Unção com Óleo – Uma Análise Bíblica

A unção com óleo na Bíblia é o ato de derramar azeite sobre alguém ou algo para separá-lo a um propósito de Deus. O Novo Testamento a prescreve num caso específico: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor” (Tg 5:14 ACF).

Você já parou para pensar no que realmente significa ungir algo ou alguém com óleo?

No contexto protestante, especialmente nas denominações pentecostais e neopentecostais, essa prática ganhou um destaque impressionante.

Hoje, vemos o azeite de oliva sendo usado para ungir casas, carros, pessoas, ministros, locais, cidades, roupas, enfermos, animais – e basicamente tudo o que pode ser considerado abençoado e protegido por Deus.

Mas aqui está a questão que não podemos ignorar: o que a Bíblia Sagrada realmente afirma sobre o uso do azeite de oliva?

Em que situações o Antigo e o Novo Testamento apontam a unção com óleo?

Para não corrermos o risco de sair por aí ungindo tudo e todos sem fundamento, é essencial conhecermos o que as Escrituras ensinam sobre esse assunto.

Precisamos deixar de lado o misticismo exagerado em torno do azeite da unção, pois, para muitos, parece que esse azeite é mais eficaz do que a autoridade no nome de Jesus.

O Azeite

Na antiguidade, o azeite era produzido de diversas maneiras: extraído de animais como peixes e, principalmente, das oliveiras.

No caso das oliveiras, o processo era simples: as azeitonas eram prensadas com as mãos, com os pés ou esmagadas em um moinho.

Quem prensasse as azeitonas deveria ter o cuidado de não esmagar o caroço junto, pois isso deixaria o óleo com um sabor amargo. Imagina só: uma única oliveira poderia produzir cerca de 60 litros de óleo por ano!

O azeite de oliva era utilizado principalmente como alimento, sendo misturado com a farinha de trigo para a fabricação de pães e bolos.

Também servia como cosmético para ungir os cabelos e o rosto. Os mortos eram ungidos com azeite nos ritos fúnebres como preparo para o sepultamento.

Os doentes esfregavam o azeite no corpo e sobre os ferimentos, pois acreditavam em suas propriedades terapêuticas. Além disso, o azeite era usado como combustível para lâmpadas, candelabros e candeeiros.

Sendo assim, os principais usos do azeite de oliva eram: alimento, cosmético, sobre os mortos, sobre os enfermos, combustível e religioso. Além da unção física, a Bíblia Sagrada também aponta o óleo como um dos símbolos do Espírito Santo.

Não que alguém precise ser ungido com azeite para receber o Espírito Santo, mas quando Ele vem sobre alguém, é de forma semelhante ao óleo derramado sobre os sacerdotes, reis e profetas no Antigo Testamento.

O Uso do Azeite no Antigo Testamento

No Antigo Testamento, o azeite de oliva era usado como alimento, cosmético, sobre os enfermos, como combustível para as lâmpadas e, principalmente, para fins religiosos.

No uso religioso, encontramos a primeira menção quando “Jacó levantou uma coluna de pedra no lugar onde Deus lhe falara” (Gn 35:14, NVI). Jacó fez uso do azeite juntamente com as ofertas dedicadas ao Senhor sobre o altar que havia construído.

Mais tarde, durante a peregrinação no deserto, Deus instruiu Moisés quanto ao local, aos utensílios e às pessoas envolvidas no culto.

Nesse contexto, o azeite deveria ser usado na iluminação do tabernáculo (Êx 25:6), no candelabro (Êx 27:20,21), na consagração dos sacerdotes (Êx 29:7) e na consagração dos utensílios do tabernáculo.

Na consagração dos sacerdotes e dos utensílios, eram utilizados outros elementos junto com o Azeite de Oliva: Mirra Líquida, Canela, Cana Aromática e Cássia (Êx 30:22-24).

