O Salmo 16 é um dos poucos textos do Antigo Testamento em que alguém fala da própria morte sem medo nenhum. E fala rindo.
A calma dele tem endereço. Davi chega ali depois de percorrer um caminho inteiro: o pedido de guarda, a confissão de que nada de bom lhe pertence por conta própria, a escolha de companhia, a conta da herança que recebeu.
Só no fim, quando já disse de quem depende e do que vive, é que ele encara o túmulo. E a frase que usa ficou tão grande que, mil anos depois, Pedro a citou em pé diante de Jerusalém para provar que Jesus havia ressuscitado.
O texto do Salmo 16
São onze versículos. Vale lê-los inteiros de uma vez, porque o salmo é um único movimento: começa pedindo guarda e termina falando de alegria que não acaba.
“Guarda-me, ó Deus, porque em ti confio. A minha alma disse ao Senhor: Tu és o meu Senhor, a minha bondade não chega à tua presença, mas aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer. As dores se multiplicarão àqueles que fazem oferendas a outro deus; eu não oferecerei as suas libações de sangue, nem tomarei os seus nomes nos meus lábios.” (Sl 16:1-4 ACF)
“O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice; tu sustentas a minha sorte. As linhas caem-me em lugares deliciosos: sim, coube-me uma formosa herança. Louvarei ao Senhor que me aconselhou; até os meus rins me ensinam de noite. Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei.” (Sl 16:5-8 ACF)
“Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente.” (Sl 16:9-11 ACF)
Vale notar uma coisa antes de qualquer comentário: o salmo é todo em primeira pessoa e todo possessivo. Minha alma, minha bondade, meu prazer, minha herança, meu cálice, minha sorte, meus rins, minha mão direita, meu coração, minha glória, minha carne.
E, do outro lado, um único interlocutor: Deus. O salmo inteiro é dito para ele, não sobre ele.
O título: “Miktam de Davi”
O sobrescrito hebraico tem duas palavras apenas: miktam e ledavid. Nada de mestre de canto, nada de instrumento, nada de ocasião.
Porém essa brevidade é incomum. O termo miktam aparece no cabeçalho de seis salmos em toda a Bíblia — este e os Salmos 56 a 60 — e o Salmo 16 é o único dos seis cujo título não traz também a indicação ao regente do coro.
Ninguém sabe ao certo o que miktam significa. As propostas dos hebraístas variam: poema precioso como ouro, cântico de segredo guardado ou composição de dizeres incisivos. Nenhuma delas se impôs sobre as outras.2
O que se pode observar sem especular é o comportamento dos seis: todos terminam em tom de vitória. Seja o que for um miktam, o gênero é de celebração.
Uma hipótese que combina com o conteúdo é que o salmo tenha nascido logo após a promessa do trono perpétuo a Davi, compartilhando do mesmo tom de gratidão e submissão de 2 Samuel 7:18-29.1
Versículos 1 e 2: o pedido e a confissão
O que o pedido do versículo 1 está pedindo
O salmo abre com um imperativo, e é fácil ler nele uma emergência. O texto respira tranquilidade: não há aqui o clima de fuga dos salmos de perseguição, mas a dependência contínua de quem vive sob o cuidado constante de Deus.2
O verbo é shamar, o mesmo de guardar um rebanho ou uma vinha. É pedido de cuidado, não de extração.
Repare também no nome de Deus usado no versículo 1. Davi diz El, a forma curta e antiga; o nome pessoal do SENHOR só entra a partir do versículo 2.
E o motivo do pedido vem colado nele: chasiti vakh, “em ti me refugiei”. O verbo hebraico descreve correr para dentro de um abrigo. Davi não pede proteção porque está exposto; pede porque já entrou.
A frase mais difícil do salmo
O versículo 2 tem uma expressão que dividiu as versões: tovati bal aleikha. Ao pé da letra, “minha bondade não sobre ti”.
A ACF e a BKJ mantêm o literal: “a minha bondade não chega à tua presença”. A ARA, a ARC, a NAA e a NVI leem a mesma frase como uma declaração de exclusividade: não tenho outro bem além de ti.
