Salmo 12: Explicação, Hebraico e Esboço de Pregação

O Salmo 12 começa com um pedido de socorro que não tem inimigo armado do outro lado. A ameaça é outra: acabaram as pessoas de palavra.

Davi olha em volta e não encontra em quem confiar. O que ele descreve não é uma perseguição, é uma sociedade em que falar deixou de ter compromisso com a verdade.

E o salmo responde a isso do jeito mais improvável possível: com outra palavra. A de Deus, que passou pelo fogo sete vezes.

O texto do Salmo 12

São oito versículos. Vale lê-los inteiros antes de qualquer comentário, porque o salmo tem três vozes que se revezam: a de Davi, a dos mentirosos e a de Deus.

“Salva-nos, SENHOR, porque faltam os homens bons; porque são poucos os fiéis entre os filhos dos homens. Cada um fala com falsidade ao seu próximo; falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado. O Senhor cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente. Pois dizem: Com a nossa língua prevaleceremos; são nossos os lábios; quem é senhor sobre nós?” (Sl 12:1-4 ACF)

“Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o Senhor; porei a salvo aquele para quem eles assopram. As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes. Tu os guardarás, Senhor; desta geração os livrarás para sempre. Os ímpios andam por toda parte, quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados.” (Sl 12:5-8 ACF)

A estrutura é simétrica e vale a pena enxergá-la antes de entrar nos detalhes. Os versículos 1 e 8 emolduram o salmo com o mesmo diagnóstico: falta gente boa e sobra gente ruim.

Dentro da moldura, dois blocos se opõem. Os versículos 2 a 4 dão a palavra aos corruptos. Os versículos 6 e 7 falam da palavra de Deus. E bem no centro, no versículo 5, quem fala é o próprio Deus.

O contexto e o título do salmo

O título hebraico traz três informações: é do mestre de canto, é de Davi e é “sobre a Seminite”. Nenhuma delas menciona ocasião, inimigo ou guerra.

A expressão “sobre a Seminite” aparece só mais duas vezes em toda a Bíblia: no cabeçalho do Salmo 6 e em 1 Crônicas 15:21, numa lista de instrumentos do culto. O termo hebraico é sheminit, formado sobre a palavra “oitavo”, e a leitura mais comum é que se trate de uma indicação musical — um instrumento de oito cordas ou o registro grave da execução.

Uma datação plausível aponta para os anos em que Davi fugia de Saul, período em que ele chegou a declarar que havia apenas um passo entre ele e a morte (1 Sm 20:3).1 É uma hipótese razoável: o cenário do salmo é o de alguém sem poder, cercado de gente que fala bem e age mal.

Vale notar como o Salmo 12 se encaixa depois do 11. Ali, o problema eram os alicerces da sociedade ruindo (Sl 11:3 ACF). Aqui, Davi mostra por dentro o que significa esse desmoronamento: quando a palavra apodrece, o alicerce já foi embora.

Uma observação técnica que ajuda na hora de comparar Bíblias: na numeração hebraica, o título conta como versículo 1. Por isso o que aparece como Salmo 12:1 nas nossas Bíblias é 12:2 no texto hebraico, e assim por diante até o fim do capítulo.

Versículo 1: a queixa de quem ficou sozinho

O salmo abre com um verbo no imperativo. Não é uma reflexão sobre os tempos difíceis; é um pedido dirigido a alguém.

“Salva-nos” ou “Socorro”?

A ACF, a ARC, a NAA e a NVI abrem com “Salva-nos, SENHOR”; a ARA, a BKJ e a NVT abrem com “Socorro, SENHOR”. As duas famílias traduzem a mesma palavra hebraica, hoshi’ah, imperativo do verbo yasha‘, que significa livrar, salvar, tirar do aperto.

A diferença é de temperatura, não de sentido. “Socorro” soa como grito; “salva-nos” soa como oração. O hebraico é as duas coisas ao mesmo tempo: um grito que já sabe para quem gritar.

Guarde esse verbo. Ele volta no meio do salmo, e a volta dele é o eixo de tudo.

Os fiéis “desaparecem”: dois verbos, dois efeitos

Davi usa dois termos para dizer que a gente de bem acabou. O primeiro é gamar, “chegar ao fim”, “esgotar-se”. O segundo é passu, e este só ocorre nesta única passagem em toda a Bíblia Hebraica.

