↑ Este artigo faz parte da coleção Personagens Bíblicos — quem foram e o que ainda ensinam à igreja de hoje.
Naamã foi o comandante do exército da Síria, um general vitorioso e respeitado que era leproso. A Bíblia o apresenta com um contraste dentro do mesmo versículo: “era este homem herói valoroso, porém leproso” (2Rs 5:1 ACF).
Ele foi curado depois de mergulhar sete vezes no rio Jordão, por ordem do profeta Eliseu — uma ordem que quase recusou por achá-la humilhante demais (2Rs 5:14 ACF). A história está inteira em 2 Reis 5, e Jesus a citou séculos depois para dizer que, entre tantos leprosos de Israel, o único purificado foi um estrangeiro (Lc 4:27 ACF).
Neste Artigo:
- 1. Quem Foi Naamã na Bíblia
- 2. Que Doença Era a Lepra de Naamã
- 3. A Menina Cativa que Começou Tudo
- 4. Por que Naamã Se Indignou com Eliseu
- 5. Por que Sete Vezes no Jordão
- 6. A Confissão e o Pedido da Carga de Terra
- 7. Geazi: o Que Custou a Ganância
- 8. Esboço de Pregação sobre Naamã
- 9. Perguntas Frequentes
Quem Foi Naamã na Bíblia
Naamã era capitão do exército do rei da Síria, provavelmente sob Ben-Hadade, e o texto diz que foi por meio dele que o Senhor “dera livramento aos sírios” (2Rs 5:1 ACF). Repare no que essa frase afirma: as vitórias de um general pagão sobre os vizinhos de Israel são creditadas ao Deus de Israel.
Ele tinha posição, prestígio militar e a confiança do rei. Tinha também uma doença que nenhum dos três resolvia.
A cena acontece no tempo do profeta Eliseu, sucessor de Elias, num período de hostilidade intermitente entre Síria e Israel — o mesmo capítulo que registra a cura registra também bandos sírios fazendo incursões em território israelita (2Rs 5:2 ACF).
Que Doença Era a Lepra de Naamã
A palavra traduzida por “lepra” no Antigo Testamento cobre um conjunto de afecções de pele, e não corresponde exatamente ao que a medicina hoje chama de hanseníase. O que o texto deixa claro é o efeito social: a impureza ritual e o isolamento, tratados em detalhe em Levítico 13.
Vale reparar numa diferença que a narrativa não esconde. Naamã continuava comandando o exército e falando com o rei — ou seja, na Síria a doença não o excluía como excluiria em Israel. O que o levou a Samaria não foi a exclusão; foi a doença mesma, que ia avançando.
A Menina Cativa que Começou Tudo

Toda a história começa com a personagem mais frágil da cena: uma menina israelita levada cativa numa incursão síria, que servia à mulher de Naamã. É ela quem diz: “Antes o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria; ele o restauraria da sua lepra” (2Rs 5:3 ACF).
Ela tinha todo motivo para calar. Era escrava, tinha sido arrancada de casa por gente daquela mesma casa, e o benefício da informação seria inteiro do seu dono. Falou assim mesmo.
Wiersbe observa que Deus pode pegar as palavras dos lábios de uma criança e levá-las aos ouvidos do rei1 — e foi exatamente esse o percurso: da menina para a patroa, da patroa para o general, do general para o rei da Síria, e do rei da Síria para o rei de Israel.
Por que Naamã Se Indignou com Eliseu

Naamã chegou à casa do profeta com cavalos, carros e um presente enorme. Walton calcula que a soma levada equivalia ao resgate de um rei: dez talentos de prata são cerca de trezentos e cinquenta quilos de metal, além de seis mil siclos de ouro2.
Eliseu não saiu de casa. Mandou um recado pelo mensageiro: “Vai, e lava-te sete vezes no Jordão” (2Rs 5:10 ACF).
A reação está registrada com a expectativa dele por escrito: “Eis que eu dizia comigo: Certamente ele sairá, pôr-se-á em pé, invocará o nome do Senhor seu Deus, e passará a sua mão sobre o lugar” (2Rs 5:11 ACF). E veio a comparação dos rios: “Não são porventura Abana e Farpar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel?” (2Rs 5:12 ACF).
Ou seja, a indignação tem duas camadas. Uma é o método — água barrenta em vez de gesto solene. A outra é o tratamento: o profeta não o recebeu pessoalmente, e um homem daquela patente esperava ser recebido.
Quem desfaz o nó são os servos, com um argumento simples: se o profeta tivesse mandado fazer alguma grande coisa, ele faria; quanto mais uma coisa pequena (2Rs 5:13 ACF). Note quem fala de novo — subordinados, como a menina no começo.
Por que Sete Vezes no Jordão
A Bíblia não explica o número. O que dá para dizer com o texto na mão é o efeito: sete mergulhos obrigam a obediência a durar. Nos seis primeiros nada acontece, e a cura só vem no último — “a sua carne tornou-se como a carne de um menino” (2Rs 5:14 ACF).
Sete é, no Antigo Testamento, o número associado ao que é completo, e aparece com frequência em ritos de purificação (Lv 14:7 ACF). Mas quem afirma qual era a intenção exata de Eliseu está acrescentando ao texto — a narrativa registra a ordem e o resultado, não o motivo.
E o Jordão não é escolhido por qualidade. Ele é, de fato, um rio inferior aos de Damasco; é exatamente esse o ponto da ordem.
A Confissão e o Pedido da Carga de Terra
Curado, Naamã volta e faz uma declaração que vai além da gratidão: “Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel” (2Rs 5:15 ACF). Eliseu recusa qualquer presente.