Essa mistura era chamada de Óleo da Unção ou santo óleo (Nm 35:25, NVI). Dessa forma, o óleo da unção consistia em: Azeite de Oliva, Mirra Líquida, Canela, Cana Aromática e Cássia.

Vale reparar no preço disso. As especiarias da receita eram todas importadas — mirra do sul da Arábia, canela da Índia ou do Sri Lanka, cana aromática de terras ainda mais distantes —, chegavam por caravana ou por via marítima e eram caríssimas. A mistura era preparada por um perfumista profissional, e a fórmula ficava reservada ao santuário e aos que nele serviam1.

Tanto que o próprio texto fecha a porta: ninguém podia derramar aquele óleo sobre um homem comum nem reproduzir a composição, sob pena de ser eliminado do meio do povo (Êx 30:32,33). Ou seja: no Antigo Testamento a unção com óleo não era um recurso à mão de qualquer um — era um ato restrito, caro e delimitado pelo próprio Deus.

Além dos sacerdotes, o Antigo Testamento nos informa que os reis eram ungidos com óleo, como no caso de Saul (1Sm 10:1) e Davi (1Sm 16:13). Ungir o rei, aliás, era prática conhecida no antigo Oriente Próximo: entre egípcios e hititas, acreditava-se que a unção protegia a pessoa dos poderes das divindades do mundo inferior2. Israel repete o gesto com outro sentido — ali o óleo não protege de nada: ele marca a escolha do Senhor, anunciada pelo profeta. Os profetas também recebiam essa unção, como Eliseu, que foi ungido por Elias (1Rs 19:16).

Algumas traduções ainda afirmam que os escudos dos guerreiros eram ungidos com azeite (2Sm 1:21). Resumindo: Além do tabernáculo e seus utensílios, profetas, reis e sacerdotes eram ungidos com o azeite.

O Uso do Azeite no Novo Testamento

O Novo Testamento nos conta que os doze discípulos, quando foram enviados por Jesus para anunciar o Reino de Deus, “saíram e pregaram ao povo que se arrependesse. Expulsavam muitos demônios e ungiam muitos doentes com óleo, e os curavam” (Mc 6:12,13, NVI).

Na Parábola do Bom Samaritano, Jesus afirma que o samaritano aplicou “vinho e óleo” (Lc 10:34, NVI) sobre os ferimentos do homem que foi atacado pelos salteadores.

A unção com óleo ainda é mencionada na Epístola de Tiago:

“Entre vocês há alguém que esteja doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja, para que estes orem sobre ele e o unjam com óleo, em nome do Senhor. A oração da fé curará o doente; o Senhor o levantará. E se houver cometido pecados, ele será perdoado”
Tg 5.14,15 NVI

Aqui está o ponto central: nesse texto de Tiago, o contexto é a oração. Não é o óleo que cura o doente, mas “a oração feita com fé”.

O texto ainda afirma “em nome do Senhor”, deixando claro que a oração da fé em nome do Senhor Jesus Cristo é o elemento central da cura.

O grego decide a questão. O verbo que Tiago usa em 5.14 é aleiphō, “emplastrar” – o termo comum para a unção medicinal –, e não chriō, o da unção sacramental. Warren Wiersbe é direto nesse ponto: “A cura não se dá pela unção, mas sim pela oração” — e observa que o termo traduzido por “ungindo-o” no versículo 14 é um termo médico, que pode ser traduzido por “massagear”3.

É por isso que os comentaristas leem tanto o texto de Marcos quanto o de Tiago como cura pela fé e pela autoridade do nome de Jesus, com o óleo no papel de remédio, como no Antigo Testamento e no caso do Bom Samaritano.

Acrescentam ainda que as instruções de Jesus não apontam a unção com óleo sobre os enfermos, mas que seus seguidores deveriam usar da autoridade do seu nome – ou seja, curar em nome de Jesus.