O detalhe curioso está no primeiro. Gamar aparece cinco vezes no Antigo Testamento, todas dentro do saltério — e em duas delas descreve algo que Deus faz por seus filhos, como em “O Senhor aperfeiçoará o que me toca” (Sl 138:8 ACF). O mesmo verbo que fala de Deus levando uma obra até o fim fala aqui de uma virtude que se esgotou entre os homens.

Quanto a quem sumiu: chasid, traduzido por “homens bons” na ACF, “homens benignos” na ARC e “homens piedosos” na ARA, é a palavra formada sobre chesed, o amor leal da aliança. O chasid não é o religioso; é o leal, aquele em quem a bondade pactuada de Deus produziu bondade pactuada com o próximo.

Já emunim, “os fiéis”, vem da mesma raiz do nosso “amém”. É o adjetivo de quem é confiável, e Provérbios o usa exatamente assim: mensageiro fiel, testemunha fiel, e a pergunta amarga: “porém o homem fidedigno quem o achará?” (Pv 20:6 ACF).

Ou seja: sumiram os leais e sumiram os confiáveis. Não é uma queixa contra a época. É a constatação de que faltou gente de palavra.

O lamento do salmista não nasce de mero saudosismo: reflete a dor de quem desejava ver o povo de Deus cumprindo a sua vocação na aliança, mas não encontrava homens íntegros ao lado.1

Versículos 2 a 4: a anatomia da palavra corrompida

O salmo não fala de mentira em geral. Ele descreve o problema em camadas, e quase cada uma delas tem uma palavra hebraica própria.

Camada 1: a fala vazia

“Cada um fala com falsidade ao seu próximo” (Sl 12:2 ACF). O termo é shav‘, que carrega a ideia de vazio, de nada, de coisa sem substância — a mesma palavra do mandamento que proíbe tomar o nome do SENHOR em vão (Êx 20:7 ACF).

Isso reposiciona o pecado. A falsidade do versículo 2 não é apenas dizer o que não é verdade; é usar a fala para o nada, esvaziar a palavra do peso que ela deveria ter.

Camada 2: os lábios lisos

A expressão “lábios lisonjeiros” traduz chalaqot, que significa literalmente “coisas lisas”, “coisas escorregadias”. A raiz é a mesma que descreve a lisura do pescoço de Jacó, coberta com peles de cabrito para enganar o pai (Gn 27:16 ACF), e o terreno escorregadio em que os ímpios são postos (Sl 73:18 ACF).

A imagem é precisa e um pouco assustadora. O lisonjeiro não agride: ele desliza. E quem anda em chão liso não percebe a queda enquanto ela não termina.

A armadilha da adulação é conhecida: bajulação não é comunicação genuína, mas manipulação egoísta.2 Absalão, por exemplo, usou exatamente essa estratégia para virar o povo contra o próprio pai.2

Na ACF, “lábios lisonjeiros” aparece em dois versículos, e os dois estão aqui — no 2 e no 3. É uma expressão do Salmo 12, não uma fórmula corrente do saltério.

Camada 3: o coração dividido

O fim do versículo 2 traz a expressão mais forte do trecho. Onde a ACF diz “coração dobrado” e a ARA diz “coração fingido”, o hebraico traz, ao pé da letra, belev valev: “com coração e coração”.

Não é um coração falso. São dois. A pessoa mantém dentro de si um coração para cada interlocutor, e nenhum dos dois é o verdadeiro, porque nenhum deles é único.

O oposto disso é o pedido do Salmo 86:11 — um coração inteiro, indiviso, para temer o nome de Deus. O contraste é interno ao próprio saltério, e é por aí que a Escritura mede sinceridade: não pela intensidade do sentimento, mas pela unidade dele.

Camada 4: a reivindicação de propriedade

O versículo 4 é onde a coisa mostra a raiz. “Com a nossa língua prevaleceremos; são nossos os lábios; quem é senhor sobre nós?” (Sl 12:4 ACF).

Repare no que está sendo dito. Eles não estão negando a existência de Deus; estão declarando que a boca deles não presta contas a ninguém. A língua vira propriedade privada.

A pergunta “quem é senhor sobre nós?” não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia. É uma formulação única, e ela transforma o assunto do salmo: a corrupção da linguagem não é um problema de má educação. É um problema de senhorio.

E o versículo 3 já tinha antecipado a resposta. Quem corta os lábios lisonjeiros é o SENHOR — o mesmo a quem eles dizem não dever satisfação.

