Propiciação: Significado Bíblico, os Quatro Textos e a Diferença Para Expiação

Propiciação é o sacrifício que satisfaz a justiça divina e afasta a condenação que pesava sobre o pecador, de modo que Deus possa perdoá-lo sem abrir mão de ser justo.1 A palavra aparece poucas vezes na Bíblia, e na maioria delas a respeito da morte de Cristo.

O termo dá trabalho por dois motivos. Primeiro, ele soa como algo que se faz para Deus, quando o texto bíblico apresenta o contrário: é Deus quem provê o sacrifício. Segundo, ele anda colado a outra palavra parecida, expiação, e as duas são usadas de forma trocada até em traduções da Escritura.

Hoje, vamos ver o significado de propiciação, as palavras gregas que estão por trás dela, o detalhe de tradução que liga a propiciação ao propiciatório da arca, os quatro textos do Novo Testamento e a diferença prática entre propiciação e expiação.

O que significa propiciação

Propiciação é tornar propício, ou seja, tornar favorável. Aplicada à obra de Cristo, ela descreve o sacrifício que satisfaz a justiça de Deus e remove o motivo da sua ira contra o pecado.

O pressuposto do termo é que existe uma ira real a ser tratada. A Escritura afirma isso sem rodeios, e é por aí que o assunto começa a incomodar o leitor moderno.

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Romanos 3:23

Portanto, a propiciação não é uma questão de humor divino, e sim de justiça. Deus não pode simplesmente ignorar o pecado sem deixar de ser justo, e o sistema de sacrifícios do Antigo Testamento existia justamente para ensinar o caminho pelo qual o pecador poderia se aproximar dele.2

Existe ainda um dado do Antigo Testamento que sustenta tudo o que vem depois:

Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma. Levítico 17:11

Sendo assim, a propiciação pertence ao vocabulário do sacrifício, e não ao da negociação. Quem lê o termo como se fosse um agrado oferecido a uma divindade irritada está lendo a palavra pelo uso que ela tinha nas religiões pagãs, não pelo uso que ela tem na Escritura.

Voltar ao topo

As três palavras gregas e as seis vezes em que aparecem

No Novo Testamento existem três palavras dessa família, todas da mesma raiz, e juntas elas aparecem seis vezes.

Grego Transliteração Classe Onde aparece
ἱλαστήριον hilastḗrion substantivo Romanos 3:25 · Hebreus 9:5
ἱλασμός hilasmós substantivo 1 João 2:2 · 1 João 4:10
ἱλάσκομαι hiláskomai verbo Hebreus 2:17 · Lucas 18:13

São poucos textos, e vale conferir cada um, pois é comum ouvir a doutrina apresentada como se ela estivesse em toda página do Novo Testamento.

O detalhe que quase nunca aparece nos artigos sobre o assunto está na última linha da tabela. O verbo dessa família é o que o publicano usa na parábola:

O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Lucas 18:13

Onde a Almeida traz “tem misericórdia de mim”, o grego possui o mesmo verbo da propiciação. A oração do publicano, lida ao pé da letra, é um pedido para que Deus seja propício a ele — e é a oração de quem Jesus declara ter descido justificado para casa (Lucas 18:14).

Voltar ao topo

A mesma palavra que a Bíblia traduz por “propiciatório”

Duas Bíblias Abertas Lado a Lado em Romanos e Hebreus para Comparar Propiciação e Propiciatório

Aqui está o ponto que resolve a confusão mais comum sobre o tema, e ele é uma questão de tradução.

O substantivo hilastḗrion aparece duas vezes no Novo Testamento, e a Almeida Corrigida Fiel o traduz de duas maneiras diferentes:

Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus. Romanos 3:25

E sobre a arca os querubins da glória, que faziam sombra no propiciatório; das quais coisas não falaremos agora particularmente. Hebreus 9:5

Em Romanos, “propiciação”. Em Hebreus, “propiciatório” — que é o nome da tampa de ouro da arca da aliança, descrita em Êxodo 25:17. É a mesma palavra grega nos dois versículos.

Isso muda a leitura de Romanos 3:25. Paulo não está apenas dizendo que Cristo fez uma propiciação; ele está dizendo que Deus o apresentou publicamente como o propiciatório — o lugar onde o sangue era aspergido, que ficava escondido no Santo dos Santos e que ninguém via.

O contexto do Antigo Testamento completa o quadro. No Dia da Expiação, o sumo sacerdote entrava uma vez por ano com o sangue:

Depois degolará o bode, da expiação, que será pelo povo, e trará o seu sangue para dentro do véu; e fará com o seu sangue como fez com o sangue do novilho, e o espargirá sobre o propiciatório, e perante a face do propiciatório. Levítico 16:15

A própria tampa recebia o nome de “cobertura de expiação”, e o gesto de aspergir o sangue ali era o que reconciliava o povo com Deus a cada ano.3 Sobre aquela tampa, entre os querubins, Deus prometera encontrar-se com Moisés (Êxodo 25:22).

