A Mulher Samaritana: Quem Foi e o Que Jesus Disse a Ela

↑ Este artigo faz parte da coleção Personagens Bíblicos — quem foram e o que ainda ensinam à igreja de hoje.

A mulher samaritana foi uma moradora de Sicar que encontrou Jesus sozinha, ao meio-dia, no poço de Jacó — e saiu de lá sendo a primeira pessoa a quem ele se declarou o Messias de forma direta (Jo 4:26 ACF).

A conversa inteira está em João 4: o diálogo entre os dois ocupa vinte versículos, e ela fala em seis deles.

Quem era a mulher samaritana

O texto dá poucos dados sobre ela, e todos aparecem na própria conversa: era samaritana, morava perto de Sicar, tinha tido cinco maridos e vivia com um homem que não era seu marido (Jo 4:5-18 ACF).

Ou seja, não sabemos a idade dela, a profissão, se tinha filhos, nem por que estava sozinha no poço àquela hora.

O que o capítulo faz questão de registrar é outra coisa: ela fala em seis versículos do diálogo (Jo 4:9, 11, 15, 17, 19 e 25) — pergunta, discorda, muda de assunto, provoca e no fim vai chamar a cidade.

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A Bíblia dá nome a ela?

Não. Em nenhum momento de João 4 o nome dela aparece.

O texto a identifica sempre pela origem ou pela condição: “uma mulher de Samaria” (v.7), “a mulher samaritana” (v.9), e depois simplesmente “a mulher”, que é como ela é chamada em quase todo o restante do capítulo.

Isso não é impressão: é o que aparece nos 42 versículos do capítulo, do primeiro ao último.

Circulam nomes atribuídos a ela por tradições posteriores. Nenhum deles está na Bíblia — e este artigo trata do que o texto diz.

Vale notar o contraste, porque ele é do próprio Evangelho: Nicodemos, que aparece no capítulo anterior, tem nome, cargo e sobrenome social. Ela não tem nenhum dos três — e é a ela que Jesus se declara o Messias.

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Onde está a passagem

A história ocupa João 4:1-42, sem paralelo nos outros Evangelhos — Mateus, Marcos e Lucas não a registram.

O capítulo começa explicando o trajeto: “E era-lhe necessário passar por Samaria” (Jo 4:4 ACF).

Geograficamente, Samaria ficava mesmo no caminho da Judeia para a Galileia. Mas muitos judeus faziam o desvio pelo outro lado do Jordão justamente para não passar por ali — o que dá outro peso ao “era-lhe necessário”.

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Por que judeus e samaritanos não se davam

A própria mulher explica a estranheza da cena: “Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos)” (Jo 4:9 ACF).

A raiz é histórica. Afinal, depois da queda do Reino do Norte, o rei da Assíria “trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria” (2Rs 17:24 ACF).

E o resultado religioso está registrado no mesmo capítulo: “Assim temiam ao Senhor, mas também serviam a seus deuses” (2Rs 17:33 ACF).

Ou seja, a rejeição não era só étnica — era sobre culto misturado. E é exatamente aí que a conversa vai desembocar, no versículo 20.

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O poço de Jacó e a hora sexta

“E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta” (Jo 4:6 ACF).

Vale reparar no horário. A hora sexta é por volta do meio-dia — o pior horário para carregar água, e o oposto do costume, que era ir de manhã cedo ou ao entardecer, em grupo.

O texto não diz por que ela foi àquela hora. A leitura comum é que evitava as outras mulheres; é uma inferência razoável, mas o capítulo não a confirma.

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A água viva

Jesus começa pedindo: “Dá-me de beber” (Jo 4:7 ACF). Quem tinha o cântaro era ela.

Depois inverte: “Se tu conheceras o dom de Deus (…) tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (Jo 4:10 ACF).

Ela responde no plano concreto, e com razão: “Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo” (Jo 4:11 ACF).

E a promessa vem completa: “aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” (Jo 4:14 ACF).

Repare no pedido dela: “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la” (Jo 4:15 ACF). Ela ainda está pensando em não voltar ao poço — e é nesse ponto que a conversa muda de rumo.

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Os cinco maridos: o que o texto diz e o que não diz

Jesus manda chamar o marido dela. Ela responde: “Não tenho marido”. E ele confirma: “Disseste bem” (Jo 4:17 ACF).

Então vem o versículo que todo mundo cita: “Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade” (Jo 4:18 ACF).

Agora repare no que o texto NÃO diz, porque é aqui que quase todo estudo acrescenta o que não está escrito:

  • não diz que ela era adúltera;
  • não diz se os cinco maridos morreram, se a repudiaram, ou os dois;
  • não diz que ela foi culpada pelo fim de nenhum desses casamentos;
  • não diz por que o homem com quem ela vive não é seu marido.