Versículo 5: Deus toma a palavra

Ancião e família humilde encontrando refúgio e consolo na porta da cidade ao amanhecer
“Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o SENHOR” (Sl 12:5 ACF) — A resposta soberana de Deus diante da injustiça: o Senhor intervém para salvar os abatidos.

Aqui o salmo muda de voz. Depois de quatro versículos ouvindo Davi e os mentirosos, quem fala é Deus, e a fala dele é curta.

“Me levantarei agora”

“Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o Senhor” (Sl 12:5 ACF). O verbo é o de quem estava sentado e se põe de pé — o gesto de quem entra em ação.

O que merece atenção é o motivo alegado. Deus não diz que se levanta porque a verdade foi ultrajada, nem porque seu nome foi desonrado. Diz que se levanta pela opressão dos pobres e pelo gemido dos necessitados.

Quer dizer: o salmo trata a mentira social como violência contra os fracos. Quem perde primeiro quando a palavra deixa de valer é sempre quem não tem outro recurso além dela.

A palavra que virou nome próprio

Lembra do verbo do versículo 1? Ele volta aqui. “Porei a salvo” traduz o substantivo yesha‘, da mesma raiz de hoshi’ah — a palavra que Davi gritou no primeiro versículo é a palavra que Deus devolve no quinto.

Essa raiz hebraica é a mesma presente nos nomes Josué e Jesus, ambos fundamentados na certeza de que o SENHOR é a salvação do Seu povo.2

Não é curiosidade etimológica solta. A estrutura do salmo é essa: o homem grita uma palavra, e Deus responde com a mesma palavra em forma de promessa.

A frase mais difícil do salmo

O fim do versículo 5 é o ponto em que os tradutores mais divergem, e o motivo é o hebraico, que traz literalmente algo como “porei em salvo — ele bufa por ele”.

A ACF resolve por “aquele para quem eles assopram”, a BKJ por “daquele que se incha para ele”, a ARA por “a quem por isso suspira” e a NVI por “Eu lhes darei a segurança que tanto anseiam”. O hebraico favorece a leitura em que o verbo expressa o anseio confiante do oprimido por livramento.2

As duas leituras cabem no hebraico. Numa, Deus protege o pobre daquele que resfolega contra ele; noutra, Deus dá ao pobre exatamente o resguardo que ele tanto espera. O sentido geral do versículo sobrevive às duas.

Versículos 6 e 7: a palavra que passou pelo fogo

Cadinho de fundição purificando prata incandescente em oficina antiga na Judeia
“As palavras do SENHOR são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes” (Sl 12:6 ACF) — Em contraste com a falsidade humana, a Palavra de Deus é perfeitamente pura, provada e digna de total confiança.

Chegamos ao contraste que organiza o salmo inteiro. De um lado, palavras vazias, lisas e duplas. Do outro, uma palavra que foi para o forno.

O cadinho e as sete vezes

“As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes” (Sl 12:6 ACF). Na ACF, “prata refinada” só aparece neste versículo.

A palavra traduzida por “fornalha” é alil, e ela também não ocorre em nenhum outro lugar da Bíblia Hebraica. É o cadinho de barro em que o metal era fundido para que a escória subisse à superfície e fosse retirada.

O número não é decorativo. “Sete vezes” é a expressão bíblica da completude — a mesma construção da retribuição sétupla prometida a quem matasse Caim (Gn 4:15 ACF) e da luz sete vezes maior de Isaías 30:26.

Junte as duas imagens e o argumento aparece inteiro. A fala dos homens do versículo 2 é vazia por natureza; a fala de Deus é o metal que já foi ao fogo tantas vezes quantas eram necessárias, e voltou sem nada que não fosse ele mesmo.

O contraste continua atual e desconfortável: enquanto a Palavra pura de Deus é tratada com desdém, o mundo não poupa recursos para aplaudir bajulações vazias.3

“Tu os guardarás” ou “Tu nos guardarás”?

Este é o ponto em que as sete versões se dividem ao meio, e a divisão não é de estilo.

A ACF e a BKJ dizem “Tu os guardarás”. A ARA, a ARC, a NAA, a NVI e a NVT dizem “Tu nos guardarás”. É a diferença entre Deus preservar alguma coisa e Deus preservar a nós.

O hebraico do versículo traz dois sufixos de terceira pessoa: o primeiro verbo tem sufixo plural (“guardá-los”) e o segundo, singular (“guardá-lo”). As traduções que trazem “nos” seguem uma tradição textual diferente, atestada em manuscritos e antigas versões.

Porém, mesmo ficando com a terceira pessoa, a pergunta continua: guardar quem? Duas respostas são possíveis, e ambas fazem sentido no salmo.

