O Verbo se Fez Carne – A Pré-existência e a Encarnação de Jesus

O texto do Evangelho de João afirma:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade”
Jo 1.14 ARC

Nesse chamado prólogo joanino, encontramos um dos relatos mais enfáticos sobre a divindade e preexistência de Jesus. Ali, está a poderosa afirmação de que o “Verbo se fez carne”.

É fascinante notar que a palavra traduzida como “Verbo” vem do termo grego Logos. Para os gregos, esse conceito significava a razão e a ordem que regem o universo. Já para os judeus, representava a própria Palavra criadora de Deus.

Isto é, o Logos — a Palavra de Deus pela qual Ele criou todas as coisas — assumiu a forma humana. Ele passou a apresentar sentimentos, emoções, vontade, razão, intelecto, espírito, alma e corpo, assim como qualquer outro ser humano.

Além disso, o texto acrescenta “vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai”. Isso aponta que João e os demais que conviveram com Jesus testemunharam de perto a realidade de Cristo vivendo como ser humano.

Tudo isso manifestou a graça de Deus em favor da humanidade de forma autêntica, mostrando-se “cheio de graça e verdade”.

Pense por um momento: Deus se fez humano!

O evangelista Billy Graham certa vez afirmou: “O maior acontecimento da história não foi o homem subir e pisar na Lua. Foi Deus descer e pisar na Terra.”

Esse é um dos maiores mistérios da fé cristã. Aquele que criou todas as coisas aceitou se condicionar a viver na limitação da criação. O criador do tempo limitou-se a viver em um espaço de apenas 33 anos.

Aquele que tem o poder sobre a vida e a morte abriu espaço em seu ser para suportar a própria morte. O Senhor da história do universo deixou sua posição divina para ser o ator da mais bela e significativa história humana.

Enfim, todo esse processo misterioso é chamado de encarnação. Ou seja, houve um dia em que Deus se tornou ser humano.

Um Caminho Cristológico

Antes de entrarmos na questão da encarnação, é muito importante observar o caminho percorrido por Cristo. Isso é necessário porque a encarnação não é o início da Sua história.

Isto é, antes de encarnar, a preexistência de Cristo e as predições de que Ele (o Messias) viria já eram realidades. Há um caminho muito bem planejado por Deus para trazer a Sua maior revelação à humanidade.

Isso exige que olhemos para esse plano por meio da Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo providenciaram, ao longo da história humana, a rota para restabelecer a comunhão de Deus com os homens.

A ruptura promovida pelo pecado de Adão seria removida. Assim, a humanidade teria um caminho seguro para se achegar a Deus e render-lhe um culto verdadeiro.

Nesse olhar trinitário, Cristo já existia antes da sua encarnação. Ele já existia como Deus, estava presente em toda a criação e, como Palavra de Deus, por meio dEle todas as coisas passaram a existir (Jo 1.1-3).

Além disso, ao longo da história humana (e ressaltado no surgimento do povo judeu), vemos predições claras — profecias, símbolos, visões e tipos — apontando que o Messias surgiria.

Textos clássicos evidenciam essa precisão do plano divino. Isaías 7.14 anuncia o nascimento virginal (“Eis que a virgem conceberá”), e Miqueias 5.2 aponta para o nascimento do governante eterno em Belém.

Assim, antes de focar apenas na encarnação, é importante conhecer a preexistência de Cristo. Ao longo do Antigo Testamento, Deus já predizia que um dia o Verbo tomaria a forma humana.

A encarnação não foi um improviso, mas algo detalhadamente planejado desde a eternidade!

A Encarnação

A encarnação é um termo de origem latina, incarnare, que quer dizer “fazer-se carne”. Embora seja um termo teológico que não aparece literalmente na Bíblia Sagrada, e muito utilizado no cristianismo, a expressão não é exclusiva dele.

Credos como o budismo e o hinduísmo afirmam a encarnação, mesmo apresentando conceitos totalmente diferentes do pensamento cristão. Até mesmo o espiritismo reencarnacionista possui o seu próprio conceito sobre a encarnação.

No cristianismo, no entanto, a encarnação diz respeito unicamente ao Senhor Jesus Cristo. Nele, Cristo, já preexistente como Deus, é gerado pelo Pai no ventre de Maria por meio do Espírito Santo.

Por isso, precisamos olhar o ser de Deus de maneira trinitária para uma compreensão maior desse mistério. Essa dinâmica fica clara na visitação do anjo Gabriel a Maria. Diante do espanto natural dela, Gabriel responde:

“Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te encobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus”
Lc 1.35 ARC

Neste texto de Lucas, são nítidas as atuações do Espírito Santo, do Pai (Altíssimo) e do Filho (Jesus). É o Pai que, através do Espírito Santo, gera Jesus (o Cristo preexistente) no ventre de Maria. No fato da encarnação, não existe participação direta do ser humano.

