Moisés foi o hebreu criado como príncipe do Egito que Deus chamou para tirar Israel da escravidão, receber a Lei no monte Sinai e conduzir o povo até a fronteira da terra prometida.
É a figura central de quatro dos cinco livros do Pentateuco — de Êxodo a Deuteronômio — e o único homem de quem a Escritura diz que o Senhor falava “face a face, como qualquer fala com o seu amigo” (Êx 33.11 ACF).
A vida dele se divide em três blocos de quarenta anos, e nenhum deles se parece com o outro. Quarenta anos de palácio. Quarenta anos de pasto. Quarenta anos de deserto com um povo às costas.
Hoje, vamos percorrer essa história inteira — do cesto de junco no Nilo até o túmulo que ninguém encontrou no monte Nebo — e entender por que o livro que narra tudo isso resume o propósito de Deus numa frase só: libertar um povo para que ele pudesse servir ao Senhor.
Sobre a tradução: as citações bíblicas deste artigo usam a Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo indicação em contrário.
Neste Artigo:
- A Vida de Moisés em Três Blocos de Quarenta Anos
- Quem Foi Moisés e o Que Significa o Nome Dele
- O Nascimento no Egito e o Cesto no Nilo
- Quando Moisés Viveu? As Duas Datas do Êxodo
- Quarenta Anos de Palácio — e o Egípcio Morto na Areia
- Midiã: Quarenta Anos Cuidando de Ovelhas
- A Sarça Ardente e o Nome EU SOU
- As Dez Pragas e a Páscoa
- A Travessia do Mar Vermelho
- O Sinai, os Dez Mandamentos e a Aliança
- O Bezerro de Ouro e a Intercessão de Moisés
- O Tabernáculo: Deus Passa a Morar no Meio do Povo
- Cades e os Quarenta Anos no Deserto
- A Rocha de Meribá: Por Que Moisés Não Entrou na Terra
- A Morte no Monte Nebo
- Quem Moisés Era como Pessoa
- Moisés Aponta para Jesus
- Lições da Vida de Moisés para Hoje
- Perguntas Frequentes
A Vida de Moisés em Três Blocos de Quarenta Anos
O próprio Novo Testamento organiza a biografia de Moisés em três fases de quarenta anos (At 7.23,30,36). Essa é a maneira mais simples de guardar a história toda.
| Fase | Idade | Onde | O que aconteceu |
|---|---|---|---|
| Príncipe | 0 a 40 | Egito | Salvo do Nilo, criado na casa de Faraó, instruído em toda a ciência dos egípcios |
| Pastor | 40 a 80 | Midiã | Fugitivo, casa-se com Zípora, cuida do rebanho de Jetro |
| Libertador | 80 a 120 | Egito e deserto | Sarça ardente, pragas, saída do Egito, Sinai, quarenta anos de peregrinação |
Repare no desenho: os quarenta anos de preparo humano vieram primeiro, e não foram os que Deus usou para chamá-lo. O chamado veio depois de outros quarenta anos no lugar mais improvável, cuidando de ovelhas alheias.
Quem Foi Moisés e o Que Significa o Nome Dele
Moisés foi filho de Anrão e Joquebede, da tribo de Levi, e irmão mais novo de Arão e Miriã (Êx 6.20; Êx 7.7). Nasceu no Egito durante a perseguição em que Faraó ordenou a morte dos meninos hebreus.
O nome vem da fala da filha de Faraó no momento em que ela o adotou: “e chamou-lhe Moisés, e disse: Porque das águas o tenho tirado” (Êx 2.10 ACF).
Aqui há um detalhe que se perde na tradução. Na língua egípcia, mose significa “nascido” ou “filho”, e o som dessa palavra é parecido com o do termo hebraico para “tirado” das águas.1
Ou seja, o nome funcionava nas duas línguas ao mesmo tempo: para a corte, ele era simplesmente “o filho”; para os hebreus, “o tirado das águas”.
E o nome acabou descrevendo a vida inteira. O homem tirado das águas foi o homem que tiraria um povo inteiro de dentro da água.
O Nascimento no Egito e o Cesto no Nilo
O livro de Êxodo começa com uma ameaça demográfica. Os descendentes de Jacó haviam se multiplicado no Egito, e o novo Faraó, que não conhecia José, viu naquele crescimento um risco de segurança nacional (Êx 1.8-10).
A resposta foi a escravidão, e depois dela, o decreto: todo menino hebreu recém-nascido deveria ser lançado no rio (Êx 1.22).