Nesse contexto, não há informação no Novo Testamento de que alguém recebeu unção com óleo para ser separado a algum serviço no Reino de Deus – seja como pastor, presbítero, apóstolo ou diácono.

O que encontramos é apenas a imposição das mãos, como no caso dos diáconos em Atos dos Apóstolos (At 6:1-5), de Paulo e Barnabé (At 13:1-3) e de Timóteo (1Tm 4:14; 2Tm 1:6).

Utiliza-se a unção com óleo na separação de ministros com base no Antigo Testamento, da mesma forma que reis, profetas e sacerdotes eram ungidos.

Mas no Novo Testamento não encontramos referências bíblicas que reafirmem essa prática na separação de ministros.

Perguntas Frequentes sobre Unção com Óleo

O que a Bíblia Diz sobre a Unção com Óleo?

A Bíblia apresenta a unção com óleo em dois contextos principais:

(1) Antigo Testamento — uso ritual e religioso para consagrar sacerdotes (Êx 29:7), reis (Saul em 1 Sm 10:1, Davi em 1 Sm 16:13), profetas (Eliseu em 1 Rs 19:16) e utensílios do tabernáculo (Êx 30:22-24);

(2) Novo Testamento — uso medicinal (Bom Samaritano em Lc 10:34) e prática de oração pelos enfermos (Mc 6:13; Tg 5:14-15). O elemento central da cura no NT é a oração da fé “em nome do Senhor”, não o óleo em si.

Para que Servia a Unção com Óleo no Antigo Testamento?

No AT, a unção tinha quatro funções principais:

(1) Consagração religiosa — separar pessoas (sacerdotes, reis, profetas) e objetos (tabernáculo, utensílios) para o serviço de Deus;

(2) Uso medicinal — esfregado em ferimentos e doenças por suas propriedades terapêuticas;

(3) Cosmético — para hidratar pele e cabelo;

(4) Iluminação — combustível para lâmpadas e candelabros. A “unção” como ato religioso representava o derramamento do Espírito Santo sobre a pessoa ou objeto consagrado.

É Necessário Ungir com Óleo para Curar Enfermos?

Não. A ênfase bíblica está na oração da fé em nome de Jesus, não no óleo (Tg 5:14-15).

Marcos 6:13 menciona que os discípulos ungiram doentes com óleo, mas estudiosos apontam que o uso era mais medicinal/cultural da época do que ritual com poder em si.

A cura vem de Cristo, não do azeite. Usar óleo na oração pelos enfermos é prática válida e simbólica, mas não é requisito — o nome de Jesus e a fé são o que cura.

Conclusão

A prática da unção com óleo no Novo Testamento, embora presente em alguns relatos, parece estar mais associada a usos medicinais e culturais da época do que a uma prática ritual com poder curativo em si mesma.

A ênfase bíblica recai sobre a fé e a autoridade de Jesus Cristo como fonte de cura e libertação. A oração feita com fé em nome de Jesus é o elemento central na experiência de cura divina.

O uso do óleo, quando mencionado, pode ser visto como um símbolo ou um meio de ministrar cuidado aos enfermos, mas não como um requisito para a cura.

E mesmo que se faça uso da unção com óleo sobre os enfermos e na separação de ministros ao serviço do Reino de Deus, essa unção é secundária à oração da fé, à imposição das mãos e, principalmente, à autoridade no nome de Jesus.

E você?

O que pensa sobre o uso do azeite e a unção com óleo na igreja de hoje?

O que o Tabernáculo de Moisés revela sobre a sua caminhada com Deus?

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Fique na Paz!

Fontes

  1. WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Bíblico Atos: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003, p. 115.
  2. Ibid., p. 315.
  3. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento, vol. II. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 495.

1 comentário em “Unção com Óleo – Uma Análise Bíblica”

  1. Amém!
    Com entendimento e sabedoria, podemos ser sensíveis à voz do Espírito Santo e discernir qual é a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.

    Responder

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