Portanto, quem entende o propiciatório entende Romanos 3:25. E quem quiser ver a peça no conjunto do mobiliário pode ler o nosso artigo sobre o tabernáculo de Moisés.

Voltar ao topo

Os quatro textos do Novo Testamento

Descontando Hebreus 9:5, que fala do móvel, e Lucas 18:13, que traz o verbo na oração do publicano, sobram quatro textos que aplicam a propiciação à obra de Cristo.

1. Romanos 3:25 — Deus é quem propõe

O sujeito da frase é Deus. Foi Ele quem apresentou Cristo como propiciação, e o objetivo declarado é demonstrar a justiça divina.

2. Hebreus 2:17 — o sumo sacerdote

Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Hebreus 2:17

Repare que a Almeida traduz aqui por “expiar” o verbo da família da propiciação. É a própria tradução alternando entre os dois termos, e isso responde na prática boa parte da discussão da seção seguinte.

3. 1 João 2:2 — a extensão

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. 1 João 2:2

4. 1 João 4:10 — a origem

Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. 1 João 4:10

Este último desfaz sozinho a caricatura da doutrina. A propiciação nasce do amor de Deus, e é Ele quem envia o Filho — o amor não é o resultado do sacrifício, é a causa dele.

Voltar ao topo

Propiciação e expiação: a diferença

As duas palavras tratam do mesmo sacrifício, vistas de ângulos diferentes. A distinção mais clara é geométrica:

O que faz Direção Onde se vê
Expiação remove a culpa do pecador horizontal o bode emissário, que leva o pecado para longe
Propiciação aplaca a ira justa de Deus vertical o sangue aspergido sobre o propiciatório

A expiação traz o prefixo ex-, que significa “fora de”, e descreve a remoção da culpa. A propiciação envolve a dimensão vertical: a ira justa de Deus é apaziguada e a sua justiça, satisfeita.4

No Antigo Testamento os dois lados apareciam em dois animais no mesmo dia. Um bode era imolado e o seu sangue levado para dentro do véu; sobre o outro, o bode emissário, Arão confessava todas as iniquidades do povo antes de enviá-lo ao deserto (Levítico 16:21).

Vale notar que no hebraico a palavra ligada à expiação significa literalmente cobrir, e é traduzida por expiar, purificar, reconciliar, pacificar e ser misericordioso, conforme o contexto.5

Sendo assim, discutir qual das duas palavras é a correta costuma render menos do que perguntar o que cada uma resolve. A culpa precisava sair de cima do pecador, e a justiça de Deus precisava ser satisfeita; o sacrifício de Cristo faz as duas coisas.

Voltar ao topo

Do cordeiro de uma família ao Cordeiro do mundo

O sistema sacrificial ensinava a mesma lição em escalas crescentes, e essa progressão organiza o assunto melhor do que qualquer definição.

  • Por uma pessoa: os sacrifícios individuais, oferecidos sempre que alguém se aproximava de Deus;
  • Por uma família: o cordeiro da Páscoa, morto e consumido em casa;
  • Por uma nação: o Dia da Expiação, uma vez por ano, com o sumo sacerdote representando todo o povo;
  • Pelo mundo: Jesus, apontado por João Batista como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29).2

É exatamente essa a escala que 1 João 2:2 alcança ao dizer “e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”. O texto está no fim de uma linha que começa em Levítico.

E a lógica do sangue atravessa a linha inteira:

E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. Hebreus 9:22

Voltar ao topo

A objeção: Deus precisava ser acalmado?

Esta é a pergunta que quase todo estudante faz ao ouvir a doutrina pela primeira vez, e ela merece resposta direta em vez de desconversa.

A objeção supõe um esquema em que um Deus irado é apaziguado por um terceiro bondoso. Se fosse assim, a propiciação seria uma transação entre duas partes com vontades opostas, e o Pai apareceria como aquele que precisa ser convencido.

A resposta está na gramática dos próprios textos. Em Romanos 3:25 Deus é o sujeito, e é Ele quem propõe Cristo como propiciação; em 1 João 4:10 é Ele quem envia o Filho. Ou seja, Deus não é o objeto da propiciação apenas, porque é também o seu sujeito. Nas palavras de James Boice, “o próprio Deus aplaca Sua ira contra o pecado para que Seu amor possa receber e salvar os pecadores”.2

Existe aqui uma diferença de fundo em relação às religiões pagãs, e ela é o oposto do que a objeção imagina. Nas religiões antigas, o adorador oferecia algo para mudar a disposição do deus; na Escritura, é Deus quem provê o sacrifício e quem estabelece o lugar do encontro.

A propiciação, portanto, não diminui o amor de Deus. Ela mostra o preço que esse amor estava disposto a pagar para permanecer justo enquanto perdoa.