Joquebede escondeu o filho por três meses. Quando não deu mais, fez um cesto de junco, calafetou com betume e piche, e o pôs entre as canas à margem do Nilo (Êx 2.3). Miriã ficou de longe, para ver o que aconteceria.
Vale notar o que ela fez ali. Joquebede cumpriu a letra da ordem de Faraó — o menino foi para o rio — e desobedeceu inteiramente à intenção dela.2
A filha de Faraó desceu ao rio, encontrou o cesto, ouviu o choro e teve compaixão. Miriã se aproximou e ofereceu uma ama de leite hebreia. Era a própria mãe do menino, que passou a criá-lo e ainda recebeu salário para isso (Êx 2.7-9).
O autor de Hebreus lê essa cena como fé, não como sorte: “Pela fé Moisés, já nascido, foi escondido três meses por seus pais, porque viram que era um menino formoso; e não temeram o mandamento do rei” (Hb 11.23 ACF).
Quando Moisés Viveu? As Duas Datas do Êxodo
Aqui vale um aviso, porque muito material sobre Moisés apresenta como fato aquilo que os estudiosos ainda discutem: a Bíblia não diz o nome do Faraó. Nem o do decreto contra os meninos, nem o da saída do Egito.
Existem duas datas propostas, e as duas têm base.3
A data recente, por volta de 1446 a.C. Vem da leitura literal de 1 Reis 6.1, que conta 480 anos entre a saída do Egito e o quarto ano do reinado de Salomão. É a datação mais adotada no meio evangélico, justamente porque parte de um número dado pela própria Escritura.
A data tardia, por volta de 1270 a 1260 a.C. Apoia-se em Êxodo 1.11, que diz que os hebreus construíram as cidades-celeiros de Pitom e Ramessés.
A cidade de Pi-Ramessés é geralmente identificada com esse lugar, e foi edificada no tempo de Ramessés II, que governou o Egito entre 1279 e 1213 a.C.
A arqueologia da conquista de Canaã, com destruições concentradas a partir do século XIII, costuma ser lida na mesma direção.4
Cada posição tem seu ponto fraco. Contra a data recente pesa a arqueologia; contra a tardia pesa o número de 1 Reis 6.1, que precisa ser lido como cifra simbólica — doze gerações de quarenta anos.
Sendo assim, o mais honesto é dizer o que se sabe: Moisés viveu no Egito do Império Novo, e o Faraó do Êxodo permanece sem nome no texto bíblico.
E há uma razão para isso. Nas inscrições egípcias, o Faraó é sempre o centro; no relato de Êxodo, ele é o personagem sem nome diante de um Deus que faz questão de dizer o Seu.
Quarenta Anos de Palácio — e o Egípcio Morto na Areia
Moisés cresceu como filho adotivo da princesa, o que lhe deu a formação da elite egípcia. Estêvão resume assim: “E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras” (At 7.22 ACF).
O Egito daquele tempo dominava engenharia, matemática, astronomia, medicina e administração. Moisés recebeu a melhor educação disponível no mundo antigo — e, quarenta anos depois, diria a Deus que não sabia falar.
Ele sabia de onde vinha. Um dia saiu para ver seus irmãos, “e viu que um egípcio feria a um hebreu, homem de seus irmãos” (Êx 2.11 ACF). Olhou para os dois lados, matou o egípcio e o escondeu na areia.
No dia seguinte, tentou separar dois hebreus que brigavam, e ouviu a pergunta que o desmontou: “quem te tem posto a ti por maioral e juiz sobre nós?” (Êx 2.14). O segredo já era público. Faraó procurou matá-lo, e Moisés fugiu.
Os dois episódios mostram um homem de compaixão real e de método próprio.5 A causa estava certa; o modo, não. Se o plano era libertar Israel eliminando egípcios um a um, o próprio povo tratou de mostrar que o problema não estava só do lado de fora.
Hebreus registra o que essa escolha custou: Moisés “recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado” (Hb 11.24,25 ACF).
Midiã: Quarenta Anos Cuidando de Ovelhas
Moisés se refugiou em Midiã, terra de parentes distantes dos hebreus (Gn 25.2). Ajudou as filhas de um sacerdote chamado Reuel — também conhecido como Jetro — a dar de beber ao rebanho, foi acolhido na casa e casou-se com Zípora. Teve dois filhos, Gérson e Eliezer (Êx 2.21,22; Êx 18.3,4).