As duas leituras dizem coisas diferentes, e ambas são defensáveis pelo hebraico. Na primeira, Davi confessa que nada do que ele tem de bom acrescenta algo a Deus. Na segunda, ele confessa que nada do que ele tem de bom existe fora de Deus.
O que as une é o que fica de fora nas duas: a ideia de que Davi tenha algo de bom que seja dele por mérito próprio. E é essa negativa que governa o salmo inteiro.
Aliás, ela aparece quatro vezes. A partícula negativa bal, que é a forma poética de dizer “não”, ocorre nos versículos 2, 4 (duas vezes) e 8. No saltério inteiro, só o Salmo 10 a usa mais vezes que este.
Quatro negativas, e é por elas que o salmo se estrutura: minha bondade não alcança a ti; não oferecerei as libações deles; não tomarei os nomes deles nos meus lábios; não vacilarei.
Versículos 3 e 4: duas companhias, duas contas
Os santos e os ilustres
Depois de dizer a quem pertence, Davi diz com quem anda. E usa duas palavras para o mesmo grupo: qedoshim, os separados para Deus, e addirim, que carrega a ideia de nobreza e grandeza.
O contraste com o versículo 4 é a chave. Os que Davi trata como nobreza são os fiéis comuns que estão na terra. A elite dele é outra.
A vida de fé não se vive em isolamento: o apreço pelos santos na terra reflete a alegria sincera de pertencer à comunhão da aliança de Deus.2 A frase não descreve gente impecável; descreve gente que pertence.
Os nomes que Davi não pronuncia
O versículo 4 tem uma recusa dupla e uma delas é estranha ao ouvido moderno: Davi diz que não vai tomar os nomes daqueles deuses nos seus lábios.
Trata-se de obediência a uma ordem específica, dada em Êxodo 23:13 e repetida em Josué 23:7 (ACF), de que o nome de outros deuses não fosse mencionado.
Ou seja: o salmo que mais fala de alegria no saltério é também um salmo em que uma parte do vocabulário foi deliberadamente suprimida. Davi tem prazer em nomear os santos e se recusa a nomear os ídolos.
A verdade bíblica é direta: multiplicar altares e ídolos é apenas multiplicar as próprias dores e frustrações.2 O hebraico ajuda a entender por quê: o verbo do versículo 4 diz que as dores se multiplicarão. O crescimento está do lado errado.
Versículos 5 e 6: a herança de quem não recebeu terra
Porção, cálice e sorte
Três palavras se acumulam no versículo 5, e todas as três vêm do vocabulário da partilha da terra: menat (porção), cheleq (quinhão) e goral (a sorte, isto é, o lote tirado por sorteio).
Esse é o léxico de Josué 13 a 21, quando cada tribo recebeu seu território. Só que Davi não está falando de terra. Ele está dizendo que, na hora da divisão, o que lhe coube foi o próprio SENHOR.
A força da imagem remete diretamente aos levitas: eles não receberam lote de terra na partilha territorial porque o próprio SENHOR era a sua porção e sustento.2 Davi, que era rei e tinha terra de sobra, escolhe se descrever como levita.
E o comentário dele sobre a inversão que isso propõe é direto: “Possuir grande riqueza e não ter o Senhor é, na verdade, a mais absoluta pobreza”.3
As linhas caem em lugares agradáveis
O versículo 6 continua na mesma metáfora. Chavalim são as cordas de medição usadas para demarcar um lote, e as divisas marcadas por elas eram protegidas por lei: mover marco de propriedade era crime em Israel (Dt 19:14 ACF).
Davi diz que as cordas caíram para ele em lugares ne’imim — agradáveis, aprazíveis. Guarde essa palavra: ela volta no último versículo do salmo, e a repetição é deliberada.
O adjetivo na’im ocorre onze vezes no Antigo Testamento. Duas delas estão aqui, no Salmo 16, e são justamente a primeira e a última descrição que Davi faz do que recebeu.