Então vem o pedido estranho: uma carga de terra que baste para duas mulas, porque dali em diante ele não ofereceria sacrifício a outros deuses (2Rs 5:17 ACF). Wiersbe explica o pano de fundo — acreditava-se que os deuses de uma nação habitavam naquela terra, e quem saísse dela deixava o deus para trás3.
O detalhe seguinte é ainda mais franco: Naamã antecipa que terá de acompanhar o rei à casa de Rimom e curvar-se ali, e pede perdão por isso desde já (2Rs 5:18 ACF). Eliseu responde apenas “Vai em paz”.
Afinal, é uma fé recém-nascida, com teologia incompleta e um problema prático ainda sem solução. O profeta não exige que ela nasça pronta.
Geazi: o Que Custou a Ganância
O capítulo não termina na cura. Geazi, servo de Eliseu, acha que o mestre foi brando demais e corre atrás da comitiva para pedir o que fora recusado (2Rs 5:20 ACF). Mente sobre hóspedes recém-chegados, recebe prata e roupas, esconde tudo e volta como se nada fosse.
A sentença de Eliseu é a inversão exata da cena anterior: “a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência”, e Geazi sai “branco como a neve” (2Rs 5:27 ACF).
Repare no desenho do capítulo. O estrangeiro entra leproso e sai limpo; o servo do profeta entra limpo e sai leproso. O que separa os dois não é nacionalidade nem proximidade do ministério — é o que cada um fez com a graça que viu de perto.
Esboço de Pregação sobre Naamã
Um roteiro em três pontos, seguindo a ordem do capítulo. Serve para mensagem, estudo de célula ou aula de EBD.
Tema: a cura passa por onde o orgulho não quer passar. Texto: 2 Reis 5 (versículo-chave: 5:14).
- O “porém” que ninguém vê no currículo (v. 1-5) — o versículo de apresentação enfileira títulos e termina em “porém leproso” (2Rs 5:1 ACF). Aplicação: sempre há um “porém” que a posição não resolve, e a primeira honestidade do evangelho é dar nome a ele;
- A ordem pequena que fere o orgulho (v. 9-13) — Naamã tinha o roteiro pronto na cabeça e se indignou quando Deus usou outro; foram os servos que o convenceram a fazer a coisa pequena. Aplicação: quase sempre resistimos menos ao custo e mais ao formato — obedecer sem plateia e sem cerimônia é o que dói;
- A obediência que só vale completa (v. 14-15) — seis mergulhos não curaram ninguém. A carne renovada aparece no sétimo, e a confissão de fé vem depois da obediência, não antes. Aplicação: fé que para na metade do caminho não é meia cura, é nenhuma.
Conclusão sugerida: vale fechar com o contraste do próprio capítulo — o sírio que vai embora limpo e o servo do profeta que fica leproso (2Rs 5:27 ACF) — e com a frase de Jesus em Lucas 4:27, dita numa sinagoga, sobre o único leproso purificado no tempo de Eliseu ter sido um estrangeiro.
Perguntas Frequentes sobre Naamã
Quem foi Naamã na Bíblia?
Foi o comandante do exército da Síria no tempo do profeta Eliseu, descrito como homem valoroso e de muito respeito diante do seu rei, e leproso (2Rs 5:1 ACF). Ficou conhecido por ter sido curado ao mergulhar sete vezes no rio Jordão.
Quantas vezes Naamã mergulhou no Jordão?
Sete vezes, conforme a ordem de Eliseu (2Rs 5:10 ACF). A cura veio no sétimo mergulho, e não antes: o texto registra que a sua carne tornou-se como a de um menino (2Rs 5:14 ACF).
Por que Naamã ficou irritado com Eliseu?
Por duas razões. O profeta não saiu de casa para recebê-lo, mandou o recado por um mensageiro, e a ordem lhe pareceu indigna — ele esperava um gesto solene e considerava os rios de Damasco melhores que o Jordão (2Rs 5:11-12 ACF).
Naamã se converteu ao Deus de Israel?
Ele fez uma confissão explícita: em toda a terra não há Deus senão em Israel (2Rs 5:15 ACF), e declarou que não ofereceria mais sacrifício a outros deuses (2Rs 5:17 ACF). A Bíblia não conta o que aconteceu com ele depois disso.
Por que Naamã pediu terra de Israel?
Porque naquele tempo se acreditava que o deus de uma nação estava ligado ao território dela. Levar duas cargas de terra era o modo dele de adorar o Senhor em solo sírio (2Rs 5:17 ACF) — fé sincera com teologia ainda incompleta.
O que aconteceu com Geazi?
Ele correu atrás de Naamã, mentiu e recebeu o presente que Eliseu havia recusado. Eliseu o confrontou, e a lepra de Naamã passou para ele e para a sua descendência (2Rs 5:27 ACF).
Onde está a história de Naamã na Bíblia?
Em 2 Reis 5, do primeiro ao último versículo. Jesus faz referência a ela em Lucas 4:27, ao lembrar que muitos leprosos havia em Israel no tempo de Eliseu e nenhum foi purificado, senão Naamã, o siro.
Conclusão
A história de Naamã é curta e mexe com três coisas ao mesmo tempo: um general que precisa aceitar uma ordem humilhante, uma escrava que fala quando podia calar, e um servo de profeta que troca tudo por prata e roupas.
O que o capítulo não faz é dar crédito a quem a lógica daria. A cura não veio pelo dinheiro que ele trouxe, nem pela carta do rei, nem pelo mérito militar — veio por uma palavra dita por quem não tinha nada, obedecida por quem tinha tudo.
Fontes
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. II — Histórico. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 509.
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 403.
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. II — Histórico. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 511.