O homem “poderoso em palavras e obras” passou os quarenta anos seguintes num pasto, cuidando de ovelhas teimosas. Era exatamente o treinamento de que precisava para liderar um povo teimoso.6
Enquanto isso, o texto muda o foco para Deus: “E ouviu Deus o seu gemido, e lembrou-se Deus da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó” (Êx 2.24 ACF).
Ou seja, Deus ouvia, via e se lembrava durante todos aqueles anos — e, enquanto isso, formava o homem que enviaria.
A Sarça Ardente e o Nome EU SOU
No monte Horebe, Moisés viu um arbusto que ardia sem se consumir. Chegou perto para entender, e Deus o chamou pelo nome do meio do fogo (Êx 3.1-4).
A imagem diz algo sobre o próprio chamado: um arbusto do deserto, sem valor nenhum, torna-se um lugar sagrado porque Deus está nele. Moisés era o arbusto frágil; o fogo era de Deus.7
E aí veio a comissão: Deus tinha visto a aflição do povo, ouvido o clamor e descido para livrá-lo — e enviaria Moisés a Faraó (Êx 3.7-10).
Moisés apresentou quatro objeções seguidas, e cada uma recebeu resposta:
- “Quem sou eu?” (Êx 3.11) — a resposta não fala de Moisés: “certamente eu serei contigo”;
- “Qual é o teu nome?” (Êx 3.13) — a revelação central do capítulo;
- “Eles não me crerão” (Êx 4.1) — Deus lhe dá três sinais;
- “eu não sou homem eloquente”, e sim “pesado de boca e pesado de língua” (Êx 4.10 ACF) — Deus responde lembrando quem fez a boca do homem, e dá Arão como porta-voz.
A segunda pergunta abriu a resposta mais conhecida do Antigo Testamento: “EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx 3.14 ACF).
O nome, em hebraico, é construído sobre o verbo “ser” — e é o mais importante dos nomes de Deus na Bíblia. Ele declara que Deus existe por si mesmo, não depende de nada e é o mesmo ontem, hoje e sempre.8
Séculos depois, Jesus tomaria esse mesmo nome e o completaria — “Eu sou o pão da vida”, “Eu sou a luz do mundo”, “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”. Os judeus que o ouviram sabiam exatamente o peso do que estava sendo dito.
As Dez Pragas e a Páscoa
Moisés voltou ao Egito com oitenta anos e apresentou a Faraó a ordem do Senhor. A recusa foi imediata, e a carga de trabalho dos hebreus aumentou (Êx 5.1-9).
Foi então que Deus resumiu o que faria, na passagem que o próprio livro de Êxodo usa como chave:
“Eu sou o Senhor, e vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios, e vos livrarei da servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos” (Êx 6.6 ACF).
Vieram as dez pragas, nesta ordem (Êx 7—12):
- As águas do Nilo em sangue;
- Rãs;
- Piolhos;
- Moscas;
- Peste nos animais;
- Úlceras;
- Chuva de pedras e fogo;
- Gafanhotos;
- Trevas;
- A morte dos primogênitos.
Afinal, as pragas foram mais do que demonstração de poder. Cada uma atingiu uma área que os egípcios atribuíam a um de seus deuses — o Nilo, o gado, o sol —, e o próprio texto declara o alvo:
“e em todos os deuses do Egito farei juízos” (Êx 12.12 ACF).
Na véspera da última praga, Deus instituiu a Páscoa. Cada família deveria sacrificar um cordeiro sem defeito e passar o sangue nas ombreiras da porta. Onde houvesse sangue, o julgamento passaria adiante (Êx 12.13).
Israel saiu do Egito naquela noite, depois de 430 anos ali (Êx 12.40,41).
A Travessia do Mar Vermelho

Faraó mudou de ideia e partiu atrás do povo com seus carros de guerra. Israel ficou entre o exército e a água, e começou a reclamar com Moisés.
A resposta dele é uma das frases mais citadas de todo o Antigo Testamento: “O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis” (Êx 14.14 ACF).
Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fez soprar um forte vento oriental durante toda a noite, as águas se dividiram, e o povo passou em seco. Quando os egípcios entraram atrás, as águas voltaram (Êx 14.21-28).
Do outro lado, Moisés e o povo cantaram — é o primeiro cântico registrado na Bíblia (Êx 15.1-21). Miriã pegou o tamboril e conduziu as mulheres.