E há um detalhe de tom que costuma passar batido: Jesus não a repreende. Ele constata, e ela mesma responde chamando-o de profeta (Jo 4:19 ACF) — não se defendendo.

Num tempo em que o repúdio era um direito quase exclusivo do marido, cinco casamentos desfeitos podem dizer mais sobre o que fizeram com ela do que sobre o que ela fez. O texto não fecha essa questão — e nós também não deveríamos.

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“Nem neste monte, nem em Jerusalém”

Reconhecendo que fala com um profeta, ela leva a conversa para a maior disputa religiosa entre os dois povos: “Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar” (Jo 4:20 ACF).

A resposta desmonta a pergunta em vez de escolher um lado: “a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai” (Jo 4:21 ACF).

E então vem a frase que reorganiza tudo: “os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” (Jo 4:23 ACF), porque “Deus é Espírito” (Jo 4:24 ACF).

A discussão era sobre o lugar certo. A resposta foi sobre o tipo certo de adorador.

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“Eu o sou, eu que falo contigo”

Os moradores de Sicar saindo da cidade ao encontro de Jesus

Ela diz que sabe que o Messias há de vir e que, quando vier, anunciará tudo (Jo 4:25 ACF).

E a resposta é direta: “Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4:26 ACF).

É a primeira vez, no Evangelho de João, que Jesus se identifica como o Messias em tantas palavras — e o interlocutor é uma mulher samaritana, sozinha, num poço, no meio do dia.

O contraste com a reação dos discípulos, que chegam logo em seguida, é do próprio texto: “maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher” (Jo 4:27 ACF).

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O cântaro que ela deixou para trás

A samaritana correndo para a cidade, de mãos vazias, com o cântaro abandonado

“Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade” (Jo 4:28 ACF).

Ela tinha ido buscar água. Ou seja, voltou sem a água e sem o cântaro — e com um convite: “Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?” (Jo 4:29 ACF).

O resultado está no versículo 39: “muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher”.

E o fecho é honesto sobre como a fé amadurece: “Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido” (Jo 4:42 ACF). O testemunho dela levou a cidade até Jesus — e depois saiu da frente.

Sendo assim, Jesus ficou ali dois dias, a pedido dos samaritanos (Jo 4:40 ACF).

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7 lições da mulher samaritana

João 4 não foi escrito para explicar a vida dela. Foi escrito para responder duas perguntas que judeus e samaritanos disputavam havia séculos: onde se adora e quem é o Messias.

As sete lições abaixo saem daí — do que o capítulo discute, e não do que se costuma imaginar sobre os cinco maridos.

  1. “Era-lhe necessário passar por Samaria” (Jo 4:4) — havia três rotas entre a Judeia e a Galileia, e os judeus ortodoxos escolhiam qualquer uma das outras duas1. Vale olhar o verbo grego: deî (Strong G1163), o mesmo de “assim importa que o Filho do homem seja levantado” (Jo 3:14 ACF). A necessidade estava no plano, não no mapa.
  2. Ela chama Jacó de “nosso pai”, e podia (Jo 4:12) — os samaritanos eram uma corrente conservadora do judaísmo que tomava por Escritura só a sua versão dos cinco livros de Moisés — o Pentateuco Samaritano — e mantinha templo próprio no monte Gerizim desde o século IV a.C.2 Gênesis entrava no cânon dos dois lados, e é isso que faz do poço uma herança disputada. Os profetas, os salmos e Jerusalém ficavam de fora. A discussão do capítulo corre entre duas Bíblias: uma curta e uma inteira.
  3. Ele desmontou o endereço e manteve o conteúdo (Jo 4:21-22) — todo mundo cita o versículo 21, “nem neste monte nem em Jerusalém”. Quase ninguém cita o 22: “a salvação vem dos judeus”. Wiersbe resume sem rodeio: “A única fé que Deus aceita é aquela dada ao mundo por meio dos judeus”3. Ou seja, adorar “em espírito e em verdade” nunca quis dizer adorar com sinceridade.
  4. Quando ela diz “profeta”, a palavra tem endereço (Jo 4:19, 25) — num cânon que termina em Deuteronômio, o profeta esperado é um só: “O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu” (Dt 18:15 ACF). Os samaritanos aguardavam esse profeta como Moisés, e a fala dela sobre o Messias pode ser a forma de João traduzir isso ao leitor2. Repare no salto: de “vejo que és profeta” (Jo 4:19 ACF) à espera declarada do Messias (Jo 4:25) vão seis versículos. Do ponto de vista dela é o mesmo assunto — ela puxou o fio da Bíblia que tinha.
  5. “Eu o sou” é mais curto no grego (Jo 4:26) — são duas palavras, egṓ eimi, sem o predicado que as traduções precisam completar. Wiersbe verte ao pé da letra — “Eu que falo contigo sou o ‘Eu Sou’!” — e vê ali uma ousadia: Jesus pôs na boca o santo nome de Deus4. Nos outros evangelhos, quem o reconhece costuma sair de perto com ordem de silêncio (Mc 8:29-30 ACF). Aqui a identidade é entregue de graça, longe do templo e da cidade santa, a uma estrangeira que ele conhecera minutos antes. Quem escolhe a plateia é quem fala.
  6. O convite dela ainda era uma pergunta em dúvida (Jo 4:29) — em “Porventura não é este o Cristo?” está a partícula mḗti (Strong G3385), que o léxico registra nas perguntas hesitantes, as que esperam “não” por resposta. Ela sondou, não anunciou. E a cidade foi.
  7. Os discípulos entraram na mesma cidade e voltaram com o almoço (Jo 4:8, 27, 31) — foram a Sicar comprar comida e estranharam encontrá-lo conversando com uma mulher (Jo 4:27 ACF). Wiersbe põe o dedo na ferida: eles não falaram de Cristo a ninguém e, “no final, foi a mulher quem fez o trabalho deles”5. O grego costura a cena: o termo de “cansado do caminho” (Jo 4:6) é o mesmo de “onde vós não trabalhastes” (Jo 4:38) — kopiáō (Strong G2872). Dá para uma igreja inteira cuidar da logística e perder a ceifa que passa ao lado.

