Igreja não atravessará esse período, sendo levada antes que ele comece.2 É a leitura pré-tribulacionista, e vale dizer que ela tem defensores sérios.
A leitura alternativa toma a promessa como preservação em meio à provação, com base na construção de João 17:15 e no fato de que a carta se dirige, em primeiro lugar, a uma congregação do primeiro século que enfrentava perseguição real e local.
Afinal, o texto sustenta a discussão porque não a resolve. O que ele afirma sem ambiguidade é mais modesto e mais firme: quem guardou a palavra da perseverança será guardado por quem a deu. A preposição diz de onde vem a segurança; ela não desenha o cronograma.
9. A coroa e a coluna: o que é prometido ao vencedor
Os versículos 11 e 12 fecham a carta com duas imagens, e vamos ver que as duas conversam com a experiência de quem morava naquela cidade.
A coroa que se pode perder
“Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3:11 ACF). A palavra é stephanos, a grinalda do vencedor nos jogos e a honra pública concedida por serviço notável. Para a coroa de rei o grego tem outra palavra, diadēma, e ela aparece em outros lugares de Apocalipse.
A distinção importa. O que está sob risco é o prêmio de quem correu, a mesma imagem que Paulo usa ao falar da coroa incorruptível em 1 Coríntios 9:25. O verbo do versículo também é sóbrio: guarda o que tens. Portanto, o que se pede ali é conservação, e não conquista.
A coluna que não sai do lugar

“A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá” (Ap 3:12 ACF). Para leitores que tinham visto colunas caírem num terremoto e vizinhos que nunca mais voltaram para dentro dos muros, a promessa toca precisamente onde dói: estabilidade, permanência, uma cidade que não desaba.2
A palavra grega stylos ocorre quatro vezes no Novo Testamento. Duas delas descrevem pessoas: Tiago, Cefas e João, “considerados como as colunas” em Gálatas 2:9, e aqui. Uma descreve a igreja, “a coluna e firmeza da verdade” em 1 Timóteo 3:15. A quarta é a coluna de fogo de Apocalipse 10:1.
O templo que não existe
Há aqui um detalhe que parece contradição. A carta promete uma coluna no templo de Deus; mais adiante, a visão da cidade celestial diz o oposto: “E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21:22 ACF).
Wiersbe resolve a tensão pelo material: as colunas de Deus são pessoas fiéis chamadas pelo nome dele, e não pedra lavrada.3 Ou seja, a promessa trata de pertencimento permanente a quem o templo pertence.
Os três nomes
Repare nos três nomes que serão escritos sobre o vencedor: o nome de Deus, o nome da cidade de Deus e o novo nome de Cristo. Em uma cultura em que cidades honravam benfeitores inscrevendo seus nomes em colunas, a inversão é completa: quem fica escrito na coluna é o nome de quem honra.
10. Filadélfia entre as sete cartas
As sete mensagens de Apocalipse 2 e 3 seguem um mesmo padrão literário: ordem de escrever, descrição de quem fala, elogio, acusação, exortação com advertência ou encorajamento, chamado a ouvir o que o Espírito diz e promessa ao vencedor.4 Vale comparar Filadélfia com as outras seis para ver o que ela tem de particular.
| Igreja | Elogio | Acusação | Promessa ao vencedor |
|---|---|---|---|
| Éfeso (2:1-7) | rejeita o mal, persevera | abandonou o primeiro amor | comer da árvore da vida |
| Esmirna (2:8-11) | suporta o sofrimento | nenhuma | a coroa da vida |
| Pérgamo (2:12-17) | mantém a fé | tolera imoralidade e heresia | o maná escondido e a pedra branca |
| Tiatira (2:18-29) | amor, fé, serviço, perseverança | tolera idolatria e imoralidade | autoridade sobre as nações |
| Sardes (3:1-6) | alguns guardaram a fé | uma igreja morta | vestes brancas e honra |
| Filadélfia (3:7-13) | persevera na fé | nenhuma | coluna, novo nome, nova Jerusalém |
| Laodiceia (3:14-22) | nenhum | indiferente | assentar-se com Cristo no trono |
Quadro comparativo baseado no resumo das sete cartas em MacArthur.5
Duas leituras se fazem sobre esse conjunto. Uma toma as sete como igrejas históricas da Ásia Menor, endereços reais no fim do primeiro século. A outra acrescenta que os sete perfis se repetem ao longo da história da igreja, de modo que o que Cristo diz a cada uma continua pertinente.5
Porém, as duas leituras convergem no ponto que interessa aqui. Filadélfia e Esmirna, as duas isentas de repreensão, são também as duas descritas sob pressão externa. Nas outras cinco, o problema veio de dentro.