O Sinai, os Dez Mandamentos e a Aliança
Três meses depois da saída do Egito, Israel acampou diante do monte Sinai. Foi ali que Deus fez do povo resgatado uma nação com lei, culto e identidade próprios.
O Senhor desceu sobre o monte em fogo, fumaça e trovão, e falou os Dez Mandamentos diante de todos (Êx 19.16-19; Êx 20.1-17).
O efeito sobre o povo foi tão forte que eles pediram a Moisés que falasse com Deus no lugar deles — e foi assim que ele se tornou o mediador da aliança.9
Moisés subiu ao monte e ali ficou quarenta dias e quarenta noites, recebendo a Lei e as instruções para a construção do tabernáculo (Êx 24.18).
Repare na ordem dos acontecimentos, porque ela muda a leitura do livro inteiro. A Lei não veio antes do resgate, como condição para ele. Veio depois, para um povo que já havia sido tirado do Egito. Primeiro a redenção, depois a aliança.10
O Bezerro de Ouro e a Intercessão de Moisés
Enquanto Moisés estava no monte, o povo se cansou de esperar. Procurou Arão, pediu deuses visíveis, e Arão fundiu um bezerro de ouro com os brincos que eles trouxeram (Êx 32.1-4).
Deus avisou Moisés do que estava acontecendo e lhe fez uma oferta: destruir aquele povo e fazer de Moisés uma grande nação (Êx 32.10).
Moisés recusou. E a oração dele não apelou para o mérito de ninguém — apelou para o nome de Deus diante dos egípcios e para a aliança feita com Abraão, Isaque e Jacó (Êx 32.11-13).
Depois desceu, quebrou as tábuas diante do bezerro, destruiu o ídolo e voltou ao monte com uma proposta impressionante: perdoa o pecado deles, “se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32.32 ACF).
Deus ofereceu duas vezes a Moisés a chance de recomeçar sozinho — aqui e mais tarde, em Cades (Nm 14.11,12). Nas duas, ele preferiu ficar com o povo que o cansava.11
O Tabernáculo: Deus Passa a Morar no Meio do Povo
Boa parte de Êxodo é ocupada por instruções detalhadas de construção: medidas, materiais, cores, utensílios. Deus estava estabelecendo um lugar onde a Sua presença habitaria no meio do acampamento.
O livro fecha exatamente aí. Terminada a obra, a nuvem cobre a tenda e a glória do Senhor enche o tabernáculo (Êx 40.34). Séculos depois, essa tenda daria lugar a uma construção fixa em Jerusalém — a história dos três templos dos hebreus.
É esse o arco completo de Êxodo, e vale guardá-lo: redenção (capítulos 1—18), aliança (19—24) e adoração (25—40). Deus liberta, toma o povo para Si e passa a habitar no meio dele.12
Já escrevemos um artigo inteiro sobre a planta, os utensílios e o simbolismo dessa construção: O Tabernáculo de Moisés.
Cades e os Quarenta Anos no Deserto
Do Sinai, Israel marchou até Cades-Barneia, na fronteira sul de Canaã. Moisés enviou doze espias, um de cada tribo, para reconhecer a terra (Nm 13.1-16).
Dez voltaram falando dos gigantes e das cidades fortificadas. Dois — Josué e Calebe — falaram do Senhor. O povo escolheu a maioria, chorou a noite inteira e cogitou voltar ao Egito (Nm 14.1-4).
A sentença foi proporcional ao relatório: quarenta anos no deserto, um ano para cada dia em que os espias percorreram a terra, até que morresse toda aquela geração (Nm 14.33,34).
Foram quatro décadas de marcha, murmuração e provisão. Maná todas as manhãs, água da rocha, roupas que não se gastaram (Dt 8.4). E Moisés à frente, sustentando um povo que reclamava dele e de Deus na mesma frase.
Nem a própria família o poupou: Miriã e Arão contestaram a autoridade dele, e o Senhor respondeu em pessoa (Nm 12.1-9).
A Rocha de Meribá: Por Que Moisés Não Entrou na Terra
Perto do fim da jornada, o povo ficou sem água outra vez e voltou a reclamar. Deus mandou Moisés tomar a vara e falar à rocha diante de todos (Nm 20.8).
Moisés fez outra coisa. Chamou o povo de rebelde, perguntou “porventura tiraremos água desta rocha para vós?” e feriu a pedra duas vezes com a vara (Nm 20.10,11).
A água saiu. E veio a sentença: “Porquanto não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes tenho dado” (Nm 20.12 ACF).
