O que é o Fermento dos Fariseus?

A verdade é que Jesus nunca teve problema com as pessoas que a classe religiosa dos judeus do Novo Testamento considerava como “pecadores”.

Na prática, os maiores conflitos enfrentados por Ele aconteceram exatamente com os mestres da lei, escribas e os demais representantes dos fariseus e saduceus.

Os chamados pecadores e rejeitados — como leprosos, paralíticos, militares romanos, cegos e publicanos — viam em Jesus a resposta para os seus maiores dilemas da vida.

Por outro lado, a classe religiosa tomou um caminho totalmente oposto. Desde o Seu primeiro milagre em Caná da Galileia (Jo 2.1-11), eles passaram a observar os passos de Jesus. O plano era, mais tarde, encontrar uma maneira de eliminá-lo.

Como sabemos, Jesus conhecia muito bem as intenções do coração dos líderes de Israel. Além de pronunciar um duro discurso contra eles (Lc 11.37-52), Ele deixou um grande alerta na presença de uma multidão.

Voltando-se aos seus discípulos, Ele disse:

“Acautelai-vos, primeiramente, do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”
(Lc 12.1 ARC).

O Texto e o Contexto Bíblico

Nos Evangelhos de Mateus (Mt 23.1-39) e de Lucas (Lc 11.37-52), encontramos um forte discurso de Jesus contra a prática de vida dos fariseus e escribas.

Nesse contexto, Jesus faz uso da expressão “ai”. Isso demonstra um sentimento profundo de tristeza, muito semelhante ao clamor de “ai de mim” usado pelo profeta Isaías diante da revelação de Deus (Is 6.5).

No discurso de Jesus, há uma forte denúncia contra a classe religiosa do Seu tempo. Afinal, eles colocaram as suas práticas tradicionais muito acima da justiça e do amor a Deus.

Além disso, os líderes valorizavam de forma exagerada a honra humana, em vez de buscarem a glória de Deus. Como consequência, eles não apenas impediam a própria salvação, mas serviam de obstáculo para aqueles que a procuravam (Lc 11.52).

O texto de Lucas também nos informa sobre a reação deles. Ao ouvirem duras palavras de Jesus, escribas e fariseus começaram a se opor a Ele de maneira veemente. Eles usaram diversas estratégias a fim de encontrar qualquer coisa e assim poder acusá-lo (Lc 11.54).

Logo no início do capítulo seguinte, o capítulo 12, Lucas começa afirmando: “Nesse meio tempo, tendo-se juntado uma multidão de milhares de pessoas, ao ponto de se atropelarem umas às outras, Jesus começo a falar primeiramente aos seus discípulos, dizendo:

‘Tenham cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia” (Lc 12.1 NVI).

O Fermento dos Fariseus

O Aviso de Paulo

O apóstolo Paulo, na sua Primeira Epístola aos Coríntios, também traz um aviso importante: “não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa” (1Co 5.6 ARC).

Ou seja, um pouquinho de fermento faz com que uma quantidade enorme de massa sem fermento seja contaminada e venha a estufar. Assim, o uso da metáfora “fermento” utilizada por Jesus aponta justamente para uma influência com altíssima capacidade de corromper.

A expressão grega utilizada por Lucas é ζυμη zume. Ela carrega o duro significado de “corrupção intelectual e moral inveterada”, além da “tendência de infectar os outros”.

Em outras palavras, assim como o fermento corrompe e contamina toda a massa do pão, o chamado fermento dos fariseus tem a mesma tendência. É a capacidade de contaminar progressivamente os discípulos de Jesus.

Na continuação do texto bíblico, vemos o próprio Jesus afirmar que o tal fermento dos fariseus — a contaminação progressiva — “é a hipocrisia”. Como é Ele próprio quem faz essa afirmação, percebemos a necessidade de nos aprofundarmos um pouco mais no que realmente vem a ser a hipocrisia.

O Que é a Hipocrisia?

A palavra hipocrisia vem do grego υποκριτής hypokrisis. Ela traduz os conceitos de “fingimento” ou “representar um papel”.