Versículos 7 e 8: conselho de noite, direita de dia
“Até os meus rins me ensinam”
A ACF e a BKJ traduzem literalmente uma expressão que quase todas as outras versões suavizam. O hebraico diz kilyotai, rins — o órgão que, na antropologia do Antigo Testamento, representava o que há de mais interior e menos acessível na pessoa.
Infelizmente, o custo aparece na leitura: ARA, ARC, NAA, NVI e NVT trocam por “coração”, solução compreensível para o leitor de hoje, e a distinção se perde. O hebraico já tem uma palavra para coração, e ela aparece no versículo 9, não no 7.
O verbo também merece atenção. Yasar carrega, junto com o ensino, a ideia de correção e de disciplina. A instrução noturna descreve a consciência moldada pela Palavra e pelas lições que Deus ensina no silêncio da noite.3
O plural do hebraico é “noites”, não “noite”. Ou seja, Davi descreve um hábito, e não uma vigília isolada.
“Nunca vacilarei” — o verbo que liga o Salmo 15 ao 16
O versículo 8 fecha a primeira metade com uma promessa: bal emmot. O verbo é mot, cambalear, ser sacudido.
É o mesmo verbo com que termina o salmo anterior: “Quem faz isto nunca será abalado” (Sl 15:5 ACF). A ACF traduz de dois modos diferentes nos dois lugares, mas no hebraico é a mesma raiz, e a ligação é intencional.
A diferença está em quem garante a firmeza. No Salmo 15, ela vem do comportamento descrito ao longo do salmo. No Salmo 16, ela vem de uma posição: o SENHOR está à direita de Davi.
Na cultura hebraica, a direita é o posto do defensor e fiador — quem se coloca ao lado para garantir a causa do justo.3 A imagem vem do tribunal, antes de vir do aconchego.
Versículos 9 e 10: o texto que Pedro citou em Pentecostes
Corpo que repousa seguro
O versículo 9 tem três sujeitos em escada: o coração se alegra, a glória se regozija, a carne repousa segura. A alegria começa no interior e desce até o corpo.
A expressão final é lavetach, “em segurança”. Ou seja, a fórmula exata das promessas da aliança sobre habitar a terra sem medo, em Levítico 25:19 e 26:5 (ACF).
Isso muda o peso da frase. Davi pega o vocabulário com que Deus prometeu a Israel morar tranquilo na terra e o aplica ao seu próprio corpo deitado no túmulo. A promessa de segurança alcança um lugar onde ninguém a esperava.
“Minha glória” ou “minha língua”?
Aqui aparece a divergência mais curiosa do salmo, e ela se dá entre o hebraico e o grego, antes de chegar às versões portuguesas.
O hebraico do versículo 9 diz kevodi, “minha glória” — seguido pela ACF, pela ARC e pela BKJ. A ARA e a NAA leem “meu espírito”; a NVI, “no íntimo”.
Mas quando Pedro cita esse versículo em Pentecostes, o texto que sai é outro: “Por isso se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou” (At 2:26 ACF). Língua, não glória.
A explicação é simples: Pedro cita a tradução grega em uso, que leu ali a palavra para língua. O sentido não muda muito — o que exulta é aquilo que em mim expressa —, mas o detalhe explica por que a frase de Atos não bate com a do Salmo na sua Bíblia.
Sheol, cova e corrupção
O versículo 10 tem dois substantivos, e cada um deles gerou uma família de traduções.
O primeiro é sheol, que ocorre cinquenta e três vezes no Antigo Testamento e designa o mundo dos mortos, o lugar para onde todos descem. A ACF, a ARC e a BKJ traduzem por “inferno”; a ARA e a NAA, por “morte”; a NVT, “entre os mortos”.
O segundo é shachat, cova, fossa. A ACF, a ARA, a ARC, a BKJ e a NAA trazem “corrupção”, que é a leitura da tradução grega, seguida por Pedro (At 2:27 ACF) e por Paulo (At 13:35 ACF). A NVT explicita a mesma ideia com “apodreça no túmulo”.
A palavra traduzida por “o teu Santo” é chasid, o fiel, aquele que é objeto e sujeito da lealdade da aliança. Ela aparece vinte e cinco vezes no Antigo Testamento, dezoito delas nos Salmos: é vocabulário do saltério.