Voltar ao topo

Reflexões Finais

A doutrina da propiciação sustenta uma coisa muito prática: a segurança de quem crê não depende do quanto ele conseguiu se arrepender, e sim do que já foi feito e aceito.

O sangue foi aspergido, a justiça foi satisfeita e o lugar do encontro está aberto. Quando Mateus registra que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo, no momento da morte de Cristo (Mateus 27:51), ele está dizendo que o Santo dos Santos deixou de ser inacessível.

Vale registrar também o que este estudo não decide. A extensão da propiciação — se ela foi feita por todos ou pelos eleitos — é assunto de outra discussão, tratada no artigo sobre soteriologia, e cristãos ortodoxos divergem nela.

O que os textos afirmam sem divergência é o essencial: houve ira, houve sacrifício, e quem o proveu foi o próprio Deus.

Voltar ao topo

Pontos Principais a Recordar

  1. Propiciação é o sacrifício que aplaca a ira justa de Deus, tornando possível que Ele perdoe o pecador sem deixar de ser justo;
  2. São três palavras gregas e seis ocorrências no Novo Testamento: hilastḗrion (Romanos 3:25, Hebreus 9:5), hilasmós (1 João 2:2 e 4:10) e o verbo hiláskomai (Hebreus 2:17, Lucas 18:13);
  3. “Propiciação” e “propiciatório” são a mesma palavra grega — a Almeida traduz hilastḗrion de um jeito em Romanos 3:25 e de outro em Hebreus 9:5. Cristo é apresentado como o propiciatório, a tampa da arca onde o sangue era aspergido;
  4. Expiação e propiciação são ângulos do mesmo sacrifício: a expiação remove a culpa do pecador, na horizontal; a propiciação satisfaz a justiça de Deus, na vertical;
  5. A própria Almeida alterna os termos — em Hebreus 2:17 ela traduz por “expiar” o verbo da família da propiciação;
  6. Deus é sujeito, e não objeto: em Romanos 3:25 é Ele quem propõe, e em 1 João 4:10 é Ele quem envia. A propiciação nasce do amor de Deus, e não o produz;
  7. A escala cresce ao longo da Escritura: um sacrifício por uma pessoa, pela família na Páscoa, pela nação no Dia da Expiação e, por fim, pelo mundo.

Voltar ao topo

Perguntas Frequentes

O que é propiciação segundo a Bíblia?

É o sacrifício pelo qual a ira justa de Deus contra o pecado é aplacada, de modo que Ele possa perdoar sem deixar de ser justo. O Novo Testamento aplica o termo à morte de Cristo em quatro textos: Romanos 3:25, Hebreus 2:17, 1 João 2:2 e 1 João 4:10.

A ênfase bíblica está em quem toma a iniciativa. É Deus quem apresenta Cristo como propiciação e quem envia o Filho, o que afasta a ideia de um sacrifício oferecido para mudar a disposição divina.

Qual a diferença entre propiciação e expiação?

As duas descrevem o mesmo sacrifício por ângulos diferentes. A expiação remove a culpa do pecador, numa dimensão horizontal, e a propiciação satisfaz a justiça de Deus, numa dimensão vertical.

No Dia da Expiação as duas apareciam em dois animais: o bode imolado, cujo sangue ia para o propiciatório, e o bode emissário, que levava as iniquidades para o deserto. Vale lembrar que a própria Almeida usa “expiar” em Hebreus 2:17 para o verbo da família da propiciação.

Propiciação e propiciatório são a mesma coisa?

No grego, sim: as duas traduzem hilastḗrion. A Almeida traz “propiciação” em Romanos 3:25 e “propiciatório” em Hebreus 9:5, e a palavra original é a mesma nos dois lugares.

O propiciatório era a tampa de ouro da arca da aliança (Êxodo 25:17), sobre a qual o sangue era aspergido uma vez por ano. Quando Paulo chama Cristo de hilastḗrion, está dizendo que Ele é o lugar do encontro que antes ficava escondido atrás do véu.

O que significa propiciação no hebraico?

O Antigo Testamento não usa o termo grego, mas trabalha o mesmo conceito com uma raiz que significa literalmente cobrir, traduzida conforme o contexto por expiar, purificar, reconciliar, pacificar e ser misericordioso.

É dessa ideia de cobertura que vem o nome da tampa da arca, chamada de “cobertura de expiação”. O sangue sobre ela cobria os pecados do povo diante de Deus.

Voltar ao topo

Fontes

  1. BOICE, James Montgomery. Fundamentos da Fé Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 270.
  2. Ibid., p. 272.
  3. SPROUL, R. C. Somos Todos Teólogos: uma introdução à teologia sistemática. São José dos Campos: Fiel, 2014, p. 189.
  4. Ibid., pp. 190-191.
  5. PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 2006, p. 167.

Nota sobre as citações bíblicas: todas as citações deste artigo seguem a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF). As formas gregas foram conferidas no texto do Novo Testamento com numeração de Strong.

Voltar ao topo

Deixe um comentário