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Esboço de pregação

Um roteiro em três pontos, seguindo a ordem do capítulo. Serve para mensagem, célula ou EBD.

Tema: a conversa que ninguém achava que devia acontecer. Texto: João 4:1-42 (versículo-chave: 4:26).

  1. O encontro improvável (Jo 4:4-9) — o caminho evitado, a hora errada, a pessoa errada, a pergunta que a própria mulher faz. Aplicação: mostre que o “era-lhe necessário” do versículo 4 traz o verbo que João usa para o que Deus determinou (Jo 3:14) — a rota passou por Samaria por decisão, não por conveniência. Pergunte que endereço a igreja vem contornando com desculpa de mapa;
  2. A conversa que não desviou (Jo 4:16-24) — ele nomeia a vida dela sem humilhar, e ela leva a conversa para a teologia. Aplicação: a virada do ponto está no versículo 22, não no 21 — Jesus tira o monte e mantém a verdade. Não pregue “Deus aceita você como você é” a partir daqui; o texto diz que tipo de adorador o Pai procura;
  3. O cântaro que ficou (Jo 4:28-42) — ela vai buscar a cidade, e a cidade termina crendo por si. Aplicação: no versículo 39 os samaritanos creem pela palavra dela; no 42, já não é pelo dito dela que creem. Feche mostrando que a distância entre os dois versículos é o alvo do testemunho, e não o fracasso dele.

Conclusão sugerida: fechar no versículo 42 — o testemunho leva até Jesus, e depois se apaga diante dele.

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Perguntas frequentes

Qual o nome da mulher samaritana?

A Bíblia não dá nome a ela. Em João 4 ela é chamada de “uma mulher de Samaria”, “a mulher samaritana” e “a mulher”, do começo ao fim do capítulo. Nomes atribuídos a ela vêm de tradições posteriores, não do texto bíblico.

Quantos maridos a mulher samaritana teve?

Cinco, e o homem com quem vivia na ocasião não era seu marido (Jo 4:18).

Qual era o pecado da mulher samaritana?

O texto não diz. Não afirma que ela era adúltera, nem explica se os cinco casamentos terminaram por morte, por repúdio ou por outro motivo. Jesus constata a situação sem repreendê-la, e ela responde reconhecendo-o como profeta (Jo 4:19).

Onde está a história da mulher samaritana?

Em João 4:1-42. É um relato exclusivo do Evangelho de João — não aparece em Mateus, Marcos nem Lucas.

Por que os judeus não se davam com os samaritanos?

Por uma disputa antiga de origem e de culto. Depois da queda do Reino do Norte, a Assíria assentou povos estrangeiros nas cidades de Samaria (2Rs 17:24), e o culto resultante misturava o Senhor com outros deuses (2Rs 17:33). O próprio João explica que “os judeus não se comunicam com os samaritanos” (Jo 4:9).

O que significa a água viva?

Jesus a define como a água que tira a sede definitivamente e vira fonte dentro da pessoa: “se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” (Jo 4:14).

Por que ela foi buscar água ao meio-dia?

O texto informa a hora — “quase à hora sexta” (Jo 4:6) — mas não explica o motivo. A leitura de que ela evitava o encontro com as outras mulheres é uma inferência comum, não uma afirmação do capítulo.

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Fontes

Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF).

  1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. I. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 385 (comentário de João 4:1-30).
  2. LUNDE, Jonathan M. “Os samaritanos”. In: HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Editora Vida, 2015, verbete “Os samaritanos”.
  3. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. I. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 386 (comentário de João 4:16-24).
  4. Ibid., p. 387.
  5. Ibid., p. 388.

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