O alcance profético da frase ultrapassa Davi: a esperança de que o corpo não veria a corrupção apontava diretamente para a ressurreição de Cristo (At 2:31).3 O argumento de Pedro em Atos 2:29-31 (ACF) é exatamente esse — o túmulo de Davi estava ali, à vista de todos, e o corpo dele havia se decomposto.
Paulo faz o mesmo raciocínio em Antioquia da Pisídia, e o resume numa frase que separa os dois: Davi viu corrupção; aquele a quem Deus ressuscitou não viu (At 13:36-37 ACF).
Versículo 11: a palavra que fecha o círculo
O último versículo tem três afirmações e uma delas passa despercebida em português.
A primeira: orach chayim, a vereda da vida. É uma trilha, algo que se percorre, antes de ser um conceito de vida eterna.
A segunda: sova semachot, “fartura de alegrias”. E aqui está o achado. A palavra sova ocorre sete vezes no Antigo Testamento, e nas outras seis ela sempre descreve comida: o pão do Egito que se comia até fartar, a terra que dá fruto para comer a fartar, Rute que se sacia, o justo de Provérbios que come até ficar satisfeito.
Uma única vez em toda a Bíblia Hebraica essa saciedade é aplicada a outra coisa que não alimento. É aqui, e o que sacia é a presença de Deus.
A terceira: ne’imot binminkha netzach, delícias à tua direita para sempre. É o mesmo adjetivo do versículo 6, quando Davi olhou para o lote de terra que lhe coubera e o chamou de agradável.
O salmo, portanto, fecha um círculo. No versículo 6, o que é agradável é a herança que Davi recebeu nesta vida. No versículo 11, o que é agradável é o que está à direita de Deus, e não acaba. É a mesma palavra descrevendo as duas coisas, e a segunda é a versão sem prazo da primeira.
O vocabulário hebraico do salmo
As formas abaixo são as do texto hebraico etiquetado, com a tradução da ACF ao lado.
| Versículo | Hebraico | Sentido | Observação |
|---|---|---|---|
| 16:1 | El | Deus | Forma curta e antiga do nome; o nome pessoal do SENHOR só entra no versículo 2 |
| 16:1 | chasah | refugiar-se | Descreve correr para dentro de um abrigo, não pedir socorro de longe |
| 16:2, 4, 8 | bal | não | Negativa poética; quatro ocorrências no salmo, mais que em qualquer outro do saltério exceto o Salmo 10 |
| 16:3 | addirim | nobres, notáveis | Aplicado aos fiéis comuns, não à corte |
| 16:5 | cheleq, goral | quinhão, sorte | Vocabulário da partilha da terra em Josué 13 a 21 |
| 16:6 | chavalim | cordas de medição | As linhas que demarcavam o lote; mover a divisa era proibido |
| 16:6 e 16:11 | na’im | agradável | Onze ocorrências no Antigo Testamento, duas delas neste salmo |
| 16:7 | kilyot | rins | O interior menos acessível da pessoa; só ACF e BKJ mantêm o literal |
| 16:8 | mot | cambalear | Mesmo verbo do fecho do Salmo 15 |
| 16:9 | lavetach | em segurança | Forma idêntica à das promessas de habitar a terra em Levítico 25:19 e 26:5 |
| 16:10 | sheol, shachat | mundo dos mortos, cova | Origem das traduções “inferno”, “morte”, “sepulcro” e “corrupção” |
| 16:11 | sova | fartura | Sete ocorrências no Antigo Testamento; nas outras seis, sempre de comida |
Onde as sete versões discordam
Três pontos do salmo separam as traduções com clareza. Nos demais versículos, as diferenças são de estilo.