Parece severo para quem tinha aguentado quarenta anos daquele povo. Mas Moisés era o legislador e o mediador da nação, e tomou para si, diante de todos, o crédito de um milagre que era de Deus. Quanto maior o privilégio, maior a responsabilidade.13
Há ainda um segundo motivo, do lado do desenho da Escritura: a lei, representada por Moisés, não é o que dá a herança ao povo. Quem introduz Israel na terra é Josué — figura de Cristo, o único que conduz o povo ao descanso prometido (Hb 4.1-11).14
O que mais chama atenção na cena é o que Moisés fez depois. Ele aceitou a disciplina e continuou liderando o povo até o último dia.
A Morte no Monte Nebo
Nas planícies de Moabe, Moisés reuniu a nova geração e repassou a Lei — é o livro de Deuteronômio, cujo nome significa “segunda lei”. Depois pôs as mãos sobre Josué diante de todos e o confirmou como sucessor (Dt 31.7,8; Nm 27.18-23).
Então subiu o monte Nebo, ao cume do Pisga, e o Senhor lhe mostrou a terra inteira, do norte ao sul (Dt 34.1-4).
Moisés morreu ali com 120 anos, e o texto faz questão de registrar que “os seus olhos nunca se escureceram, nem perdeu o seu vigor” (Dt 34.7 ACF). O Senhor o sepultou num vale de Moabe, e até hoje ninguém sabe onde (Dt 34.6). Israel o pranteou por trinta dias.
O epitáfio está no último parágrafo do Pentateuco: “E nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, a quem o Senhor conhecera face a face” (Dt 34.10 ACF).
Ele ficou a cerca de dez quilômetros da fronteira e não atravessou. Mas pisou naquela terra séculos depois, no monte da transfiguração, conversando com Jesus sobre a partida que Ele cumpriria em Jerusalém (Lc 9.30,31).
Quem Moisés Era como Pessoa
A Bíblia não faz retrato de herói. Ela mostra um homem inteiro.
- Impetuoso quando jovem — matou o egípcio por conta própria e teve de fugir;
- Inseguro quando chamado — deu quatro desculpas seguidas a Deus e ainda pediu que enviasse outro (Êx 4.13);
- Explosivo sob pressão — quebrou as tábuas, feriu a rocha, discutiu com o povo;
- Intercessor teimoso — recusou duas vezes a oferta de virar uma nação nova sozinho;
- Manso — “E era o homem Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12.3 ACF).
Essa última linha costuma soar estranha ao lado das outras, não acha? Mansidão, na Escritura, não é temperamento calmo: é força sob controle, a disposição de não usar o próprio poder em causa própria.
Moisés tinha argumento e autoridade para se defender de Miriã e de Arão, e ficou calado — Deus falou por ele.
Moisés Aponta para Jesus
Moisés é a figura do Antigo Testamento que o Novo mais usa como ponto de comparação. Assim como acontece com Ester e com Pedro, a vida dele conta uma história maior do que a própria biografia.
Ele mesmo anunciou isso: “O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Dt 18.15 ACF) — texto que Pedro aplica diretamente a Cristo em Atos 3.22.
Os paralelos atravessam a vida toda:
- Os dois escaparam de um decreto que mandava matar meninos;
- Os dois saíram do Egito para cumprir o chamado (Mt 2.15);
- Os dois jejuaram quarenta dias antes do ministério;
- Moisés deu a Lei no monte; Jesus a interpretou no Sermão do Monte;
- O cordeiro da Páscoa livrou Israel do julgamento; Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29 ACF);
- Moisés levantou a serpente no deserto, e Jesus usou aquela cena para explicar a própria cruz (Jo 3.14).
Entretanto, há uma diferença, e Hebreus a coloca em termos de posição: Moisés foi fiel na casa de Deus, como servo; Cristo é fiel sobre a casa, como Filho (Hb 3.5,6).
Lições da Vida de Moisés para Hoje
Deus prepara antes de enviar. Foram oitenta anos de formação para quarenta de ministério. Os quarenta anos de pasto ensinaram o que a corte do Egito não ensinaria.
Currículo não é chamado. Tenho certeza de que muita gente já se sentiu assim: o homem “poderoso em palavras e obras” só foi enviado depois de perder a posição, o discurso e a confiança em si mesmo.
A demora de Deus não é ausência. Enquanto Israel gemia, o texto diz que Deus ouvia, via, sabia e se lembrava da aliança (Êx 2.24,25).
Liderar é interceder. As duas vezes em que Moisés poderia ter trocado o povo por um projeto próprio, ele preferiu ficar.
