A arte, seja na música, na literatura ou no cinema, expressa constantemente o amor. Nós sabemos que esse conjunto de emoções pode ter uma certa dificuldade para ser definido, mas ele ainda inspira muitas pessoas a compor, a escrever e a encenar as mais belas obras.
O Amor nas Escrituras Sagradas
A Bíblia Sagrada, como uma obra literária singular, não fica de fora. Um dos seus textos mais conhecidos fala justamente sobre o amor de Deus:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16 ARC).
Perceba que esse amor divino moveu o próprio Deus à ação de entregar o Seu único filho em favor de todo aquele que crê em Jesus Cristo, trazendo para nós a herança da vida eterna.
Diferentes Abordagens Bíblicas
E não é apenas o popular Evangelho de João que nos fala sobre o amor. Diversos outros textos bíblicos também discorrem sobre esse sentimento.
O apóstolo Paulo, por exemplo, ao escrever aos crentes de Corinto, afirma que o amor é sofredor, não é invejoso, não trata com leviandade, não busca o seu próprio interesse, não se irrita e não suspeita mal (1Co 13.4-7).
Por outro lado, a Primeira Epístola de João nos traz uma advertência:
“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15 ARC)
Como vemos, a Palavra de Deus está repleta de textos que nos ensinam sobre o amor, nos mostrando como amar, o que devemos amar e o que não devemos amar.
Por isso, se quisermos compreender melhor o real sentido do amor na Bíblia Sagrada – principalmente no Novo Testamento –, nós precisamos conhecer algumas expressões gregas que foram traduzidas para a nossa língua portuguesa como “amor”.
Conceitos Sobre Amor
Nós falamos, cantamos e pregamos muito sobre o que vem a ser o amor. No entanto, ainda existe uma certa dificuldade em definir de forma simples o seu conceito.
Se perguntarmos a filósofos, psicólogos, pedagogos, teólogos, neurocientistas e ministros religiosos, cada um deles nos apresentará um conceito diferente sobre o amor.
Em alguns casos, as pessoas fazem até mesmo uma ligação entre este sentimento e a sexualidade humana.
Nós costumamos afirmar que o amor é uma forte afeição por outra pessoa, ou até mesmo por uma coisa, relacionando-o ao zelo por algo ou ao desejo de nos unirmos a alguém para formarmos um todo.
A Dificuldade Teológica
Na área bíblica e teológica, nós também encontramos essa dificuldade de conceituação. Dificilmente um dicionário bíblico ou teológico conseguirá apresentar um conceito exato do amor, por mais que este seja um dos temas mais frequentes na Bíblia Sagrada – seja abordando o amor de Deus ou o amor humano.
Contudo, biblicamente falando, o amor se coloca como o maior de todos, acima até mesmo da fé e da esperança (1Co 13.13).
A Visão Prática de Paulo
Logo nesse mesmo texto de Paulo, mesmo não apresentando um conceito fechado sobre o amor, o apóstolo descreve de forma prática o que é e o que não é o amor: “o amor é paciente, o amor é bondoso” (1Co 13.4 NVI).
Ele também nos ensina que o amor “não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade” (1Co 13.6 NVI).
Além disso, Paulo declara que o amor “não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor” (1Co 13.4-5 NVI) e que “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co 13.7 NVI).
Classificação das Expressões Gregas
Hoje em dia, muitas pessoas afirmam a existência de quatro tipos de amor. Apesar disso, olhando para o texto grego do Novo Testamento, encontramos apenas duas expressões que traduzimos como amor: αγάπη (ágape) e φιλεω (phileo).
A expressão Ἔρως (eros), por exemplo, aparece somente no texto da Septuaginta (que é a tradução grega do Antigo Testamento).
Já a palavra στοργή (storgē), embora atualmente seja apontada como uma forma de amor, tem a sua tradução correta voltada para a “afeição”, como vemos nas ocorrências de “sem afeição” (Rm 1.31) e “desafeiçoado” (2Tm 3.3).
Ágape
Quando abrimos o Evangelho de João e lemos “Porque Deus amou o mundo” (Jo 3.16 ARC), encontramos ali uma dessas expressões neotestamentárias para o amor: αγαπαω (agapao), que dá origem à expressão ágape.
Para você ter uma noção, essa expressão aparece cerca de 142 vezes no texto do Novo Testamento.
Um Amor de Sacrifício
Esse tipo específico de amor diz respeito a um sacrifício próprio buscando sempre o bem do outro. Em muitos casos, o ágape pode nem envolver aquele forte elemento emocional a que estamos acostumados, mas diz respeito puramente ao cumprimento de algo que nos foi ordenado.