| Versão | 16:2 — a bondade | 16:7 — o que ensina | 16:10 — o destino |
|---|---|---|---|
| ACF | a minha bondade não chega à tua presença | os meus rins | no inferno |
| ARA | outro bem não possuo, senão a ti somente | o meu coração | na morte |
| ARC | não tenho outro bem além de ti | o meu coração | no inferno |
| BKJ | minha bondade não se estende a ti | meus rins | no inferno |
| NAA | outro bem não possuo, senão a ti somente | o meu coração | na morte |
| NVI | não tenho bem nenhum além de ti | o meu coração | — |
| NVT | tudo que tenho de bom vem de ti | meu coração | entre os mortos |
A divisão do versículo 2 não segue a fronteira habitual entre tradução literal e dinâmica: a ARC, que é literal, adota a mesma leitura da NVI. Já no versículo 7 a fronteira é limpa, com ACF e BKJ de um lado e as cinco restantes do outro.
O que o Salmo 16 ensina
1. A ordem do salmo é a lição do salmo
Davi não começa pela ressurreição. Ele começa por um pedido de guarda, passa pela confissão de que nada de bom lhe pertence por mérito, escolhe companhia, faz a conta da herança e só então olha para o túmulo.
Vale reparar no que isso implica na prática: a confiança do versículo 10 é ponto de chegada de uma vida que já vinha sendo vivida daquele jeito.
Hoje, quem tenta pular direto para o versículo 10 costuma descobrir que a frase não sustenta o peso. Ela sustenta em Davi porque os nove versículos anteriores existem.
2. A herança é uma pessoa, e isso tem consequência econômica
Quando Davi diz que o SENHOR é a sua porção e o seu cálice, ele está usando o vocabulário de uma tribo específica: a que não recebeu terra.
O rei mais rico da história de Israel se descreve com a linguagem do levita, que vivia do santuário. Repare que a escolha é deliberada, e diz o que ele considera propriedade de verdade.
Vale ler a frase como convite a refazer a conta: se tudo o que se tem for retirado, sobra herança, ou sobra saudade dela?
3. Uma parte da instrução de Deus chega de noite
O versículo 7 põe no plural o que costumamos imaginar no singular: foram noites de aprendizado, e o verbo carrega correção junto com ensino.
Afinal, há um tipo de compreensão que não chega no culto nem na leitura, e sim na cama, quando não há mais o que administrar e o que estava enterrado sobe. Davi chama isso de conselho de Deus, e agradece por ele.
4. A alegria do salmo repousa sobre um fato
Davi está alegre porque o SENHOR está à direita dele, e a direita é posição de defensor. A alegria vem de um fato sobre onde Deus se colocou, não de uma disposição interna que ele precise renovar todo dia.
Isso é diferente de otimismo. Um otimista precisa manter a leitura positiva funcionando. Basta a Davi que Deus continue onde está.
5. O que é agradável aqui é amostra do que é agradável lá
O mesmo adjetivo descreve o lote de terra do versículo 6 e o que está à direita de Deus no versículo 11. Davi não despreza a herança presente para valorizar a futura: ele usa a primeira para explicar a segunda.
E a palavra da fartura do versículo 11 é a palavra da mesa cheia. A eternidade de que ele fala tem a densidade da saciedade que se conhece comendo, aplicada a estar diante de Deus.
O centro da esperança eterna é a própria presença de Deus: a glória da eternidade está em quem nos recebe, e não apenas no cenário celestial.4
Esboço de pregação sobre o Salmo 16
Tema
Quem tem o SENHOR por herança encara o próprio túmulo sem perder a alegria.
1. A herança recebida (Sl 16:1-6 ACF)
Do pedido de guarda até a conta do lote. Mostrar que Davi confessa dependência antes de confessar alegria, e que a companhia que ele escolhe (v. 3) e a que ele recusa (v. 4) entram na conta da herança, e não como detalhe biográfico.
Ponto de apoio: o vocabulário de Josué 13 a 21 no versículo 5, e o rei que se descreve como levita.
2. A instrução recebida (Sl 16:7-8 ACF)
As noites de conselho e a direita de Deus. Aqui cabe a ligação com o fecho do Salmo 15: a mesma promessa de não cambalear, agora ancorada em outro lugar.