Obediência inclui o método. Em Meribá o resultado saiu certo e o caminho saiu errado — e foi o caminho que contou.
Servir com fidelidade vale mais que ver o resultado. Moisés não entrou na terra, e ainda assim Deuteronômio o chama de servo do Senhor.
Perguntas Frequentes
Quem foi Moisés na Bíblia?
Moisés foi o hebreu criado como filho da filha de Faraó que Deus chamou para libertar Israel da escravidão no Egito. Ele recebeu a Lei no monte Sinai, liderou o povo por quarenta anos no deserto e é tradicionalmente reconhecido como autor dos cinco primeiros livros da Bíblia.
Quantos anos Moisés viveu?
Cento e vinte anos, divididos em três fases de quarenta: quarenta no Egito, quarenta em Midiã como pastor e quarenta liderando Israel no deserto (Dt 34.7; At 7.23,30,36).
Por que Moisés não entrou na terra prometida?
Porque em Meribá, Deus mandou que ele falasse à rocha, e Moisés feriu a pedra com a vara e falou como se a água viesse dele e de Arão. O Senhor disse que ele não havia crido para santificá-lo diante do povo (Nm 20.10-12).
O que significa o nome Moisés?
A explicação dada pela própria Bíblia é “tirado das águas” (Êx 2.10). Em egípcio, a palavra mose significa “filho” ou “nascido”, e soa parecido com o verbo hebraico “tirar” — o nome funciona nas duas línguas.
Moisés era gago?
O texto diz que ele se declarou “pesado de boca e pesado de língua” (Êx 4.10). A Bíblia não usa um termo médico, e Atos 7.22 afirma que ele era “poderoso em suas palavras e obras” — o que sugere insegurança ou dificuldade de fala mais do que gagueira no sentido clínico.
Quem escreveu os livros de Moisés?
A tradição judaica e cristã atribui a Moisés a autoria do Pentateuco — Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. O próprio texto registra que Moisés escreveu (Êx 24.4; Dt 31.9,24), e Jesus se refere à Lei como “de Moisés” (Mc 12.26; Jo 5.46).
Conclusão
A história de Moisés começa com um bebê que deveria morrer e termina com um túmulo que ninguém encontrou. Entre um ponto e outro, um povo escravo virou nação, recebeu uma lei e passou a ter a presença de Deus habitando no meio do acampamento.
O livro que narra tudo isso resume o propósito numa frase: Deus liberta o Seu povo para que ele possa servi-Lo.15 A saída do Egito não terminou em liberdade solta — terminou em aliança e em adoração.
E o homem escolhido para conduzir esse caminho não foi o príncipe de quarenta anos, cheio de recursos. Foi o pastor de oitenta, que já tinha perdido a confiança em si mesmo e precisou ouvir de Deus: EU SOU me enviou a vós.
E você?
Em que área da sua vida Deus tem te chamado, e você tem respondido com um “quem sou eu”?
Se este artigo te ajudou, o nosso guia de personagens bíblicos reúne a história dos homens e mulheres que marcaram a Escritura, e a coleção de versículos explicados traz as passagens mais buscadas explicadas uma a uma.
Fique na Paz!
Fontes e Referências
Notas
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. I — Pentateuco. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 236.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 236.
- ENNS, Peter. “Datação do Êxodo”. In: HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida. São Paulo: Editora Vida, 2015, p. 92 (pág. do PDF).
- ENNS, Peter. “Datação do Êxodo”. In: HAYS, J. Daniel. Op. cit., p. 93 (pág. do PDF).
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 237.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 237.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 238.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 238.
- ALEXANDER, T. Desmond. Do Paraíso à Terra Prometida: uma introdução ao Pentateuco. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 94.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 232.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 597.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 232.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 597.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 452.
- WIERSBE, Warren W. Op. cit., p. 232.
Fontes consultadas
- Bíblia Sagrada, Almeida Corrigida Fiel (ACF);
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. I — Pentateuco;
- ALEXANDER, T. Desmond. Do Paraíso à Terra Prometida: uma introdução ao Pentateuco;
- HAYS, J. Daniel. Manual Bíblico Ilustrado Vida — verbete “Datação do Êxodo”, de Peter Enns;
- FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Como Ler a Bíblia Livro por Livro: um guia de estudo panorâmico;
- Quem foi Moisés na Bíblia — Respostas;
- Moisés — eBiografia;
- História de Moisés — Estilo Adoração.