Se o antecedente for “as palavras do SENHOR” do versículo 6, a promessa é de que a Palavra de Deus atravessa as gerações mentirosas sem se perder. Se o antecedente for os pobres e necessitados do versículo 5, a promessa é de que as pessoas oprimidas pela mentira serão preservadas.

Escolher uma não anula a outra, porque o salmo já ligou as duas coisas: quem preserva os oprimidos é quem cumpre a palavra empenhada com eles. A tradução que você tem na mão apenas escolheu qual das pontas destacar.

Versículo 8: o fecho que não resolve

O leitor moderno espera que o salmo termine no versículo 7. Terminaria bem: promessa dada, povo guardado, ponto final.

Mas Davi acrescenta mais um. “Os ímpios andam por toda parte, quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados” (Sl 12:8 ACF). Ou seja: a promessa foi feita e a rua continua igual.

A palavra traduzida por “vileza” é zulut, outra que não aparece em nenhum outro texto da Bíblia Hebraica. E o verbo que a acompanha, “ser exaltado”, é o verbo comum de erguer, elevar, pôr no alto — o mesmo que a Escritura usa para exaltar a Deus.

A ironia está aí. Infelizmente, o que deveria ser rebaixado é posto no lugar mais alto, e é exatamente quando isso acontece que os ímpios circulam à vontade. A NVT traduz o efeito de forma direta: “a maldade seja elogiada em toda a terra” (Sl 12:8 NVT).

Terminar assim é honesto. O salmo não promete que a mentira vai parar amanhã; promete que Deus se levantou e que a palavra dele resiste ao fogo. O resto continua acontecendo enquanto a promessa é verdadeira.

O vocabulário hebraico do salmo

Seis palavras carregam o peso do capítulo, e três delas não existem em nenhum outro lugar do Antigo Testamento:

Palavra Onde está Sentido Nota
chasid “homens bons” (v. 1) o leal, o fiel à aliança formada sobre chesed, o amor leal
passu “são poucos” (v. 1) cessar, desaparecer só ocorre aqui em toda a Bíblia
shav‘ “falsidade” (v. 2) vazio, nada, sem substância a palavra do “em vão” de Êx 20:7
chalaqot “lisonjeiros” (v. 2 e 3) coisas lisas, escorregadias a raiz do chão liso de Sl 73:18
alil “fornalha” (v. 6) cadinho de fundição só ocorre aqui em toda a Bíblia
zulut “os mais vis” (v. 8) vileza, o que não presta só ocorre aqui em toda a Bíblia

As formas hebraicas referem-se ao texto etiquetado do Antigo Testamento.

Três palavras únicas em oito versículos é uma densidade alta para um salmo curto. Isso costuma indicar linguagem escolhida a dedo, e não fórmula litúrgica repetida.

Onde as sete versões discordam

O Salmo 12 tem quatro pontos em que os tradutores precisaram tomar decisão. Comparar essas decisões ajuda a ver o que está em jogo no texto:

Ponto Uma leitura A outra leitura
v. 1 — o clamor “Salva-nos, SENHOR” (ACF, ARC, NAA, NVI) “Socorro, SENHOR” (ARA, BKJ, NVT)
v. 2 — o coração “coração dobrado” (ACF, ARC) “coração fingido” (ARA, NAA, NVT)
v. 5 — o fim do versículo “aquele para quem eles assopram” (ACF, ARC) “a quem por isso suspira” (ARA), “que tanto anseiam” (NVI)
v. 7 — quem é guardado “Tu os guardarás” (ACF, BKJ) “Tu nos guardarás” (ARA, ARC, NAA, NVI, NVT)

O caso do versículo 7 é o mais consequente dos quatro, porque muda o objeto da promessa. Na ACF, Deus guarda algo ou alguém que o versículo não nomeia; na ARA, Deus guarda quem está orando.

Vale registrar que a diferença não separa traduções “literais” de traduções “livres”. A ARC, que é da mesma família da ACF, traz “nos”; a BKJ, que costuma seguir a leitura mais dura do hebraico, traz “os”. Quem quiser entender melhor essas famílias pode ver a comparação em qual é a melhor tradução da Bíblia.

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O que o Salmo 12 ensina

1. A contagem de Davi estava errada, e a queixa continuava legítima

Quando Davi diz que faltam os homens bons, ele está descrevendo o que enxergava — e o que enxergava não era o mapa completo. A Escritura já tinha registrado o mesmo engano em Elias, que se deu por último profeta fiel e ouviu de Deus que sobravam sete mil.