Maria tornou-se a portadora do Ungido de Deus. Sobre essa condição de carregar o Messias no ventre (Deus feito homem), existe uma discussão histórica e teológica muito rica expressa no termo grego Theotokos.

Debatido no Concílio de Éfeso (431 d.C.), o termo significa “portadora de Deus” ou “mãe de Deus”.

Isso delineia as reflexões, muitas vezes divergentes entre católicos e protestantes, quanto ao papel exato de Maria: ela é plenamente a “mãe de Deus” ou simplesmente aquela escolhida graciosamente para ser a portadora de Jesus em sua encarnação?

O Mistério da Encarnação

A encarnação é uma realidade incontestável: o Cristo preexistente assumiu a natureza humana. Por mais que a sua formulação pareça simples, esse é um dos mistérios centrais da nossa fé.

Sim, a encarnação permanece um mistério insondável. Não porque carecemos de uma explicação empírica — afinal, a revelação de Deus nas Escrituras é pactual, redentiva e proposicional, não devendo ser medida por parâmetros científicos —, mas porque a união do Criador infinito com a criatura finita transcende a plena compreensão da mente humana.

A nossa certeza repousa firmemente na autoridade da revelação divina, que é a base de todo o conhecimento verdadeiro.

A glória desse mistério reside no encontro da natureza divina com a humana. Historicamente, a Igreja afirmou e defendeu essa união no Concílio de Calcedônia (451 d.C.).

Os pais da Igreja declararam que, na pessoa de Cristo, a natureza divina e a natureza humana coexistem em união hipostática: sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação.

Para compreendermos adequadamente a encarnação, precisamos lembrar que ela não ocorreu por subtração (o Verbo abrindo mão de algo), mas por adição (o Verbo assumindo algo que não tinha: a carne humana).

Quando Filipenses 2:7 afirma que Cristo “esvaziou-se a si mesmo” (kenósis), o próprio texto define a natureza desse esvaziamento: Ele o fez “tomando a forma de servo”.

O que foi temporariamente ocultado sob o véu da carne foi a manifestação visível e plena de Sua glória divina, não a Sua essência ou os Seus atributos.

Deus é imutável. A Sua divindade não é composta por partes ou “aspectos” que possam ser abandonados ou esvaziados, pois os próprios nomes de Deus mostram quem Ele é.

Do mesmo modo, o Filho nunca abriu mão de um “uso autônomo” de Seus atributos, simplesmente porque na Trindade não existe ação independente.

As obras da Trindade para com a criação são inseparáveis e indivisíveis. Cristo agiu e continua agindo em perfeita e eterna unidade com o Pai e o Espírito Santo.

Por fim, a magnitude da encarnação torna-se ainda mais evidente quando compreendemos que, mesmo encarnado como um bebê no ventre de Maria, a divindade do Filho jamais esteve confinada ou limitada à Sua natureza humana.

Enquanto Jesus viveu em perfeita dependência do Espírito Santo segundo a Sua humanidade, o Verbo infinito e onipresente continuava a sustentar todo o universo pela palavra do Seu poder (Hb 1:3).

Em Sua natureza divina, Ele sustentava a própria lenha da cruz na qual, em Sua natureza humana, entregou Sua vida para a nossa redenção.

Crer que o Deus infinito assumiu a nossa forma sem deixar de ser quem eternamente é, configura a mais bela e profunda das revelações concedidas ao homem!

Conclusão

Sim, Deus se fez humano. Aquele que sempre existiu, amplamente predito pelos profetas, tomou a forma humana. Isso fica mais evidente no evangelho do apóstolo João do que nos outros evangelhos.

Na encarnação, o divino e o humano se misturam. Há quem diga que Jesus é o rosto humano de Deus e, após a ressurreição, tornou-se o rosto divino do homem.

A encarnação é o passo mais amoroso e gracioso de Deus em direção a uma humanidade corrompida e escravizada pelo pecado.

Ao assumir nossa forma, Cristo não proveu apenas a salvação, mas aproximou-se de forma empática de cada uma das nossas dores. Como afirma brilhantemente o autor de Hebreus:

“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado”
Hb 4.15 ARC

É, portanto, o início da vida e da obra do Senhor Jesus Cristo diante do Pai e entre os homens, marcando para sempre o nosso reencontro definitivo com o Criador.

E você?

O que a encarnação de Jesus Cristo revela sobre a sua própria vida com Deus?

Fique na Paz!

Esse artigo foi adaptado do artigo original do nosso irmão Moisés Brasil. Você pode acompanhar o seu trabalho excepcional através do YouTube e Instagram.

Referências Bibliográficas e Bíblicas

  • Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Corrigida (ARC), Sociedade Bíblica do Brasil.
  • GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova.
  • CARSON, D. A. O Evangelho Segundo João. São Paulo: Vida Nova.
  • LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil.

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