Na Grécia antiga, o termo hypokrinein designava os próprios atores de teatro, que fingiam ser outras pessoas durante as apresentações nos palcos. Com o passar do tempo, a palavra evoluiu do contexto teatral direto para o comportamento do indivíduo que apenas finge ser alguém que não é.

Portanto, o termo hipócrita serve para nomear a pessoa que oculta a sua realidade através de uma grande máscara de aparência. Em resumo, a hipocrisia é o fingimento e a pretensão de ser aquilo que não se é de fato.

Sendo o fermento a hipocrisia, Jesus está afirmando com clareza que os fariseus exerciam uma prática de vida baseada na aparência. Estavam sempre representando ou querendo ser aquilo que não eram no nível íntimo da vida.

A postura deles funcionava como a de um ator de teatro, buscando representar determinado personagem apenas para arrancar aplausos da plateia ao redor.

Todo esse esforço de palco proporcionava algum reconhecimento social, além de alto prestígio diante de uma sociedade moralmente corrompida. Essa busca desenfreada por fama, posição e reconhecimento fazia com que todos que estavam perto fossem infetados.

Era um processo completamente contagioso e crescente — exatamente como o fermento expande na massa. Finalmente, concluindo esse bloco, Jesus afirma:

Tudo Será Revelado

“2 Não há nada escondido que não venha ser descoberto, ou oculto que não venha ser conhecido.
3 O que vocês disseram nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados” (Lc 12.2,3 NVI).

Mais uma vez, notamos que o Senhor fez uso de um belo estilo literário muito comum na cultura hebraica: o paralelismo antitético. É quando dois termos opõem-se entre si, formando visíveis contrastes: escondido e descoberto, o oculto e o conhecido.

Agir de forma hipócrita também é sustentar a plena convicção (cega, muitas vezes) de que as verdadeiras práticas nunca ficarão evidentes ou expostas.

A realidade é que os fariseus agiam de maneira fermentada. Aqueles homens eram hipócritas completos, pois o que eles viviam por trás das cortinas era exatamente o oposto daquilo que pregavam em público e anunciavam aos demais.

No fim das contas, todas as obras dos homens serão tornadas públicas. A nossa verdadeira motivação ao realizar um ato, seja do lado bom ou do errado, receberá à luz pública no futuro.

A classe religiosa de Israel frequentemente tinha a prática condenável de se reunir nos bastidores de modo oculto, apenas a fim de determinarem secretamente a gestão e rumo da vida religiosa de todos.

O evangelista Mateus traz luz ao assunto demonstrando historicamente como isso ocorria:

“os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e os anciãos do povo reuniram-se na sala do sumo sacerdote, o qual se chamava Caifás. E consultaram-se mutuamente para prenderem Jesus com dolo e o matarem”
(Mt 26.3,4 ARC)

Como Jesus alertou, o que está encoberto inevitavelmente será descoberto. Tudo o que existe em oculto passará a ser muito conhecido de todos.

Por isso, na posição de discípulos de Jesus, precisamos estar muito atentos. O nosso trabalho do dia a dia é o de continuarmos sempre acautelados diante das contaminações vindas do perigoso “fermento dos fariseus”, que é algo ainda tão comum ao nosso redor.

A Hipocrisia nos Dias de Hoje

Infelizmente, vemos centenas de pessoas de várias denominações cristãs vivendo sustentadas por meras aparências. São pessoas ostentando forjadas máscaras de dons, de falsa espiritualidade, revelações vazias, e uma suposta santidade nos discursos teológicos.

Muitas fingem uma intimidade irreal com Deus, encenando até mesmo milagres para convencer e impressionar a massa de fiéis. Mas no final, como acabamos de verificar com Jesus de modo claro, tudo isso é apenas um teatro de atuação hipócrita.

Uma vida de fachada servindo unicamente aos intentos de buscar fama e notoriedade visando agradar o seu próprio ego, resumindo sua fé à miserável existência alimentada pelo fermento da hipocrisia.

E você?

Como tem lidado com o fermento dos fariseus nos dias de hoje?

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Fique na paz!

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