11. O que esta carta pede de quem a lê hoje
Antes de qualquer aplicação, vale uma nota de método: o que se pede de nós tem de nascer do que a carta pediu daquela congregação. O caminho é do primeiro século para cá, nunca o contrário.
A medida do elogio é outra
A congregação elogiada sem ressalva é a que tem pouca força. O texto registra isso como descrição de fato, e não como consolo para os fracos. Hoje, como naquele império que media importância por peso público, o critério de Cristo continua sendo outro: guardar a palavra e não negar o nome.
Isso tem consequência prática direta para quem lidera uma igreja pequena e mede o próprio ministério pelo que consegue exibir. A ordem que a carta dá é guarda o que tens, e o verbo é de conservação.
A porta é dele, e a chave também
O título com que Cristo se apresenta é o que sustenta a promessa que ele faz. Ele abre e ninguém fecha porque tem a chave, a mesma que Isaías 22 põe no ombro do mordomo fiel.
Dessa forma, sai daí um critério de discernimento que serve para decisão de ministério: se a porta foi aberta por ele, a oposição não a fecha; se ele a fechou, empurrá-la é gasto de força. Wiersbe põe isso em termos de trabalho e espera — se ele abre as portas, cabe trabalhar; se as fecha, cabe esperar.3
A vindicação prometida é a que a igreja não controla
Sobre a oposição, o que Cristo promete à igreja de Filadélfia é que os adversários virão e saberão que ele a ama. A última palavra na cidade fica de fora da promessa, e nada nela depende de a igreja vencer a discussão pública.
Quem foi caluniado sabe o quanto isso custa. Ora, o que a carta manda é continuar guardando a palavra, e a vindicação fica reservada a quem tem autoridade para vindicar.
Perseverança é a palavra que Cristo chama de sua
A expressão de Apocalipse 3:10 é literalmente a palavra da minha perseverança. O que a igreja guardou foi a palavra que pertence a Cristo, a mesma que produz nele, e nos seus, a capacidade de permanecer sob peso.
Por isso a promessa que se segue é simétrica: guardaste, serei o teu guarda. Portanto, a medida da segurança do cristão está na constância de quem o guarda, e é essa assimetria que o versículo estabelece.
O que sobra do medo de um chão instável
A promessa final foi endereçada a leitores que moravam sobre uma falha geológica. Diante do medo de um chão que se move, a resposta de Cristo foi prometer que o vencedor seria coluna e que dali jamais sairia — e nada disse sobre a terra parar de tremer.
Vale trazer isso para o que hoje tira o chão de alguém: a instabilidade que resiste ao esforço, a notícia que muda a vida numa tarde. O que a carta promete é lugar permanente na outra cidade, e o solo desta continua o que sempre foi.
12. Esboço de pregação sobre a igreja de Filadélfia
Texto: Apocalipse 3:7-13 · Tema: a fidelidade da igreja fraca e a autoridade de quem a sustenta
Introdução: Filadélfia, cidade sobre uma falha geológica, apelidada de portal do Oriente. Uma igreja pequena, pressionada, e a única, com Esmirna, que não recebe repreensão.
I. Quem fala determina o que a promessa vale (v. 7) — santo, verdadeiro, o que tem a chave de Davi. A citação de Isaías 22:22 e a autoridade de abrir e fechar. Aplicação: a segurança da promessa está na identidade de quem promete.
II. O elogio de Cristo não segue o critério da cidade (v. 8) — a porta aberta, a pouca força, o que a igreja de fato tinha: guardou a palavra, não negou o nome. Aplicação: o que Cristo elogia numa igreja é o que ela não largou.
III. A oposição não fecha o que ele abriu (v. 9) — a sinagoga de Satanás, a calúnia como arma, e a vindicação prometida: saberão que eu te amo. Aplicação: a resposta à calúnia é continuar, não revidar.
IV. O que guarda a palavra dele é guardado por ele (v. 10-11) — hypomonē, a palavra da perseverança de Cristo; a coroa que se pode perder e o mandamento de guardar o que se tem.
V. A promessa fala ao medo real daquela gente (v. 12-13) — coluna que não cai, cidade que não desaba, três nomes escritos. Conclusão: a estabilidade prometida é a da outra cidade.
13. Perguntas Frequentes sobre a igreja de Filadélfia
O que significa Filadélfia na Bíblia?