3. A esperança recebida (Sl 16:9-11 ACF)
O corpo que repousa seguro, o Santo que não vê corrupção e a vereda da vida. Trazer Atos 2:29-31 e Atos 13:36-37 (ACF), onde Pedro e Paulo usam o versículo 10 para o mesmo fim.
Aplicação final sugerida
Terminar no versículo 11, mostrando que a palavra “agradável” é a mesma do versículo 6. O que a pessoa recebeu nesta vida é amostra, e não substituto, do que a espera. E você, em qual das duas está apostando a conta?
Perguntas frequentes sobre o Salmo 16
Qual é o resumo do Salmo 16?
Davi declara que Deus é a sua única herança e conclui que, por isso, nem a morte o assusta. O salmo vai do pedido de guarda no primeiro versículo à alegria sem prazo do último, passando pela escolha de companhia, pela conta do que recebeu e pela instrução que Deus lhe dá durante as noites.
Onde está o Salmo 16 na Bíblia?
No livro dos Salmos, entre o Salmo 15 e o Salmo 17, dentro do primeiro dos cinco livros do saltério, que vai do Salmo 1 ao 41. Nas edições em hebraico a contagem difere: ali o título conta como primeiro versículo, e o capítulo tem doze versículos em vez de onze.
O que significa “Miktam” no título do Salmo 16?
Não há consenso. As leituras propostas incluem algo gravado em ouro, algo que cobre ou protege, tesouro guardado e poema de dizeres incisivos. O termo aparece no cabeçalho de seis salmos: este e os Salmos 56 a 60. O que os seis têm em comum é o fecho em tom de vitória.
Por que Pedro cita o Salmo 16 no dia de Pentecostes?
Porque o versículo 10 promete que o Santo de Deus não veria corrupção, e Pedro argumenta que isso não se cumpriu em Davi. O túmulo de Davi estava em Jerusalém e o corpo dele havia se decomposto, de modo que a promessa apontava para outro (At 2:29-31 ACF). Paulo usa o mesmo texto no sermão de Antioquia da Pisídia (At 13:35-37 ACF).
O Salmo 16:10 fala do inferno?
A palavra hebraica é sheol, que designa o mundo dos mortos, o lugar para onde todos descem, e não o lugar de castigo eterno da linguagem teológica posterior. Daí a variação entre as traduções: onde a tradição de Almeida corrigida escreve “inferno”, outras edições preferem “morte” ou “entre os mortos”. O que o versículo afirma é que Deus não abandona o seu fiel ao poder da morte.
Por que algumas Bíblias dizem “rins” e outras “coração” no Salmo 16:7?
Porque o hebraico traz kilyot, rins, mantido pela ACF e pela BKJ. Na antropologia do Antigo Testamento, os rins representam a parte mais interior e menos acessível da pessoa. ARA, ARC, NAA, NVI e NVT traduzem por “coração” para preservar o sentido em português, ao custo de perder a distinção que o hebraico faz entre os dois termos.
O que quer dizer “as linhas caem-me em lugares deliciosos”?
É a imagem das cordas usadas para medir e demarcar um lote de terra. Depois da conquista, cada família recebia sua parte e as divisas eram protegidas por lei. Davi diz que, na divisão que lhe coube, o terreno saiu em lugar bom. O adjetivo que ele usa reaparece no versículo 11, aplicado ao que está à direita de Deus.
Quem escreveu o Salmo 16 e em que ocasião?
O título atribui o salmo a Davi e nada informa sobre a circunstância em que foi composto. Uma datação plausível aponta para o período logo após a promessa dinástica de 2 Samuel 7, pela profunda afinidade com a oração de Davi no tabernáculo.
Fontes
Texto bíblico: Almeida Corrigida Fiel (ACF), com as demais versões identificadas quando citadas. As formas hebraicas e gregas e os dados morfológicos referem-se ao texto etiquetado do STEPBible (TAHOT e TAGNT, CC BY 4.0). Veja também a explicação do Salmo 11 (outro salmo de refúgio de Davi), o estudo do Salmo 23:1 e a coleção de versículos explicados.
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, volume III. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 116.
- Ibid., p. 117.
- Ibid., p. 118.
- Ibid., p. 119.