Davi não esteve sozinho nessa dor: profetas como Isaías e Miqueias também registraram lamentos semelhantes sobre a escassez de homens fiéis em seus dias (Is 57:1; Mq 7:2).2

O que sustenta a queixa, então, não é a estatística. É o que Davi queria: um povo cumprindo o propósito para o qual foi chamado. A dor dele é a de quem ama o chamado, não a de quem despreza a época.

Isso muda a régua para nós. Se a sensação de estar sozinho na fidelidade vier acompanhada de desprezo pelos outros, ela não é a do Salmo 12 — é outra coisa, vestida com a roupa dele.

2. A palavra é território de senhorio, não de etiqueta

“São nossos os lábios; quem é senhor sobre nós?” (Sl 12:4 ACF). É a frase que revela o resto.

O salmo não classifica a mentira como falha de caráter apenas. Trata-a como declaração de independência: minha boca é minha, e ninguém cobra.

Repare onde isso nos coloca. O aplicativo em que você escreve, o grupo em que responde, a conversa que ninguém grava — o Salmo 12 diz que nenhum desses lugares é território sem dono.

Portanto, a pergunta que o texto faz não é se falamos bem, e sim de quem é a boca que fala.

3. Deus se levanta pelo gemido, não pelo escândalo

Este é um detalhe decisivo do texto. No centro do salmo, o motivo declarado da ação divina não é a ofensa à verdade em abstrato: é a opressão dos pobres e o gemido dos necessitados (Sl 12:5 ACF).

Significa que, na leitura de Deus, mentira tem vítima. Quando a palavra se corrompe, quem paga a conta é sempre quem depende dela para ser ouvido — o pobre que não tem advogado, o funcionário que não tem contrato, o membro que não tem voz na igreja.

Aqui está a ponte para o hoje, e ela não passa por semelhança de contexto: passa pelo caráter de Deus, que continua sendo o mesmo que ouve gemido antes de ouvir argumento.

Basta olhar para o que o versículo escolheu dizer. Deus podia ter alegado a honra do próprio nome, e alegou a dor de quem estava embaixo.

4. A pureza da Palavra é uma promessa sobre o que sobrevive

Prata sete vezes fundida não é uma imagem sobre beleza. É sobre o que resta depois que tudo o que podia ser queimado já foi.

5. O salmo termina no versículo 8, e isso é misericórdia

Se o Salmo 12 acabasse na promessa do versículo 7, ele serviria como analgésico e não como oração. Termina com os ímpios circulando, e é essa honestidade que o torna utilizável.

Ele autoriza o crente a viver dentro de uma contradição sem resolvê-la à força: a promessa é firme e a rua continua ruim. Uma coisa não desmente a outra, e não é preciso fingir o contrário para continuar orando. Ou seja: o salmo dá permissão para orar sem maquiar o noticiário.

A postura bíblica diante desse cenário não é o conformismo, mas a vocação de Mateus 5:13-16: ser sal e luz no meio de uma geração corrompida.3

E há uma tarefa concreta implicada nisso. O salmo diz que a Palavra é guardada de geração em geração; a geração seguinte, porém, precisa recebê-la de alguém. Quem não a passa adiante não está preservando nada — está apenas encerrando a transmissão em si mesmo.

Esboço de pregação sobre o Salmo 12

Tema

Quando a palavra dos homens não vale nada, a Palavra de Deus é o único metal que sai inteiro do fogo.

O esboço abaixo organiza a mensagem do salmo pelo contraste entre a palavra humana e a Palavra de Deus:

1. A palavra do fiel: um pedido de socorro (Sl 12:1 ACF)

Mostrar a queixa sem transformá-la em amargura. Davi não está reclamando da juventude de hoje; está pedindo salvação porque enxerga o povo de Deus falhando no chamado. Boa hora para tratar da diferença entre lamento e desprezo.

2. A palavra do ímpio: vazia, lisa e dupla (Sl 12:2-4 ACF)

As três camadas do texto dão três subpontos prontos: fala sem substância, fala escorregadia, coração dividido. Fechar no versículo 4, que é onde a raiz aparece — a boca declarada sem dono.

3. A palavra de Deus: refinada sete vezes (Sl 12:5-7 ACF)

Começar pelo versículo 5, porque é ali que Deus fala e diz por que se levanta. Depois o cadinho do versículo 6. Terminar na promessa de guarda do versículo 7, mostrando as duas leituras possíveis sem transformar isso em aula de crítica textual.