Nós costumeiramente ouvimos dizer que o amor de Deus é um amor ágape. De fato, o amor do Senhor é o ágape – um amor genuíno de sacrifício próprio –, mas nós precisamos entender que o ágape não está relacionado apenas ao amor de Deus.
Praticando o Ágape
Por exemplo, quando o Senhor Jesus nos orientou: “amai vossos inimigos” (Mt 5.44 ARC), Ele estava usando exatamente a expressão αγαπαω (agapao).
Afinal, amar aqueles que nos são hostis é um ato de obediência, um verdadeiro sacrifício próprio em favor de um inimigo, buscando o bem dele.
O Ágape Além do Contexto Divino
Alguns intérpretes bíblicos encontram certa dificuldade com este amor ágape, pois ele surpreendentemente aparece aplicado em outro contexto, como na carta de Paulo a Timóteo: “Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para Tessalônica” (2Tm 4.10 ARC).
Pois é, aqui vemos novamente a expressão ágape! A mesmíssima palavra usada em referência ao amor de Deus e ao amor aos nossos inimigos, sendo aplicada agora “ao presente século” – ou seja, referindo-se a um profundo amor pelo mundo.
Assim, os eruditos do Novo Testamento afirmam que este tipo de amor (ágape), embora exponha toda a qualidade e a singularidade do amor de Deus – que demonstra um interesse profundo e constante de um Deus perfeito para com seres completamente indignos –, também se aplica a outras situações que não envolvem diretamente a Deus.
Um outro exemplo disso é o verso sobre amar o mundo:
“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15 ARC)
Nesse texto do apóstolo João, que contrasta frontalmente o amor ao mundo com o amor do Pai, também é utilizada a expressão grega αγαπαω (agapao).
Phileo
Embora a expressão grega agapao traduza a ideia de amor, o grego do Novo Testamento também nos apresenta a expressão φιλεω (phileo), que surge no texto cerca de 25 vezes.
Delas também derivamos outras palavras, como filantropia – que vem de philanthrõpia (o amor pelo homem).
Amizade e Sentimentos Fraternos
Esse estilo de amor diz respeito à amizade e a todos os sentimentos que a fortalecem. É muito interessante observarmos que ele também é apontado ao ser de Deus, como vemos quando João afirma que “O Pai ama o Filho e todas as coisas entregou nas suas mãos” (Jo 3.35 ARC).
Observe que nós não temos aqui o amor ágape, mas sim o amor phileo, no nítido sentido de gostar, de aceitar e de tratar com carinho e cuidado. Podemos afirmar que esse amor phileo é um amor desinteressado, e que está sempre pronto para servir ao próximo.
Um Alerta Importante
Alguns intérpretes do Novo Testamento nos informam que o amor phileo nunca aparece sendo usado como um mandamento, mas geralmente como uma advertência.
Quando Jesus falou que “Quem ama a sua vida perdê-la-á” (Jo 12.25 ARC), a expressão grega escolhida para amor é phileo, nos advertindo que este tipo de amor também pode retratar um desejo impróprio em preservar a vida material, ao ponto de se esquecer de qual é seu real sentido.
Conclusão
Ainda que as nossas pregações, os livros que lemos, vídeos e tantos estudos apontem a existência de outros tipos de amor – como o eros (o romance entre um homem e uma mulher) e o storge (o amor contido entre os membros de uma família) –, no texto grego do Novo Testamento nós encontramos somente ágape e phileo como palavras traduzidas para nos falar sobre o amor.
A famosa classificação com as quatro definições de amor – ágape, phileo, eros e storge – teve grande base na obra de C. S. Lewis, “Os Quatro Amores”. No entanto, lembre-se: sob a lente do Novo Testamento, apenas ágape e phileo são as expressões gregas utilizadas para se referir ao amor.
E mesmo que você encontre alguma dificuldade pontual para contrastar ambas as expressões, tenha sempre em mente que o ágape está intimamente ligado àquele amor que requer um sacrifício, no sentido de se cumprir uma vontade, e é por isso que ele tem tamanha relação com o majestoso amor de Deus.
Contudo, ele não é usado somente para se referir ao amor de Deus. Enquanto isso, o phileo, que também não é usado como um mandamento, traz consigo a doce ideia do gostar, do aceitar, de se cuidar, entre outros bons sentimentos parecidos.
E você?
Como tem vivenciado o entendimento dessas duas expressões na sua vida diária?
Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- ALEXANDER, T. Desmond; ROSNER, Brian S. Novo dicionário de teologia Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2009.
PFEIFFER, Charles F; VOS, Howard F; REA John. Dicionário bíblico Wycliffe. 2ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
VINE, W. E; UNGER, Merril F; WHITE JR. William. Dicionário Vine: o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e do Novo Testamento. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
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