O nome vem do grego philadelphia, formado por philos, amor de afeição, e adelphos, irmão. Em português se traduz por amor fraternal. O nome da cidade aparece duas vezes no Novo Testamento, ambas em Apocalipse, em 1:11 e 3:7. Já o substantivo comum ocorre cinco vezes, todas em cartas e nenhuma em Apocalipse: Romanos 12:10, 1 Tessalonicenses 4:9, Hebreus 13:1, 1 Pedro 1:22 e 2 Pedro 1:7.
Por que a igreja de Filadélfia não recebeu nenhuma repreensão?
A carta credita a ela duas coisas: guardou a palavra de Cristo e não negou o seu nome, apesar de ter pouca força e enfrentar oposição organizada na cidade. Das sete cartas, apenas Filadélfia e Esmirna não trazem acusação, e as duas são justamente as descritas sob pressão de fora. Nas outras cinco, o problema apontado nasce dentro da própria congregação.
O que é a porta aberta de Apocalipse 3:8?
No Novo Testamento, a figura designa oportunidade de ministério concedida por Deus. O mesmo uso aparece em Atos 14:27, 1 Coríntios 16:9, 2 Coríntios 2:12 e Colossenses 4:3. A garantia de que ninguém pode fechá-la está ligada ao título com que Cristo se apresenta no versículo anterior: ele tem a chave, portanto controla o acesso.
O que é a chave de Davi?
É uma citação de Isaías 22:22, onde a chave da casa de Davi é posta sobre o ombro de Eliaquim, o mordomo fiel que substitui Sebna na administração do palácio. Apocalipse 3:7 aplica a fórmula a Cristo. A administração da casa de Deus está nas mãos do Filho, e ninguém mais abre ou fecha em nome dele.
Apocalipse 3:10 prova que a igreja não passará pela Tribulação?
Depende da leitura, e o texto sustenta a discussão. Wiersbe entende a promessa como referida ao período descrito em Apocalipse 6 a 19 e registra que muitos a leem como garantia de que a Igreja será levada antes que ele comece. A leitura alternativa observa que o verbo tēreō com a preposição ek aparece no único outro lugar que os léxicos registram, João 17:15, onde Jesus pede que os discípulos sejam guardados do mal sem serem tirados do mundo.
Qual a diferença entre a hora da tentação e a hora da provação?
São traduções do mesmo termo grego, peirasmos, que abrange tanto o teste enviado para provar quanto a sedução que leva ao pecado. A ACF, a ARC e a BKJ trazem tentação; a ARA, a NAA, a NVI e a NVT trazem provação. Os léxicos classificam a ocorrência de Apocalipse 3:10 no grupo do teste, junto com Tiago 1:2 e 1 Pedro 1:6.
O que significa ser coluna no templo de Deus?
A imagem promete permanência a leitores que viviam sob risco de terremoto e tinham visto a própria cidade cair. O termo grego stylos ocorre quatro vezes no Novo Testamento, e duas delas descrevem pessoas: os apóstolos chamados de colunas em Gálatas 2:9 e o vencedor aqui. Como Apocalipse 21:22 diz que na cidade celestial não há templo, a promessa trata de pertencimento definitivo.
Que coroa é essa que alguém pode tomar em Apocalipse 3:11?
O termo é stephanos, a grinalda do vencedor nas competições e a honra concedida por serviço, não diadēma, que é a coroa de rei. A mesma palavra aparece em 1 Coríntios 9:25, na figura do atleta. O que está em risco na advertência é o prêmio de quem correu, e a ordem dada é de conservação: guardar o que já se tem.
Quem era a sinagoga de Satanás em Apocalipse 3:9?
A expressão descreve opositores locais que se apresentavam como judeus e são chamados de mentirosos pelo texto. A mesma designação aparece na carta a Esmirna, em Apocalipse 2:9. A promessa da carta é que virão, se prostrarão e reconhecerão o amor de Cristo por aquela igreja.
Fontes
Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as demais versões identificadas quando citadas. As formas gregas, as glosas e as contagens de ocorrência referem-se ao texto etiquetado do STEPBible (TAGNT, CC BY 4.0).
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, volume II. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 736.
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, volume II. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 737.
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, volume II. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 738.
- HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Editora Vida, 2015, seção “Apocalipse”, sobre o padrão literário das sete mensagens.
- MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur: uma meticulosa pesquisa da Bíblia, livro a livro. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, seção “Apocalipse” (pp. 577-586).