4. O que fica quando a pregação acaba (Sl 12:8 ACF)

Não pular o último versículo. A situação descrita nele continua; o que mudou foi que agora ela é ouvida por alguém que se levantou. Pregar isso evita a promessa fácil, que a congregação já aprendeu a não acreditar.

Aplicação final sugerida

Vale terminar com uma pergunta prática, e não com uma exortação genérica. E você, em que conversa desta semana tratou os seus lábios como propriedade sua? A resposta de cada um tende a ser específica — e o Salmo 12 é um texto específico.

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Perguntas frequentes sobre o Salmo 12

Qual é o resumo do Salmo 12?

São oito versículos organizados em torno de três vozes. Davi abre pedindo socorro porque não encontra mais gente leal e confiável; em seguida descreve a fala dos corruptos, que se declaram donos da própria boca; no centro, Deus responde que vai se levantar por causa dos oprimidos; e o salmo fecha contrapondo a palavra pura de Deus, comparada à prata fundida sete vezes, ao mundo em que a vileza é aplaudida.

Onde está o Salmo 12 na Bíblia?

No livro dos Salmos, entre o Salmo 11 e o Salmo 13, dentro do primeiro dos cinco livros do saltério, que vai do Salmo 1 ao 41. Uma diferença de numeração pode confundir quem compara com edições em hebraico: ali o título conta como primeiro versículo, e o capítulo tem nove versículos em vez de oito.

Quem escreveu o Salmo 12 e em que época?

O título atribui o salmo a Davi. Não há indicação de ocasião, e por isso a datação depende do conteúdo. É muito provável que tenha sido composto durante a fuga de Saul, quando Davi enfrentava intrigas nos bastidores e traições constantes.

O que significa “sobre a Seminite” no título do Salmo 12?

É uma indicação musical dirigida ao mestre de canto, não uma informação sobre o conteúdo. O termo hebraico se forma sobre a palavra “oitavo” e aparece apenas mais duas vezes na Bíblia: no cabeçalho do Salmo 6 e em uma lista de instrumentos do culto em 1 Crônicas 15:21. Provavelmente designa um instrumento de oito cordas ou uma execução em registro grave.

O que significa “coração dobrado” no Salmo 12:2?

A expressão hebraica diz, ao pé da letra, “com coração e coração”. Não descreve um coração falso, e sim uma pessoa que mantém dois centros internos ao mesmo tempo, um para cada interlocutor. Outras versões traduzem por “coração fingido”. O oposto disso, no próprio saltério, é o pedido por um coração indiviso que aparece no Salmo 86:11.

Por que algumas Bíblias dizem “Tu os guardarás” e outras “Tu nos guardarás” no Salmo 12:7?

Porque o hebraico traz sufixos de terceira pessoa, seguidos pela ACF e pela BKJ, enquanto ARA, ARC, NAA, NVI e NVT adotam a primeira pessoa do plural, apoiadas em outra tradição textual. Mantida a terceira pessoa, ainda resta decidir o antecedente: pode ser a palavra de Deus mencionada no versículo anterior, ou podem ser os oprimidos de quem o versículo 5 falou.

O que quer dizer “prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes”?

É a imagem do processo de fundição, em que o metal era aquecido no cadinho para que a escória subisse e fosse retirada. O termo traduzido por fornalha não aparece em nenhum outro texto do Antigo Testamento. O número sete indica completude, e não uma quantidade literal de repetições: a figura afirma que nada de impuro sobrou na palavra de Deus.

Por que o Salmo 12 vem logo depois do Salmo 11?

Os dois descrevem a mesma crise por ângulos diferentes, e o segundo detalha o que o primeiro anuncia. O Salmo 11 fala de alicerces sendo destruídos; o Salmo 12 mostra um desses alicerces por dentro, que é a confiabilidade da palavra dada. Os dois salmos formam um par natural: o Salmo 11 pergunta o que fazer quando os fundamentos caem, e o Salmo 12 mostra a ruína da sociedade quando a palavra perde o valor.

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Fontes

Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as demais versões identificadas quando citadas. As formas hebraicas e os dados morfológicos referem-se ao texto hebraico etiquetado do STEPBible (TAHOT, CC BY 4.0). Veja também o estudo do Salmo 23:1 e a coleção de versículos explicados.

  1. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, volume III. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 109.
  2. Ibid., p. 110.
  3. Ibid., p. 111.

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